Na
Guatemala, uma aliança entre empresários, militares e políticos capturou a
Justiça para garantir impunidade
José Rubén Zamora, fundador do elPeriódico,
o principal jornal investigativo da Guatemala, hoje extinto, passou 1.295 dias
detido antes que um tribunal lhe concedesse prisão domiciliar em 12 de
fevereiro. Ele suportou longos períodos em confinamento solitário em uma prisão
militar, mantido em escuridão quase constante e submetido a um tratamento que
seis especialistas da ONU advertiram que poderia configurar tortura. Seu único
“crime” foi exercer seu trabalho.
Durante
décadas, expôs os negócios corruptos das elites econômicas e políticas da
Guatemala. Os promotores ainda tentam enviá-lo de volta à prisão.
A
polícia prendeu Zamora em julho de 2022 com base em uma denúncia apresentada
por um ex-banqueiro que estava sob investigação por crimes financeiros, após as
reportagens de Zamora sobre corrupção durante o governo do então presidente
Alejandro Giammattei. Em poucos meses, o elPeriódico encerrou suas atividades
após a intimidação de seus anunciantes e a criminalização de seus funcionários.
Um
tribunal condenou Zamora por lavagem de dinheiro em junho de 2023 e, quando um
tribunal de apelação anulou essa condenação, um segundo processo o manteve
preso de qualquer forma. Os tribunais ordenaram sua libertação várias vezes e,
em todas elas, as câmaras de apelação reverteram essas decisões.
A
Suprema Corte transferiu um juiz que havia determinado sua libertação para um
tribunal em outra região da Guatemala. Pelo menos dez advogados que assumiram
sua defesa foram obrigados a abandoná-la sob pressão. Alguns chegaram a ser
processados e presos.
Em maio
de 2024, o Grupo de Trabalho das Nações Unidas sobre Detenção Arbitrária
declarou que a detenção de Zamora
era arbitrária e retaliatória e recomendou sua libertação imediata.
Foram necessários quase mais dois anos para que ele pudesse voltar para casa.
Em março, a Suprema Corte anulou as decisões que o haviam enviado de volta à
prisão, concluindo que elas violavam o devido processo legal. Em junho, a Corte
Constitucional analisou o recurso mais recente da acusação para enviá-lo
novamente à prisão, mas ainda não emitiu sua decisão.
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A engrenagem da impunidade
O
calvário de Zamora não é uma aberração; é a forma como as instituições
capturadas foram concebidas para funcionar. O Estado guatemalteco está há muito
tempo nas mãos do que os guatemaltecos chamam de “pacto dos corruptos”, uma
coalizão de empresários, traficantes de drogas, militares e políticos que
capturou o sistema de justiça para garantir sua própria impunidade.
Qualquer
pessoa que ameace esse arranjo corre o risco de ser processada com acusações
fabricadas, reforçadas por campanhas coordenadas de difamação. Isso inclui
jornalistas que investigam a corrupção, juízes e promotores que a combatem,
além de lideranças indígenas e ativistas pelos direitos à terra e pelo clima
que se mobilizam contra suas consequências. O objetivo, como afirmou um líder
da sociedade civil guatemalteca, é instaurar o medo para que ninguém ouse
questionar nada. Mais de cem pessoas, entre elas cerca de 50 juízes e
promotores, fugiram para o exílio em vez de enfrentar acusações forjadas.
Como o
sistema de justiça serve ao pacto dos corruptos, e não à lei, qualquer
tentativa séria de desmantelar a corrupção exigiu apoio externo. Em 2006, a ONU
e o governo da Guatemala concordaram em criar a Comissão Internacional contra a
Impunidade na Guatemala (CICIG). Ao longo de 12 anos, a CICIG e o Ministério
Público investigaram mais de 70 estruturas criminosas complexas e apresentaram
acusações contra mais de 1.540 pessoas, incluindo ex-presidentes, ministros,
parlamentares e empresários. Isso desafiou a percepção de que os poderosos eram
intocáveis.
