O
mito do crescimento destrói territórios e entrega mais poder ao capital, diz
pensador espanhol
O
pensador anarquista espanhol Miquel Amorós é
uma das principais referências da crítica antidesenvolvimentista na Europa.
Vinculado às lutas antinucleares, ecologistas e anticapitalistas desde o final
do franquismo, desenvolveu ao longo das últimas décadas uma reflexão que
articula crítica social, defesa do território e oposição ao modelo de
desenvolvimento baseado no crescimento econômico permanente.
LEIA A
ENTREVISTA:
·
Poderia explicar brevemente em que consiste a ideia, o
conceito ou a teoria do antidesenvolvimentismo? Quando e onde ela se origina
exatamente?
Miquel
Amorós:
Não é fácil explicar isso em poucos minutos. Digamos que, depois de um balanço
do fracasso das lutas sociais operárias nos anos 1970 e do surgimento do
movimento antinuclear, observamos que os grandes movimentos apareciam,
precisamente, nos cenários de destruição do território, como nas construções de
centrais nucleares, centrais térmicas, rodovias e barragens. No meu caso, foi
uma análise que uniu a velha teoria social, a velha teoria libertária e
anarquista, à crítica ecologista, tal como fazia Murray Bookchin, e às críticas
ao crescimento formuladas por estudiosos como Kenneth Boulding, Nicholas
Georgescu-Roegen, Herman E. Daly e Donella Meadows. Eles indicavam que o
capitalismo, à medida que crescia, alcançava determinados limites e que, se os
ultrapassasse, poderia destruir o planeta, esgotar seus recursos e conduzir a
sociedade à própria aniquilação. Esse desastre seria seletivo: os primeiros a
pagar e sofrer as consequências seriam, precisamente, as classes populares, e
não os responsáveis, as classes dirigentes.
Essas
análises, inicialmente, depararam-se com um fenômeno como a globalização, que
representava um passo adiante no desenvolvimentismo: a mundialização do
desenvolvimento, a integração de todo o planeta em um processo de crescimento
sem fim. Esse processo consumia enormes quantidades de recursos, sobretudo
energéticos, que não são renováveis e foram os primeiros a dar sinais de
alerta. A esta altura, já estamos vendo as consequências de 30 anos de
desenvolvimentismo extremista e selvagem: a destruição da agricultura
tradicional, a industrialização de qualquer atividade — da produção aos
serviços e da própria vida, que passou a ser regida por padrões industriais.
O
antidesenvolvimentismo é um anti-industrialismo, uma oposição à loucura
industrializadora da sociedade capitalista. O antidesenvolvimentismo possui
também um cenário urbano. São os bairros que defendem seus modos de vida
específicos, cada vez mais arrasados, e, sobretudo, as lutas em defesa do
território, porque o território se transforma em suporte de infraestruturas e
também em fonte de recursos energéticos. O território é a principal fonte de
riqueza explorável. Não excluímos a cidade, que faz parte do território. Isso
seria, mais ou menos, o que se poderia entender como crítica
antidesenvolvimentista, ou seja, a crítica social tal como pode ser concebida
hoje, no atual estágio de desenvolvimento capitalista.
·
Qual é o vínculo do antidesenvolvimentismo com a
ideologia anarquista, por exemplo?
O
antidesenvolvimentismo denuncia a fusão da política com a economia. A partir de
determinado momento, percebe-se que não existe outro tipo de política além
daquela voltada para o desenvolvimento, o que favorece a economia de mercado.
Trata-se também de uma fusão entre Capital e Estado. O Estado já não é uma
entidade política separada do Capital, mas parte integrante dele. É a outra
face do Capital. Nesse sentido, atacar o Estado é atacar o Capital, e atacar o
Capital é atacar o Estado. Quando, nos anos 1960, ocorre essa fusão entre
Estado e Capital, entre uma forma política e uma forma econômica, o anarquismo
volta à cena, pois é a única concepção de mundo capaz de realizar uma crítica
global, já que é a única que critica o Estado existente.
·
Qual é a relação do antidesenvolvimentismo com algumas
correntes do anarquismo, como o primitivismo, o insurrecionalismo e outras
correntes mais recentes? Há pontos de contato?
