A
escola da felicidade e o direito de inventar outros futuros
Em
algum lugar da Baixada Fluminense existe uma escola pública que chamaremos aqui
de Escola da Felicidade. O nome protege a comunidade escolar, mas também guarda
uma verdade. A escola fica na Rua da Felicidade. Nem sempre a geografia
confirma a poesia. Distante do Centro, dos serviços públicos e das prioridades
do Estado, funcionou durante anos em um prédio pensado para ser provisório, que
acabou se tornando permanente, como tantas soluções precárias naturalizadas
pelas políticas públicas brasileiras. Ali, adaptar-se nunca foi uma escolha
pedagógica. Era uma condição de existência.
Havia
um território marcado por desigualdades históricas e por uma força que impunha
suas próprias regras de ordem e de punição, alheia a qualquer lei. Todos
sabiam. Quase ninguém dizia. Ainda assim, durante alguns anos, aquela escola
experimentou algo cujo registro permanece raro na educação brasileira. Uma
comunidade escolar produziu conhecimento, cuidado e democracia a partir de suas
próprias perguntas. Raro não porque não existam outras escolas de felicidade e
engajamento comunitário, mas porque, para avaliar a educação nacional, essas
histórias pouco importam.
A
escola pública brasileira costuma ser narrada pelo que lhe falta. A Escola da
Felicidade revela o que acontece quando olhamos para aquilo que ela cria. Em
vez de responder às adversidades reproduzindo a lógica da escassez, escolheu
ampliar relações, abrir portas e produzir pertencimento.
O que
significa chamar uma escola de felicidade? Significa reconhecer que uma escola
pública é um lugar onde crianças, professores, famílias e comunidades inventam
possibilidades que ainda não existiam. A felicidade, aqui, não descreve uma
realidade sem conflitos. Nomeia uma prática cotidiana de produzir
pertencimento, conhecimento e futuro.
Houve
um tempo em que a comunidade atravessava os portões para depredar a escola. Aos
poucos, passou a atravessá-los para construir junto. A confiança levou muito
mais tempo para ser construída do que qualquer reforma física. Professores,
funcionários, famílias, universidade e estudantes transformaram a escola em um
espaço comum. A equipe tornou-se guardiã da própria escola porque a escola
passou a ser reconhecida como patrimônio coletivo.
Os
muros não subiram. As portas se abriram.
Essas
mudanças também transformaram a relação com o território. A escola deixou de
tratá-lo como ameaça e passou a reconhecê-lo como currículo. A territorialidade
passou a dar qualidade ao currículo – como a fome, a falta de coleta de lixo e
o desejo de falar inglês. Os conhecimentos escolares encontraram os
conhecimentos produzidos pela comunidade, pela universidade e pelas
experiências cotidianas das crianças. O currículo deixou de ser uma prescrição
distante para se tornar uma conversa viva entre diferentes formas de conhecer,
experimentar e inventar o mundo.
Essa
conversa ganhou corpo porque encontrou condições materiais para existir. A
comunidade abraçou a escola. Professoras e professores construíram
coletivamente um projeto educativo. Em seguida, e como desdobramento dessa
união e construção, uma pesquisa financiada garantiu bolsas, infraestrutura,
materiais, passeios, formação e desenvolvimento curricular. O investimento
trouxe apoios definitivos para que a escola pudesse fazer aquilo que sempre
desejou fazer: educar com mais relações, mais escuta e mais possibilidades.
Durante
muito tempo, as crianças daquela escola não tiveram um parquinho. Pode parecer
um detalhe diante dos enormes desafios da educação brasileira. Brincar, porém,
também é um direito. O projeto construiu um espaço ecológico, acessível e
pensado para as crianças. Mais do que um equipamento, aquele parquinho afirmava
que uma escola pública deve oferecer experiências completas de infância. Nele,
uma escada “torta”, construída propositalmente com degraus desiguais que
simbolizavam os desafios da vida, a diversidade e o amor pela diferença, ao
mesmo tempo.
