sexta-feira, 31 de julho de 2026

As expressões da guerra na digitalização

A digitalização do tecido social, marcada pela plataformização da vida, tem mudado  não apenas nossa relação com a informação, mas com a própria experiência objetiva e subjetiva do mundo, dando novas condições de possibilidade para o desdobramento de eventos cruciais em nossos tempos. Elas rearranjam o campo de possibilidade e reconfiguram os modos de se relacionar com processos em curso, acelerando dinâmicas e criando novas relações em velocidades antes impensáveis. 

As zonas de guerra são hoje espaços onde tais efeitos revelam-se de modo radical. Podemos encontrar exemplos fundamentais no contexto da guerra entre Ucrânia e Rússia: cada vez mais o recrutamento ucraniano passa por processos de internacionalização, com a contratação de soldados ao redor do planeta, inclusive no Brasil. Para além dos que se engajam ideologicamente com a guerra, ou aqueles que procuram uma espécie de aventura bélica para chamarem de sua – que são muitos dos voluntários no lado ucraniano da guerra –, há também o recrutamento de ex-faccionados do crime organizado brasileiro, que encontram nos contratos ucranianos uma oportunidade para arriscarem a própria vida de forma mais rentável, considerando que os salários oscilam entre 2.9 até 26 mil reais por mês, como descrito no site de recrutamento ucraniano

Sem compreendermos a digitalização, não é possível compreendemos a condição atual da guerra hoje. Mas o oposto não só é verdadeiro, como talvez seja ainda mais fundamental: sem compreendermos a condição atual da guerra hoje, talvez não seja possível compreendermos o que é, de fato, o processo de digitalização.
(Foto: Kathy Reesey / United States Marine Corps)

Em uma reportagem feita pela Record, três integrantes brasileiros contratados pelas forças ucranianas, ex-membros de facções do Rio de Janeiro, relataram a realidade que encontram cotidianamente no combate ucraniano: contratados por meio de redes sociais, onde inclusive outros soldados brasileiros que migraram para prestar seus serviços na Ucrânia fazem questão de divulgar a “oportunidade”, os três relataram a tensão presente no combate, o papel constante e massivo dos drones – operados exclusivamente por ucranianos – e a alta letalidade do confronto, onde “vão 12 e voltam 2”. Cada vez mais, a guerra entre Ucrânia e Rússia revela o estado esgarçado do tecido social, com a deterioração das expectativas e a crescente indiferença ao risco de vida, na medida em que o risco torna-se dado cotidiano. A guerra torna-se então uma espécie de bico, inserindo-se na dinâmica das gig economies – não falta muito para desenvolverem um modo de plataformização do serviço globalizado de mercenários das mais distintas partes do planeta. A “uberização militar” já é uma realidade. 

Além disso, a guerra é cada vez mais marcada pelo uso de drones que são hoje um dos maiores recursos militares/bélicos, especialmente no contexto ucraniano. A expansão do uso militar de drones se estende à realidade das facções no Rio de Janeiro, que agora parecem entrar numa nova etapa de expansão estratégica, enviando soldados como mercenários para a guerra no leste europeu, com a finalidade de se especializarem, retornando com contribuições táticas de combate e, especialmente, capacitados para operar drones de grande porte – como descrito em matéria do G1. A compra de drones de carga e o treinamento de pessoal para operá-los no território do Rio de Janeiro já é uma realidade e, assim, facções passam a custear a viagem de seus integrantes para a Ucrânia, revelando uma característica quase “profissionalizante” na dinâmica contemporânea do mercado de mercenários. 

Assim, a digitalização perpassa de maneira estruturante tanto as dinâmicas de organização desde a infraestrutura militar, suas especificidades bélicas contemporâneas, até os modos de recrutamento e contratos militares, como evidencia-se especialmente no site dos International Defenders for the Liberty of Ukraine, onde é possível se candidatar a diversas modalidades de contrato militar com o exército ucraniano preenchendo um simples formulário com informações básicas (nome, idade, contato de Whatsapp ou Signal e seu “currículo” de experiência militar). Tanto do lado ucraniano quanto do lado russo, também encontram-se casos de recrutamento de cidadãos africanos de diversos países, seduzidos com promessas de ganhos financeiros e cidadania, mas que tornam-se fundamentalmente “bucha de canhão.” Especificamente do lado russo, reporta-se também a contratação de mercenários chineses, através de propagandas militares que versam entre um apelo à fantasia de masculinidade viril resgatada ou assumem a forma de propaganda por influenciadores divulgando oportunidades para trabalho durante as férias. 

Nesse contexto, encontramos uma espécie de desdobramento e atualização, pela via da digitalização, do que através de Adorno e Horkheimer poderíamos nomear como uma “sociedade de rackets” – isto é, uma sociedade gangsterizada, onde a dominação pela privatização da segurança, da proteção, de serviços belicizados paramilitares torna-se um modo fundamental de organização social em um momento de fragmentação das formas que davam algum nível de coesão ao tecido social. Em uma sociedade pós-salarial, com o horizonte de expectativas decrescentes marcado pela inexistência de uma perspectiva para o futuro, cada vez mais degradado e enclausurado em um presentismo decadente e cerceador, a digitalização apresenta formas de aceleração da regressão social, funcionando como catalisadora de dinâmicas localizadas, regionalizadas ou, ainda, nacionais, que agora tornam-se virtualmente internacionalizadas.  