Mas o
sucesso selou seu destino. Quando a CICIG investigou o então presidente Jimmy
Morales, em 2017, ele agiu para destruí-la, recusando-se a renovar seu mandato
e nomeando uma procuradora-geral alinhada aos seus interesses, Consuelo Porras.
O presidente Giammattei reconduziu Porras ao cargo, e ela processou ou forçou a
saída de dezenas de juízes e promotores que haviam trabalhado com a CICIG.
Ela
transformou o Ministério Público em um instrumento de perseguição, ao mesmo
tempo em que arquivava, sem investigação, 74% das denúncias apresentadas ao
órgão. Quando seu mandato terminou, em maio, mais de 40 países haviam imposto
sanções contra ela e alguns de seus aliados. A instituição criada para combater
o crime havia se tornado o principal instrumento do Estado para praticá-lo.
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Novo presidente, mesmo sistema
Os
guatemaltecos elegeram Bernardo Arévalo em 2023 com a
missão de desmantelar esse sistema, mas o próprio sistema tem tentado
continuamente neutralizá-lo.
Sua
vitória inesperada — ele chegou ao segundo turno por uma margem estreita, em
grande parte porque o establishment não o considerava uma ameaça
suficientemente séria para impedir sua candidatura — desencadeou o que a
sociedade civil descreveu como uma tentativa de golpe eleitoral, marcada por
denúncias judiciais infundadas, operações de busca e apreensão na sede de seu
partido e pelo menos dois planos de assassinato considerados críveis.
Foram
necessários 106 dias de resistência pacífica, liderada por autoridades
indígenas, para garantir sua posse.
No
entanto, assumir o cargo não significou assumir o poder. O partido de Arévalo
conquistou apenas 23 das 160 cadeiras no Congresso, e posteriormente teve seu
registro legal cancelado por decisão judicial.
O
Congresso bloqueou a mudança legislativa que permitiria a Arévalo destituir
Porras, e a Suprema Corte — cujos 13 juízes foram escolhidos em 2024 por meio
de um processo repleto de candidatos ligados a redes de corrupção — recusou-se
a retirar a imunidade da procuradora. Ao longo do mandato de Arévalo, o
Ministério Público continuou criminalizando a dissidência e tentou
repetidamente retirar a imunidade presidencial de Arévalo.
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Uma janela estreita
Mas o
mandato de Porras finalmente chegou ao fim, e seu sucessor, Gabriel García
Luna, um juiz de carreira sem vínculos com redes de corrupção, agiu
rapidamente, demitindo promotores ligados a Porras e extinguindo a promotoria
especial que fabricou processos contra Zamora e muitas outras pessoas. Sua
chegada representa a primeira abertura genuína em oito anos. Mas trata-se de
uma abertura estreita. O Congresso continua nas mãos da oposição, e a Corte
Constitucional, a Controladoria-Geral e a autoridade eleitoral deverão ser
renovadas ainda este ano. Os interesses corruptos estão bem posicionados para
explorar esses processos e consolidar ainda mais seu controle.
Muito
dependerá agora de Arévalo colocar seu capital político a serviço dos esforços
de García Luna para reconstruir a instituição que Porras transformou em arma, e
de conseguir impedir que os órgãos que serão renovados caiam nas mãos do pacto
dos corruptos. O sinal mais claro de mudança virá se Zamora e as dezenas de
outras pessoas criminalizadas por denunciar a corrupção e defender direitos
deixarem de ser alvo de processos, e, em vez disso, seus perseguidores
finalmente forem levados à Justiça.
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Mesmo com 11,1 milhões de mexicanos nos EUA, imigração
perde força sob endurecimento de Trump
Os 11,1
milhões de imigrantes mexicanos nos EUA constituem o maior grupo de imigrantes
do país, representando 22% do total da população nascida no exterior e 40% de
todos os imigrantes indocumentados, segundo um novo perfil demográfico
elaborado pelo Migration
Policy Institute (MPI), sediado em Washington.
O total
de imigrantes mexicanos no país vem diminuindo ao longo das últimas duas
décadas, e a projeção é de que essa tendência continue no futuro imediato.