O pátio
também deixou de ser apenas um lugar de passagem. Tornou-se parte do currículo
e da sala de aula. Aprender deixou de obedecer às fronteiras entre dentro e
fora, entre conteúdo e experiência, um “Pátio Integrado”. Um dos projetos que
melhor expressava essa mudança chamava-se “Experimentar faz bem”. Da horta à
alimentação, da compostagem ao minhocário, da investigação sobre desperdício às
conversas sobre diferentes culinárias, saúde, cultura e território, as crianças
descobriram que conhecer começa pela curiosidade.
O
minhocário ensinava que resíduo orgânico não é lixo. É adubo. O ciclo da comida
continua depois do prato. As sobras da merenda passaram a ser pesadas antes do
descarte. O objetivo era tornar visível aquilo que normalmente desaparece.
Quando o desperdício ganhava um número, ganhava também uma pergunta. E toda
pergunta podia virar currículo.
As
assembleias de estudantes aconteciam quinzenalmente. Ali, crianças muito
pequenas apresentavam ideias, discutiam conflitos, ouviam umas às outras e
decidiam coletivamente quais propostas seguiriam adiante e quais aguardariam
outro momento, ficando adormecidas. Gestão democrática não aparecia como um
princípio inscrito em um documento. Era uma prática cotidiana de escuta,
participação e responsabilidade compartilhada.
Em uma
dessas assembleias, uma criança pediu morangos para o projeto. A maior parte
das crianças da escola nunca havia provado a fruta cujo sabor conhecia apenas
pelos iogurtes, balas e xampus. A resposta mais previsível seria lembrar que
escolas públicas convivem diariamente com limites orçamentários, dificuldades
de aquisição e regras de distribuição dos alimentos. O pedido, porém,
permaneceu na roda de conversa. Em vez de encerrar o assunto, abriu uma
investigação.
O
morango virou currículo.
As
crianças pesquisaram a fruta, conversaram sobre alimentação, agricultura,
transporte, clima, preços, consumo e desigualdades. Descobriram por que alguns
alimentos chegam com facilidade a determinados lugares e quase nunca a outros.
Um desejo infantil produziu conhecimento sobre economia, ciência, geografia,
cultura e direito à alimentação e ao desejo. O currículo nasceu de uma pergunta
feita por uma criança. Hoje, pequenos morangos são plantados e colhidos num
pequeno espaço do pátio.
Outras
perguntas seguiram o mesmo caminho. As crianças quiseram aprender inglês. Em
dois anos, a escola realizou 154 oficinas organizadas a partir desse interesse.
Fotografaram o que desejavam mostrar ao mundo, produziram pequenos registros de
seu cotidiano, conversaram sobre identidade, linguagem e pertencimento. O
inglês deixou de representar uma língua distante para se tornar uma forma de
ampliar horizontes e afirmar que também dali era possível conversar com o
mundo.
A
escola também realizou dezenas de oficinas de educação antirracista. Livros
novos e adequados circularam entre as crianças, que encontraram personagens,
histórias e referências frequentemente ausentes dos materiais escolares
tradicionais. O currículo ampliava repertórios sem transformar a diversidade em
tema de uma única semana ou de uma atividade isolada. Ela atravessava os
cotidianos da escola.
As
próprias crianças criaram o painel da Mata Atlântica que identificava a escola.
Mais tarde, um artista parceiro do projeto dialogou com aquele trabalho e o
reinventou junto com elas. A autoria infantil permaneceu preservada. A escola
produzia cultura com as crianças, e não para elas.
No
pátio, um pau-brasil crescia lentamente. Sua presença ensinava outra medida do
tempo. Uma escola também se mede pelo tempo das árvores. Algumas gerações
acompanham o plantio. Outras encontram a sombra. Educar também significa cuidar
daquilo que continuará crescendo quando já não estivermos ali.
A
integralidade ganhava sentido nas relações que a escola construía. O
atendimento educacional especializado ampliava a participação de estudantes que
tantas vezes encontram barreiras na escola comum. O currículo se expandia para
acolher diferentes modos de aprender, diferentes tempos e diferentes formas de
estar no mundo.
