‘IA,
eleições e as ameaças permanentes à democracia’
“Os
avanços na inteligência artificial (IA) oferecem a perspectiva de manipular
crenças e comportamentos em nível populacional. Grandes modelos de linguagem
(LLMs) e agentes autônomos permitem que campanhas de influência alcancem escala
e precisão sem precedentes. Ferramentas generativas podem expandir a produção
de propaganda sem sacrificar a credibilidade e criar, a baixo custo, falsidades
que são consideradas mais semelhantes à escrita humana do que aquelas escritas
por humanos.”
O
trecho acima é parte do estudo “How malicious AI swarms can threaten democracy”
(“Como enxames maliciosos de IA podem ameaçar a democracia”, em tradução
livre), que foi publicado na revista Science em janeiro de 2026 e sobre o qual
já discutimos nesta coluna.
A
pesquisa destaca vários pontos para mostrar como esses enxames atuam, e chamo
atenção novamente para o tópico “manipulação em escala da opinião pública, ao
imitar o comportamento humano de forma mais convincente para influenciar
crenças e criar falsas percepções de consenso social”.
Outro
estudo, dessa vez do Observatório Lupa, divulgado em fevereiro, informou que a
disseminação de conteúdos falsos produzidos com IA teve um crescimento de 308%
entre 2024 e 2025 no Brasil, com o aperfeiçoamento muito grande da tecnologia
como arma política e conteúdo com forte apelo ideológico.
Uma
terceira pesquisa, do InternetLab divulgada pela Agência Pública em fevereiro,
mostrou que metade dos usuários de WhatsApp afirma já ter utilizado algum
recurso de inteligência artificial no aplicativo, que parte significativa dos
entrevistados disse acreditar já ter recebido conteúdos políticos ou eleitorais
produzidos com IA sem saber e que a outra parcela afirmou que não consegue
identificar quando imagens, vídeos ou áudios são falsos ou manipulados.
O
relatório Desafios de Inteligência 2026, da Agência Brasileira de Inteligência
(Abin), aponta para o risco real de interferência externa para as eleições
deste ano e enfatiza: “A desinformação constitui elemento central da
deslegitimação do processo eleitoral, sobretudo em ambientes digitais, agravada
pela manipulação tecnológica decorrente de recentes inovações informacionais. A
tecnologia tornou-se componente essencial da democracia contemporânea. O
inegável potencial benéfico para o desenvolvimento econômico e social contrasta
com sua conversão em ferramenta de manipulação e de desinformação”.
O
relatório 2026 do Painel Internacional sobre o Ambiente de Informação
(International Panel on the Information Enviroment – IPIE), divulgado
recentemente, reuniu experimentos científicos que analisaram a percepção das
pessoas em relação à desinformação gerada por IA.
O
estudo mostrou que os textos produzidos por inteligência artificial, usando os
grandes modelos de linguagem LLM, são cada vez mais críveis. Trocando em
miúdos: as pessoas têm cada vez mais dificuldades em identificar e entender
como falsos os textos e conteúdos produzidos por IA.
O que
esses estudos trazem à tona, em resumo, é um processo crescente e incontrolável
de manipulação pelo uso indiscriminado da tecnologia como arma política.
Ou
seja, os usos eleitorais da IA generativa, como os deepfakes com avatares de
candidatos, representam riscos tão elevados e tão danosos que não podem ser
simplesmente tolerados como produções banais. E todas as pesquisas aqui citadas
sinalizam esse grau de perigo para o cenário eleitoral a partir da
identificação de um elemento comum que é a manipulação da percepção e das
crenças.
Estamos
falando sobre manipulação refinada da opinião pública. Sim, a manipulação em
processos eleitorais, em momentos eleitorais, não chega a ser novidade e sempre
ocorreu. Mas em outros moldes. Hoje, estamos em outra esfera, em outra
dimensão, e a novidade, perigosíssima, é essa nova arma política, uma bomba
atômica capaz de destruir as democracias.