Os
imigrantes nascidos no México representam aproximadamente um quarto do total de
40,5 milhões de pessoas de ascendência mexicana nos Estados Unidos. Seu perfil
está mudando em decorrência das transformações econômicas no país e das
políticas anti-imigração implementadas pelo governo de Donald Trump.
“A
população nascida no México quintuplicou desde 1980, mas diminuiu ligeiramente
desde o pico alcançado em 2007, quando ultrapassava os 11,7 milhões”, relataram
Andrés Ayala e Jeanne Batalova neste novo relatório do MPI.
De modo
geral, a população nascida no México que atualmente reside nos Estados Unidos
vive no país há mais tempo, fala menos inglês e tem menor probabilidade de ter
obtido a cidadania em comparação com imigrantes de outros países. Os lares de
imigrantes mexicanos registraram renda média de US$ 68.700 em 2024, abaixo da
renda média dos lares de todos os imigrantes. Mais da metade desses mexicanos
trabalha no setor de serviços ou nas áreas de construção, manutenção e recursos
naturais.
Os
mexicanos que entram nos Estados Unidos não se distribuem por todo o país. De
acordo com o novo relatório, mais da metade de todos os nascidos no México
estava concentrada na Califórnia ou no Texas, sendo Illinois, Arizona e Flórida
outros estados com presença significativa de mexicanos.
O
México é o principal país de origem dos imigrantes não autorizados
(indocumentados) nos Estados Unidos. O MPI calcula que, em 2023, “havia cerca
de 5,5 milhões de imigrantes não autorizados provenientes do México, o que
representava 40% do total de 13,7 milhões de imigrantes não autorizados nos
Estados Unidos. Os mexicanos representavam 81% dos 495.300 beneficiários ativos
do programa DACA em dezembro de 2025”.
Os
Estados Unidos continuam sendo o principal destino de quase todos os mexicanos
que migram de seu país, com 11,1 milhões do total de 11,6 milhões de mexicanos
que vivem fora do México.
Canadá,
Espanha, Guatemala, Bolívia, Itália, Austrália e Panamá são os outros países
com populações significativas de mexicanos.
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Bolívar e a unidade anti-imperialista. Por Guilherme
Diniz
Em 22
de junho de 1826 teve início na Cidade do Panamá o Congresso Anfictiônico
convocado por Simón Bolívar, um dos acontecimentos mais ambiciosos da história
política latino-americana. Em julho de 2026, quando se completam duzentos anos
da realização daquele encontro, sua memória adquire renovada atualidade diante
das disputas geopolíticas que voltam a atravessar o continente. Muito além de
uma reunião diplomática entre as novas repúblicas hispano-americanas, o
Congresso representou a primeira tentativa concreta de construir uma
arquitetura política continental capaz de preservar a soberania dos povos
latino-americanos frente às grandes potências da época.
Bolívar
compreendia que a independência política conquistada nos campos de batalha não
seria suficiente para garantir a emancipação efetiva das novas nações. A
fragmentação territorial herdada do colapso do Império Espanhol favoreceria
inevitavelmente a intervenção estrangeira. Em sua célebre Carta da Jamaica,
escrita em 1815, já advertia que a dispersão dos novos Estados os condenaria à
vulnerabilidade permanente. A independência, portanto, somente poderia
consolidar-se por meio de uma comunidade política capaz de coordenar
diplomacia, defesa e interesses econômicos comuns.
A
inspiração do Congresso encontrava-se nas antigas ligas anfictiônicas gregas,
associações de cidades independentes que cooperavam em matéria de segurança e
arbitragem. Bolívar adaptou essa tradição clássica às necessidades do século
19. Seu objetivo consistia na formação de uma confederação permanente das
repúblicas americanas, dotada de uma assembleia deliberativa, mecanismos de
solução pacífica de controvérsias e compromissos militares recíprocos diante de
ameaças externas. Tratava-se, em termos contemporâneos, de um projeto de
integração geopolítica profundamente inovador.