O
antidesenvolvimentismo é uma crítica e uma prática; não é uma ideologia. Ou
seja, não é um conjunto ou sistema fechado de crenças e opiniões. É anarquista
no sentido de se opor ao Estado, mas não no sentido ideológico. Não é uma
doutrina com todas as respostas, situada acima da história. O primitivismo,
sim, é uma doutrina: postula o retorno à Idade da Pedra. O insurrecionalismo
também é uma doutrina: postula a ausência de doutrinas, ou seja, reivindica a
ação pela ação e não a vincula a nenhuma estratégia. O antidesenvolvimentismo
não tem nada a ver nem com o primitivismo, nem com o insurrecionalismo, nem, em
si, com a ideologia anarquista propriamente dita enquanto ideologia, isto é,
enquanto doutrina compatível com a ordem, religião secularizada, conjunto de
crenças atemporais ou falsa consciência apoiada em uma série de verdades mais
ou menos petrificadas.
·
Considera que a crítica antidesenvolvimentista tem
alcance global, ocidental ou é aplicável apenas à Europa? Ela faz sentido na
América Latina?
Estamos
em um período de mundialização. Todo o planeta está ao alcance dos movimentos
do Capital. Por outro lado, em todo o mundo o Estado se remodela com o único
objetivo de favorecer, tanto quanto possível, o desenvolvimento, a ampliação e
a acumulação ampliada de capitais. Isso se aplica a todas as partes do planeta,
independentemente do nível de desenvolvimento real. Já não existem mercados
nacionais independentes e isolados: todos os Estados e todos os países fazem
parte de um mercado global. Pode-se observar esse aspecto na América Latina,
por exemplo, no desmatamento e na destruição acelerada de terras. Ali, o
desenvolvimentismo encontra-se em uma fase muito mais destrutiva do que em
outros lugares.
Há
países com um ecologismo institucional mais consolidado, como os Estados
Unidos, onde existem algumas barreiras legais — ainda que não muitas. Na
América Latina, o desenvolvimentismo serve de base para governos populistas e
encontra justificativa inclusive em setores da esquerda. Isso faz com que tenha
poucos freios. A ampliação de capitais e o crescimento do Estado passam a ser
vistos como equivalentes ao bem-estar social. Nesse ponto, convergem uma classe
política e uma classe econômica: são os mesmos interesses e, na prática, a
mesma classe. Uma vez alcançada essa convergência, já não é possível separar
Estado e mercado, ou Estado e Capital, porque são essencialmente a mesma coisa.
O Estado não é uma esfera neutra, nem pode ser. Ele permite a atuação de
pequenas minorias, mas elas jamais serão determinantes nos movimentos gerais da
política e da economia.
·
No Uruguai, por exemplo, há grandes projetos
desenvolvimentistas impulsionados tanto por governos de esquerda quanto de
direita. Atualmente, muitos deles são conduzidos pela esquerda, como a
megamineração a céu aberto, o porto de águas profundas e a regaseificadora
destinada a abastecer a mineração. O desejo de todo lutador social é destruir
esse sistema para criar uma nova sociedade. Que ferramentas o
antidesenvolvimentismo oferece para alcançar esse objetivo em um contexto de
forte impulso desenvolvimentista?
A
crítica antidesenvolvimentista propõe uma sociedade à margem da mercadoria,
fora das regras econômicas. Ela se organiza a partir dos interesses coletivos,
isto é, da comunidade, onde a economia não constitui uma esfera separada do
restante da vida social. Ao contrário, integra um conjunto de comportamentos
morais, orgânicos e vitais. Faz parte da vida das pessoas, mas apenas como um
de seus elementos. Nesse sentido, poderia dizer-se que o antidesenvolvimentismo
é a única reflexão que apresenta um modelo crível de sociedade igualitária,
fundamentalmente agrário. Isso não significa negar o papel da cidade, mas sim o
das metrópoles. Defende-se um sistema de pequenas cidades inseridas no campo,
onde vive a maior parte da população organizada em comunidades. Essa seria a
alternativa. Por outro lado, a prática antidesenvolvimentista baseia-se
sobretudo no funcionamento de assembleias populares, e não no surgimento de
organizações de tipo político, como partidos, ou corporativo, como associações
de funcionários ou sindicatos. A base da estrutura orgânica do
antidesenvolvimentismo é a comunidade, e não o conselho operário, o sindicato
ou o partido.
