Terceira
guerra mundial: sensação de que o mundo já está nela ganha força
Um
navio iraniano afundado no Mar Cáspio por drones ucranianos.
Trinta
mil soldados norte-coreanos a caminho da linha de frente russa.
Drones
Shahed, fabricados no Irã, caindo sobre Kiev havia meses — agora sendo abatidos
por especialistas ucranianos enviados ao Golfo Pérsico para ajudar a
proteger aliados americanos de outros drones Shahed, disparados por outro país.
Há dois
anos, cada um desses fatos seria tratado como episódio isolado, próprio de
uma guerra regional específica.
Hoje, cada vez mais gente enxerga neles a mesma coisa: pedaços de um único
conflito, que se espalha.
A
sensação de que o mundo já vive — ou está a poucos passos de viver — uma guerra
mundial deixou de ser provocação acadêmica e virou tema corrente entre
analistas de segurança internacional, colunistas e formuladores de política
externa.
Não é
consenso, e ninguém está dizendo que o mundo caminha para uma repetição das
duas guerras do século 20.
Mas a
percepção de que os conflitos da Ucrânia e do Irã pararam de correr em paralelo
e passaram a se tocar diretamente veio ganhando corpo nas últimas semanas — e
os encontros do presidente americano, Donald Trump, nesta terça-feira (28/7),
em Washington, com o ucraniano Volodymir Zelensky e com o israelense Benjamin
Netanyahu, ajudaram a reavivar essa sensação, ao reunir na mesma sala, no mesmo
dia, os líderes dos dois lados de guerras que já deixaram de correr em
paralelo: de um lado, Rússia e Irã, que trocam armas e inteligência entre si;
do outro, Ucrânia, que agora troca tiros diretamente com o Irã.
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A tese de Paul Poast
"Os
EUA continuam equipando, treinando e fornecendo inteligência à Ucrânia — fazem
tudo menos puxar o gatilho. E a Rússia está fazendo o mesmo pelo Irã:
fornecendo armas, informações de alvejamento e assistência de
planejamento."
A frase
é do professor de Relações Internacionais e Ciência Política da Universidade de
Chicago, Paul Poast, em entrevista à BBC News Brasil em maio — um dos primeiros
a dar nome e substância a essa sensação.
Para
ele, dois elementos bastam para justificar o conceito de guerra mundial: duas
grandes guerras simultâneas em continentes diferentes, a da Ucrânia e a do Irã,
e o envolvimento direto de grandes potências em ambas, cada uma apoiando o
adversário da outra no conflito oposto.
Poast
reconhece que a escala dos conflitos atuais está longe da devastação das duas
guerras do século 20, mas recorre a um paralelo histórico menos óbvio: a Guerra
dos Sete Anos, no século 18, que também reuniu múltiplas potências em múltiplos
teatros sem alcançar aquele patamar de destruição.
"Essa
é uma analogia muito melhor para pensar o conceito de guerra mundial",
disse. Já em maio, via na China o fator mais imprevisível da equação — o risco
de Pequim interpretar o desgaste americano na Ucrânia e no Irã como uma janela
de oportunidade sobre Taiwan. "Esse seria o grande ponto de
inflexão", afirmou.
Nesta
terça-feira, Poast atualizou sua avaliação à BBC News Brasil: "Os
acontecimentos recentes e as informações mais atuais reforçam como aquilo que
talvez parecesse, em maio, uma afirmação provocativa — a de que vivemos uma
guerra mundial — hoje é visto como plausível, talvez até amplamente aceito. Os
dois conflitos estão atraindo mais países, e nenhum dos dois parece perto do
fim."
O
professor repetiu, ainda, a ressalva que fizera antes: "Isso não significa
que os conflitos vão atingir o nível de violência da Primeira ou da Segunda
Guerra Mundial, mas isso não é necessário para que um conflito se integre a uma
guerra mundial."
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O aviso de Gideon Rachman
O
comentarista-chefe de política externa do Financial Times, Gideon Rachman,
tratou do mesmo fenômeno em artigo publicado na segunda-feira (27/7).
"Não
há dúvida de que tanto a China quanto os EUA estão se preparando ativamente
para uma guerra um contra o outro", afirma.
Para
Rachman, os conflitos da Europa, do Oriente Médio e da Ásia — "ainda
largamente distintos" — "começam a se sobrepor".
