O
Estado refém e a asfixia rentista
A
premissa fundamental de uma democracia é a soberania popular, na qual as
instituições públicas devem operar em benefício da maioria. Contudo, a
realidade concreta desenha um cenário distinto, no qual o poder político e o
orçamento da União parecem capturados por uma elite financeira dominante. Longe
de ser um espaço de neutralidade técnica, a engrenagem macroeconômica atual
funciona como uma ciranda financeira que perpetua a desigualdade. Sob o
pretexto de garantir a estabilidade, o mecanismo da dívida pública, alimentado
por taxas de juros persistentemente elevadas, transformou-se em um dreno
invisível que transfere a riqueza produzida pela classe trabalhadora
diretamente para os cofres de uma minoria rentista.
Essa
distorção estrutural não ocorre por acaso; ela é sustentada pela simbiose entre
o poder econômico e as esferas de governança. O Poder Judiciário e os órgãos de
controle, que deveriam assegurar o equilíbrio social e o cumprimento dos
direitos fundamentais, frequentemente atuam na blindagem dos interesses
contratuais do mercado de capitais. O fenômeno, conhecido na ciência política
como “captura do Estado”, ocorre quando o aparato público passa a priorizar a
segurança jurídica dos grandes credores em detrimento do bem-estar social.
Assim, a estrutura legal do país é moldada para garantir que o fluxo de
pagamento dos juros permaneça intocável, independentemente das crises que
assolam a população.
No
Parlamento, o cenário de paralisia legislativa evidencia os laços de
dependência que ligam a política institucional ao topo da pirâmide econômica.
Projetos de lei que visam auditar a dívida, taxar grandes fortunas ou limitar
os spreads bancários são sistematicamente engavetados nas comissões do
Congresso Nacional. Essa omissão decorre do altíssimo custo das engrenagens
eleitorais. Embora o fundo partidário utilize recursos públicos, a influência
do poder econômico e o lobby financeiro ditam o ritmo das campanhas e o destino
dos mandatos. Cria-se, desse modo, uma plutocracia velada, onde os
representantes eleitos tornam-se devedores políticos daqueles que detêm o
capital.
O
resultado desse arranjo é um ciclo vicioso em formato de bola de neve: o
Executivo se endivida para manter o funcionamento da máquina e rolar passivos
anteriores, os grandes banqueiros acumulam lucros recordes sem contrapartida na
economia real, e a sociedade civil arca com o sucateamento de serviços
essenciais. Desatar o nó que prende o Estado a esse sistema não é apenas um
desafio econômico, mas uma urgência democrática. Para que a soberania popular
deixe de ser uma ficção jurídica, o país necessita de reformas profundas, a
começar por uma auditoria integral da dívida pública e por uma política
monetária que condicione as taxas de juros ao pleno emprego e ao
desenvolvimento social, e não apenas às expectativas do mercado.
Mais do
que propostas técnicas, a superação desse cenário exige uma profunda reflexão
coletiva. Até quando a sociedade aceitará o sacrifício da saúde, da educação e
da infraestrutura para assegurar a rentabilidade de meia dúzia de conglomerados
financeiros? A história demonstra que privilégios estruturais não são cedidos
voluntariamente; a mudança depende da capacidade de mobilização da classe
trabalhadora para reocupar os debates sobre o orçamento. O Brasil precisa
decidir se submeterá o sistema financeiro às necessidades de seu povo ou se
continuará assistindo ao empobrecimento da população em benefício de um
rentismo parasitário que asfixia o futuro da nação.
• Fim da 6×1: Um silêncio incômodo no
Senado. Por Por Heitor Scalambrini Costa
A
desfaçatez de vários segmentos patronais diante do fim da escala de trabalho
6×1 (seis dias trabalhados e um de descanso), merece ser denunciada.
Principalmente depois que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva encaminhou um
projeto de lei extinguindo esta escala perversa e cruel de trabalho, para
atender o clamor e desejo da sociedade brasileira.
O
projeto de lei 129/2026, assinado no dia 13 de maio pelo presidente Lula, foi
encaminhado à Câmara dos Deputados em regime de urgência, acabando de fato com
a escala 6×1, e implantando a escala 5×2, com a redução da carga horária de 44
horas para 40 horas semanais, sem redução de salário. O que foi votado e
aprovado na Câmara dos Deputados no dia 27 de maio, atendeu a quase tudo
proposto pelo governo federal.
No dia
28 de maio chegou no Senado Federal, a proposta vinda da Câmara. A reação
unilateral do presidente Davi Alcolumbre (União/AP) foi rechaçar a proposta.
Como havia claramente anunciado, discorda alegando que precisaria de mais tempo
para ser analisada pelos senadores e senadoras. Desde então, 3 meses depois, o
fim da escala continua engavetada, sem nenhuma tramitação.
No
mesmo dia que a PEC da Câmara chegou no Senado, a oposição de extrema direita
tendo à frente o senador Rogério Marinho (PL/RGN), o atual coordenador da
campanha do pré-candidato conhecido como TariFlávio, encaminhou a PEC 12/2026,
com mais 36 assinaturas de senadores e senadoras que ficou conhecida como a
”PEC do trabalho flexível”, ou da “escala 7×0”, que foi encaminhada rapidamente
para a Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania do Senado Federal.
Este
modelo de pagamento puramente por hora trabalhada para a maioria das funções,
transfere o risco da operação comercial para o elo mais fraco da corrente: o
trabalhador. O risco do negócio é da empresa, e não do trabalhador. Os
empresários defendem uma proposta que não garante nem o direito ao salário
mínimo.
As
forças políticas de extrema direita, o partido bolsonarista, o PL e membros do
conhecido Centrão, se uniram no Senado com as elites econômicas e financeiras,
as classes patronais, para rejeitarem as mudanças, mais do que justas
favoráveis à classe trabalhadora.
Verdadeira
pressão, uma blitz em grande escala foi realizada pelos lobbys do patronato,
aliado a políticos bolsonaristas da extrema direita. Utilizam de mentiras, de
ameaças, de desinformação para amedrontar os trabalhadores. É bem conhecido o
papel que exerceram no triste período ditatorial de 1964 a 1985.
As
grandes entidades patronais como a Confederação Nacional da Indústria (CNI),
alegam que “antes de qualquer mudança na carga horária dos trabalhadores, é
preciso criar condições para que as empresas produzam mais, mantendo a
capacidade de investimento e de contratação”.
Está
justificativa nos faz lembrar da célebre frase “é preciso fazer o bolo crescer
para depois dividi-lo”, atribuída ao ex-ministro da Fazenda Delfim Netto, que
marcou o “milagre econômico” da ditadura militar, nos anos 70. O lema
justificava concentrar a riqueza primeiro na esperança de distribuí-la depois.
Na prática, porém, o “bolo” cresceu, mas a fatia maior ficou com os mais ricos.
Sem
esquecer que no período ditatorial o empresariado industrial, representado pela
CNI- Confederação Nacional da Indústria, e pela Fiesp-Federação das Indústrias
do Estado de São Paulo, tiveram um papel ativo no apoio à ditadura e na sua
manutenção.
Em
1968, as entidades dos empresários apoiaram o ditador general Artur da Costa e
Silva, pelo Ato Institucional nº 5, que permitiu o endurecimento do regime. O
argumento oficial era conter o avanço do comunismo e garantir a ordem social,
além de buscarem alinhar políticas estatais aos interesses do setor industrial.
Entre
as principais entidades patronais que lideram a oposição ao fim da escala 6×1,
além da CNI e Fiesp, incluem: CNC (Confederação Nacional do Comércio de Bens,
Serviços e Turismo), a Abrasel (Associação Brasileira de Bares e Restaurantes,
a CNA (Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil), e a CNT (Confederação
Nacional do Transporte).
Essas
organizações alegam que a redução da jornada para 40 horas sem queda de
salário, prejudicará a competitividade. Defendem a jornada flexível, que
prioriza negociações individuais, e permite que os trabalhadores recebam apenas
pelas horas efetivamente trabalhadas.
As
ameaças do setor patronal são muitas. Afirmam que se não aumentar a
produtividade antes das mudanças de carga horária, pode comprometer a
competitividade dos produtos, elevando os custos operacionais, além de
pressionar margens de lucro e gerar inflação. E mais, ameaçam com a
possibilidade de demissões.
Com
total descaramento omitem os êxitos obtidos nas economias de vários países do
mundo, depois de reduzirem a carga horária laboral. Em alguns países estas
mudanças já foram realizadas há décadas. Nos países do chamado Norte Global, a
média horária trabalhada semanalmente está abaixo de 40 horas; enquanto em
países do Sul Global, a maioria ainda adota acima das 40 horas semanais, com
exceção de poucos países que adotam menos de 40 horas.
A
constatação é que não só beneficia a economia, mas a redução da carga horária
favorece a saúde física e mental dos trabalhadores e trabalhadoras. Permite que
tenham mais tempo para o lazer, ou outra coisa que queiram fazer. A convivência
familiar é outro fator que deve ser ressaltado na melhoria da qualidade de vida
proporcionada pela redução de horas trabalhadas.
Recentemente
Christopher Pissarides, professor, e vencedor do Prêmio Nobel de 2010, afirmou
que “menos horas de trabalho aumentam a produtividade pois atua como um
estímulo positivo para o rendimento dentro das empresas, sem gerar grandes
impactos inflacionários. O foco do trabalhador se torna mais agudo quando o
tempo disponível é menor”
Estudos
de pesquisadores e de instituições sérias (USP, UNICAMP, …), concluem que não
se sustentam os argumentos dos patrões diante dos fatos verificados em outros
países que já implantaram cargas de trabalho inferiores a 40 horas.
O que
deseja realmente o patronato para viabilizar jornadas menores é obter vantagens
indevidas como a desoneração da folha, ao reduzir os encargos tributários; e a
flexibilização permitindo acordos diretamente com o trabalhador. O governo
federal não aceita, nem a sociedade. Com toda razão.
Fonte:
Por Luiz Carlos Rodrigues de Souza, em Outras Palavras

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