Um
avatar de IA não é mais somente um desenho, uma animação, para o qual a pessoa
olha e identifica como não sendo real. Os avatares são “pessoas”. Que se
comunicam com outras pessoas. A manipulação com essa nova arma é capaz de
conduzir a percepção do eleitor em relação ao processo eleitoral para distintos
caminhos, e não adiantam mais desmentidos. Porque não se trata mais do jogo
“verdade ou mentira”.
O uso
da IA generativa está caminhando firmemente para consolidar uma nova geração de
manipulação da percepção das pessoas e de reorganização da desinformação, com a
construção da imagem política e a manipulação discursiva para moldar percepções
públicas e interferir nos resultados eleitorais. Há um uso sistemático,
calculado e intencional da tecnologia para produzir deepfakes e campanhas
sofisticadas com notícias falsas e o falseamento do dado real para deslegitimar
os processos eleitorais e enganar o eleitor.
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Distorcendo os fatos reais
Os
professores e pesquisadores Adail Sobral e Karina Giacomelli, no artigo “Ethos
e construção de imagens negativas de adversários no discurso político: uma
reflexão ilustrada” (2022), ressaltam que o falseamento é uma estratégia em que
os fatos reais são distorcidos ou omitidos para promover uma narrativa que
serve aos interesses do enunciador.
Segundo
eles, essa estratégia pode envolver a manipulação de informações para criar uma
interpretação tendenciosa que demoniza adversários e exalta aliados. Por fim,
os autores chamam a atenção para os impactos sociais e políticos que essas
práticas desencadeiam, sendo ferramentas poderosas em contextos políticos para
influenciarem eleições e processos judiciais, distorcendo a percepção da
realidade.
O
falseamento de dados do real implica a elaboração de novos desenhos de uma
realidade, configurando-se uma realidade paralela, pois um fato falseado, por
exemplo, pode ganhar credibilidade quando é dito por um avatar fidedigno de um
político expressivo, que faz apelos e sensibiliza a plateia.
Nesse
sentido, é relevante pontuar que, a partir de 2023, o Tribunal Superior
Eleitoral (TSE) adotou um tratamento mais contundente em relação à IA
generativa, passando a tratar, de forma mais direta, os impactos do uso da IA
generativa, o que inclui exigências de rotulagem de conteúdos sintéticos e a
responsabilização de candidatos e partidos pelo uso de deepfakes.
Há
também iniciativas de outras instituições no sentido de tentar esclarecer as
pessoas sobre a IA mostrando como identificar o que é “fato” do que é “fake” ou
como identificar se um vídeo é ou não deepfake.
As
dicas são muitas: observar os detalhes do rosto, como mudanças no tom da pele;
observar as expressões daquela pessoa no vídeo, se são ou “naturais” ou se são
muito bruscas; vale também observar o movimento do corpo e o movimento dos
olhos; ficar atento aos lábios não sincronizados com a fala; buscar a origem do
vídeo.
As
dicas são pertinentes, mas inócuas. Primeiro, porque a tecnologia avança muito
e produz peças irretocáveis; segundo, porque as pessoas não assistem a vídeos
como quem faz uma investigação; terceiro, porque as pessoas não se interessam
mais, de modo geral, pelo binômio verdadeiro ou falso.
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O que é falso faz diferença?
Divulgado
em abril deste ano, o Painel TIC – Integridade da Informação, produzido pelo
Comitê Gestor da Internet com 5.250 usuários de internet a partir de 16 anos
mostrou que: a) mesmo que as pessoas admitam certo grau de desconfiança, nem
todos conseguem distinguir informações verdadeiras de falsas; b)
aproximadamente um terço das pessoas entrevistadas afirma que “não vale a
pena”, “não faz diferença para a vida” delas ou “não tem interesse” em
pesquisar se as informações recebidas são verdadeiras ou falsas.