Ele
lembra que as duas guerras mundiais do século passado envolveram alianças
identificáveis e conflito direto entre as maiores potências do planeta, e nota
que o conjunto atual de conflitos já cumpre parte desses critérios: guerras
sobrepostas em dois continentes, com influência sobre conflitos na África, e
uma aproximação entre Rússia, China, Irã e Coreia do Norte que estrategistas
americanos batizaram de "eixo dos adversários" (ou "eixo da
desordem").
Rachman
cita o ex-diretor sênior de planejamento estratégico da Casa Branca no governo
de Joe Biden, Thomas Wright, para quem "a China ajudou a Rússia a
reconstruir sua capacidade militar muito mais rápido do que seria possível de
outra forma, fornecendo máquinas-ferramenta, microeletrônica e outras
tecnologias cruciais, além de cooperar na produção de drones".
Ele
pondera que a postura de Donald Trump em relação a aliados tradicionais dos
EUA, somada ao isolamento crescente de Israel na Europa e em parte do Golfo,
dificulta identificar um bloco unificado de resposta a esse eixo. Mesmo assim,
conclui: "Conflitos regionais e erros de cálculo entre grandes potências
podem ser uma combinação letal."
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Ferguson: 'Não é uma pergunta absurda'
Nem
todo mundo trata o tema com o mesmo peso. O historiador britânico Niall
Ferguson, do Hoover Institution, em Stanford, vem tratando do assunto com mais
cautela desde março, quando publicou dois textos a respeito.
No
primeiro, escrito nos primeiros dias da guerra entre Estados Unidos, Israel e
Irã, lembrou que a mesma pergunta já havia surgido quatro anos antes, com a
invasão russa da Ucrânia: "Hoje, sete dias depois do início da mais
recente guerra contra o Irã, a mesma preocupação ressurgiu. Não é uma pergunta
absurda."
Sua
conclusão, porém, foi mais reservada que a de Poast: prefere falar em
"Guerra Fria 2" a uma Terceira Guerra Mundial propriamente dita.
Duas
semanas depois, ao analisar o envio de fuzileiros navais americanos ao Estreito
de Ormuz, foi mais longe na descrição do que via: "A guerra com o Irã é
ainda mais futurista que a guerra na Ucrânia. Os dois lados usam drones, e
muitos ataques de precisão dos EUA e de Israel têm alvos selecionados por
inteligência artificial. Isso pode entrar para a história como a primeira
guerra de IA".
Para
ele, o movimento americano no Golfo Pérsico abre janelas estratégicas para
China e Rússia explorarem outros pontos de estrangulamento globais — como o
Estreito de Taiwan, do qual depende a cadeia global de semicondutores.
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A leitura mais radical de Jeffrey Sachs
No
outro extremo do espectro está o economista americano Jeffrey Sachs, da
Universidade Columbia. Em entrevista ao podcast Greater Eurasia, do analista
Glenn Diesen — professor de Ciência Política na University of South-Eastern
Norway —, Sachs foi taxativo em março: "Provavelmente estamos nos
primeiros dias da Terceira Guerra Mundial, e a questão será saber se ela ficará
contida."
E ele
completou, listando o que via como sintomas do mesmo fenômeno: "A guerra
na Ucrânia, claro, continua. A guerra no Oriente Médio hoje se espalha por toda
a região. A guerra entre Paquistão e Afeganistão talvez tenha alguma relação
com isso. Um navio de guerra iraniano foi afundado na costa da Índia. Por todas
essas razões, há combates em todo o mundo. Esses combates estão, ao menos
frouxamente, ligados entre si. O que não sabemos é o quão próxima é essa
ligação".
Sachs
soma sua voz à de Poast e Rachman no diagnóstico de que os conflitos deixaram
de ser isolados — mas sua leitura das causas é bem mais controversa, atribuindo
o quadro a uma "busca delirante de hegemonia global" por parte dos
Estados Unidos.
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Um debate ainda em aberto
Nem
todos os analistas endossam o rótulo de guerra mundial. Andrea Kendall-Taylor,
do CNAS (Center for a New American Security, um dos principais think tanks de
segurança nacional de Washington), prefere falar em "eixo da
desordem" — cooperação real e crescente entre Rússia, China, Irã e Coreia
do Norte, mas sem aliança formal, e limitada pela cautela de cada país em
evitar confronto direto com os EUA.
Já a
ex-conselheira da Casa Branca Fiona Hill, do Brookings Institution, chamou a
atenção em junho para outro ângulo: tanto Washington quanto Moscou estão
consumindo seus próprios arsenais nas duas guerras, o que fragiliza a
confiabilidade de ambas as potências como fiadoras de segurança para seus
aliados.
