quarta-feira, 29 de julho de 2026

O Brasil é dos brasileiros

Ao responder Donald Trump nas páginas do Washington Post e reafirmar com Xi Jinping o compromisso com o multilateralismo, Lula transforma a eleição de 2026 também numa disputa pela soberania nacional.

Não foi por acaso que Luiz Inácio Lula da Silva escolheu as páginas do Washington Post para responder ao presidente Donald Trump. Chefes de Estado costumam se comunicar por meio da diplomacia.

Quando um presidente decide dirigir-se diretamente aos leitores do principal jornal da capital do outro país, é porque considera que o conflito ultrapassou os limites da política externa e alcançou outro patamar.

Foi exatamente isso que Lula fez. Seu artigo não trata apenas de tarifas, comércio ou relações bilaterais. É, antes de tudo, uma defesa da soberania brasileira num momento em que a campanha presidencial de 2026 transborda as fronteiras nacionais.

Ao afirmar que “ninguém derrotará o Brasil com mentiras” e concluir que “o destino do Brasil pertence aos brasileiros, sem interferência estrangeira nem subserviência”, Lula não respondia apenas às declarações de Donald Trump. Delimitava o novo terreno em que passa a se desenrolar a disputa política brasileira. Vista isoladamente, a publicação do artigo de Lula poderia ser interpretada apenas como mais um capítulo da escalada entre Brasília e Washington. Vista ao lado dos acontecimentos das últimas semanas, assume outro significado.

<><> Reação imediata

Ao levantar dúvidas sobre as urnas e defender a presença de observadores internacionais, Flávio Bolsonaro retomava um método já conhecido: produzir desconfiança suficiente para que o resultado eleitoral possa ser contestado posteriormente. Diversos analistas identificaram esse padrão em sua manifestação.

Logo depois, o Washington Post revelou que integrantes do governo Donald Trump estudavam enviar representantes do Departamento de Estado ao Brasil para questionar publicamente a confiabilidade do processo eleitoral brasileiro.

A reação foi imediata. O governo brasileiro negou vistos aos enviados norte-americanos, deixando claro que a organização, a fiscalização e a legitimidade das eleições pertencem exclusivamente às instituições brasileiras.

Foi essa sucessão de acontecimentos que levou Lula a dirigir-se diretamente à opinião pública norte-americana. Mais do que responder a Trump, o presidente brasileiro procurou explicar aos leitores dos Estados Unidos que a controvérsia já não envolvia apenas tarifas ou comércio.

O que estava em discussão era um princípio muito mais amplo: o direito de uma nação decidir livremente o próprio destino.

Os episódios aparentemente isolados passam a compor uma mesma história. Uma história que já não trata apenas da sucessão presidencial brasileira, mas da defesa da democracia e da soberania nacional.

<><> A mensagem era clara

A divergência entre os dois governos não dizia respeito apenas ao comércio. Tratava-se do direito de um país organizar suas eleições sem pressões externas, qualquer que fosse sua origem.

Tradicionalmente, crises diplomáticas são conduzidas entre governos. Lula escolheu outro caminho. Explicou aos cidadãos norte-americanos que o Brasil discutia um princípio que interessa a qualquer democracia: a legitimidade de escolher seus governantes sem interferência estrangeira. É justamente nesse ponto que o artigo deixa de tratar apenas da relação entre Lula e Trump. E passa a integrar também a luta pela soberania nacional.

Se essa percepção estiver correta, a eleição presidencial de outubro deixará de ser apenas uma disputa entre candidatos. Passará a ser também um teste da capacidade das instituições brasileiras de preservar sua autonomia diante de pressões externas.

<><> Defesa da soberania

Ao afirmar que “ninguém derrotará o Brasil com mentiras”, o presidente brasileiro responde também às narrativas que, desde 2018, procuram desacreditar o sistema eleitoral e preparar, antes mesmo da votação, um ambiente favorável à contestação dos resultados. A história recente recomenda atenção.

Nos Estados Unidos, Donald Trump recusou-se a reconhecer sua derrota, em 2020, questionou a credibilidade das urnas, e o país assistiu, em 6 de janeiro de 2021, à invasão do Capitólio.

