Sobre
“Farmar Aura” e adultos que não tiveram infância
Por que
adultos – como o prefeito de Cuiabá, Abilio Brunini, que proibiu um campeonato
de “Farmar Aura” no Parque das Águas da cidade – que são aliados de pessoas que
acamparam na porta de quartéis, beberam detergente, rezaram para pneu,
invocaram alienígenas para salvar o país e acreditaram que Bolsonaro era um
mito enviado por Deus, estão chamando de “veadinhos”, retardados e débeis
mentais crianças e adolescentes que querem se divertir com tal brincadeira?
Não que
eu esteja aplaudindo a nova moda da molecada ou achando que seja algo
produtivo. Até porque, desde quando uma brincadeira de criança tem que ser
produtiva?
Quando
a minha geração brincava de pular carniça ou de corredor polonês, os mais
velhos daquela época também reprovavam e diziam que aquilo não nos daria
futuro.
Qual
futuro foi garantido para quem jogou bola de gude, soltou pipa, rodou pião,
jogou ioiô, brincou de estátua, pulou amarelinha, perdeu a cabeça do dedão do
pé batendo “golzinho” no asfalto (que nem eu, que tive que operar o dedão aos
10 anos de idade)?
Quantos
de nós ouvimos que isso não nos levaria a nada e éramos aconselhados a nos
afastar de colegas que só queriam ficar na rua brincando?
E desde
quando brincadeira de criança e adolescente é para dar futuro? A não ser que
você queira que o seu filho ou filha seja dono de uma fábrica de brinquedos.
Quantos
adultos e adultas que, na adolescência, brincavam de salada mista, dando beijo
na boca do colégio inteiro sem os pais saberem, hoje estão exercendo a função
de fiscais de brincadeira de criança, querendo que elas se divirtam com coisas
de “interesse público”, que “edifiquem a família” e “deem futuro”?
Será
que todo moleque que gostava de brincar de médico com as meninas se tornou um
grande ginecologista? Todo mundo que pulou carniça virou atleta de salto com
barreiras? Quem brincava de colecionar garrafinhas de refrigerante virou sócio
da Coca-Cola?
“Ah,
mas os jovens no Japão organizam campeonatos de matemática, não de farmar
aura”, diz o sujeito que desconhece a precária estrutura educacional do próprio
país, mas gosta de citar modelos educacionais de países que ele nem sabe
identificar a posição no mapa.
E o que
impede adolescentes de disputar olimpíadas de matemática e campeonatos de
farmar aura? Uma coisa exclui a outra? Você deixou de tirar boas notas em
matemática porque brincava de “Batatinha frita, um, dois, três”? Ou vai me
dizer que você hoje é bem-sucedido porque conseguia encostar na parede primeiro
que os seus coleguinhas?
O pior
é ver adultos — muitos fazendo questão de se dizerem héteros — fazendo piadas
homofóbicas e capacitistas com a molecada e mandando crianças e adolescentes
procurarem algo útil para fazer. Talvez fiscalizar quem não está brincando de
acordo com a sua cartilha moral, religiosa e política.
Papo
reto: adultos que têm realmente o que fazer não estão implicando com
brincadeira de criança.
E boa
parte desses adultos tem como ídolo um homem de 34 anos que se comporta feito
um adolescente mimado e vive farmando aura de menino rico que não pode ser
contrariado e se recusa a crescer com as críticas que recebe.
Este,
sim, deve ser um grande exemplo para as nossas crianças e adolescentes de como
se deve brincar. Um farmador de aura evangélica “100% Jesus”, que organiza
campeonatos de pôquer e outras “brincadeiras” cuja participação de crianças e
adolescentes não é aconselhável.
Sem
falar nos “héteros” bolsonaristas que enchem de comentários a foto que o menino
Ney posta exibindo a sua bunda cheia de dinheiro, fazendo agachamento. “Lá
eles”, querendo “farmar aura” de broderagem…
Em
suma, eu não incentivaria a minha filha a sair farmando aura por aí quando
adolescente, mas não condenaria se ela quisesse participar.
Eu
ficaria preocupado com o futuro dela se ela começasse a andar com gente que
brinca de apoiar a tortura e se divertia junto com um sujeito que organizou um
campeonato de mortos por Covid e fazia piada enquanto pessoas morriam com falta
de ar em meio a uma pandemia.
Ficaria
preocupado com o futuro dela se ela fosse brincar de dar golpe de Estado,
cagando na cadeira de um ministro do STF e planejando a morte do presidente da
República, do seu vice e de um membro da Suprema Corte.
Aí,
sim, eu ficaria preocupado.
Afinal,
brincadeira tem hora, né?
Fonte:
Por Ricardo Nêggo Tom, em Brasil 247

Nenhum comentário:
Postar um comentário