Eleições
2026: reconhecimento facial e vigilância em massa são promessas fáceis, mas não
garantem segurança
Em
fevereiro de 2025, durante uma operação no bairro Cangaíba, na Zona Leste de
São Paulo, dois policiais militares torturaram jovens já rendidos para obter
informações sobre locais de armazenamento de drogas. A condenação dos agentes
pela Justiça Militar, em 2026, só foi possível porque as câmeras corporais
registraram as agressões, contrariando a versão apresentada pelos policiais.
O caso
mostra como a tecnologia pode ter efeitos muito diferentes na segurança
pública. Ao mesmo tempo em que pode ajudar a dar transparência à atuação
policial e responsabilizar agentes por abusos, também alimenta a ideia de que
novas tecnologias são, por si só, a solução para problemas complexos.
É
justamente essa promessa que ganha força em períodos eleitorais. Com a proximidade das eleições deste ano, o tema
da segurança pública volta ao destaque e reacende uma disputa de narrativas:
agora também começa uma verdadeira corrida por soluções.
Nesse
cenário, as novas soluções tecnológicas modernizam as formas de vigilância e
controle e as promessas de soluções para enfrentar a violência — e não é de
hoje que isso acontece.
Mais do
que ferramentas de gestão e infraestrutura, essas tecnologias passam a compor o
discurso de políticos, que as associam à eficiência, ao controle e à
autoridade.
Desde
os anos 1980, o Brasil convive com níveis elevados de violência. Ao longo das
décadas seguintes, os homicídios cresceram de forma consistente, ultrapassando
50 mil mortes anuais no início dos anos 2000 e chegando a mais de 56 mil em
2012.
Mais do
que um problema quantitativo, a violência no Brasil é marcada por profundas
desigualdades. Muitas das vítimas são jovens, negros, de baixa renda e
moradores das periferias urbanas que tiveram a morte como uma sentença em um
cenário de extrema vulnerabilidade socioeconômica.
Dados
do último Anuário Brasileiro de Segurança Pública apresentam que o Brasil
registrou 40.775 mortes violentas intencionais em 2025; delas, 41,6% são jovens
entre 18 e 29 anos, 90,8% são homens e 79,7% são negros.
Em
relação à letalidade policial, o Anuário contabilizou 6.602 vítimas, o que
sinaliza um aumento de 5,4% em relação ao ano anterior; neste cenário, os dados
demonstram que negros morreram 3,5 vezes mais do que brancos.
O medo
do crime é uma dor do brasileiro — altera a nossa circulação na cidade, a roupa
que vestimos, a forma como nos portamos. Muda nosso comportamento, nossa visão
de mundo e, não surpreendentemente, pode mudar nosso voto.
Nesse
contexto, a disputa de narrativas sobre como se deve combater o crime no Brasil
se torna um ponto chave nas eleições brasileiras. É nesse espaço, marcado pelo
medo e pela busca por respostas imediatas, que as tecnologias de segurança
passam a ganhar protagonismo.
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Armadilhas
Diante
da complexidade do cenário, é preciso atenção para não cairmos na armadilha de
soluções que, em vez de enfrentar as causas do problema, apenas promovem
respostas rápidas e simplistas.
Experiências
recentes ajudam a entender esse movimento. Iniciativas como o Smart Sampa, em
São Paulo, o uso de câmeras inteligentes por empresas como a Gabriel e
plataformas como o Cortex, no Rio de Janeiro, são frequentemente citadas como
exemplos de avanço na segurança pública. Ocorre que, à exemplo do Smart Sampa,
a sua promessa convive com falhas que produzem impactos reais sobre a vida das
pessoas. Entre novembro de 2024 e maio de 2025, 82 pessoas foram conduzidas a
delegacias e posteriormente liberadas em razão de inconsistências em mandados
de prisão, falhas cadastrais ou falsos positivos no reconhecimento facial.
Esses episódios mostram que os erros do sistema não são apenas técnicos: eles
resultam em abordagens indevidas, restrições à liberdade e violações de
direitos fundamentais.
Mais do
que políticas específicas, esses projetos passam a compor o repertório das
campanhas eleitorais, funcionando como sinais de inovação e capacidade de
gestão.
No
entanto, essas promessas sustentam uma narrativa tecnopunitivista, que associa
o desenvolvimento tecnológico a uma suposta eficiência na segurança pública,
mesmo que muitas dessas iniciativas não apresentem quaisquer evidências que
demonstram sua efetividade na redução da criminalidade.