Participaram
representantes da Grã-Colômbia, México, Peru e República Federal da América
Central. Chile e Províncias Unidas do Rio da Prata não enviaram delegações,
enquanto o Brasil imperial permaneceu distante em razão de suas especificidades
políticas e de suas tensões com as repúblicas hispânicas. A ausência desses
importantes atores reduziu significativamente a capacidade de consolidação do
projeto bolivariano.
Entretanto,
o maior desafio não provinha apenas das divergências internas. O sistema
internacional atravessava uma profunda reorganização. A Grã-Bretanha havia se
tornado a principal potência econômica mundial e buscava ampliar sua influência
comercial sobre os novos mercados americanos. Os Estados Unidos, por sua vez,
proclamavam desde 1823 a Doutrina Monroe, frequentemente resumida pela
expressão “A América para os americanos”. Embora apresentada como
instrumento de proteção contra novas intervenções europeias, sua evolução
histórica revelou um crescente instrumento de hegemonia norte-americana sobre o
continente.
Bolívar
percebia claramente essa transformação. Diferentemente de interpretações
românticas que reduzem seu pensamento ao idealismo republicano, sua visão era
essencialmente geopolítica. Ele compreendia que nenhuma potência age movida
exclusivamente por princípios jurídicos ou morais. Os Estados obedecem,
sobretudo, aos imperativos do poder, da segurança e dos interesses nacionais.
Sem uma coordenação continental, cada pequena república seria progressivamente
incorporada às esferas de influência das grandes potências.
Os
acontecimentos posteriores confirmariam, em grande medida, suas preocupações. A
guerra entre México e Estados Unidos (1846-1848) resultou na perda de
aproximadamente metade do território mexicano. Ao longo do século 19
multiplicaram-se intervenções diplomáticas, financeiras e militares na América
Central e no Caribe. No século 20, episódios como a separação do Panamá da
Colômbia em 1903, as sucessivas ocupações militares norte-americanas na
Nicarágua, Haiti e República Dominicana, bem como inúmeras intervenções durante
a Guerra Fria, demonstraram que a fragmentação regional favorecia a projeção
externa de poder.
Sob
essa perspectiva, o Congresso do Panamá revela um extraordinário grau de
antecipação histórica. Bolívar identificou, décadas antes do desenvolvimento
das modernas teorias geopolíticas, que a soberania nacional dependeria
crescentemente da capacidade de integração regional. Seu projeto não pretendia
eliminar as identidades nacionais, mas articulá-las numa comunidade estratégica
capaz de ampliar sua autonomia diante do sistema internacional.
Essa
concepção distingue-se profundamente das interpretações que reduzem a
integração latino-americana a simples mecanismos comerciais. Para Bolívar,
comércio, defesa, diplomacia e desenvolvimento constituíam dimensões
inseparáveis de um mesmo projeto civilizacional. A unidade política era
condição para preservar a liberdade econômica, e não consequência dela.
O
fracasso do Congresso não decorreu da inviabilidade de sua proposta, mas das
limitações políticas das jovens repúblicas. Rivalidades internas, caudilhismos
regionais, dificuldades administrativas e interesses econômicos divergentes
impediram a consolidação das instituições imaginadas pelo Libertador. Ainda
assim, sua influência atravessou os séculos. Diversos projetos posteriores de
integração continental — da União Pan-Americana às iniciativas
latino-americanas contemporâneas, como ALALC, ALADI, Mercosul, UNASUL e CELAC —
dialogam, direta ou indiretamente, com aquela visão inaugurada em 1826.
Duzentos
anos depois, o Congresso Anfictiônico permanece como um dos mais sofisticados
projetos geopolíticos já disputados na América Latina. Sua principal lição
continua atual: povos politicamente fragmentados dificilmente conseguem
preservar sua soberania num sistema internacional marcado pela competição entre
grandes potências. Mais do que um episódio diplomático, o Congresso do Panamá
constitui um marco fundador do pensamento estratégico latino-americano e uma
das primeiras formulações explícitas de uma unidade continental voltada à
afirmação da independência, da soberania e da resistência às diversas formas de
dominação imperial.
Fonte:
Por Inés M. Pousadela, para IPS/La Jornada/Opera Mundi

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