Milei,
IA e o viralatismo no século XXI
Enquanto
boa parte do mundo observa Javier Milei, uma transformação muito mais profunda
reorganiza silenciosamente as relações entre Estado, território, tecnologia e
poder na Argentina, uma transformação muito mais profunda avança quase sem ser
percebida. O debate internacional tem se concentrado em suas declarações
provocativas, no enfrentamento com adversários políticos, na agenda
ultraliberal e nos conflitos que mobilizam diariamente as redes sociais. Essa
leitura, embora compreensível, obscurece um fenômeno de maior alcance: a
reorganização gradual da função estratégica da Argentina no contexto da nova
economia política do século XXI. Reduzir esse processo à personalidade de Milei
significa observar apenas a superfície de uma mudança estrutural. Governos
passam, coalizões se desfazem e ciclos eleitorais se encerram. As
transformações capazes de redefinir a posição de um país na ordem internacional,
porém, costumam ocorrer em outra velocidade. Elas se materializam na
arquitetura jurídica, nas regras econômicas, na reorganização institucional, na
infraestrutura, na política energética, na forma como o território passa a ser
utilizado e, sobretudo, na capacidade do Estado de criar um ambiente favorável
a determinados projetos de poder. É exatamente nesse nível que a Argentina se
tornou um caso singular. Em poucos anos, o país passou a concentrar reformas
que dificilmente aparecem reunidas com a mesma intensidade em outra experiência
contemporânea. Desregulação econômica, novos regimes de proteção ao grande capital,
flexibilização institucional, reorientação geopolítica, incentivos à
inteligência artificial, megaprojetos de infraestrutura digital, expansão da
mineração estratégica e mudanças profundas na política energética deixaram de
constituir iniciativas isoladas. Observadas em conjunto, revelam uma direção
comum. Essa convergência altera a própria natureza do debate. A questão já não
é apenas saber se as políticas de Milei produzirão crescimento econômico ou
estabilidade fiscal. Tampouco se limita a discutir os custos sociais de seu
programa de governo. A pergunta decisiva é outra: que tipo de Estado está sendo
construído e para qual projeto histórico ele passa a servir?
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A arquitetura do Estado tecnolibertário
Nenhuma
transformação estrutural ocorre por acaso. Antes que novos investimentos
cheguem, que grandes projetos sejam anunciados ou que cadeias produtivas sejam
reorganizadas, é necessário alterar o ambiente institucional que define como um
país funciona. É nesse ponto que a experiência argentina revela sua maior
originalidade. O governo Javier Milei não iniciou sua agenda pela
infraestrutura nem pela tecnologia. Começou pelo próprio Estado. A lógica que
orienta esse processo parte de uma premissa simples: reduzir ao máximo aquilo
que seus formuladores consideram obstáculos à livre circulação do capital. Na
prática, isso significa substituir um Estado planejador e regulador por um
Estado cuja principal função passa a ser garantir estabilidade jurídica, previsibilidade
regulatória e proteção de longo prazo aos grandes investimentos privados. A
desregulação deixa de ser apenas uma política econômica e transforma-se em um
princípio organizador da administração pública.
Essa
mudança ganha forma concreta com a criação de regimes especiais destinados a
oferecer condições excepcionais para investimentos de grande escala. O Regime
de Incentivo para Grandes Investimentos (RIGI) representa a expressão mais
acabada dessa estratégia. Mais do que um conjunto de incentivos fiscais, ele
inaugura uma arquitetura jurídica baseada em estabilidade prolongada, regras
diferenciadas, segurança para o investidor internacional e redução da
capacidade de governos futuros alterarem substancialmente as condições
originalmente pactuadas. O horizonte temporal do investimento passa a superar o
próprio ciclo democrático. A mesma lógica orienta iniciativas voltadas à
economia digital. Ao propor um marco jurídico para empresas estruturadas em
torno de agentes de inteligência artificial e organizações automatizadas, o
governo argentino sinaliza que pretende adaptar sua legislação às novas formas
de organização do capitalismo tecnológico. O objetivo não é apenas incorporar
inovação, mas construir uma jurisdição percebida como mais rápida, flexível e
previsível para empresas cuja operação depende de intensa experimentação
tecnológica. Observadas isoladamente, essas medidas poderiam ser interpretadas
como simples reformas pró-mercado. Em conjunto, porém, revelam uma mudança
qualitativa. O Estado deixa de atuar prioritariamente como agente de
coordenação econômica para assumir uma função distinta: tornar-se uma
plataforma institucional capaz de reduzir riscos, acelerar decisões e oferecer
um ambiente altamente competitivo para grandes projetos privados. A prioridade
desloca-se da intervenção estatal para a criação de condições permanentes de
operação do capital.