Nenhum
dos conflitos dá sinal de que vai terminar em breve. E a cada semana cresce a
chance de mais um país ser puxado para dentro deles — pela Coreia do Norte,
pela China, por quem mais decidir que tem algo a ganhar.
É um
cenário que preocupa mais gente a cada dia que passa.
¨
Estamos a caminho da Terceira Guerra Mundial ou este é um
receio exagerado?
Depois
do início da guerra dos Estados Unidos e Israel contra o Irã, existe o receio de que o atual conflito no Oriente
Médio possa se transformar em algo muito maior. A guerra atingiu, além do Irã, mais de 10 outros países da região, como os Emirados Árabes Unidos, Iraque, Bahrein, Kuwait, Arábia, Omã, Azerbaijão, Chipre, Síria, Catar e Líbano, além da Cisjordânia ocupada. Muitos receiam que o conflito
atual possa deixar de ser regional e se tornar uma guerra mundial.
Mas este receio realmente tem fundamento?
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Quando um conflito se torna uma guerra mundial?
"As
pessoas tendem a pensar que as guerras são cuidadosamente planejadas e que
aqueles que vão para a guerra sabem exatamente o que estão fazendo",
explica a professora emérita de história internacional Margaret MacMillan, da
Universidade de Oxford, no Reino Unido, em entrevista ao programa de rádio The
Global Story, do Serviço Mundial da BBC. "De fato, se você observar as
guerras do passado... a Primeira Guerra Mundial [1914-1918]... muito do que
gerou o seu início ocorreu por acidente e porque as pessoas subestimaram seus
oponentes", prossegue ela. "Pense nisso, às vezes, como uma espécie
de briga no pátio da escola."
Foi o
assassinato do sobrinho do imperador austro-húngaro Francisco José (1840-1916),
o arquiduque Francisco Ferdinando (1863-1914), que gerou toda a cadeia de
eventos que levou à Primeira Guerra Mundial, segundo MacMillan. Em questão de
semanas, um grupo de alianças empurrou a Europa para o conflito. O Império
Austro-Húngaro se levantou contra a Sérvia, a Alemanha apoiou a Áustria,
a Rússia se mobilizou em
apoio à Sérvia, a França apoiou a Rússia e o Reino Unido, em nome da honra e da estratégia, também
entrou na guerra. Tudo o que se seguiu se tornou uma catástrofe global, explica
a professora.
O
professor de história internacional Joe Maiolo, do King's College de Londres,
define "guerra mundial" como uma guerra generalizada, envolvendo
todas as grandes potências. "Na Primeira Guerra Mundial, teriam sido as
potências imperiais europeias", explicou ele à BBC. "Na Segunda
Guerra Mundial, teriam sido incluídos os Estados Unidos, o Japão e a China." Muitas pessoas descreveriam as tensões atuais no
Oriente Médio como majoritariamente regionais. Mas estariam presentes as
condições para uma escalada mais ampla?
Em
entrevista à BBC, o presidente da Ucrânia, Volodymyr
Zelensky, disse acreditar que o presidente russo Vladimir Putin já havia dado início à Terceira Guerra
Mundial e que a única resposta seria aplicar intensa pressão militar e
comercial para forçar Moscou a se retirar. "Acredito
que Putin já a começou. A questão é quanto território ele conseguirá tomar e
como detê-lo... A Rússia quer impor ao
mundo um modo de vida diferente e mudar as vidas que as pessoas escolheram para
si", destacou o presidente ucraniano.
Então,
qual é o risco atual de ocorrer a Terceira Guerra Mundial?
"Acho
que o país com mais probabilidade de escalar o conflito é, provavelmente,
o Irã ou seus aliados, como os houthis
do Iêmen", afirma
MacMillan. As possíveis ações do Irã, como atacar rotas de navegação ou fechar o
Estreito de Ormuz, poderão ter consequências globais, interrompendo o
abastecimento de energia e trazendo as principais potências para o conflito,
segundo a professora. O envolvimento dos Estados Unidos também aumenta os riscos. E outros
países, mesmo que não estejam diretamente envolvidos, são afetados econômica ou
estrategicamente, explica ela.
MacMillan
aponta ainda mais um risco: de que o conflito em uma região possa criar
oportunidades em outros locais. A China, por exemplo, pode perceber que essa distração do
Ocidente representa uma oportunidade para que ela se movimente em direção
a Taiwan. Ou a Rússia poderá intensificar suas ações na Ucrânia, enquanto a atenção global estiver em outro
ponto do planeta."Sempre existe a possibilidade de que um conflito se
espalhe para fora de uma região, em parte porque países fora daquela área
observarão oportunidades, já que a guerra envolve pessoas que poderiam
impedi-los de fazer o que desejam", explica MacMillan.
