quarta-feira, 29 de julho de 2026

O real interesse de Michelle por trás da “trégua” com Flávio Bolsonaro

No vídeo de quase três minutos enviado à convenção nacional do PL, que oficializou a candidatura de Flávio Bolsonaro, Michelle Bolsonaro (PL) cita apenas uma vez o nome do enteado, com quem decretou uma trégua na guerra instalada no núcleo central do clã desde dezembro, que Jair Bolsonaro (PL) alçou o filho “01” à Presidência por uma carta suspeita escrita dentro da cela na Superintendência da Polícia Federal em Brasília.

Após ver a madrasta quase implodir sua candidatura com um vídeo-bomba em que expõe seu caráter misógino e autoritário, Flávio Bolsonaro aceitou a humilhação imposta e pediu desculpas públicas a Michelle.

A trégua foi negociada e escrita de um lado pelo senador Rogério Marinho (PL-RN), coordenador da campanha de Flávio, e, por outro, pela governadora Celina Leão (PP-DF), que é próxima e depende de Michelle para tentar se reeleger ao cargo herdado após a saída de Ibaneis Rocha (MDB).

No tratado, Michelle aceitou ficar de fora das decisões da campanha de Flávio Bolsonaro, especialmente no Ceará, estopim da guerra com o apoio do enteado à candidatura de Ciro Gomes (PSDB) ao governo do Estado.

Michelle também teria sinalizado que não pretende se expor publicamente ao lado do enteado, como fez na convenção do PL no último sábado (25). Na ocasião, deu como justificativa da ausência os cuidados com o marido, que não a impedem de participar de outros atos de campanha pelo país.

“O meu galego não pode estar com vocês. Eu também não posso, porque estou em casa cuidando dele, mas os nossos corações estão aí, sentindo a mesma energia que nós dois tantas vezes encontramos nos eventos do PL Mulher por todo o Brasil”, afirmou, citando o movimento capitaneado por ela e implodido por Flávio Bolsonaro após conseguir demovê-la da Presidência da ala feminina da sigla.

Em seguida, Michelle focou seu discurso nas mulheres, principal entrave do enteado, que está quase 20 pontos atrás de Lula no eleitorado feminino, segundo pesquisa BTG Nexus divulgada nesta segunda-feira (27).

No entanto, diferentemente do desejado pelo enteado, Michelle não pediu votos para ele. Ela focou seu discurso em um projeto próprio, se colocando junto às mulheres que estão “preparadas e dispostas a ocupar cada vez mais espaços de decisão, liderança e poder”.

“Mulheres de bem, mulheres alicerçadas, somos 53% do eleitorado”, lembrou a ex-primeira-dama, mirando o enteado.

“Chegou a hora de vocês ocuparem os lugares em todos os espaços onde o futuro do Brasil é decidido, fazermos nossa voz ser ouvida e transformarmos essa força em ação. Foi por isso que lutei e é por isso que luto e é por isso que nós continuaremos lutando”, segue Michelle.

Ao final, antes de citar Flávio, a ex-primeira-dama faz referência ao próprio projeto político, transcrito no livro “Edificando a Nação”, uma espécie de conclamação para uma autocracia religiosa no país.

“São vocês que podem conquistar cada voto, recuperar cada esperança e trazer mais brasileiros para esse projeto de edificação da nossa nação”, afirmou.

A imagem da ex-primeira-dama de papelão enviada à convenção do PL é idêntica a que os ex-funcionários do PL Mulher homenagearam Michelle.

Após ela deixar a presidência, os ex-funcionários lançaram o “imparáveis”, um movimento político próprio em torno da ex-primeira-dama, numa espécie de fundação do Michellismo.

<><> Desconfiança e vácuo político

Entre aliados, a trégua concedida pela ex-primeira-dama ao enteado é vista com desconfiança, já que como o próprio Bolsonaro definiu, Michelle seria “incontrolável”.

O acordo é visto como uma forma da madrasta acenar a uma parcela do bolsonarismo que teria ficado ao lado do enteado em meio à guerra.