Essa
reorganização não elimina o Estado. Ao contrário. Exige um Estado ativo, capaz
de produzir segurança jurídica, garantir contratos, reorganizar instituições e
adaptar continuamente sua estrutura às demandas de uma economia cada vez mais
orientada por tecnologia, infraestrutura e inovação. O paradoxo é evidente:
enquanto o discurso político enfatiza a redução do Estado, a prática revela sua
profunda reconfiguração. É justamente essa arquitetura institucional que
permite compreender os movimentos analisados nos tópicos seguintes. A expansão
da infraestrutura digital, os grandes projetos de inteligência artificial, a
reorganização energética, a mineração estratégica e o reposicionamento
geopolítico não surgem como iniciativas independentes. Eles tornam-se possíveis
porque o Estado argentino foi previamente reorganizado para funcionar como a
base institucional de um novo ciclo de acumulação. Antes de reorganizar o
território, reorganiza-se o Estado. É essa inversão que torna possível a
arquitetura do tecnolibertarianismo
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O território como infraestrutura do poder
A
inteligência artificial não é apenas uma revolução tecnológica. É uma
reorganização material das relações de poder. Quase sempre o debate gira em
torno de algoritmos, robôs, aplicativos ou novos modelos computacionais. Essa
narrativa, porém, esconde sua dimensão mais importante. Antes de existir como
software, toda inteligência artificial depende de uma infraestrutura física
gigantesca. Ela precisa de energia em escala industrial, água para
resfriamento, minerais críticos, redes de transmissão, fibras ópticas, centros
de processamento de dados, estabilidade jurídica e territórios capazes de
sustentar investimentos bilionários durante décadas. A corrida global pela
inteligência artificial é, antes de tudo, uma disputa pelo controle das
condições materiais que tornam essa tecnologia possível. Nesse ponto que a
Argentina assume um papel estratégico. O território argentino passa a ser
reorganizado para responder às exigências materiais do capitalismo tecnológico
contemporâneo. Suas reservas de gás e petróleo, o lítio, o cobre, a abundância
de energia renovável, a disponibilidade territorial da Patagônia, a água e a
nova arquitetura jurídica deixam de ser ativos nacionais analisados
separadamente e passam a integrar uma mesma lógica de reorganização econômica e
geopolítica. Essa mudança altera profundamente a função histórica do
território. Durante grande parte do século XX, os recursos naturais eram
disputados principalmente por sua capacidade de alimentar a indústria e a
produção de bens materiais. No século XXI, eles passam a sustentar também a
infraestrutura da economia algorítmica. A eletricidade move data centers, o
lítio alimenta sistemas de armazenamento energético, o cobre conecta redes de
transmissão, a água resfria centros de processamento e a estabilidade
institucional reduz os riscos assumidos por grandes conglomerados tecnológicos.
A economia digital, frequentemente apresentada como imaterial, depende cada vez
mais de uma base territorial altamente concentrada e intensiva em recursos
físicos. Essa transformação desloca o centro do debate. A pergunta deixa de ser
quantos bilhões de dólares serão investidos na Argentina e passa a ser outra:
quem reorganiza o território argentino, para atender a quais interesses e sob
qual projeto de poder? É essa questão que desaparece da maior parte das
análises sobre Milei. O discurso da inovação costuma tratar infraestrutura,
energia e desregulação como etapas naturais do progresso tecnológico. Na
realidade, elas representam escolhas políticas que redefinem a relação entre
Estado, território e capital.
O
aspecto mais significativo dessa reorganização é que ela não busca apenas
facilitar investimentos. Ela converte funções tradicionalmente vinculadas à
soberania nacional em ativos estratégicos para cadeias globais controladas por
grandes corporações e centros internacionais de poder. Energia, recursos
minerais, capacidade regulatória e estabilidade jurídica deixam de ser
instrumentos prioritariamente orientados pelo interesse público e passam a
compor a infraestrutura necessária para a expansão de um novo regime de
acumulação baseado em inteligência artificial, plataformas digitais e
concentração tecnológica. Esse processo produz uma inversão silenciosa da
função do Estado. Em vez de utilizar o território para ampliar capacidades
nacionais, o Estado passa progressivamente a reorganizar suas instituições para
adaptar o território às necessidades da economia global. O centro da política
desloca-se da construção de soberania para a redução dos riscos do grande
capital. A promessa deixa de ser o desenvolvimento nacional e passa a ser a
competitividade internacional como fim em si mesma. É essa lógica que conecta
reformas jurídicas, política energética, mineração estratégica e infraestrutura
digital em uma única arquitetura. O problema não está na tecnologia, nem na
inteligência artificial em si. O problema está na forma como essas tecnologias
passam a reorganizar as relações de poder.