A
arquitetura da extrema direita no mundo passa por uma articulação que envolve a
desinformação como arma política de guerra – e isso não é mais novidade. A
tecnologia está sendo aprofundada com esse fim, o que conta com a benesse das
big techs, as plataformas digitais transnacionais, que dominam o mundo e
enfrentam os Estados Nacionais em qualquer parte do mundo.
Portanto,
no mundo contemporâneo com domínio da tecnologia, a ofensiva contra os
oponentes se dá pelos enxames de IA, pelas campanhas coordenadas e permanentes
de desinformação, pela explosão de deepfakes em campanhas eleitorais, pelo
poder sem controle das big techs, pela ausência de equipes de combate à
desinformação eleitoral nas plataformas… a lista de possibilidades é enorme,
infelizmente.
Assim
sendo, é imensa a chance de haver ataques coordenados de desinformação com uso
sofisticado de IA às vésperas desta eleição de 2026, e isso não é derrotismo ou
pessimismo – é apenas um palpite diante do quadro complexo e desafiador.
Nesse
cenário, fica o alerta de Giuliano Da Empoli, em “A hora dos predadores”:
“Ao
longo das três últimas décadas, os líderes políticos das democracias ocidentais
se comportaram, diante dos conquistadores da tecnologia, exatamente como os
astecas do século 16. Confrontados com os trovões e os relâmpagos da internet,
das redes sociais e da inteligência artificial, eles se submeteram – na
esperança de que um pouco de seu pó de pirlimpimpim respingasse sobre eles”.
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Pequeno glossário
>>>
IA generativa:
Um tipo
de inteligência artificial capaz de criar conteúdos novos e originais,
como textos, imagens, vídeos, áudios e
códigos – em resposta a pedidos feitos por pessoas. Essa tecnologia aprende
padrões a partir de grandes volumes de dados para gerar saídas inéditas e
parecidas com o trabalho humano. O sistema é “treinado”, ele lê e analisa
grandes volumes de dados da internet ou de empresas e aprende a estrutura, a
gramática ou os traços visuais dos dados.
>>>
Deepfake:
“O
“deepfake” é o resultado de edições de aplicativos e ferramentas digitais.
Esses vídeos editados podem ser capazes de colocar o rosto de pessoas em vídeos
falsos, fazer a voz de alguém específico dizer coisas que essa pessoa nunca
disse e coisas do gênero. O termo em inglês mistura a técnica “deep learning”
com a palavra “fake”, significando o emprego da Inteligência Artificial para
criar uma situação falsa. Essa técnica é usada, muitas vezes, para produzir
memes ou brincadeiras inocentes com pessoas do próprio círculo de amizade. No
entanto, criar esses tipos de vídeos pode gerar problemas sérios,
principalmente quando se fala em ano de eleição“.
>>>
Big techs:
“Uma
empresa de tecnologia de grande porte e influência global, que desempenha um
papel fundamental na moldagem da indústria tecnológica, da economia e da
sociedade em geral. As empresas big techs, ou tech bigs, são conhecidas por sua
atuação em várias áreas, como internet, software, hardware, serviços em nuvem,
comércio eletrônico, entre outros. Elas costumam ser caracterizadas por sua
capitalização de mercado substancial, influência na indústria e presença
internacional marcante”.
>>>
Montezuma II:
Rei
asteca que governou, entre 1502 e 1520, o que hoje é o atual México, momento em
que aquela civilização alcançou seu auge econômico e militar. Da Empoli (2026)
faz uma analogia da história de Montezuma com a história de políticos em
relação ao que ele chama de “conquistadores da tecnologia”. No século 16,
quando o conquistador espanhol Hernán Cortés chegou à capital asteca, Montezuma
reuniu seus conselheiros para saber o que fazer. Houve debates e muitas
opiniões, e Montezuma tentou evitar a guerra e decidiu enviar embaixadores com
presentes. A estratégia não adiantou, os espanhóis dominaram, ele foi preso e
morreu durante conflitos em 1520.
Fonte:
Por Eliara Santana, em Viomundo

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