Assim, o processo que não mais se avizinha quanto já se faz presente, é o da plataformização de mercenários, das milícias, contraventores e do crime organizado. O encontro destas distintas formações sociais com os processos de catalização propiciados pela infraestrutura digital já podem ser notados, como vimos até aqui, enquanto expressão da avançada degradação e fragmentação do tecido social, já esgarçado pelas distintas crises presentes. Dentro de um paradigma onde a escassez torna-se a ordem do dia e do futuro degradado, a digitalização revela-se meio e fim para a radicalização das formas de dominação ligadas ao controle, extorsão, pilhagem e privatização paramilitar da proteção e da segurança. O horizonte que se desenha é então de exploração máxima do decaimento social através dos meios digitais, que revelam-se hoje verdadeiros empreendimentos de regressão. 

Um dos exemplos mais expressivos de como essa dinâmica está permeada na cultura digital é a emergência de influenciadores de guerra, como Alexander Kotz e Semyon Pegov, conhecido como WarGonzo. Eles revelam a monetização da guerra por influenciadores que produzem desde conteúdos propagandísticos militares até divulgação de criptomoedas, cobrando valores específicos para parcerias em postagens. Também o uso de avatares gerados por IAs se propaga, desde a propaganda militar até seu uso para “reviver” parentes falecidos na guerra — algo semelhante ao serviço dos griefbots.

Todos esses elementos revelam como a tessitura do digital fornece um campo de completa transformação dos meios, fins e formas, das técnicas e da própria gramática da guerra, na medida que interferem do armamento à propaganda, do recrutamento ao luto, passando pela própria forma como são produzidos os imaginários bélicos e a organização da militarização contemporânea. Sem compreendermos a digitalização, não é possível compreendemos a condição atual da guerra hoje. Mas o oposto não só é verdadeiro, como talvez seja ainda mais fundamental: sem compreendermos a condição atual da guerra hoje, talvez não seja possível compreendermos o que é, de fato, o processo de digitalização – que integra e dissolve ainda mais as fronteiras entre esfera civil e militar.

¨      Soberania digital e fechamento de fronteiras no bloco europeu. Por Agustina Flores

A busca pela soberania digital por parte da União Europeia e o simultâneo endurecimento de suas políticas migratórias revelam uma das contradições mais profundas da história moderna do projeto de integração continental. Após o fim da Segunda Guerra Mundial (1939 a 1945), o bloco europeu surgiu sob uma premissa revolucionária consagrada nos Tratados de Roma e consolidada no Mercado Único: a noção de que a paz duradoura e a prosperidade compartilhada seriam alcançadas diluindo as soberanias nacionais em uma rede de interdependência econômica baseada em quatro liberdades fundamentais, entre as quais se destacava a livre circulação de pessoas.

O projeto original concebia a Europa como um espaço dinâmico e aberto que exportava padrões democráticos universais para o resto do mundo. No entanto, em pleno século 21, onde a riqueza e a relevância geopolítica já não são medidas pela produção de aço, mas por fluxos de dados, capacidade de computação e domínio da Inteligência Artificial, o bloco decidiu dar uma guinada em direção à soberania tecnológica.

Obcecada com sua dependência absoluta de infraestruturas de armazenamento e sistemas de software controlados por corporações norte-americanas e estatais chinesas, a União Europeia lançou um ambicioso Pacote Normativo de Soberania Tecnológica, destinado a financiar e proteger um ecossistema digital nativo que pretende disputar a liderança mundial. O marco fundamental que define a construção desse modelo regulatório é a entrada em vigor do Regulamento de Inteligência Artificial (AI Act), a primeira legislação abrangente do mundo nessa área.

Esse marco impõe um rigoroso regime de obrigações escalonadas por níveis de risco, cuja aplicação prática inclui a ativação de mandatos de transparência total que obrigam qualquer desenvolvedor que atue no mercado europeu a identificar explicitamente os sistemas de geração artificial e as ferramentas de conteúdo manipulado, sob a ameaça de sanções financeiras multimilionárias. Essa iniciativa é complementada pela Lei de Desenvolvimento da Nuvem e da Inteligência Artificial (CADA), que estabelece classificações de soberania para os provedores de serviços em nuvem, restringindo o controle de dados sensíveis em setores estratégicos como defesa, energia e saúde pública exclusivamente a empresas que armazenem e processem as informações dentro das fronteiras da União Europeia. Juntamente com a Lei dos Semicondutores 2.0, voltada para dobrar a fabricação de microchips locais, e a consolidação das Leis dos Mercados Digitais e dos Serviços Digitais, que classificam e sancionam as gigantes transnacionais em seu papel de guardiãs do acesso ao mercado, o bloco busca exercer um controle sem precedentes sobre a infraestrutura tecnológica global.