Nada
disso apareceu como uma sequência de projetos independentes. Havia um mesmo
princípio organizando essas experiências. A escola aprendia com o território
antes de pretender ensiná-lo. Cada pergunta das crianças, cada conversa com as
famílias, cada parceria construída pela comunidade ampliava o currículo. A
territorialidade dava qualidade à educação.
Foi
justamente por isso que aquela experiência realizou, de forma concreta,
princípios presentes, há três décadas, na própria Lei de Diretrizes e Bases da
Educação Nacional. A formação integral, a qualidade social da educação e a
gestão democrática deixaram de existir como formulações legais. Tornaram-se
práticas cotidianas. A democracia aparecia nas assembleias. A integralidade
aparecia na ampliação das relações educativas. A qualidade social aparecia
quando a comunidade reconhecia a escola como sua e participava da produção de
conhecimento.
Há
algum tempo, a qualidade da educação vem sendo confundida com resultados de
avaliações externas. Esses indicadores oferecem informações importantes, mas
não alcançam tudo aquilo que sustenta uma escola pública viva. Não medem
pertencimento, confiança, autoria, cuidado, cooperação nem a capacidade de uma
comunidade construir coletivamente seus próprios caminhos. A experiência da
Escola da Felicidade lembra que uma educação de qualidade nasce das relações
que produz e da potência com que transforma um território em espaço de
aprendizagem. E o IDEB da escola? Sim, melhorou.
O que
aconteceu na Escola da Felicidade também convida a rever uma compreensão muito
difundida sobre o papel da universidade na educação básica. A universidade não
chegou para dizer à escola o que estava errado ou o que deveria fazer. Chegou
para fazer com ela.
O
financiamento garantiu parquinho, computadores, livros, materiais,
infraestrutura, bolsas, visitas de estudo, formação continuada da equipe de
profissionais da escola, e melhores condições de trabalho. Tudo isso foi
importante. O principal investimento, porém, aconteceu em outro lugar. O
projeto colocou pessoas e saberes em circulação.
Licenciandos
passaram a frequentar a escola durante longos períodos. Pesquisadoras
compartilhavam o cotidiano das professoras. Estudantes de graduação aprendiam
com quem conhecia profundamente aquele território. Professoras experimentavam
novas perguntas trazidas pela pesquisa. A escola ensinava à universidade tanto
quanto aprendia com ela.
O
projeto ventilava a formação.
A
formação inicial deixava de acontecer distante da escola pública. A formação
continuada deixava de ser um curso oferecido de tempos em tempos. Ambas
passavam a existir como uma conversa permanente entre diferentes gerações de
professores, estudantes, pesquisadoras e comunidade.
Essa
circulação modificava todos os envolvidos. Cada licenciando chegava para
aprender, mas também trazia repertórios, inquietações e conhecimentos
específicos. Cada professora oferecia sua experiência, ao mesmo tempo em que
revia práticas, formulava outras perguntas e ampliava seu próprio percurso
formativo. A pesquisa de recusava a observar a escola de fora para produzir
conhecimento com ela.
Durante
esses anos, a escola realizou seminários de formação que reuniam professoras da
própria unidade, profissionais de outras escolas da rede, pesquisadoras e, em
algumas ocasiões, representantes da própria Secretaria de Educação. O
território tornava-se um lugar de produção de conhecimento sobre educação. A
experiência cotidiana das professoras ganhava o mesmo estatuto de reflexão que
a produção acadêmica. Em vez de uma relação hierárquica entre teoria e prática,
construía-se uma comunidade de aprendizagem.
Esse
movimento ajuda a compreender por que o projeto produziu transformações tão
profundas. O dinheiro financiava a infraestrutura. Os encontros produziam
reflexões e escolhas que qualificavam os currículos praticados cotidianamente
ali.
Também
por isso a Escola da Felicidade nunca foi uma experiência isolada nem uma
coleção de boas práticas. Ela materializou princípios que a legislação
educacional brasileira já reconhece há décadas. A gestão democrática aparecia
como exercício cotidiano da participação. A formação integral ampliava as
relações educativas entre escola, famílias, universidade e território. A
qualidade social da educação deixava de ser uma expressão abstrata para ganhar
forma nas experiências concretas das crianças.