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O novo posicionamento geopolítico da Argentina
A
reorganização do Estado argentino não pode ser compreendida apenas pelas
transformações ocorridas dentro de suas fronteiras. Toda mudança estrutural
dessa magnitude altera também a posição internacional do país. Se o território
é reorganizado para atender às exigências do capitalismo tecnológico, sua
política externa tende a acompanhar esse movimento. A diplomacia deixa de ser
apenas instrumento de representação nacional e passa a funcionar como extensão
da nova arquitetura econômica e institucional. É exatamente isso que ocorre sob
Javier Milei. Em poucos meses, a Argentina promoveu uma das mais rápidas
reorientações geopolíticas de sua história recente. O país aproximou-se de
forma inédita dos Estados Unidos, fortaleceu sua aliança estratégica com Israel,
distanciou-se de iniciativas de integração regional que buscavam maior
autonomia internacional e passou a inserir-se nas disputas globais por
inteligência artificial, minerais críticos, infraestrutura digital e segurança
tecnológica. Não se trata de episódios isolados, mas da construção de um novo
eixo de inserção internacional. Essa mudança responde a uma lógica que
ultrapassa afinidades ideológicas entre governos. O capitalismo tecnológico
contemporâneo depende de cadeias globais altamente integradas, nas quais
energia, minerais críticos, infraestrutura digital, capacidade computacional e
segurança jurídica são tratados como ativos estratégicos. Ao reposicionar sua
política externa, a Argentina oferece muito mais do que alinhamento
diplomático. Oferece previsibilidade política para atores interessados em
reorganizar cadeias produtivas, reduzir riscos regulatórios e disputar o
controle da infraestrutura material da inteligência artificial.
É nesse
contexto que a aproximação com os Estados Unidos assume significado
estratégico. A disputa contemporânea entre Washington e Beijing não ocorre
apenas em torno de tarifas, comércio ou influência militar. Ela envolve o
domínio das tecnologias que definirão a próxima etapa da economia mundial.
Inteligência artificial, semicondutores, minerais críticos, energia e
computação tornaram-se componentes da segurança nacional das grandes potências.
Inserir a Argentina nesse ecossistema significa incorporá-la a uma arquitetura
geopolítica muito mais ampla do que a política latino-americana tradicional. A
relação com Israel segue lógica semelhante. Mais do que um alinhamento
diplomático, ela fortalece uma agenda baseada em segurança, tecnologia,
inovação e inteligência, inserindo a Argentina em redes internacionais que
articulam poder político, infraestrutura tecnológica e novas formas de
governança. A tecnologia deixa de ser apresentada apenas como instrumento de
desenvolvimento e passa a integrar uma arquitetura de segurança, vigilância e
reorganização institucional compatível com as necessidades do capitalismo
algorítmico. Ao mesmo tempo, observa-se um progressivo enfraquecimento da
tradição diplomática argentina baseada na diversificação de parcerias e na
busca por maior autonomia estratégica. A política externa deixa de equilibrar
interesses múltiplos para privilegiar uma inserção internacional fortemente
orientada pelos polos que hoje lideram a corrida tecnológica global. Essa
escolha reduz a margem de manobra do Estado e aumenta sua dependência em
relação às estratégias definidas pelos grandes centros de poder econômico e
tecnológico. Essa transformação possui implicações que vão além da diplomacia.
Quando um país reorganiza simultaneamente sua política externa, sua legislação,
sua infraestrutura e seu território para atender às exigências de um mesmo
modelo de desenvolvimento, ele deixa de ser apenas um participante da economia
global e passa a funcionar como parte de sua infraestrutura política. A
soberania não desaparece formalmente, mas passa a ser exercida dentro de
limites cada vez mais estreitos, definidos pela necessidade permanente de
preservar a confiança dos grandes fluxos internacionais de capital e
tecnologia.
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Quem captura o valor?
O
governo Milei afirma que a abertura econômica permitirá recolocar a Argentina
na rota do crescimento. O problema não está na atração de investimentos. Países
precisam investir, inovar e produzir riqueza. A questão estratégica é outra.