No entanto, o grande calcanhar de Aquiles dessa ambição e seu erro de cálculo mais grave não residem na falta de capital nem na rigidez regulatória, mas no choque frontal desse programa com a perseguição agressiva e o fechamento das fronteiras que hoje caracterizam a política migratória regional. O desenvolvimento de fronteiras tecnológicas de ponta, como o treinamento de Modelos de Linguagem em Grande Escala, o projeto de microchips de última geração e a cibersegurança avançada, exige uma massa crítica de engenheiros de software, cientistas de dados e matemáticos de elite que o continente simplesmente não produz na quantidade nem na velocidade necessárias.

Ao priorizar narrativas de segurança nacional e restrições de vistos para atender a demandas eleitorais internas, o bloco sabota seu próprio mercado de trabalho de alta tecnologia e pode entrar em uma paralisia competitiva diante dos polos de inovação de outras regiões, como o Vale do Silício dos Estados Unidos, que historicamente se consolidaram na captação das mentes mais brilhantes da Índia, da América Latina e do Leste Asiático por meio de vistos para profissionais altamente qualificados.

Diante de um cenário em que as empresas europeias levam meses para dar andamento à contratação de um programador estrangeiro devido ao endurecimento das políticas migratórias, os investidores norte-americanos e asiáticos estão redirecionando seus recursos para mercados com legislações de mobilidade muito mais flexíveis. O talento internacional e os fundos de investimento não desapareceram; estão simplesmente se deslocando para países que compreendem que, no século 21, o poder global não é mais medido pela extensão das fronteiras, mas pela capacidade de atrair as mentes mais brilhantes da era digital.

Esse êxodo se dirige principalmente a quatro destinos globais que elaboraram estratégias agressivas de captação, aproveitando a retração da Europa:

  • Canadá: por meio de seus programas de vistos expressos para profissionais da área de tecnologia, o país oferece residência permanente em questão de semanas a engenheiros e cientistas de dados que, na Europa, enfrentam meses de burocracia e a ameaça constante de não renovação de suas autorizações. O capital de risco prefere financiar empresas em Toronto ou Vancouver porque sabe que o marco legal canadense facilita a contratação imediata de pessoal qualificado proveniente de qualquer canto do mundo.
  • Emirados Árabes Unidos (Dubai): com a implementação de seus “Vistos Dourados” de longa duração e uma política de isenção total de impostos para empresas de tecnologia, Dubai se tornou o refúgio preferido dos fundadores de startups de Inteligência Artificial que fogem da sufocante regulamentação e da recusa de vistos por parte da Europa. Os fundos de investimento globais encontram ali um ambiente onde o dinheiro circula livremente e onde os talentos da Índia e do Oriente Médio são recebidos com tapete vermelho.
  • Singapura: a cidade-Estado asiática consolidou sua posição como centro financeiro e tecnológico do Sudeste Asiático graças aos seus programas especiais para pesquisadores de elite em aprendizado profundo e desenvolvimento de software avançado. Singapura oferece um ecossistema de alta segurança, financiamento estatal direto e uma burocracia migratória extremamente ágil que contrasta drasticamente com a rigidez institucional europeia.
  • Estados Unidos (Vale do Silício e Austin): continuam sendo o destino natural do capital de risco mundial. Apesar de seus próprios debates internos sobre imigração, os polos tecnológicos norte-americanos mantêm uma flexibilidade pragmática na concessão de vistos para talentos excepcionais. Os investidores preferem injetar capital em empresas localizadas em solo norte-americano, pois a escala de seu mercado e sua histórica abertura para mentes estrangeiras garantem que as empresas não fiquem sem o pessoal técnico necessário para crescer.

Como podemos ver, as consequências dessa dupla medida sufocam diretamente as chamadas empresas tecnológicas nativas que tentam se consolidar diante do duopólio de Washington e Pequim. Empresas líderes em Inteligência Artificial generativa, como a Mistral AI na França ou a Aleph Alpha na Alemanha, veem sua capacidade de recrutar pesquisadores de elite limitada, enquanto a tradicional gigante de software empresarial SAP enfrenta sérias dificuldades para encontrar os milhares de desenvolvedores necessários para sua reestruturação rumo a soluções de nuvem inteligente. Até mesmo corporações essenciais para a cadeia de suprimentos global, como a ASML, na Holanda — que produz as complexas máquinas de litografia ultravioleta para a fabricação de microchips —, e plataformas de consumo de massa, como o Spotify, na Suécia, veem sua sustentabilidade ameaçada devido à rigidez das cotas de imigração.

Ao priorizar o fechamento das fronteiras, o bloco europeu não apenas incorre em um retrocesso normativo que viola os direitos humanos e os princípios humanitários de sua própria Carta dos Direitos Fundamentais, mas também impõe um estrangulamento econômico auto infligido. Ao restringir o fluxo migratório legal, a União Europeia bloqueia o acesso a talentos técnicos globais altamente qualificados, privando seu ecossistema tecnológico e industrial do capital humano necessário para crescer, condenando suas empresas a um atraso iminente em relação aos concorrentes globais que conseguem, sim, capitalizar o talento internacional.

 

Fonte: Por Cian Barbosa, em Opera Mundi

 

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