Maiolo
acredita que o conflito permanecerá regional, atraindo os países do Conselho de
Cooperação do Golfo, que inclui a Arábia Saudita. Mas ele não vê a China e a Rússia sendo levadas para a guerra. Para ele, "esta
ideia de que algo acontece no mundo e a China irá se lançar contra Taiwan, simplesmente... não faz nenhum sentido. Mas, se
estivermos falando em Guerra Mundial, sabe, a Terceira Guerra Mundial, não acho
que haja alguma inclinação para que a China e a Rússia se envolvam diretamente e, muito menos, é claro, a
Europa." Ele acredita que a China tem outros planos para sua diplomacia com o
presidente americano Donald Trump. "Quando seu rival está cometendo um
enorme erro estratégico, você simplesmente deixa que ele vá e continue o que
está fazendo", explica o professor.
Seria
do interesse da China não desempenhar
um papel diplomático, mesmo sofrendo as consequências da flutuação dos preços
do petróleo?
Para
Maiolo, este é um preço pequeno a pagar. "Na hierarquia dos interesses
estratégicos como um todo, é muito mais interessante para a China ter os Estados Unidos preocupados com o Oriente Médio do que
suas fontes de petróleo."
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O papel dos líderes
Segundo
MacMillan, a história tem demonstrado que a guerra, muitas vezes, é deflagrada
por orgulho, senso de honra ou por medo dos oponentes. Ela indica que a
história também mostra que os líderes individuais podem estabelecer o curso dos
eventos. "O então primeiro-ministro francês, Georges Clémenceau
[1841-1929], na Primeira Guerra Mundial, declarou que fazer a paz é mais
difícil que fazer a guerra", relembra a professora. Para ela, muitas vezes
existe o argumento de que, se houver grandes perdas ou sacrifícios das pessoas,
os líderes decidem que precisam "continuar para ganhar a guerra".
MacMillan
afirma que o orgulho pode ser importante para os líderes e indica Putin como
exemplo. "Ele claramente cometeu um erro real ao tentar invadir a Ucrânia." Pouco depois do início da invasão, quatro anos atrás,
Putin declarou que seu objetivo era "desmilitarizar e desnazificar" a
Ucrânia,
mas a Rússia diz que seus
objetivos militares ainda não foram atingidos, destaca a professora.
O
ministro da Defesa do Reino Unido calcula que a Rússia tenha sofrido um total de 1,25 milhão de mortes.
Acredita-se que este número seja subestimado e, mesmo assim, é muito maior do
que todas as mortes americanas ocorridas durante a Segunda Guerra
Mundial [1939-1945], segundo o ministro britânico das Forças Armadas. MacMillan
destaca que os líderes que se recusam a recuar ou admitir o fracasso podem
prolongar e aprofundar os conflitos. Ela acrescenta que, no passado, figuras
como Adolf Hitler (1889-1945) continuaram lutando, mesmo quando a derrota era
inevitável, levados pela ideologia, orgulho ou ilusão. E estas decisões podem
transformar conflitos limitados em guerras devastadoras.
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Caminhos para a contenção
Para
atingir a contenção, a diplomacia é muito importante, destaca MacMillan. "Você
precisa conhecer o outro lado... e precisa ficar em contato com eles." Ela
explica que as comunicações melhoraram de todos os lados nos últimos tempos da
Guerra Fria (1947-1991) e com o envolvimento da Otan. "Existem muitos
exemplos em que as pessoas disseram 'espere um minuto, isso está ficando uma
maluquice'", prossegue a professora. "Eles compreenderam que estava
ficando volátil demais e que eles precisavam reduzir a temperatura." A
existência de armas nucleares é sempre uma consideração nas políticas de
desescalada, quando grandes potências estão envolvidas.
Maiolo
concorda. Para ele, "é preciso haver um reconhecimento... em Tel Aviv,
Washington e Teerã... que eles atingiram os limites do que pode ser
alcançado".
O
professor explica que a continuação da guerra não irá "produzir um
resultado desejado" para todos os lados. "Haverá necessidade de algum
tipo de acordo sobre o levantamento de sanções, algum tipo de acordo de
segurança, alguma espécie de entendimento sobre o lugar do Irã na política global", segundo ele. Maiolo
afirma que, somente pela mediação, as potências envolvidas podem chegar a um
cessar-fogo e, depois, transformá-lo em um acordo mais duradouro.
Fonte:
BBC News Brasil

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