·
Frequentemente, quando alguém critica a megamineração ou
a regaseificadora, os mais conformistas respondem com argumentos como: “Mas
precisamos do ferro para construir, precisamos da eletricidade para viver.
Você, por acaso, não usa computador?”. O que o antidesenvolvimentismo responde
a esse tipo de argumento?
Quem
necessita do ferro, da eletricidade e de todas essas coisas é o sistema
capitalista. É possível produzir eletricidade sem a construção de grandes
barragens e obter ferro por meio de fornos artesanais. Também não se pode falar
em eletricidade renovável dentro do capitalismo, porque o que ele cria são
enormes parques eólicos, grandes instalações fotovoltaicas e grandes unidades
de biomassa, que funcionam segundo a lógica das centrais industriais e não são
realmente renováveis. O gasto energético para construí-las e mantê-las não
compensa a economia de energia fóssil que prometem gerar. Além disso, o Estado
protege-se contra os pequenos produtores. Na Espanha, por exemplo, não se pode
produzir energia renovável de forma autônoma. Qualquer produção deve estar
conectada a uma rede elétrica, que funciona como monopólio multinacional. Lá,
você paga quatro vezes mais pela energia que produziu. Dizem que produzem
riqueza, mas não produzem riqueza real: produzem capital. Sim, geram alguns
postos de trabalho, mas não muitos. Menos, inclusive, do que os que ajudam a
eliminar. O salário é necessário quando se adota um modo de vida totalmente
dependente, no qual tudo se paga e tudo se compra. Trata-se de uma forma
abstrata de viver, baseada sobretudo na circulação do dinheiro e do crédito. Essa
é a forma de vida proporcionada pelo desenvolvimento: um modo de existência
submetido às leis da mercadoria.
·
Frequentemente, em seus textos, você fala de um retorno à
cultura camponesa de antigamente. No Uruguai, embora exista muita terra fértil,
não há propriamente uma cultura camponesa consolidada, nem camponeses em grande
número, já que historicamente predominou a pecuária, que exige pouca mão de
obra. Como seria possível instrumentalizar essa rejeição à cidade e à sua
cultura se não existe uma experiência distinta na história do país?
Na
América Latina, a cultura camponesa predomina em muitos países. No México, por
exemplo, surgiu o ejido, cuja vitalidade ainda se mantém. Há também
um enorme patrimônio de conhecimentos agrários e botânicos no mundo indígena,
anterior à chegada dos espanhóis e dos portugueses.
Os
tratados botânicos produzidos na época da conquista continham uma quantidade
impressionante de conhecimentos: descrições de ervas, animais, cultivos,
propriedades medicinais e inúmeras outras informações sem paralelo em sua
época.
Trata-se
de uma riqueza quase totalmente perdida e que precisaria ser recuperada. Apenas
com essa recuperação já teríamos dado um grande passo. A agricultura não possui
tantos segredos. Cultivar uma horta é relativamente simples, e alcançar certa
autonomia alimentar não é algo difícil. Outra questão é a vida comunitária e a
gestão coletiva dos bens comuns, como ocorria na criação de gado em diversas
regiões da Europa. Isso foi sendo perdido, embora ainda existam alguns
vestígios.
A
ruralização da sociedade pode ocorrer, sobretudo, nos arredores das cidades,
por meio de hortas periurbanas que estabeleçam uma relação equilibrada com o
espaço urbano. Essas áreas funcionariam como uma espécie de jardim da cidade,
enquanto a cidade ofereceria aos habitantes rurais os serviços de que
necessitam — educacionais, técnicos, culturais ou de outra natureza. Trata-se,
em geral, não apenas de retirar a produção industrial do campo, mas de
disseminar pelo território a pequena produção, as oficinas, as escolas, as
bibliotecas e outras atividades. A ideia não é concentrar tudo nas cidades, mas
distribuir essas atividades pelo campo, sempre em função das necessidades reais
da população, e não dos interesses de proprietários ou empresários.