Michelle teria aceitado a trégua para manter-se em meio ao eleitorado mais radical do clã ao mesmo tempo em que segue no comando, de maneira informal, do movimento que construiu junto às mulheres.

O objetivo da ex-primeira-dama seria se colocar como uma alternativa diante de um potencial naufrágio da candidatura do enteado em meio à campanha eleitoral.

Estacionado nas pesquisas, após derreter a partir da revelação do elo com Daniel Vorcaro, Flávio Bolsonaro tem enfrentado crises sequenciais que dificultaram, inclusive, a formação de alianças com siglas do Centrão, essenciais para o tempo de TV.

Além da possibilidade de busca e apreensão durante a campanha, que se tornou ainda mais real após André Mendonça autorizar a investigação sobre o financiamento de Dark Horse por Vorcaro, Flávio Bolsonaro ainda terá à frente os debates presidenciais.

Mesmo sob pesado media training, o senador ainda carrega o trauma das eleições municipais de 2016, quando precisou ser amparado pela então adversária na disputa à prefeitura carioca, Jandira Feghali (PCdoB), ao passar mal em um debate na Band.

Um desempenho pífio, ainda mais diante de um Ronaldo Caiado (PSD) cada dia mais sedentos pelo eleitorado em disputa com o clã Bolsonaro, pode levar a candidatura de Flávio à bancarrota.

É ai que entraria Michelle. A ex-primeira-dama acredita que pode surgir como a salvação do clã Bolsonaro para manter um patamar de votos para eleição de uma bancada considerável no Congresso Nacional – atualmente, a sigla tem o maior número de parlamentares, com 97 deputados federais e 15 senadores.

Em seus cálculos, com o enteado cambaleante, Michelle poderia assumir o comando do bolsonarismo ao se eleger senadora pelo DF. Com isso, teria voz e espaço para consolidar o próprio movimento político, que visa uma parceria com Tarcísio Gomes de Freitas em 2030.

A trégua, assim como o vídeo de Bolsonaro na convenção, é fake, uma criação que leva a disputa no núcleo do clã para dentro da campanha de Flávio Bolsonaro, que agora corre o risco de perder a eleição para Lula e o comando do bolsonarismo para a madrasta Michelle.

<><> Michelle quer guerra: vazamento de print de conversa com jornalista do 247 foi proposital

Michelle Bolsonaro quer guerra. Ela não engoliu ter que aceitar publicamente o pedido de desculpas de Flávio Bolsonaro e o vazamento de um print de conversa envolvendo um de seus assessores me parece ter sido tudo, menos acidental.

O que mais chamou atenção nesse episódio não foi a conversa em si. Jornalistas falam com fontes de todos os campos políticos. É assim que a profissão funciona. Quem estranhar isso simplesmente não entende como se faz jornalismo. O filho do Léo Attuch, que aparece na conversa, estava fazendo exatamente o que um bom repórter deve fazer: conversar com quem pode fornecer informação. Nada além disso.

A pergunta correta é outra: por que expor esse diálogo? Para mim, a resposta é bastante evidente. O objetivo era mandar um recado político.

Na minha leitura, Jair Bolsonaro precisou costurar uma trégua para evitar que Flávio Bolsonaro continuasse isolado politicamente. Michelle aceitou participar da encenação, gravou o vídeo recebendo as desculpas e cumpriu o combinado. Mas fez questão de deixar claro, logo em seguida, que aquilo não significava paz.

O vazamento do print funciona justamente como esse aviso. É uma forma de dizer que ela cumpriu o protocolo, mas não desistiu da disputa. Que a guerra continua.

Essa movimentação mostra, mais uma vez, que a chamada familícia segue mergulhada em disputas internas. O conflito nunca desapareceu; apenas ficou temporariamente escondido pelas conveniências políticas.

Na minha avaliação, Michelle continua construindo seu próprio projeto político. E, para isso, precisa cada vez mais se diferenciar do núcleo bolsonarista tradicional, ainda que faça isso sem romper publicamente de uma vez só. O vazamento desse print, se essa leitura estiver correta, é mais um capítulo dessa estratégia.