Quem controlará a riqueza produzida por essa nova arquitetura econômica? Quem
controla os dados controla os algoritmos. Quem controla os algoritmos controla
a infraestrutura. Quem controla a infraestrutura controla a economia. E quem
controla a economia passa, inevitavelmente, a condicionar a política. É
justamente aqui que o tecnolibertarianismo revela sua verdadeira natureza. Seu
objetivo nunca foi apenas reduzir o Estado, mas reorganizá-lo para colocá-lo a
serviço de uma nova aristocracia tecnológica. O discurso da liberdade funciona
como linguagem política para legitimar um processo profundamente concentrador,
no qual funções historicamente associadas à soberania nacional passam a ser
reorganizadas para reduzir riscos, ampliar garantias e proteger a expansão do
grande capital tecnológico. A Argentina oferece território, energia, lítio,
cobre, água, infraestrutura. Oferece estabilidade jurídica por décadas e
incentivos fiscais extraordinários. Mas onde permanecerão os chips? Onde
permanecerão os grandes modelos de inteligência artificial? Onde permanecerão
as plataformas digitais? Onde permanecerão as patentes? Onde permanecerá a
computação em nuvem? Onde permanecerá a propriedade intelectual? Não na
Argentina.
Essa
assimetria não é um detalhe técnico. Ela representa a nova divisão
internacional do poder. O território continua indispensável, mas o comando
desloca-se para quem controla as tecnologias capazes de organizar esse
território. A riqueza deixa de estar concentrada apenas na produção e passa a
concentrar-se na inteligência que organiza a produção. A infraestrutura
permanece nacional. O comando torna-se transnacional. Essa é a maior vitória
política do tecnolibertarianismo. Convencer sociedades inteiras de que abrir
mão do controle sobre capacidades estratégicas representa liberdade econômica.
Enquanto o discurso celebra menos Estado, a realidade revela um Estado
profundamente ativo na proteção dos interesses do capital tecnológico. Não
desaparece a intervenção estatal. Muda apenas seu destinatário. O Estado deixa
de organizar prioridades nacionais para administrar as necessidades da nova
elite tecnológica global. Essa reorganização produz uma concentração de poder
sem precedentes. Poucas corporações passam a controlar simultaneamente
infraestrutura digital, inteligência artificial, plataformas, sistemas
operacionais, computação em nuvem, dados, satélites, redes de comunicação e
parte crescente dos fluxos financeiros. Nunca tantas capacidades estratégicas
estiveram reunidas em tão poucas mãos. O resultado não é um mercado mais livre.
É uma arquitetura privada de poder capaz de condicionar governos, influenciar
eleições, reorganizar economias e limitar a própria capacidade de decisão dos
Estados nacionais. É por isso que reduzir esse processo à velha oposição entre
Estado e mercado tornou-se insuficiente. A disputa contemporânea ocorre entre
democracia e concentração tecnológica. Entre soberania popular e soberania
corporativa. Entre Estados capazes de decidir seu próprio futuro e estruturas
privadas que passam a decidir quais Estados continuarão relevantes na economia
da inteligência artificial. É exatamente nesse ponto que a Argentina se
transforma no principal laboratório global do tecnolibertarianismo. O país deixa
de experimentar apenas reformas econômicas radicais, para ser submetido a um
novo modelo de reorganização do poder. Um modelo no qual o território continua
nacional, mas as capacidades estratégicas tendem a deslocar-se para corporações
privadas que operam acima das fronteiras, acima dos ciclos eleitorais e, cada
vez mais, acima da própria política democrática. O que está em jogo, portanto,
não é apenas o futuro da economia argentina. O que está sendo testado é um novo
paradigma de poder para o século XXI. Um paradigma no qual a soberania deixa de
ser medida pela capacidade de um Estado controlar seu território e passa a
depender de sua capacidade de controlar dados, algoritmos, infraestrutura
computacional, conhecimento e inteligência. Quem controla essas capacidades
controla o futuro. Todo o restante torna-se periferia tecnológica, ainda que
permaneça no centro da produção material.