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Mais dados e mais vigilância
O
discurso dominante para inserção dessas tecnologias digitais sugere que a
produção de mais dados e mais vigilância significa mais controle e, portanto,
mais segurança.
Essa
ideia é sedutora, mas esconde efeitos importantes: ao transformar
comportamentos, territórios e populações em dados, essas tecnologias produzem
classificações, definem padrões de risco e ampliam formas de vigilância
indevidas.
A
cidade passa a ser tratada como um espaço que pode ser monitorado e previsto,
enquanto seus habitantes são continuamente avaliados por sistemas que operam
com critérios opacos e pouca transparência sobre os reais impactos, os danos causados e as salvaguardas
para a proteção de direitos da população.
Promessas
de controle total e vigilância massiva se tornam particularmente atraentes em
contextos de insegurança persistente.
A
incorporação de ferramentas digitais amplia essa capacidade de vigilância e
controle do estado, sem que necessariamente haja o igual fortalecimento de
mecanismos de transparência e responsabilização — o que é fundamental para uma
política pública centrada em direitos.
Em
muitos casos, a complexidade técnica dessas ferramentas dificulta o controle
público e reduz a possibilidade de questionamento.
Um
exemplo é o uso de sistemas de reconhecimento facial em espaços públicos.
Quando uma pessoa é identificada por uma câmera como uma possível suspeita, ela
raramente tem acesso às informações que levaram a essa conclusão: quais imagens
foram utilizadas, quais critérios o sistema considerou, qual o grau de precisão
daquela identificação ou quais mecanismos existem para contestar o resultado.
Assim,
uma decisão com potenciais consequências concretas para a vida de alguém passa
a ser mediada por tecnologias cujo funcionamento permanece pouco transparente
para a sociedade.
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Segurança pública e os retrocessos democráticos
A
bandeira da segurança pública é um dos temas mais eficazes para justificar
retrocessos democráticos e perda de direitos, sendo mobilizada em discursos
políticos que defendem respostas de endurecimento penal e ampliação do poder
estatal, muitas vezes com o argumento de que medidas excepcionais seriam
necessárias para enfrentar a violência.
Com as
eleições de 2026 se aproximando, é fundamental observar como todos esses
argumentos, promessas e soluções serão instrumentalizados para alcançar mais
votos, sobretudo em plataformas de governo de pessoas candidatas à Presidência
da República.
Historicamente
associada a setores da extrema direita, a pauta da segurança pública tem sido
utilizada para defender políticas baseadas no aumento da repressão, na expansão
das capacidades de vigilância e na redução de garantias individuais em nome do
combate ao crime.
Um
exemplo recente é o plano de segurança pública “Brasil sem Medo”, apresentado
pelo senador e possível pré-candidato à Presidência Flávio Bolsonaro, do PL do
Rio de Janeiro. Entre as propostas anunciadas estão o endurecimento da
legislação penal, o aumento dos investimentos federais em segurança e a
instalação de 1 milhão de câmeras, incluindo sistemas de reconhecimento facial
para identificação de foragidos e monitoramento de espaços públicos.
A
proposta traduz uma lógica recorrente: a associação entre mais vigilância, mais
controle e mais segurança, ainda que sem necessariamente apresentar evidências
sobre a efetividade dessas medidas ou seus impactos sobre direitos
fundamentais.
Ocorre
que esse também é um dos pontos de maior vulnerabilidade dos setores
progressistas: diante da pressão social por respostas à violência, a esquerda
muitas vezes acaba incorporando soluções punitivistas ou aderindo à ideia de
que o aumento das capacidades tecnológicas do estado, por si só, representa
avanço.
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Não se trata apenas de inovação
Não se
trata de não usar nenhuma tecnologia, mas tampouco de usar qualquer coisa
apenas para dizer que se está “inovando”. É preciso que qualquer defesa pelo
uso de tecnologias na segurança pública responda, primeiro, a perguntas sobre
como, para que e sob quais limites elas serão empregadas.
Exige
compromisso com justiça social, com formas efetivas de controle democrático do
poder e com a dor do brasileiro, sobretudo daqueles que mais têm sangrado. E
nós ficaremos de olho para saber como isso ocorrerá na corrida eleitoral deste
ano.
Fonte:
Luiza Dutra, Fernanda Rodrigues e Ana Bárbara Gomes, em The Intercept

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