•        Fora da realidade, Trump defende Flávio Bolsonaro e delira ao acusar governo Lula de perseguir adversários

presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, prorrogou por mais um ano a emergência nacional declarada contra o Brasil em 30 de julho de 2025, com publicação oficial prevista para esta quarta-feira (29) no Federal Register, o diário oficial americano.

Em determinado momento da Ordem Executiva, Trump sai em defesa da família Bolsonaro e, por consequência, de Flávio Bolsonaro, candidato à Presidência da República.

Para o presidente dos Estados Unidos, Flávio Bolsonaro e sua família são perseguidos pelo governo Lula e pelo Supremo Tribunal Federal:

“Membros do governo do Brasil também estão perseguindo politicamente um ex-presidente do Brasil, sua família e seus apoiadores, o que contribui para o deliberado enfraquecimento do Estado de Direito no Brasil, para a intimidação por motivos políticos naquele país e para violações de direitos humanos.”

Em outro momento, Trump acusa o governo Lula e o STF de “violar os direitos humanos e a liberdade de expressão”:

“Determinadas atividades, como a censura promovida pelo Supremo Tribunal Federal do Brasil e a prisão de pessoas por exercerem a liberdade de expressão, bem como a censura de conteúdos na internet, continuam a representar uma ameaça incomum e extraordinária, cuja origem se encontra total ou substancialmente fora dos Estados Unidos, à segurança nacional, à política externa e à economia dos Estados Unidos.”

O endurecimento do governo Trump contra o Palácio do Planalto e o STF ocorre dois dias após o presidente da Argentina, Javier Milei, participar da convenção nacional do PL, que lançou Flávio Bolsonaro à Presidência da República. No evento, Milei chamou o presidente Lula de “ladrão” e o ministro Alexandre de Moraes de “lixo careca”.

Além da participação de Javier Milei, o evento de Flávio Bolsonaro também contou com a participação virtual do primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, que chamou Flávio de “meu amigo”.

<><> Confira abaixo a íntegra da Ordem Executiva de Trump contra o Brasil:

“Em 30 de julho de 2025, por meio da Ordem Executiva 14323, declarei emergência nacional em relação ao Brasil, com base na Lei de Poderes Econômicos de Emergência Internacional (International Emergency Economic Powers Act – 50 U.S.C. 1701 e seguintes), para enfrentar a ameaça incomum e extraordinária, cuja origem se encontra total ou substancialmente fora dos Estados Unidos, à segurança nacional, à política externa e à economia dos Estados Unidos, representada pelas políticas, práticas e ações do governo do Brasil que interferem na economia dos Estados Unidos, violam o direito à liberdade de expressão de cidadãos e residentes dos Estados Unidos, infringem os direitos humanos e comprometem o interesse dos Estados Unidos em proteger seus cidadãos e empresas. Membros do governo do Brasil também estão perseguindo politicamente um ex-presidente do Brasil, sua família e seus apoiadores, o que contribui para o deliberado enfraquecimento do Estado de Direito no Brasil, para a intimidação por motivos políticos naquele país e para violações de direitos humanos.

Determinadas atividades, como a censura promovida pelo Supremo Tribunal Federal do Brasil e a prisão de pessoas por exercerem a liberdade de expressão, bem como a censura de conteúdos na internet, continuam a representar uma ameaça incomum e extraordinária, cuja origem se encontra total ou substancialmente fora dos Estados Unidos, à segurança nacional, à política externa e à economia dos Estados Unidos.

Por essa razão, a emergência nacional declarada na Ordem Executiva 14323, de 30 de julho de 2025, deve permanecer em vigor após 30 de julho de 2026. Assim, de acordo com a Seção 202(d) da Lei de Emergências Nacionais (National Emergencies Act – 50 U.S.C. 1622(d)), estou prorrogando por mais um ano a emergência nacional em relação ao Brasil declarada na Ordem Executiva 14323.

Este aviso será publicado no Federal Register e encaminhado ao Congresso.”

 

Fonte: Por Plínio Teodoro, na Fórum

 

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