quarta-feira, 29 de julho de 2026

Sobre “Farmar Aura” e adultos que não tiveram infância

Por que adultos – como o prefeito de Cuiabá, Abilio Brunini, que proibiu um campeonato de “Farmar Aura” no Parque das Águas da cidade – que são aliados de pessoas que acamparam na porta de quartéis, beberam detergente, rezaram para pneu, invocaram alienígenas para salvar o país e acreditaram que Bolsonaro era um mito enviado por Deus, estão chamando de “veadinhos”, retardados e débeis mentais crianças e adolescentes que querem se divertir com tal brincadeira?

Não que eu esteja aplaudindo a nova moda da molecada ou achando que seja algo produtivo. Até porque, desde quando uma brincadeira de criança tem que ser produtiva?

Quando a minha geração brincava de pular carniça ou de corredor polonês, os mais velhos daquela época também reprovavam e diziam que aquilo não nos daria futuro.

Qual futuro foi garantido para quem jogou bola de gude, soltou pipa, rodou pião, jogou ioiô, brincou de estátua, pulou amarelinha, perdeu a cabeça do dedão do pé batendo “golzinho” no asfalto (que nem eu, que tive que operar o dedão aos 10 anos de idade)?

Quantos de nós ouvimos que isso não nos levaria a nada e éramos aconselhados a nos afastar de colegas que só queriam ficar na rua brincando?

E desde quando brincadeira de criança e adolescente é para dar futuro? A não ser que você queira que o seu filho ou filha seja dono de uma fábrica de brinquedos.

Quantos adultos e adultas que, na adolescência, brincavam de salada mista, dando beijo na boca do colégio inteiro sem os pais saberem, hoje estão exercendo a função de fiscais de brincadeira de criança, querendo que elas se divirtam com coisas de “interesse público”, que “edifiquem a família” e “deem futuro”?

Será que todo moleque que gostava de brincar de médico com as meninas se tornou um grande ginecologista? Todo mundo que pulou carniça virou atleta de salto com barreiras? Quem brincava de colecionar garrafinhas de refrigerante virou sócio da Coca-Cola?

“Ah, mas os jovens no Japão organizam campeonatos de matemática, não de farmar aura”, diz o sujeito que desconhece a precária estrutura educacional do próprio país, mas gosta de citar modelos educacionais de países que ele nem sabe identificar a posição no mapa.

E o que impede adolescentes de disputar olimpíadas de matemática e campeonatos de farmar aura? Uma coisa exclui a outra? Você deixou de tirar boas notas em matemática porque brincava de “Batatinha frita, um, dois, três”? Ou vai me dizer que você hoje é bem-sucedido porque conseguia encostar na parede primeiro que os seus coleguinhas?

O pior é ver adultos — muitos fazendo questão de se dizerem héteros — fazendo piadas homofóbicas e capacitistas com a molecada e mandando crianças e adolescentes procurarem algo útil para fazer. Talvez fiscalizar quem não está brincando de acordo com a sua cartilha moral, religiosa e política.

Papo reto: adultos que têm realmente o que fazer não estão implicando com brincadeira de criança.

E boa parte desses adultos tem como ídolo um homem de 34 anos que se comporta feito um adolescente mimado e vive farmando aura de menino rico que não pode ser contrariado e se recusa a crescer com as críticas que recebe.

Este, sim, deve ser um grande exemplo para as nossas crianças e adolescentes de como se deve brincar. Um farmador de aura evangélica “100% Jesus”, que organiza campeonatos de pôquer e outras “brincadeiras” cuja participação de crianças e adolescentes não é aconselhável.

Sem falar nos “héteros” bolsonaristas que enchem de comentários a foto que o menino Ney posta exibindo a sua bunda cheia de dinheiro, fazendo agachamento. “Lá eles”, querendo “farmar aura” de broderagem…

Em suma, eu não incentivaria a minha filha a sair farmando aura por aí quando adolescente, mas não condenaria se ela quisesse participar.

Eu ficaria preocupado com o futuro dela se ela começasse a andar com gente que brinca de apoiar a tortura e se divertia junto com um sujeito que organizou um campeonato de mortos por Covid e fazia piada enquanto pessoas morriam com falta de ar em meio a uma pandemia.

Ficaria preocupado com o futuro dela se ela fosse brincar de dar golpe de Estado, cagando na cadeira de um ministro do STF e planejando a morte do presidente da República, do seu vice e de um membro da Suprema Corte.

Aí, sim, eu ficaria preocupado.

Afinal, brincadeira tem hora, né?

 

Fonte: Por Ricardo Nêggo Tom, em Brasil 247

 

Nenhum comentário: