sexta-feira, 31 de julho de 2026

Quilombo resiste onde o São Francisco encontra o mar

É difícil dizer onde um termina e o outro começa. Bem aqui, onde o rio São Francisco bate no meio do mar, as ondas encrespam a superfície da água cristalina. No lençol azulado que parece não ter fim, costura-se o verde das ilhas, ilhotas, terras férteis cobertas de vestígios de Mata Atlântica, o branco das dunas, pequenos portos, além das lagoas marginais e manguezais, muitos manguezais: patrimônios biológicos, berçários de inúmeras espécies. Mas nem sempre essa beleza pertenceu a quem nela vivia. Vestígios de plantações de algodão e de mais de 20 engenhos dão notícia de uma outra época, anterior à Lei Áurea. Ali se concentrava a maior parte das pessoas escravizadas do Baixo São Francisco. Como o lugar também tinha muita mata nativa, era ideal para acolher os fugidos. Então, era conhecido como Refúgio dos Negros.

Pois, mesmo depois do documento assinado pela Princesa Isabel, o povo que vivia da pesca artesanal e da terra tinha liberdade limitada. A terra onde moravam e plantavam havia gerações era entendida como propriedade dos fazendeiros da região, supostos donos que, tivessem título ou não, exerciam ali um domínio incontestado. Era cerca e mata-burro para todo o lado; se sentiam presos em seu próprio território. Assim contam os moradores do Território Quilombola Brejão do Negros, a 120 km da capital sergipana, Aracaju.

“Era assim: se a senhora bater três alqueires de arroz, dois é para o fazendeiro e um é da senhora. Desse seu, ainda vai pagar todas as despesas do trabalho”, conta dona Marília dos Santos, olhos fixos nos meus e mãos revirando o ar. Chegada por essas terras em meados dos anos 1970, ela me diz que muita coisa mudou desde a época dos “meeiros” – que de “meia” só tinha palavra, já que, na prática, era três por um.

O meeiro era o trabalhador sem-terra que cultivava na propriedade de um latifundiário e, em troca do uso da terra, dividia a colheita ao meio com o dono. Era a lógica da meia, ou meação, comum na foz e em toda a extensão do Rio São Francisco, segundo pesquisas históricas sobre a região. Na prática, porém, a relação era claramente exploratória: da suposta “metade”, que já era desproporcional, como relata dona Marília, ainda saíam as despesas da própria lavoura, reduzindo o que sobrava para quase nada. Geração após geração, o ribeirinho do Baixo São Francisco permanecia preso àquela terra, cativo de um fazendeiro que decidia tudo, da colheita à própria permanência no lugar. Dona Marília goza do respeito que anciãs costumam ter por aqui. Enquanto fala, todos calam. Estamos em uma roda de conversa em Resina, uma das principais comunidades que hoje compõem o Território Quilombola Brejão dos Negros. Sentados em círculo, os representantes da comunidade traçam um panorama histórico que vai desde a exploração do trabalho até o reconhecimento como território quilombola, fruto de uma intensa mobilização e resistência. Embora a área já tenha sido demarcada pelo Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), ainda não há titulação. São cinco as comunidades que se autorreconhecem como quilombolas: Resina, Santa Cruz, Carapitanga, Brejo Grande e Brejão dos Negros. Cada uma delas também tem uma associação que representa a população quilombola local.

<><> “A gente achava que aquilo era normal”

Na era da meação, a opressão não parava na colheita. Manoel Silvino Santos, que começou a trabalhar na fazenda aos 10 anos, descreve a vida como um “escravo preso”. Não havia escola para os filhos dos trabalhadores. Enquanto os filhos dos proprietários estudavam em Penedo ou Aracaju, a educação era restrita ao que fosse possível ensinar em casa, entre as paredes de taipa. “Historicamente, a gente só trabalhou para enriquecer os outros, para formar o filho do fazendeiro como advogado, juiz, promotor, e o nosso ainda vive na situação de pobreza”, diz.

Quando os moradores tentaram trazer luz elétrica para o povoado, ganharam motor e fiação de um bem-intencionado vizinho do povoado de Cabeço, mas a resposta dos fazendeiros foi imediata. “Ele perguntou por qual ordem que nós estávamos com luz na Resina e que ‘é para tirar, porque a Resina é minha’”, conta Dona Marília. Sob ameaça, os moradores foram forçados a arrancar a própria fiação e voltar para a iluminação à base de lamparina e velas. “Era uma vida triste que nós vivíamos aqui dentro”, lembra Dona Marília, com os olhos úmidos. “A gente não compreendia que estava sendo explorada. A gente achava que aquilo era normal e eles estavam sendo bons, cedendo a terra para a gente trabalhar”, complementa Maria Izaltina Santos, presidente atual da associação-mãe, a Associação da Comunidade Remanescente do Quilombo Brejão dos Negros, localizada em Santa Cruz de Brejão dos Negros, que representa legalmente o território.

Nos anos 1990, a chegada das máquinas para o cultivo de arroz tornou o meeiro dispensável. Sem trabalho na lavoura, as famílias empurraram sua sobrevivência quase inteira para o mangue. A cata de caranguejo, camarão, marisco e a pesca artesanal viraram, de uma hora para outra, o sustento de quase todo mundo. Quem tinha quintal, plantava o que dava; mas era do mangue que vinha o sustento de fato.

Até que isso também passou a ser ameaçado. Os fazendeiros, que não precisavam mais de braços para plantar, continuavam donos — ou se diziam donos — de tudo em volta, inclusive das margens do rio e das lagoas. E, movidos por suas próprias disputas de posse contra outros posseiros da região, apertaram o cerco: o acesso ao mangue, ao rio e às lagoas marginais começou a ficar cada vez mais limitado. Mais porteiras foram colocadas, jagunços armados apareceram. Assim como as terras, os acessos foram sendo perdidos. Quando foram proibidos de andar livremente em seu território, os quilombolas se deram conta de que tudo estava sendo privatizado e que, no fim, sua própria luta por permanecer ali se confundia com a disputa que corria por trás das cercas.

<><> “Qual era a nossa história?”

A virada veio de fora, com batina e perguntas incômodas. Em 2005, chegou à região o padre Isaías Nascimento, da Cáritas Arquidiocesana Nordeste 3, que desenvolvia trabalhos sociais junto à Igreja. Ao se deparar com a situação, ele começou a questionar a exploração e a identidade da comunidade. “Qual era a nossa história? A gente nem sabia da nossa história”, recorda Izaltina. “A luta tomou corpo a partir de 2005, mas desde 1982 o movimento sindical rural em Brejo Grande, junto com alguns pescadores artesanais, reivindicava uma política pública de inclusão social”, conta Padre Isaías. A reivindicação era a reforma agrária, que nunca atendeu o município de Brejo Grande devido às pressões dos latifundiários e poderosos da região. Na época, mais de 40% da cidade estava nas mãos de uma família, segundo o pároco. “Tinha mais de 500 famílias pobres precisando de acesso à terra.” Dona Marília guarda uma cena com nitidez: “O padre sentou o povo embaixo de uma árvore e fez a história para todos.” Depois, perguntou quem tinha coragem de enfrentar. Marília foi das primeiras a dizer que sim. “Vamos pra luta.”

Foi a partir daí que a semente da identidade quilombola começou a germinar. Jonatas dos Santos, filho de dona Marília, explica que, até então, ninguém sabia que eram quilombolas, ou que a legislação lhes garantia o direito àquelas terras. “Nós éramos descendentes de escravos, e toda comunidade descendente de escravos é dona por direito [dessas terras], foi o que nos disseram.” Para a comunidade, o processo permitiu reconhecer na história seus antepassados e lembrar que muitos também eram indígenas que foram expulsos, escravizados ou dizimados. A busca pela origem, no entanto, esbarrava na resistência dos mais velhos em falar sobre o tema, mesmo diante de vestígios concretos do passado escravista, como os troncos grossos escurecidos com argolas fincadas que ainda são vistos próximos a Brejo Grande. “Minha mãe dizia que era do tempo do cativeiro, mas tinha muita gente que eu acho que teve um pacto com os proprietários. Não queriam falar sobre o assunto”, diz Izaltina.

Para entender melhor essas histórias mal contadas, a comunidade solicitou a certificação da Fundação Cultural Palmares, recebida em 2006, ano em que também foi fundada a Associação Santa Cruz. O Incra, então, realizou o primeiro cadastramento. A luta por reconhecimento se uniu à de comunidades vizinhas — Resina, Brejo Grande, Carapitanga e Brejão dos Negros —, ameaçadas de despejo, que se autorreconheceram como quilombolas e formaram um território coletivo. Mas o reconhecimento oficial acendeu um conflito. A construtora Norcon (hoje em processo de recuperação judicial) queria erguer um resort de luxo exatamente onde a comunidade da Resina vivia. O turismo estava se intensificando na região, e a foz do São Francisco era cobiçada. A empresa construiu casas para os moradores no povoado de Saramém e muitos, com medo, aceitaram. Segundo a comunidade, abrir mão de se reconhecer como quilombola era parte do acordo. “Os ribeirinhos quilombolas se reorganizaram a partir de sua identidade étnica, trazendo à tona seu modo de viver, sua relação com os manguezais e com o rio”, explica Alzení Tomáz, advogada, pesquisadora, educadora popular e mestre em ecologia humana e gestão socioambiental, que acompanha o território há mais de 25 anos por meio de instituições como a Sociedade Brasileira de Ecologia Humana (Sabeh). “Quando eles tomam consciência de ter o próprio território para ter autonomia e seus próprios sonhos, isso não acontece de forma rápida ou fácil”, pontua.

Para engrossar o caldo do medo, famílias influentes e a juíza da comarca de Neópolis (SE), Rosivan Machado, passaram a espalhar que o reconhecimento significaria um retrocesso. “Ela dizia que quem fosse quilombola ia voltar a ser escravo de novo”, conta Izaltina, repetindo as palavras da juíza. Uma verdadeira campanha contra a autodeclaração e a titulação foi lançada pela elite e alguns políticos da região. Segundo Alzení, havia pessoas que não queriam se identificar como quilombolas por medo da juíza, ou porque tinham parentes que trabalhavam para as quatro famílias mais poderosas da cidade. Várias reportagens com desinformação foram publicadas na imprensa conservadora local, além da colagem de cartazes nas portas de algumas casas: “Não ao quilombo / Movimento em defesa do patrimônio individual do Brejão dos Negros.” Houve até uma missa tumultuada na qual o padre Isaías e o então bispo precisaram sair sob proteção. Não à toa, o território entrou para o Mapa de Conflitos Envolvendo Injustiça Ambiental e Saúde no Brasil, plataforma colaborativa da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) que mapeia e dá visibilidade a disputas territoriais e violações que afetam a qualidade de vida e a saúde de populações vulnerabilizadas.

<><> Uma liderança baseada no cuidado

Jovens e mulheres assumiram a liderança do movimento quilombola nesse período. Jovens como Antônio Bonfim, primeiro presidente da associação, que tinha pouco mais de vinte anos e não estava sozinho. “Eu passei quatro anos na associação, fui a Brasília, a audiências públicas, fiz palestras… Sempre ao lado dos anciões e das mulheres. O poder da fertilidade é o feminino quem tem. O sagrado explica isso”, relata ele, que hoje exerce uma liderança espiritual e de resgate do sagrado de matriz africana no quilombo. “O papel espiritual é um papel coletivo e de proteção da luta quilombola”, reforça. Ao longo de anos, animais domésticos foram assassinados, barcos afundados, houve um incêndio na casa paroquial, ameaças de morte. “Foi uma luta terrível. Não tivemos baixas, mas muitas ameaças, sabe? Tivemos que ter escolta policial”, diz Jonatas do Santos. A bancada ruralista do Senado Federal chegou a contestar judicialmente a Declaração Quilombola e os procedimentos do Incra. Em 2015, quando o Relatório Técnico de Identificação e Delimitação (RTID) foi publicado, foram feitas 18 contestações.O Estado brasileiro reconheceu oficialmente o quilombo apenas em novembro de 2023, através da portaria 234. O Incra demarcou pouco mais de 8 mil hectares, mas, destes, apenas 750 hectares de terra foram liberados para uso da comunidade. A disputa, que envolve herdeiros de antigos fazendeiros e processos que se arrastam por mais de uma década, ainda é uma ferida aberta. Entre ocupações e reintegrações de posse de diferentes áreas, cercas delimitam conflitos por toda parte, mordendo o território. Os quilombolas de Brejão dos Negros esperam, há 20 anos, pela titulação. “A morosidade desse processo nos deixa vulneráveis, porque o nosso território está sendo invadido e destruído”, denuncia Maria Izaltina.

<><> Falta titulação, sobram tanques de camarão

A partir de 2010, aos conflitos fundiários se somou a chegada da carcinicultura (criação de camarão em tanques), atividade que, segundo estudos, degrada e envenena os manguezais com o uso de cloro e cal, matando alevinos e larvas de caranguejo ao devastar seu habitat natural. O camarão nativo, de água doce, quase não existe mais.No entanto, o negócio é lucrativo e tem se firmado como um símbolo de desenvolvimento e progresso, sendo incentivado pelos setores público e privado por meio de programas como o Filé de Camarão na Merenda Escolar. Tanques proliferam, inclusive os irregulares. As maiores concentrações estão em Carapitanga e Brejo Grande – basta olhar no mapa as manchas rosadas. Atualmente, Sergipe é um dos maiores produtores de camarão em cativeiro do país. Os danos também são sentidos na pele das pessoas, literalmente. É o caso do filho de Maria Auxiliadora de Souza dos Santos, a Dodora, uma das lideranças da Associação Quilombola do Município de Brejo Grande. “Ele perdeu o emprego e foi trabalhar nesses tanques. Não deram equipamento pra ele, nenhuma orientação. Acabou ficando todo queimado, marcado nas pernas, de mexer com esses químicos aí”, relata Dodora.

Em Carapitanga, onde a mariscagem já foi a principal atividade econômica, a comunidade relata que os tanques aparecem da noite para o dia, Muitos pertencem a pequenos produtores locais, moradores que já não conseguem tirar o sustento da pesca artesanal ou da cata de mariscos e migraram para a carcinicultura como alternativa de renda. “Carapitanga é altamente impactada e sofre com o desmatamento dos manguezais”, afirma Alzení Tomáz. “As comunidades aderem a partir de uma suposta lógica de ‘desenvolvimento’. São os próprios governos que estimulam só com essa perspectiva de ganhar dinheiro.” A economia atrofiada da região foi — e segue sendo — um prato cheio para o crescimento do hidroagronegócio. Em Brejo Grande, que apresenta o pior Índice de Progresso Social do estado de Sergipe — e um dos piores do Brasil —, trabalhar com carcinicultura se tornou uma alternativa atraente para moradores. A queda drástica da demanda por mão de obra nas lavouras de arroz, estimulada pela mecanização da colheita, é acompanhada pela acelerada escassez de espécies nativas na pesca artesanal e na mariscagem, agravada tanto pela contaminação que os tanques de camarão despejam no mangue quanto pela salinização das águas do rio. Somado a isso, o acesso à terra é limitado, já que grande parte do município segue concentrada nas mãos de poucas famílias tradicionais da região, e ainda mais considerando que o município ficou de fora da atual demarcação do território quilombola. Em alguns casos, como o de Maria de Lourdes dos Santos, o único jeito de ter roça é pedindo favor. “Um conhecido deixou a gente plantar num pedacinho do terreno dele”, conta ela. Ali cultivam macaxeira, amendoim, arroz, quiabo, couve e outras hortaliças para subsistência. Parte da produção fica para o dono da terra — um arranjo que, para quem conhece a história do lugar, soa familiar.

<><> São Francisco: um rio engolido pelo mar

Na foz do São Francisco, pesca e agricultura também são impactadas pelas alterações na vazão da água, fruto da instalação de usinas hidrelétricas rio acima (como a de Xingó) e das mudanças climáticas. Secas prolongadas e elevação do nível do mar têm transformado de maneira dramática a dinâmica da região. Um exemplo é o povoado de Cabeço, que foi engolido pelo oceano. O avanço da água do oceano e a perda de força do rio também têm intensificado a salinização do solo e dos lençóis freáticos no Baixo São Francisco. Nas lagoas agora salobras, cada vez menos arroz é cultivado. Os pescados típicos de água doce também foram morrendo. E há falta de água potável para consumo. A carcinicultura acentua ainda mais esse cenário. “Tem muitos riachos que eles aterram para fazer o viveiro [de camarões]. Antigamente a gente bebia água diretamente do rio, lavava prato e roupa, tudo na beira do rio. Hoje não tem mais condição”, relata Enéias Rosa, agricultor, uma das lideranças do povoado de Resina. A pilombeta, peixe que sempre existiu na foz, é um exemplo: “antigamente, chegou a R$ 0,20 o quilo. Agora está R$ 22, R$ 25 o quilo e não acha”. Os ribeirinhos usam a água salobra para algumas atividades do dia a dia, mas dependem de caminhões-pipa para obter água potável — mesmo vivendo às margens de um dos maiores rios do Brasil.

Pesquisadores do projeto MapBiomas Caatinga confirmam o que Enéias descreve: a bacia do São Francisco já perdeu 50% da superfície de água natural entre 1985 e 2020. As oito hidrelétricas construídas ao longo dos 2.800 quilômetros do rio agravam o problema, expondo grandes volumes d’água à evapotranspiração em uma região de clima severo. O desmatamento para expansão agrícola aprofunda o cenário: hoje, quase 70% da cobertura do Baixo São Francisco é de origem antrópica; o maior índice entre todas as sub-bacias do rio. O professor Washington Rocha, coordenador do projeto MapBiomas Caatinga, aponta ainda a ausência de políticas que equilibrem o uso intensivo da irrigação com a capacidade real do rio — um vazio ainda mais grave quando se considera que apenas 4,4% da vegetação nativa remanescente do Baixo São Francisco está dentro de áreas protegidas, o menor índice de toda a bacia. E não para por aí. Por ser uma área privilegiada, plana e banhada tanto pelo rio quanto pelo mar, em local icônico e de beleza cênica, não faltam investidores interessados na exploração turística. A especulação imobiliária segue forte e difusa na região, reforçando a ideia de que esse pedaço de paraíso deveria ser privado e exclusivo aos mais abastados. Mas, dentro da comunidade, outra lógica se constrói, devagar e com as mãos que têm. “É fundamental a gente fortalecer nosso turismo de base comunitária, porque assim todos ganham um pouquinho”, diz Juciana dos Santos Gomes, moradora da Resina. No mesmo terreno onde mora, a poucos metros da beira do rio, a família construiu dois pequenos chalés para receber hóspedes que queiram viver uma experiência quilombola autêntica.

<><> O arroz que liberta

Chega-se de barco. São cerca de 30 minutos navegando pelo São Francisco a partir do pequeno porto da Resina até os arrozais. No caminho, Enéias Rosa indica as terras ainda não desapropriadas, os portos, os lugares de ameaça, as fazendas onde os posseiros estão. Conhece cada curva do rio. Quando chegamos ao arrozal, está de facão na mão, e o usa para colher e abrir um coco, um cacho de banana e a melhor goiaba que comemos nos últimos tempos. Maxixe, quiabo, macaxeira, melancia e tantas outras coisas crescendo juntas “arrodeiam” os campos à beira d’água. Se em outras partes do Baixo São Francisco a lavoura de arroz minguou com a salinização, em Resina o cultivo resistiu, mas dependente de agrotóxico e adubo comprados fora, do agronegócio. Nas “levadas” (as águas que irrigam os lotes), morriam camarões, peixes e siris. “Até a abelha desapareceu. Vagalume, borboleta, tudo chegou a desaparecer por causa do agrotóxico”, lembra Enéias. A terra empobrecia. E o que se colhia mal cobria o que se gastava. Antes não produziam alimentos; produziam dívida.

Foi durante a pandemia que a discussão virou urgência. Depender de cesta básica era, de certa forma, reeditar uma velha submissão. A comunidade queria produzir o próprio alimento. Foi nesse momento que chegou o gaúcho Mauro Cibulski, da Rede Balaio de Solidariedade, em parceria com a Cáritas Arquidiocesana Nordeste 3. A proposta era simples e radical: plantar sem veneno. “A gente ficou meio desconfiado, mas testou”, conta Enéias. A minhoca reapareceu, caranguejos e borboletas voltaram. “Vimos que a terra se fortaleceu”, diz Enéias. “A planta ficou mais resistente, mais bonita, verde, forte.” Agora os inseticidas são feitos com ervas, castanha de caju e produtos da própria comunidade. A palha do arroz, a cama da galinha, a urina da vaca, tudo vira adubo.

A Resina é hoje a maior produtora de arroz agroecológico de Sergipe, e o único quilombo no estado a cultivar dessa forma. Em 2024, foram 254 toneladas colhidas dos cerca de 40 hectares. O arroz Velho Chico, produzido sem agrotóxicos, chega à Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) e ao governo estadual, que o repassa para instituições e famílias em situação de vulnerabilidade alimentar por meio do PAA (Programa de Aquisição de Alimentos). “Tudo começou com o arroz. O manejo agroecológico mudou nossa vida, nos deu consciência e renda. Foi a libertação do nosso povo”, afirma Enéias. Para Mauro Cibulski, ainda faltam passos decisivos, como investimento em maquinário para plantar, colher e secar, além de assistência técnica construída junto com a comunidade e formação de lideranças. “Isso é uma dívida histórica. O governo deveria incentivar, especialmente porque está protegendo o meio ambiente”, diz ele. E aponta o nó central: nada disso se consolida sem a titulação do território. Enéias sabe disso. Tanto que, quando fala do futuro, fala de terra e de gente jovem. “Meu sonho é que esse território venha para nossa mão, e que venha com investimento, porque se entregar a terra e não dar condição de produzir, depois vão chamar de preguiçosos”, diz ele. “E que a nossa juventude fique aqui. Hoje tá muito difícil segurar os jovens no campo. O sonho é que eles estudem, se formem, e voltem para trabalhar aqui. Porque a gente tem tudo para ser feliz. A gente só precisa de acesso à terra, ao crédito, à água, aos direitos.”

<><> “Quando a gente se junta, descobre que somos uma só”

A poucos quilômetros dali, na comunidade de Carapitanga, Mislaine Lima é o exemplo de uma juventude que fica. Não só fica: estuda, coleta propágulos no mangue e trabalha para que ele volte a ser o que era. “A gente fala aqui que são as canetinhas do mangue”, explica ela, mostrando os brotos que serão replantados nas áreas destruídas — seja pela carcinicultura, por posseiros ou qualquer outro agente. Mislaine integra o Projeto Povos das Águas, iniciativa da Associação dos Pequenos Agricultores do Estado de Sergipe (Apaese) em parceria com o Programa Petrobras Socioambiental. O projeto atua nos municípios de Brejo Grande e Pacatuba com reflorestamento de manguezais, formação ambiental nas escolas, apoio à comercialização de produtos e tecnologias sociais que incluem tratamento de águas residuais. Se sururu já quase não se encontra mais, o caranguejo, que antes era catado enfiando o braço na lama, ficou tão no fundo que agora precisa da “redinha” para ser capturado. O problema é que a redinha é uma armadilha artesanal que, quando esquecida no mangue, vira contaminante. “Todos nós sobrevivemos do mangue, é o Pai Véio. Por isso, temos que ter essa consciência de não deixar resíduos lá. Eu estou estudando para isso. Não vou ficar com a consciência tranquila se eu souber que deixei algo no mangue”, complementa Mislaine. “Eu sou entre indígena e cabocla, negra, africana”, diz Mislaine, mãe aos 16 anos de Levi e Lorena, que às vezes aparecem no meio da conversa sem cerimônia. Quando fala dos encontros e intercâmbios dos quais participa nos programas sociais, fala de mistura de culturas que se encontram. “É importante que quando a gente se junta, a gente descobre que somos uma só.” É nessa mesma lógica de cuidado e pertencimento que Antônio Bonfim entende a relação com o mangue. Para ele, Nanã, orixá das águas paradas, da lama e das origens, está presente naquele ecossistema. Quem destrói o mangue não destrói apenas um bioma: ofende um ser. “A natureza é um dos pilares sagrados nas religiões de matriz africana. Existe o dito: ‘sem folha não há orixá’.”