A
escola chegou a caminhar na direção da educação em tempo integral. Esse
horizonte exigia recursos, presença do poder público e continuidade
institucional. Enquanto essas condições existiram, a experiência floresceu.
O que
terminou não foi a capacidade da escola de produzir conhecimento. O que
terminou foi a política que apoiava essa capacidade.
Quando
o financiamento acabou, quase nada havia sido incorporado como responsabilidade
permanente do Estado. Saíram os bolsistas. Saíram pesquisadoras e estudantes.
Encerraram-se as ações financiadas pelo projeto. Permaneceram a escola, seus
profissionais, as crianças e o território, agora novamente submetidos aos
limites de uma rede pública que até reconhecia o valor daquela experiência, mas
já não dispunha das mesmas condições para sustentá-la, e pouca vontade política
em reconhecê-la e apoiá-la.
É esse
o ponto mais inquietante dessa história. A experiência não se interrompeu
porque fracassou. Interrompeu-se justamente quando demonstrava sua potência. A
rede municipal acolheu um investimento extraordinário, mas deixou de assumir
como política permanente aquilo que os resultados já haviam mostrado ser
possível.
Contar
a história da Escola da Felicidade não revela uma exceção. Revela o que escolas
públicas brasileiras realizam quando encontram condições para desenvolver
plenamente o trabalho de seus profissionais e de suas comunidades.
A
Escola da Felicidade não prova que existe uma fórmula para transformar escolas
públicas. Ela mostra algo mais importante: quando existem condições materiais,
financiamento, escuta e reconhecimento, escolas públicas podem inventar
futuros. Esta escola existe. Apenas seu nome permanece protegido. O anonimato
protege pessoas. Não deveria proteger governos.
Contar
esta história é lembrar que o direito à educação ultrapassa o acesso à escola.
Inclui o direito de participar da invenção dos mundos que podem nascer dentro
dela. Inclui o direito de produzir conhecimento a partir do território, de
transformar desejos em currículo, de aprender coletivamente e de construir uma
democracia que se pratica antes de ser ensinada. A felicidade, nesse sentido,
não é uma promessa ingênua de ausência de problemas. É uma prática coletiva de
produzir pertencimento, conhecimento e futuro.
A
Escola da Felicidade continua existindo porque aquilo que produziu permanece na
memória das crianças, das professoras, das famílias, dos pesquisadores,
estagiários e de todos que passaram por ela. Sua história também permanece como
uma pergunta dirigida às políticas públicas. Quantas outras escolas produzem
experiências semelhantes sem encontrar as condições necessárias para lhes dar
continuidade? Quantos futuros deixam de ser inventados quando uma política
termina junto com um edital?
O
projeto acabou, mas sua experiência, porém, confirma que a escola pública
brasileira também produz conhecimento sobre si mesma e sobre o país. Contá-la é
reconhecer esse conhecimento como um bem público.
“Vamos
precisar de todo mundo”, canta Beto Guedes, em Sal da Terra (Contos da Lua
Vaga, 1981). Creio que seja essa a maior lição daquela escola: nenhum futuro se
constrói sozinho. Precisamos de crianças, professoras, famílias, universidades,
comunidades e políticas públicas capazes de sustentar aquilo que a escola já
sabe fazer.
É desse
encontro que nasce a felicidade de que trata esta história. Porque a felicidade
não é um lugar pronto aonde se chega. A felicidade de uma comunidade que
reconhece, todos os dias, que, inventar outros futuros é, antes de tudo, um
direito.
##
Este
artigo foi escrito a partir de pesquisas desenvolvidas ao longo de vários anos
em uma escola pública da Baixada Fluminense. Reúne análises produzidas em
projetos financiados com recursos públicos, relatórios de pesquisa,
dissertações, teses, artigos científicos e registros construídos pela própria
comunidade escolar. O nome da escola foi preservado para proteger seus
participantes.
Fonte:
Por Maria Luiza Süssekind, no Le Monde

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