Mais
que ataque pessoal, gesto de Milei revela disputa internacional pela eleição
brasileira
Especialistas
ouvidos pela Sputnik Brasil avaliam que apoio do presidente argentino ao
senador brasileiro ultrapassa a esfera da relação bilateral entre Brasil e
Argentina e indica uma articulação da direita internacional às vésperas das
eleições brasileiras de 2026.
A crise
diplomática ganhou novos contornos após o presidente da Argentina, Javier
Milei, participar, em São Paulo, do lançamento da candidatura presidencial do
senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), ocasião em que chamou o presidente Luiz
Inácio Lula da Silva de "presidiário" e "ladrão" e insultou
o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes.
Em
nota, o Itamaraty pontuou o caráter inédito do episódio "lamentável",
especialmente com um país que o Brasil mantém 203 anos de amizade e cooperação.
Além de convocar o embaixador argentino, Daniel Raimondi, para transmitir a
repulsa do governo brasileiro, o Ministério das Relações Exteriores (MRE)
chamou de volta o embaixador do Brasil em Buenos Aires, Julio Bitelli, para
"consultas".
Embora
esteja dentro da liturgia diplomática cobrar explicações de um embaixador
estrangeiro em tais circunstâncias, a convocação do embaixador brasileiro de
volta ao Brasil é uma situação "muito grave" nas relações bilaterais,
segundo Robson Cardoch Valdez. De acordo com o doutor em estudos estratégicos
Internacionais pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e
professor de relações internacionais do IDP Brasília, o gesto indica que o
governo brasileiro entende que a crise extrapolou um desentendimento pontual e
exige avaliação direta do estado das relações entre os dois países.
A
reação do Itamaraty, avalia, segue um padrão já utilizado pelo Brasil em outras
crises diplomáticas, como no episódio envolvendo Israel após as declarações do
presidente Luiz Inácio Lula da Silva sobre a guerra em Gaza.
"São
episódios parecidos no que diz respeito ao uso dessa praxe." O
especialista ressalta, porém, que as razões são diferentes: enquanto a crise
com Israel teve origem nas críticas de Lula à ofensiva em Gaza, o impasse com a
Argentina decorre dos ataques de Javier Milei ao presidente brasileiro e a um
ministro do Supremo Tribunal Federal durante um ato político em território
nacional.
"As
relações bilaterais também se dão em outras dimensões muito mais pragmáticas,
do ponto de vista dos investimentos, das relações de cooperação", destaca,
considerando que a parceria de 203 anos ressaltado pelo MRE vale mais de
interesses mais permanentes do que ideológicos. Por isso, considera que ofensas
dirigidas por um chefe de Estado a autoridades de outro país "mostram um
desconforto" e fogem da conduta esperada nas relações diplomáticas.
Sobretudo,
acrescenta que a resposta brasileira também deve ser entendida dentro de um
contexto internacional mais amplo. Na sua avaliação, o Itamaraty observa
"com muita cautela" os movimentos da direita internacional em torno
das eleições brasileiras e vê "com bastante preocupação"
demonstrações de apoio de líderes estrangeiros ao senador Flávio Bolsonaro.
Assim, a convocação do embaixador brasileiro em Buenos Aires também transmite
esse recado político à Argentina, ao evidenciar que Brasília enxerga a situação
para além de um simples atrito diplomático.
"O
contexto é muito importante, porque tanto o presidente Milei quanto o
presidente dos Estados Unidos, e também o presidente Netanyahu, são figuras de
alcance internacional no que diz respeito a essa coalizão da direita
conservadora em âmbito internacional."
Somando
à análise, Williams Gonçalves, professor de relações internacionais da
Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e pesquisador do Instituto
Nacional de Ciência e Tecnologia para Estudos sobre os Estados Unidos
(INCT-INEU), concorda que a presença de Milei na convenção do Partido Liberal
(PL) faz parte da estratégia da direita internacional, liderada pelos Estados
Unidos, de influenciar o cenário político brasileiro às vésperas das eleições
presidenciais.
"Evidentemente
que os Estados Unidos não podem fazer com o Brasil o que fizeram com a
Venezuela ou com o Panamá. E a oportunidade que há são as eleições. É a eleição
presidencial que se aproxima", com Washington querendo ampliar sua
influência política na América Latina.
Na
leitura do especialista, o apoio demonstrado por Donald Trump, presidente dos
EUA, e Milei ao bolsonarismo não decorre de uma relação pessoal com a família
Bolsonaro, mas de uma convergência de interesses políticos. "Qualquer
outro que se apresentasse na mesma condição seria prestigiado por ele. Então,
esse prestígio que se concede ao candidato brasileiro da família Bolsonaro está
dentro desse contexto."
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Mercosul e agenda de integração regional em risco?
Vale
lembrar, o governo de Javier Milei é contra políticas do Mercosul, tendo
assinado um Acordo de Comércio e Investimento Recíproco com os EUA em 2025,
assim minando o papel de integração do bloco.
Em
meados de julho de 2026, Flávio Bolsonaro sinalizou uma posição similar ao
propor a criação da AFTA (Acordo de Livre Comércio das Américas, traduzido do
inglês), um novo acordo de livre-comércio entre o Brasil, os Estados Unidos, o
México e o Canadá, sugerindo que poderia incluir a Argentina no futuro.