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O futuro da submissão começou na Argentina
Seria
um erro interpretar a experiência argentina como uma exceção latino-americana
ou como uma simples radicalização do liberalismo econômico. O que está sendo
testado no país é muito mais profundo. Pela primeira vez, um Estado reorganiza
simultaneamente sua arquitetura institucional, seu território, sua política
externa e sua economia para adaptar-se às exigências do capitalismo tecnológico
do século XXI. Não se trata apenas de uma mudança de governo. Trata-se da
construção de um novo paradigma de poder. Essa transformação inaugura uma
ruptura silenciosa na própria ideia de soberania. Durante séculos, a força de
um Estado foi medida pela capacidade de controlar seu território, suas
fronteiras, suas riquezas naturais e suas instituições. Na economia da inteligência
artificial, esse critério torna-se insuficiente. Um país pode preservar
formalmente sua soberania e, ainda assim, perder progressivamente o controle
sobre aquilo que determinará seu futuro: dados, infraestrutura computacional,
algoritmos, plataformas, inteligência artificial, propriedade intelectual e
capacidade tecnológica. É justamente nesse deslocamento que reside o núcleo do
tecnolibertarianismo. Seu projeto histórico não consiste apenas em reduzir
impostos, privatizar empresas públicas ou flexibilizar regulações. Seu objetivo
é muito mais ambicioso. Trata-se de reorganizar a relação entre Estado, mercado
e democracia para que as decisões estratégicas deixem de ser determinadas pelo
interesse público e passem a gravitar em torno das necessidades de expansão de
grandes conglomerados tecnológicos e financeiros. O Estado não desaparece. Ele
é reprogramado para administrar as condições de reprodução desse novo regime de
poder. Esse modelo rompe um dos fundamentos da democracia moderna. O poder
político deixa de responder prioritariamente à sociedade e passa a responder
aos fluxos globais de capital, tecnologia e inovação. A soberania popular perde
espaço para uma soberania corporativa que opera acima dos ciclos eleitorais,
acima das fronteiras nacionais e acima da capacidade regulatória dos próprios
Estados. O voto permanece. As instituições permanecem. A Constituição
permanece. Mas cresce uma esfera de decisão que já não depende da vontade
democrática para definir os rumos da economia, da tecnologia e da própria vida
social.
É nesse
sentido que o tecnolibertarianismo aproxima-se do tecnofascismo. Não porque
reproduza mecanicamente as formas clássicas do fascismo do século XX, mas
porque compartilha sua lógica mais profunda: a concentração extrema de poder, a
naturalização das desigualdades, a subordinação da política a estruturas
superiores de comando e a substituição do interesse coletivo por uma
racionalidade que transforma eficiência econômica em critério absoluto de
organização da sociedade. A tecnologia deixa de ser instrumento de emancipação
humana e passa a funcionar como infraestrutura de uma nova ordem política,
econômica e cognitiva. A Argentina tornou-se o primeiro grande laboratório
dessa experiência em escala nacional. Amanhã poderão ser outros países. O
laboratório muda de endereço. O projeto permanece o mesmo. É por isso que o
debate argentino interessa muito além de Buenos Aires. Ele antecipa conflitos
que atravessarão toda a América Latina e, possivelmente, grande parte do mundo
nas próximas décadas.
O
desafio colocado às democracias já não consiste apenas em regular plataformas
digitais ou ampliar investimentos em inteligência artificial. O verdadeiro
desafio é impedir que a infraestrutura tecnológica do século XXI seja utilizada
para substituir a soberania dos povos pela soberania das corporações. Defender
a democracia passa a significar também defender capacidade científica,
indústria nacional, universidades públicas, infraestrutura estratégica,
produção tecnológica própria e controle democrático sobre os sistemas que
organizarão a economia do futuro. A história demonstra que nenhuma concentração
extrema de poder permanece sem produzir conflitos sociais, dependência política
e novas formas de dominação. A diferença é que, desta vez, o centro da disputa
não são apenas fábricas, bancos ou exércitos. São algoritmos, dados,
plataformas, minerais críticos, energia, infraestrutura computacional e
inteligência artificial. Quem controlar essas capacidades controlará a
economia, a informação, a segurança e, em larga medida, a própria política. A
grande questão que emerge da Argentina, portanto, não diz respeito apenas ao
futuro de um país. Diz respeito ao futuro da democracia no capitalismo
tecnológico. O laboratório já está funcionando. A única pergunta que permanece
em aberto é quantos Estados perceberão, a tempo, que o experimento não termina
nas fronteiras argentinas.