Na tarde seguinte, numa caminhada pela mata de Santa Cruz, Maria Izaltina vai apontando o que a mata dá: jatobá, cruiri, ubaia, ingá, amescla, olho-de-boi — este último “bom de carregar na bolsa como proteção”, recomenda. O chão está coberto de folhas secas que são recolhidas para adubar as plantas do quintal. No fim da trilha, nos espera uma gameleira centenária de raízes enormes, com o tronco envolto em um laço de pano branco e um vaso de barro cheio d’água e flores aos pés. Antes de chegar, pede-se licença. Antes de tocar, avisa-se: a árvore espelha a energia de quem a toca. “A nossa árvore ancestral é uma conexão forte com nosso sagrado”, explica Bonfim. Acendem velas, ajoelham-se, batem palmas, rezam. Existem três terreiros de matriz africana em todo o território, mas muitas benzedeiras, benzedeiros, raizeiras e rezadeiras vivem “escondidos”, segundo Bonfim. A maioria ainda é católica, mas a comunidade vai se abrindo, aos poucos, para o sagrado que ficou guardado por gerações, sempre na raiz, mesmo quando encoberto. “A gente é que separa o que é católico do que é de matriz africana, porque no plano astral não funciona assim. É arcanjo precisando de Exu e Exu precisando se comunicar com arcanjo.”

<><> Não existe um só quilombo: são muitos Brejões que insistem na vida

Cada comunidade tem sua nuance, sua dor, seu ritmo de conquistas. Brejo Grande e o povoado Brejão dos Negros não estão dentro da área demarcada pelo Incra. Carapitanga sofre o avanço mais acelerado da carcinicultura, com o mangue sendo devastado metro por metro. Resina e Santa Cruz concentram lideranças e algumas das conquistas mais visíveis do território, mas seguem alvos de ameaças concretas e têm muito chão pela frente até estarem de fato protegidas. A diversidade interna ora é riqueza, ora é fratura. Em todas as comunidades, escutamos relatos de conflitos, decepções e até moradores que atuam contra as associações quilombolas, criando outras com propostas contrárias. “Essas tensões só nos enfraquecem”, diz Manoel Santos. “E elas são estimuladas. Eles sabem que, quanto mais a gente estiver desunido, mais fácil nos derrubar.”

Para organizar toda essa complexidade e se proteger, a comunidade elaborou, em 2023, seu Protocolo de Consulta: um documento feito pelos próprios quilombolas, com apoio de pesquisadores e organizações como a Teia dos Povos, a UFS (Universidade Federal de Sergipe), a Cáritas e a Sabeh. “Fomos apenas facilitadores do processo”, diz Alzení, da Sabeh. “Foi a comunidade que fez sua cartografia, contou sua história.” Mais do que um mapa, o protocolo é um instrumento político: uma forma de pautar o Estado e fortalecer o processo de titulação. O documento é categórico: “Como quilombolas e guardiões desse território, temos a responsabilidade de observar e avaliar bem toda ação que venha interferir em nosso lugar. O quilombo é um lugar de vida, hoje, amanhã e sempre.” Essa vida tem muitas formas e muitos rostos. Persiste, por exemplo, em Magno Santos, que faz mestrado em educação quilombola na UFS enquanto ensina biologia numa escola pública a 100 quilômetros de casa e coordena a escola de licenciatura em ensino quilombola, implementada há um ano no próprio território. Além de professor, ele também é pescador, agricultor e apicultor. “A apicultura consegue manter o território produzindo. Isso é o que mantém as pessoas aqui”, diz ele, orgulhoso de já ter formado seis alunos quilombolas na atividade. Persiste também no que Maria Izaltina chama, quase de passagem, de “nossas coisas”: o artesanato em crochê e palha que as mulheres levam para as feiras, a cachaça de cambuí que alguns chamam de uísque de bolinha, as geleias de ubaia, o reflorestamento com mangabeiras e palmeiras nativas. E a medicina tradicional, que as mães ensinaram e que quase se perdeu. “Toda planta serve para alguma coisa”, diz ela.A presidente da associação-mãe de Brejão recentemente tornou-se pesquisadora-cidadã de um grupo de pesquisa da Fiocruz e foi convidada a dar aula em universidade sobre movimentos sociais. Bonfim também, sobre ancestralidade, na UFS. O território que por décadas foi tratado como invisível agora ocupa salas de aula.É da fé na transformação e na vida que persiste que Izaltina fala: “Como disse Nego Bispo: o rio quando sai e encontra outro rio ele não acaba não, ele segue outro. O começo não chega ao fim, aí é o começo de novo. Sempre vai ter alguém recomeçando. A gente vai embora, parte, mas alguém continua.”

 

Fonte: Mongabay

 

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