Contudo,
o contexto econômico internacional aponta na direção oposta. A intensificação
da guerra tarifária entre as grandes potências e a crescente fragmentação do
comércio global têm levado o Mercosul a reforçar sua atuação como plataforma de
inserção internacional dos países-membros.
Nos
últimos meses, o bloco acelerou negociações comerciais e ampliou sua agenda
externa, consolidando acordos com a União Europeia e Singapura e avançando nas
tratativas com Canadá, Japão e Vietnã. Nesse cenário, o Brasil e a Argentina
continuam sendo peças centrais para o funcionamento do Mercosul.
"Eu
vejo essa tentativa do Milei em sabotar o Mercosul em benefício de uma aliança
mais próxima, um comércio bilateral com os Estados Unidos, algo que não vai
prosperar no sentido de comprometer o que se consolidou nesses últimos 18
meses, a partir do tarifácio de Donald Trump", diz Valdez. "Acho que
o Mercosul, agora, ganha um dinamismo, ganha um protagonismo maior".
Nesse
sentido, avalia, os recentes acontecimentos entre Brasília e Buenos Aires não
podem ser compreendidos como uma crise bilateral, mas como parte de uma disputa
geopolítica mais ampla na América do Sul. "O Brasil é um país importante,
está no meio da disputa entre as duas grandes potências, Estados Unidos e
China, pelo controle de insumos estratégicos para tecnologias avançadas".
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Gonçalves,
por sua vez, enfatiza que o Mercosul transcende sua dimensão econômica e
representa um dos principais instrumentos de integração política da América do
Sul. O bloco foi decisivo para consolidar a estabilidade regional ao encerrar
décadas de rivalidade entre Brasil e Argentina, "selando a paz no Cone
Sul" ao superar as tensões que marcaram as relações bilaterais até o fim
dos regimes militares, razão pela qual não pode ser enfraquecido por
divergências ideológicas conjunturais ou pela influência de potências externas.
Assim,
Gonçalves defende que cabe ao Brasil preservar seu projeto histórico de
integração regional e exercer a liderança do bloco diante desse cenário.
"O Brasil deve fazer valer o seu projeto de Estado, que é promover a
integração regional (...) e deve se colocar como uma nação respeitável e
responsável pelo Mercosul".
"Nós
não podemos permitir que um indivíduo desse, que é um fantoche dos Estados
Unidos, venha quebrar a unidade do Mercosul, é justamente isso que eles
querem."
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Eleições brasileiras 2026
A falta
expressiva de apoio político nacional na convenção do PL acentuou a presença de
lideranças estrangeiras na oficialização da candidatura de Flávio Bolsonaro.
Além do presidente argentino, o evento contou com uma mensagem em vídeo do
primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, em apoio ao senador
brasileiro. Para Gonçalves, essa configuração é reveladora, já que o
protagonismo de figuras internacionais contrastou com a baixa adesão de nomes
de peso da política brasileira ao lançamento da candidatura.
"Eu
vejo isso como uma coisa vergonhosa e lamentável, porque essa nossa extrema
direita se apresenta como nacionalista, mas de nacionalista ela não tem
rigorosamente nada", afirma, apontando o contraste dos movimentos
nacionalistas europeus do século XX, que tinham como eixo a afirmação dos
interesses de seus próprios países, enquanto a direita brasileira se coloca em
uma posição de dependência política em relação a lideranças estrangeiras.
"O
Brasil, com a importância que tem, aparece como subordinado a esses
tipos", diz. Na sua leitura, a presença dos dois líderes internacionais em
um evento de campanha, diante da ausência de um respaldo expressivo de
lideranças nacionais, não apenas reforça essa percepção, como também afeta a
imagem das instituições brasileiras, em especial o Senado brasileiro.
Valdez
acrescenta que a aproximação de Flávio tende a reforçar sua própria base, mas
dificilmente será o fator decisivo para conquistar eleitores indecisos na
eleição presidencial. "Esse eleitorado não está muito interessado de saber
se o Flávio Bolsonaro é um conservador, ou se ele gosta do Netanyahu, do Donald
Trump. Isso ele já sabe, ele quer saber quais são as propostas".
O
especialista também estabelece um paralelo com a experiência do governo de
Javier Milei na Argentina, cuja agenda econômica é marcada por um forte ajuste
fiscal e cortes de gastos públicos, o que produziu impactos sociais expressivos
como aumento da pobreza, retrocessos trabalhistas e insegurança alimentar.
Todos esses fatores tornam inevitável o debate sobre os efeitos de uma eventual
agenda semelhante no Brasil, vendo que Flávio "admira" as políticas
do presidente argentino.
Por
isso, enquanto os eleitores já conhecem o legado e a forma de governar de Luiz
Inácio Lula da Silva após seus mandatos anteriores, a principal incógnita da
disputa presidencial está justamente na proposta apresentada por Flávio
Bolsonaro. "A grande decisão e a grande pergunta que se coloca é qual é o
plano de governo do Flávio Bolsonaro para melhorar a vida desses eleitores
indecisos".
Fonte:
Sputnik Brasil

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