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O laboratório não termina na Argentina
Toda
arquitetura de poder bem-sucedida tende a ultrapassar as fronteiras onde foi
concebida. Nenhum grande modelo político permanece confinado ao território que
o experimentou pela primeira vez. Foi assim com o neoliberalismo nas décadas de
1980 e 1990, com as plataformas digitais no início do século XXI e, agora, com
o tecnolibertarianismo. Se a experiência argentina consolidar-se, seu
significado deixará de ser nacional para tornar-se regional e, possivelmente,
global. É justamente por isso que reduzir a experiência de Javier Milei a uma
agenda econômica seria um erro estratégico. O que está sendo testado na
Argentina não interessa apenas aos investidores que financiam grandes projetos
de energia, mineração ou inteligência artificial. Interessa também aos
governos, aos serviços de inteligência, às corporações tecnológicas e aos
centros internacionais de poder que observam, em tempo real, a possibilidade de
reorganizar Estados nacionais para responder prioritariamente às necessidades
do capitalismo algorítmico. Essa transformação ajuda a compreender mudanças
que, observadas isoladamente, poderiam parecer apenas episódios diplomáticos.
Nenhuma reorganização dessa magnitude ocorre de forma isolada. Toda arquitetura
de poder exige uma arquitetura geopolítica correspondente. A aproximação
acelerada entre Argentina, Estados Unidos e Israel não se limita a declarações
políticas ou afinidades ideológicas. Ela cria novas redes de cooperação em
tecnologia, segurança, inteligência e infraestrutura estratégica. A incorporação
de agendas relacionadas ao contraterrorismo, ao narcoterrorismo, à proteção de
infraestruturas críticas e ao intercâmbio de capacidades tecnológicas amplia
significativamente o alcance dessa nova arquitetura de poder. O centro da
disputa deixa de ser apenas econômico. Passa a envolver também os instrumentos
utilizados para definir ameaças, organizar sistemas de vigilância e produzir
legitimidade para futuras intervenções políticas e jurídicas.
Nesse
contexto, o Brasil deixa de observar um processo distante para tornar-se parte
do ambiente estratégico produzido por essa reorganização. Pela primeira vez
desde a redemocratização, a maior economia da América do Sul passa a conviver
com um vizinho que reorganiza simultaneamente sua política externa, sua
arquitetura institucional, sua infraestrutura tecnológica e seus mecanismos de
segurança em estreita convergência com interesses geopolíticos externos à
tradição da integração regional. A mudança não altera apenas o equilíbrio
diplomático do Mercosul. Ela modifica a própria geometria do poder no Cone Sul.
Essa transformação adquire importância ainda maior quando se observa a
crescente incorporação de categorias como terrorismo, extremismo e
narcoterrorismo às novas agendas internacionais de segurança. O combate ao
crime organizado constitui uma necessidade legítima dos Estados democráticos. O
risco estratégico surge quando conceitos originalmente voltados à repressão de
organizações criminosas passam a integrar arquiteturas tecnológicas e jurídicas
suficientemente amplas para redefinir disputas políticas, pressionar governos
soberanos ou justificar formas extraordinárias de intervenção. A história
demonstra que instrumentos concebidos para situações excepcionais
frequentemente ultrapassam seus objetivos originais quando se tornam parte
permanente da estrutura do Estado.
Os
próximos anos serão decisivos. Se a Argentina conseguir converter essa
reorganização institucional em capacidade tecnológica própria, poderá inaugurar
um novo ciclo de desenvolvimento nacional. Se, ao contrário, consolidar apenas
sua função como plataforma territorial da economia algorítmica, reforçará uma
nova forma de dependência compatível com o capitalismo tecnológico
contemporâneo. Existe ainda uma terceira possibilidade. A consolidação de um
modelo híbrido, no qual infraestrutura estratégica, inteligência artificial,
segurança e geopolítica passem a operar como instrumentos integrados de
projeção de poder sobre toda a América do Sul. É exatamente por isso que o
verdadeiro debate não diz respeito apenas ao sucesso ou ao fracasso do governo
Javier Milei. A questão central é compreender se a Argentina representa uma
exceção histórica ou o primeiro experimento nacional de um modelo de
reorganização estatal destinado a reproduzir-se em outras partes do mundo. Se
essa hipótese estiver correta, o maior erro das democracias será continuar
discutindo apenas governos, eleições e crises econômicas, enquanto uma
transformação muito mais profunda redefine silenciosamente as relações entre
Estado, tecnologia, capital e soberania. A história raramente anuncia suas rupturas.
Elas costumam ser reconhecidas apenas quando já produziram novas estruturas de
poder. Talvez seja exatamente esse o caso argentino.
Fonte: Por
Reynaldo Aragon Gonçalves, em Outras Palavras

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