·
No Uruguai, desde os anos 1960, costuma-se pensar o
conflito contra o Estado e o Capital a partir do conceito de luta de classes.
Esses parâmetros ainda fazem sentido ou o conflito social deve ser pensado hoje
a partir de outras categorias?
O
conflito social continua sendo um conflito entre os que têm e os que não têm.
Mas o
desenvolvimento capitalista, por meio das grandes cidades e dos sistemas
metropolitanos, criou um espaço capaz de abrigar uma enorme quantidade de
assalariados desclassificados. Há sociólogos que consideram as classes médias
como o principal componente dessas massas desclassificadas, porque elas possuem
iniciativa política. Trata-se da consolidação de uma sociedade de consumidores,
marcada por uma mentalidade individualista, fragmentada e isolada. Não é
exatamente a mesma sociedade de classes de antigamente.
Classe
é um conceito que pressupõe a existência de um mundo próprio: o mundo operário
e dos bairros populares, caracterizado por formas específicas de pensar, de se
relacionar, por uma sociabilidade básica, regras morais, meios de expressão e
organizações próprias. Hoje, isso praticamente não existe. Em vez de uma
sociedade de classes, prefiro falar de uma sociedade de massas. Os antigos
esquemas de classe servem agora, muitas vezes, apenas para justificar uma
ideologia. E por trás de cada ideologia há sempre grupos que procuram
promover-se, conquistar poder ou, ao menos, administrar o próprio gueto.
Eu
diria que uma classe revolucionária pode surgir se for possível constituir uma
comunidade de luta em defesa do território. Se isso ocorrer, haverá a
diferenciação de um setor das massas em torno de práticas
antidesenvolvimentistas e, então, poderemos falar da constituição de um sujeito
coletivo antagônico, de um “nós” e “eles”, de um mundo separado. O que não é
possível, em absoluto, é viver completamente submerso nas regras capitalistas,
levar uma vida de consumidor e, ao mesmo tempo, considerar-se parte de uma
classe anticapitalista. Isso é impossível. Se você é um consumidor, está
trabalhando para o capitalismo. Está trabalhando para consumir.
·
O que fazer em situações como as que ocorrem no Uruguai,
onde grandes latifundiários se unem à luta contra a megamineração porque ela
prejudica seus interesses? É preciso unir-se a esses inimigos em uma luta comum
ou deve-se lutar apenas entre afins? Como resolver esse dilema colocado pelo
desenvolvimento capitalista?
Sim,
isso acontece também na Espanha. Nas zonas turísticas onde há prospecções de
gás de xisto e petróleo, por exemplo, ou projetos de armazenamento subterrâneo
de gases residuais, mobilizam-se setores muito diversos da sociedade porque
seus negócios estão sendo afetados. O turismo é um dos principais motores do
desenvolvimentismo e, por isso, constitui um poder de fato que deve ser levado
em consideração. Existe uma convergência objetiva de interesses na luta. No
entanto, mais do que se aliar aos empresários do setor turístico, o correto
seria caminhar na mesma direção para impedir as agressões ao território e
barrar projetos como os de megamineração. Há uma contradição secundária entre
setores do capitalismo que já não são predominantes e setores do capitalismo
mais vinculados ao Estado e à globalização. Não se trata de apoiar um setor do
capital contra outro, mas de coincidir momentaneamente na luta com o setor
prejudicado. Caminhar na mesma direção até que o projeto seja interrompido.
Depois disso, a luta antidesenvolvimentista deve seguir muito além. Isso não
pode ser deixado de lado. É uma questão de tática: encontrar os caminhos que
permitam avançar com o menor desgaste possível para alcançar os resultados
desejados, sem esquecer que, quando surgir a oportunidade, será necessário
acertar as contas com o capitalismo como um todo.
·
Ao longo de sua trajetória, quais foram os momentos mais
importantes ou interessantes de sua militância e participação nas lutas
sociais?
Foram
muitos. Passei por várias mudanças e evoluções. Durante a luta antifranquista,
entrei em conflito com companheiros que se contentavam com uma mudança
política, enquanto eu, como muitos outros, defendia uma transformação social. Havia
uma distinção clara entre aqueles que esperavam uma democracia política nos
moldes europeus e aqueles que desejavam uma sociedade que chamávamos de
socialista. Isso me aproximou do mundo operário, algo que não foi difícil, já
que eu vinha desse meio. Além disso, esse universo havia sido profundamente
marcado pelo anarcossindicalismo.
Naquele
momento, as classes sociais ainda existiam como realidade concreta, e eu
acreditava que os trabalhadores poderiam radicalizar-se. O exemplo histórico da
Confederação Nacional do Trabalho (CNT) foi de grande ajuda — embora seja
melhor não falar da CNT no exílio. Nos últimos anos do franquismo, um setor do
proletariado radicalizou-se e apostamos nele. Mas esse movimento foi derrotado
em 1977, e sua retirada nos deixou sem rumo. Levamos bastante tempo para
compreender o que havia acontecido.
Nos
anos 1980, comecei a relacionar a crítica antinuclear e ecologista às
contribuições de Maio de 1968 e da Internacional Situacionista. Conhecíamos
essas novas teorias e havíamos sido influenciados por elas. No entanto, elas
tampouco eram suficientes para compreender a realidade e orientar a ação,
porque mantinham intacta a centralidade da classe operária. Foi então que
ocorreu a ruptura com o passado.
Começamos
a criticar a tecnologia e a ideia de progresso. Em torno da revista Enciclopedia
de las Nocividades, passamos a ler Lewis Mumford, Hannah Arendt, Georges
Bataille, os filósofos da Escola de Frankfurt — Theodor Adorno, Max Horkheimer,
Herbert Marcuse e Erich Fromm — além de Jacques Ellul, Simone Weil, Günther
Anders, Walter Benjamin e muitos outros autores. Conhecíamos pouco dessas
obras, mas suas análises nos pareciam muito mais pertinentes.
Eram
pensadores adiantados para seu tempo. Não abandonávamos os clássicos — Karl
Marx, Mikhail Bakunin, Anton Pannekoek, Karl Korsch ou György Lukács —, mas
esses autores nos abriam novas perspectivas e permitiam construir pontes
teóricas com a nova época.
Nos
anos 1990 houve um relançamento da luta antinuclear, sobretudo depois do
acidente de Chernobil, e demos um salto na crítica anti-industrial. Surgiram os
primeiros grupos com os quais me relacionei, como o Comitê dos Irradiados e a
Aliança Contra Toda Nocividade. A luta social voltou às ruas.
Entre
traduções e textos próprios, que comecei a assinar nos anos 1990, encontrei o
antidesenvolvimentismo. A palavra “desenvolvimentismo” era utilizada na
política para expressar a obsessão dos ministros franquistas pelo crescimento a
qualquer preço. Durante o franquismo, qualquer luta que prejudicasse os
interesses da classe dirigente era considerada uma luta antidesenvolvimentista.
Depois, nos anos 1990, essas reflexões adquiriram um caráter mais unitário e
coerente, tornando-se capazes de sustentar um discurso e uma análise completos.
Não se trata simplesmente de uma antiga análise libertária, marxista ou
marxista-libertária corrigida. É uma interpretação da realidade que incorpora
leituras mais amplas do que aquelas produzidas no século 19.
·
Você falou sobre o progresso. Na América Latina, muitos
governos de esquerda continuam insistindo nesse conceito. O que significa
exatamente o progresso a partir de sua perspectiva?
O
progresso é uma ideia burguesa que depois foi incorporada pelo movimento
operário por meio de Marx e da social-democracia, mas também pelos anarquistas,
sobretudo por influência de Piotr Kropotkin. É a ideia burguesa segundo a qual
o futuro será sempre melhor que o passado. Ela deriva da tradição cristã, e
alguns a atribuem a Santo Agostinho. No entanto, foram os burgueses que a
transformaram em fundamento ideológico. Anne Robert Jacques Turgot foi,
concretamente, o primeiro a formulá-la de maneira sistemática. Trata-se da
ideia de que a humanidade, por meio do conhecimento filosófico e econômico, do
desenvolvimento científico e técnico, alcança níveis cada vez mais elevados de
desenvolvimento moral e humano.
Para um
progressista, a sociedade melhora continuamente graças aos avanços econômicos,
tecnológicos e científicos. Mas a realidade demonstra o contrário. O fascismo e
o nazismo encarregaram-se de demonstrar isso. Foi justamente essa constatação
que levou muitos pensadores, especialmente os filósofos e sociólogos da Escola
de Frankfurt, a rejeitar a ideia de progresso. Eles mostraram que a humanidade
não progride de forma linear. Para Günther Anders, por exemplo, o
extraordinário avanço tecnológico e econômico do pós-guerra produzia indivíduos
completamente alheios ao que fabricavam e incapazes de controlar as tecnologias
que criavam. A humanidade passava a produzir instrumentos que escapavam ao seu
controle e que poderiam destruí-la.
·
Hoje, a ideia de progresso é utilizada politicamente a
partir do desenvolvimentismo dos anos 1960. Trata-se, na realidade, da doutrina
de Truman nos Estados Unidos: o desenvolvimento econômico acima de tudo.
Essa
política acabou sendo universalizada. Segundo seus defensores, progresso
significava crescimento econômico, geração de empregos, expansão do comércio,
fortalecimento das instituições, construção de infraestrutura e avanço da
economia mercantil. Mas esse progresso implicava uma forma crescente de
submissão, uma dependência cada vez maior das exigências do crescimento
capitalista.
Temos,
de um lado, a formulação filosófica e política do progresso elaborada pela
burguesia. Por outro, também os trabalhadores acreditaram que a máquina,
colocada a serviço da classe trabalhadora, conduziria ao socialismo. No
entanto, a máquina serviu para massificar e destruir a própria classe operária.
A prova disso é que vivemos em um mundo dominado pelos serviços, em uma
sociedade terceirizada, e não em uma sociedade de fábricas. Além disso, a
tecnologia não nos tornou mais livres. Ao contrário, produziu dependência e
exclusão em uma escala sem precedentes. Vinculou os indivíduos a necessidades
artificiais, reduziu sua autonomia e os tornou mais vulneráveis.
A
tecnologia segue nessa direção. E, nesse sentido, estamos contra o progresso. O
Estado atual, inclusive o Estado uruguaio, está a favor do progresso porque
essa passou a ser sua principal função. Ele está a serviço do desenvolvimento
capitalista, algo que os antigos setores oligárquicos já não conseguem garantir
sozinhos. Como o desenvolvimento histórico foi diferente em cada país, existe
uma trajetória particular no Uruguai, outra no Chile, outra na Argentina, outra
no Peru, outra na Venezuela e assim por diante. Mas o objetivo do Estado, na
fase globalizadora, é o mesmo em toda a América Latina: promover o
desenvolvimento absoluto do Capital.
·
Que perspectivas você vê para o anarquismo na atualidade?
Para o
anarquismo entendido como um amálgama de lugares-comuns, como doutrina de gueto
ou, pior ainda, como uma espécie de mistura pós-moderna de subcultura juvenil e
identidade existencial, não vejo perspectivas.
Vejo
perspectivas, sim, para a luta contra o Estado e contra a política. Também vejo
muito futuro para a herança que os anarquistas nos deixaram. Porque, se a luta
pela liberdade conseguir dar um primeiro passo sério, esse passo deverá ser,
como pensava Mikhail Bakunin, a abolição de todas as instituições. Já o
anarquismo entendido como um humanismo ambíguo, anti-histórico, sindicalista e
desconectado das lutas reais tem diante de si o futuro melancólico das seitas. Se
o anarquismo continua vivo, é porque a crítica anarquista da vida cotidiana, da
sexualidade, da relação com a natureza e da alienação individual foi bastante
inovadora em sua época e, de uma forma ou de outra, conseguiu atualizar-se.
Fonte:
La Línea de Fuego

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