quarta-feira, 29 de julho de 2026

Com popularidade despencando, Trump promete novo mandato e transforma o anticomunismo em cruzada

Enquanto promete disputar um novo mandato e apresenta o comunismo como a maior ameaça aos Estados Unidos, o presidente multiplica declarações sobre eleições, Venezuela, Copa do Mundo e política externa em meio à queda de sua popularidade e ao aumento das críticas à sua gestão

A mensagem ao mundo do chefe da cúpula estadunidense (Donald Trump) é apresentada em algumas frases recentes sobre sua eleição, o futebol, a maior ameaça ao seu país e seu grande sucesso em política externa (e explica, em parte, por que é quase impossível reportar tudo isso de maneira coerente).

“Ganhei três vezes, agora vou ganhar mais uma.” Diante do jantar de correspondentes, há alguns dias (pela Constituição, só é permitida uma reeleição, e está comprovado que ele não venceu sua primeira tentativa nesse sentido, em 2020).

“Você deveria escolher os Estados Unidos da América outra vez. Desta vez, deixaremos México e Canadá de fora.” Oferta generosa a Infantino ao término da Copa do Mundo.

“Eu entendo muito bem de esportes, realmente muito bem. Aquilo não foi falta, nem foi infração… E ele deu o cartão vermelho. Eu não sabia o que aquilo significava. Isso é muito injusto.” Ao reconhecer que pediu à Federação Internacional de Futebol (Fifa) que revertesse essa decisão, o que acabou acontecendo.

“Há um retorno da ameaça comunista em nossa terra, inclusive por parte dos recém-chegados ao nosso país, que abraçam ideias totalmente opostas ao nosso modo de vida e ao nosso grande sucesso… O comunismo é… a maior ameaça ao nosso país, incluindo a Primeira Guerra Mundial, a Segunda Guerra Mundial, Pearl Harbor ou até mesmo o 11 de Setembro…

Você pode ser leal a Karl Marx ou pode ser leal aos Estados Unidos. Você pode ser comunista ou pode ser patriota. Não pode ser os dois… A América jamais será um país comunista.” Em um discurso por ocasião do 250º aniversário da Declaração de Independência dos Estados Unidos.

“Como vocês viram com os comunistas eleitos recentemente em Nova York — são comunistas, não social-democratas —, eles querem destruir completamente o modo de vida tradicional americano… O comunismo é fácil de promover… Acho que eu (poderia) ser o maior comunista da história… Todo mundo teria aluguel de graça… Todo mundo teria comida de graça, tudo seria de graça daqui para frente, todos votariam em mim…

É muito fácil vender isso, é o que está acontecendo agora mesmo em Nova York e na Califórnia… Mas vocês viverão na miséria, não haverá comida nem moradia, não haverá Forças Armadas, não haverá lei nem ordem. Não haverá nada. Vocês serão habitantes do terceiro mundo. E todos sofrerão ou morrerão… É isso que aconteceu durante milhares de anos.” Resposta sobre o sucesso de políticos socialistas democráticos, como Zohran Mamdani, em Nova York e outros.

“Somos o país mais forte e mais poderoso da Terra. Pela graça de Deus, os Estados Unidos da América são a nação mais bem-sucedida… a mais excepcional que já existiu na história da humanidade… Na América, não precisamos da permissão de ninguém para dizer o que pensamos, viver como quisermos, adorar como escolhermos e manter e portar armas… Falamos inglês porque é o idioma de nossa fundação e, há mil anos, é o idioma da liberdade.” Discurso de 3 de julho.

“Eu era dono do concurso Miss Universo. E as misses da Venezuela sempre eram muito boas nesse concurso. Então eu sei alguma coisa sobre aquele país”… “Nós os atingimos com tanta força e agora tiramos milhões de barris de petróleo. Tirando o terremoto, as pessoas estão felizes e dançando nas ruas.” O mandatário sobre a Venezuela.

Essas mensagens não incluíram outros de seus grandes feitos:

Ele aumentou sua fortuna pessoal em mais de US$ 2 bilhões desde que voltou à Casa Branca, assim como a de seus filhos e amigos. “Estamos testemunhando a maior avalanche de corrupção da história da humanidade nos últimos 18 meses… Trata-se de alguém que todos os dias se dedica à acumulação de riqueza e poder”, comentou Ty Cobb, que foi advogado de Trump durante seu primeiro mandato presidencial. Ao mesmo tempo, o corte de recursos para programas sociais que promoveu fez com que mais de um milhão de crianças pobres perdessem assistência alimentar.

Por enquanto, registram-se algumas respostas a essas mensagens:

“O amor pelo nosso país nunca foi tão forte”, afirmou o mandatário em um dos discursos do Dia da Independência. Mas uma pesquisa nacional da Gallup concluiu que o “orgulho estadunidense despencou para seu nível mais baixo” desde 2001. Mais de seis em cada dez estadunidenses desaprovam a gestão do presidente, enquanto apenas um terço a aprova, segundo várias pesquisas recentes.

¨      Marco Rubio prepara ofensiva que revive o terror das ditaduras contra a esquerda latino-americana

Ao inaugurar a Reunião Ministerial sobre o Ressurgimento do Terrorismo Político, o secretário de Estado estadunidense Marco Rubio, retroagiu o presente à era do comunismo grosseiro, do macartismo e da guerra fria, com uma enxurrada de falsidades, baseada em fatos descontextualizados e cifras não verificadas.

Sua finalidade era transformar o que chamou de “esquerda radical” (marxistas, comunistas,socialistas, anarquistas, anticapitalistas, anti-imperialistas, antifascistas, democratas centristas, categorias todas úteis à agenda da ultradireita trumpista) em um “inimigo” essencialmente violento e alheio à “civilização ocidental”.

A omissão do terrorismo de direita não foi um detalhe, e sim o coração do dispositivo. Para o cubano-estadunidense, chegou “o momento de esmagar este mal para sempre”.

Esta armadilha semântica, encarnada no que denominou “terrorismo político de extrema esquerda transnacional”, reivindica outra matriz fascista que transforma um campo político heterogêneo em um “mal” existencial a exterminar, em que a violência cumpre uma função purificadora ou redentora contra aqueles que são considerados “obstáculos”.

O que remete a Adolfo Hitler, quando disse: “Diante de Deus e do mundo, o mais forte tem o direito de fazer prevalecer sua vontade”.

Rubio anunciou que os Estados Unidos designarão mais grupos de esquerda como organizações terroristas. Também, no dia 23 de julho, o Departamento de Estado anunciou novas restrições de visto dirigidas a quem denomina “membros de grupos terroristas de extrema esquerda e outros grupos afins”.

O encontro foi acompanhado pela publicação de um documento do Departamento de Estado sobre o mesmo tema, onde se fala de um terrorismo de esquerda transnacional que “ataca cidadãos privados, funcionários governamentais, policiais e agentes de segurança, empresas e infraestrutura crítica em todo o mundo”.

Com dados extremamente imprecisos e misturando situações de muito diverso teor ocorridas na Europa e nos Estados Unidos, apresentou uma linha de continuidade entre os movimentos armados dos anos ’60 e ’70 (fundamentalmente latino-americanos) e estes fatos difusos, dando por certo que algo assim como o “terrorismo de esquerda” efetivamente existe.

Rubio disse que “devemos identificar e mapear esta ameaça, assim como reconstruir nossa arquitetura antiterrorista para derrotá-la, tal como fizemos juntos anteriormente”. Na América Latina, estas palavras supõem uma reivindicação aberta das ditaduras militares do século XX e de mecanismos de coordenação repressiva como o Plano Condor.

Com o mesmo argumento, esta “arquitetura antiterrorista” desencadeou processos de terrorismo de Estado e genocídios em toda a América Latina. A ameaça de Rubio é bastante explícita: Washington parece estar disposto a repetir essa violência estatal extrema e as gravíssimas violações de direitos humanos que tiveram como consequência milhares de mortos e desaparecidos.

Está claro que o primeiro foco desta perseguição política são as manifestações e a organização social, especialmente as que se associam a diversas formas de ação direta. Tanto nos Estados Unidos como na Europa há uma tendência nos últimos anos a classificar como terroristas ou extremistas violentos manifestantes ou ativistas que implementam táticas de ação direta que, em alguns casos, provocam algum dano à propriedade. Estes fatos são enquadrados, perseguidos e julgados como casos de “segurança nacional”, afirma o argentino Centro de Estudos Legais e Sociais (CELS).

O deslocamentoo para a extrema direita e a consequente instrumentalização política da definição de “terrorismo” é uma característica do atual governo dos EUA e de vários de seus aliados na região. Em maio deste ano, foi publicada a nova estratégia antiterrorista estadunidense, em que se distinguem três grandes grupos de terroristas: os “narcoterroristas e gangues transnacionais”, os “terroristas islamistas históricos” e os “extremistas violentos de esquerda, inclusive anarquistas e antifascistas”.

Não é incluído o terrorismo de extrema direita como objeto de preocupação, mesmo quando os eventos de violência mais graves que ocorreram nos Estados Unidos, salvo os atentados de 11 de setembro de 2001, foram protagonizados por supremacistas brancos ou outras variantes de extrema direita.

Mas, dado o conteúdo do discurso de Rubio, com suas arengas antimarxistas e contra a esquerda em geral, tudo indica que a perseguição poderia se estender aos grupos opositores e não só aos grupos de ação direta. De fato, funcionários do governo de Trump se referiram muitas vezes ao próprio Partido Democrata (insuspeito de marxismo) como uma “organização extremista”.

<><> Semântica do terror

“A semântica do terror, expressa por Norman Chomsky em 1979 e esboçada por Rubio remete, em sua projeção exterior, a sangrentos episódios do passado como o Plano Condor − a aliança clandestina das ditaduras do Cone Sul com a assessoria e cumplicidade dos Estados Unidos para o extermínio da dissidência política mediante a prática de tortura, execuções sumárias extrajudiciais e desaparecimento forçado − , a guerra do Vietnam e o uso dos camponeses da Indochina como coelhos da Índia para uma tecnologia militar então em desenvolvimento”, afirma o analista Carlos Fazio.

A presidenta mexicana Claudia Sheinbaum rejeitou enfaticamente as declarações “infelizes e sem sustentação” do diretor da Administração para o Controle de Drogas (DEA, na sigla em inglês), Terry Cole, que na semana iniciada em 19 de julho assegurou que os cartéis do narcotráfico e o governo mexicano “são a mesma coisa”.

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A mandatária enfatizou que as palavras de Cole têm motivações políticas e não correspondem à realidade, pois a histórica redução da violência, as apreensões de estupefacientes e os golpes nas estruturas criminosas desmentem por si mesmos a noção de uma identidade entre autoridades e criminalidade.

Sheibaum lembrou alguns dos escândalos de conivência com o narco que salpicaram a DEA e instou a agência a concentrar sua atenção nos Estados Unidos, onde tem lugar a maior operação de venda de drogas do planeta. “Quem a vende? Como a vendem? Como a distribuem? Como lavam o dinheiro? Isso é algo que a DEA deveria estar investigando”, afirmou a titular do Executivo mexicano.

Hoje, o mundo olha pasmo o genocídio e a limpeza étnica dos israelenses em Gaza, o bloqueio criminoso estadunidense e o castigo coletivo contra Cuba assim como o assassinato de meninas e os ataques contra a população civil e a infraestrutura crítica do Irã, apesar do que não conseguem ganhar a guerra desses “homens do turbante”.

O presidente Donald Trump denunciou na semana passada que o grande historiador Howard Zinn – junto com outros progressistas – é culpado por desorientar e enganar gerações de estudantes ao doutriná-los com noções esquerdistas e antipatrióticas e apelou à defesa do legado da fundação dos Estados Unidos e a ensinar a nossos filhos a verdade sobre o país. “Nossa missão é defender o legado da fundação dos Estados Unidos… temos que acabar com a teia de aranha de mentiras em nossas escolas e classes, e ensinar a nossos filhos a verdade magnífica sobre nosso país… e que são os cidadãos da nação mais excepcional na história do mundo”, declarou Trump.

Estão equiparando grupos políticos dos Estados Unidos e do estrangeiro a grupos como a Al Qaeda e o ISIS”, afirma o jornalista independente Ken Klippenstein, que acompanhou de perto a designação do ativismo de esquerda como terrorismo por parte da administração Trump.

“Esta tentativa de designar grupos de esquerda como terroristas estrangeiros, utilizando termos tão genéricos como ‘antifa’, lhes permitirá perseguir pessoas que não cometem atos de violência, simplesmente participam do processo político”, acrescenta o ex-agente especial do FBI Mike German.

O chanceler uruguaio Mario Lubetkin, consultado sobre as recentes declarações de Rubio, que afirmou que “o terrorismo de extrema esquerda representa hoje uma ameaça única e distintiva” e mencionou, entre outros grupos, o Movimento de Libertação Nacional – Tupamaros, afirmou que “nem é necessário dizer que não admitimos que se trate nenhuma força deste governo dessa maneira. É senso comum. Acho que, ouvindo as palavras do secretário de Estado e outros sobre o tema do combate ao crime organizado, estamos nas antípodas, claramente”, afirmou o chanceler uruguaio.

 

Fonte: La Jornada/Estratégia.la

 

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