No Brasil, exatos dois anos depois, ocorreu o ataque de 8 de janeiro de 2023 contra a Praça dos Três Poderes, histórico dia da tentativa de golpe de Estado, liderada por Jair Bolsonaro. O roteiro foi praticamente o mesmo utilizado por Trump, em 2021, e por Jair Bolsonaro antes das eleições de 2022: levantar suspeitas sobre o sistema eleitoral antes da votação para, se derrotado, contestar o resultado depois.

Impedido de se candidatar, cumprindo 23 anos de prisão, o condenado Jair Bolsonaro lançou seu filho Zero Um, Flávio, como o candidato da extrema direita brasileira, com estreitas ligações à ultradireita global, liderada por Donald Trump.

Os contextos são diferentes, entre Trump, Bolsonaro e, agora, Flávio. A lógica política, porém, guarda uma semelhança essencial: enfraquecer previamente a confiança nas instituições para contestar o resultado das urnas. É por isso que as declarações de Flávio Bolsonaro, a atuação do governo Trump e a resposta pública de Lula não devem ser analisadas como acontecimentos independentes.

Elas fazem parte do mesmo contexto histórico. E ajudam a compreender por que a eleição presidencial brasileira passou a ser acompanhada também como uma questão de política internacional.

<><> A conversa com Xi Jinping

Nos últimos anos, o Brasil consolidou uma posição singular no cenário internacional.

Ao ampliar suas relações com os países do Sul Global, fortalecer os BRICS e diversificar seus parceiros comerciais, Lula defende uma política externa baseada na autonomia, na multipolaridade e no fortalecimento do multilateralismo.

Essa orientação colide com a visão da administração Trump, que procura recuperar instrumentos tradicionais de influência sobre a América Latina.

Foi nesse contexto que Lula conversou por telefone com o presidente chinês Xi Jinping.

Ao reafirmarem o compromisso de Brasil e China com o multilateralismo e com a coordenação no âmbito da ONU, dos BRICS e de outros fóruns internacionais, os dois presidentes deixaram claro que a resposta brasileira às pressões externas não será o isolamento nem o alinhamento automático a qualquer potência, mas o fortalecimento da cooperação entre Estados soberanos.

Esse movimento ajuda a compreender por que a eleição brasileira deixou de interessar apenas aos brasileiros.

O Brasil ocupa hoje uma posição estratégica na reorganização da ordem internacional. Sua política externa, suas escolhas econômicas e seu papel na construção de um mundo multipolar passaram a despertar interesses que ultrapassam as fronteiras nacionais.

Isso não significa que o resultado das eleições será decidido fora do Brasil.

Significa apenas que as pressões externas tendem a aumentar justamente porque cresceu também a importância política, econômica e geopolítica do país. A conversa entre Lula e Xi Jinping acrescentou um elemento novo à crise.

Pela primeira vez, o presidente da China manifestou explicitamente apoio ao Brasil na rejeição de “interferências externas”, transformando a defesa da soberania brasileira em tema também da diplomacia internacional. Essa talvez seja a principal mensagem do artigo publicado por Lula no Washington Post e da conversa de Lula com Xi Jinping logo após a publicação.

<><> O Brasil é dos brasileiros

Não se trata de pedir solidariedade internacional nem de transformar um conflito diplomático em disputa ideológica.

Trata-se de reafirmar um princípio elementar do direito internacional e da democracia: os brasileiros têm o direito de escolher, livremente, o próximo presidente da República. Sem tutelas. Sem intimidações. Sem interferências.

Ao publicar seu artigo no Washington Post, Lula lembrou que eleições escolhem governos, mas também reafirmam um princípio sem o qual a própria democracia deixa de existir: o direito de uma nação decidir, sozinha, o próprio destino.

Porque, no fim, nenhuma tarifa, nenhuma pressão diplomática e nenhuma tentativa de desacreditar nossas instituições podem alterar uma verdade elementar:

O presidente do Brasil será escolhido pelos brasileiros. E por mais ninguém.

•        “O presidente Lula é o único líder capaz de unir o continente”. Por Marcia Carmo

Quando ainda era candidata à Presidência, Keiko Fujimori reuniu os embaixadores dos países da América Latina, entre eles o embaixador do Brasil, Clemente de Lima Baena Soares, e disse publicamente, como contou à reportagem um dos presentes: “Diferenças ideológicas à parte, o presidente Lula é o único líder da América do Sul capaz de unir o continente”.

Keiko, da direita tradicional, está sendo empossada, nesta terça-feira (28), como presidente do país para um mandato de cinco anos e com uma série de desafios após ter sido eleita em uma votação apertada, com diferença de apenas 50 mil votos que chegaram principalmente do exterior, e depois da queda em série de líderes peruanos nos últimos dez anos.

<><> Desafios

Neste período, alguns dos presidentes ficaram apenas meses no cargo. Aqui nas ruas de Lima, capital do país, seus eleitores comemoram sua chegada ao poder, após 4 disputas eleitorais. No entanto, foi possível ouvir também a insatisfação do eleitorado que preferia a eleição do ex-candidato Roberto Sanchez, que recebeu forte votação nas regiões mais pobres do país, como o centro e o sul, na fronteira com a Bolívia, do território peruano. “Não acredito que ela tenha sensibilidade social para entender nossas necessidades. Lima é rica, mas depende da produção que vem do centro e do sul do país que é paupérrimo”, disse a comerciante Luz Ampudia, que é do departamento de Páscua e mora na capital peruana onde vende artesanato. Já o economista Carlos Aquino, professor da Universidade Nacional Maior de São Marcos, acha que há motivos para otimismo porque o país tem recursos, porém deverá saber distribuir esta riqueza e especialmente para as regiões mais castigadas pela desigualdade.

<><> Pragmatismo e ampliação com o Brasil

Segundo analistas e fontes diplomáticas, Keiko buscará uma relação “pragmática” com o Brasil, reconhecendo a importância do país por suas dimensões políticas e econômicas e que é vizinho do Peru. Os dois países completam 200 anos de relações diplomáticas em 2027 e a expectativa, do lado do Brasil, é que Keiko possa intensificar a relação bilateral abrindo mais espaço para os investimentos brasileiros no país. Os dois países assinaram, há dez anos, o “Acordo de Ampliação Econômico-Comercial” entre Peru e Brasil (AAEC), para ampliar a relação em setores como investimentos, compras governamentais e serviços. No ano seguinte, em 2017, o Congresso brasileiro aprovou o acordo. Mas do lado peruano o entendimento ainda não foi ratificado e no governo brasileiro esperam que ele saia do papel no governo Keiko.

<><> As promessas e a economia peruana

Keiko foi eleita prometendo “mão de ferro” contra a criminalidade, geração de empregos e maior inserção peruana no cenário internacional. País banhado pelo oceano Pacífico, o país tem a China como seu principal sócio comercial. Os dois países têm uma relação histórica que começou no século dezenove. “As exportações estão crescendo a cada ano. E devem bater novo recorde em 2026. A inflação é baixa, mas nosso desafio é a instabilidade política, depois da queda de tantos presidentes (oito presidentes nos últimos dez anos). Mas Keiko tem o partido mais sólido do país, que é Força Popular e não deverá ter problemas para aprovar seus projetos no Senado. Na Câmara, já é mais complicado”, disse Aquino.

<><> Posse e Trump

O governo brasileiro é representado na posse de Keiko pelo ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira. O presidente Lula não participa. Entre os presidentes presentes na cerimônia estão Javier Milei, da Argentina, José Antonio Kast, do Chile, Daniel Noboa, do Equador, Santiago Peña, do Paraguai, Rodrigo Paz, da Bolívia, além do rei da Espanha. A posse é realizada na data da independência peruana da colonização espanhola e – curiosamente – no dia do aniversário do ex-presidente Alberto Fujimori, pai de Keiko e que provoca o forte sentimento de ‘antifujimorismo’ no país. Desta vez, Keiko não visitou a tumba do pai, como costuma fazer anualmente. Ao mesmo tempo, à exceção de Milei, como observaram fontes diplomáticas dos países da região que conversaram com a reportagem, os demais presidentes não pretendem o distanciamento do Brasil, pelo reconhecimento da importância do país, maior país da América Latina, apesar das simpatias e acordos com o governo Trump.

 

Fonte: Por Gustavo Tapioca, em Brasil 247

 

Nenhum comentário: