sexta-feira, 31 de julho de 2026

O Brasil tem margem para negociar o tarifaço de Trump?

Em uma cerimônia na última quarta-feira (22/07) o presidente Luiz Inácio Lula da Silva foi categórico ao afirmar que o Brasil seguia na mesa de negociação para tentar reverter as tarifas de 25% impostas pelos Estados Unidos sobre uma série de produtos brasileiros.

"A gente não vai sair da mesa de negociação. Eles que digam que não querem negociar, porque nós vamos estar lá sentados na mesa, fazendo proposta toda vez e desafiando eles a provarem que eles tinham alguma razão de taxar o Brasil porque são deficitários conosco", disse Lula durante evento no Palácio do Planalto, lembrando que há décadas os EUA acumulam superávit com o Brasil.

Mas analistas apontam que a questão vai muito além da balança comercial. Em um momento em que os Estados Unidos buscam rever acordos multilaterais, combater o avanço da influência chinesa e se impor economicamente de forma mais agressiva, especialistas salientam que o Brasil não deveria encarar as tarifas somente como uma discussão puramente técnica. Haveria mais em jogo.

Reino Unido, Japão e a União Europeia assinaram acordos bilaterais com os Estados Unidos nos últimos meses, por exemplo. Eles fizeram concessões importantes em troca de mais estabilidade na relação comercial com os americanos, mas ainda enfrentam incertezas, como o anúncio recente de tarifas sobre combate ao trabalho forçado.

Já o Canadá, que assinou um amplo acordo comercial com os EUA de Trump em 2025, também foi alvo neste mês de um novo tarifaço por parte da Casa Branca, levando os canadenses a acusarem Washington de violar o tratado. Ainda assim, o premiê do Canadá, Mark Carney, disse que pretende "intensificar" as negociações comerciais com Trump.

Com tudo isso em jogo, o Brasil deveria seguir pelo mesmo caminho?

<><> A natureza das tarifas

Para o professor Daniel Vargas, da FGV Direito Rio, o primeiro passo é estabelecer as diferenças das negociações com os Estados Unidos durante o segundo mandato do presidente Donald Trump. Segundo ele, as tratativas agora também envolvem aspectos referentes à influência americana na região e a relação política entre os dois países.

“Esse não é apenas um diálogo negocial em sentido estrito. É uma disputa muito mais profunda que envolve tanto questões econômicas e políticas, mas sobretudo questões geopolíticas que se tornaram prioridade para os Estados Unidos”, afirma Vargas.

Ele explica que o caráter político da medida seria a construção de uma afinidade ideológica entre os dois países por meio de um possível impacto nas eleições brasileiras. O segundo seria a utilização das tarifas para desincentivar que países mantenham uma relação comercial próxima à China.

"Não é uma tarifa cujo cálculo carrega consigo a esperança de ter um retorno econômico amanhã. É uma tarifa cujo cálculo tem a expectativa de afirmar a autoridade americana e a sua influência geopolítica sobre a região”, diz.

A posição é corroborada pelo professor de relações internacionais do Berea College Carlos Gustavo Poggio. “É difícil negociar porque não se trata de uma questão técnica. A abertura da investigação no Brasil foi política. Ela começa quando Trump envia uma carta falando sobre Jair Bolsonaro, sobre o Supremo Tribunal Federal”, explica Poggio, em referência à primeira rodada de tarifas anunciadas pelo governo americano em julho de 2025.

A investigação aberta naquela ocasião visava responder a medidas econômicas de países que restringissem o comércio americano e foi encerrada com o recente anúncio de uma tarifa de 25% sobre produtos brasileiros.

Para Poggio, porém, a aplicação de tarifas estaria mais ancorada em uma visão ideológica do governo Trump, encabeçada pelo Secretário de Estado Marco Rubio, do que uma estratégia de longo prazo que visa afastar a influência chinesa de parceiros comerciais estratégicos. “O governo Trump não pensa dessa forma porque não existe estratégia, existem impulsos e emoção. Não é algo coerente”, afirma.

Rubio, que é filho de cubanos, é considerado integrante da ala mais ideológica do governo americano e tem tido papel central na relação do governo Trump com países da América Latina.

<><> Houve tentativa de negociar?

O Brasil não se absteve de negociar com os Estados Unidos, segundo o professor Daniel Vargas, mas a posição do governo brasileiro não tem levado em consideração os componentes políticos da medida.

“Acho que o governo está tentando negociar, mas de maneira muito estreita, mais do que de qualquer outra negociação em curso ou que aconteceu entre outros países e os Estados Unidos. A negociação com a Europa também envolveu um conjunto de componentes valorativos”, afirma.

Já Gustavo Blum, que é analista geopolítico e pesquisador convidado no Geneva Graduate Institute, defende que o país tentou negociar com os Estados Unidos, mas o processo não avançou por conta da lógica “maximalista” do governo Trump, onde há pouca ou nenhuma margem para concessões.

“O Brasil não fez uma abertura total e completa, o governo buscou encontrar soluções sem prejudicar setores estratégicos da economia brasileira”, afirma.

Blum defende que o tarifaço ocorre num contexto em que os Estados Unidos buscam  aumentar sua influência na América Latina, mas questiona a efetividade da medida.  “Existe uma lógica neste processo, mas que é pautada pela inconstância”, afirma. Ele menciona que o recente telefonema entre Lula e o líder chinês Xi Jinping, onde um possível acordo entre o Mercosul e a China foi discutido, mostra como o tarifaço pode produzir um efeito reverso ao buscado pelos americanos.

O professor Carlos Poggio destaca que não é possível fazer uma comparação direta entre as outras negociações bilaterais dos Estados Unidos e um possível acordo com o Brasil, já que elas envolviam países com uma relação geopolítica e econômica muito mais importante com os americanos.

“Além disso, no caso de negociações com a Europa e Japão, por exemplo, não havia o componente político, que há no caso brasileiro”, ressalta.

Para Poggio, o país não tem margem de negociação, considerando que as tarifas são utilizadas pelo governo americano para conseguir concessões unilaterais e um alinhamento quase incondicional de outros países, além de serem pouco efetivas para manter as relações comerciais estáveis.

“Qualquer negociação com Trump é muito efêmera. Qualquer governo futuro pode anulá-la porque não tem nada que passa pelo Congresso”, explica.

¨      Brasil repudia decisão dos EUA de prorrogar declaração de emergência por mais um ano

O governo brasileiro expôs em nota, nesta quarta-feira (29), seu repúdio à decisão dos Estados Unidos de prorrogar por mais um ano a declaração de emergência nacional em relação ao Brasil, anunciada ontem (28) pela Casa Branca.

No texto, a Secretaria de Comunicação Social da Presidência afirma que a medida reitera "argumentos infundados e inverídicos" de que o Brasil representaria uma "ameaça incomum e extraordinária à segurança nacional, à política externa e à economia dos Estados Unidos".

O governo também rejeita as acusações de violações à liberdade de expressão, censura por parte do Supremo Tribunal Federal (STF), violações de direitos humanos e perseguição política a um ex-presidente brasileiro e seus apoiadores, referindo-se à prisão do ex-presidente Jair Bolsonaro.

"O Brasil reafirma sua soberania e a independência dos Poderes da União", diz a nota, acrescentando que as alegações já foram amplamente rebatidas em encontros bilaterais entre autoridades.

O informe ainda defende a atuação do Judiciário brasileiro, afirmando que o STF age em conformidade com a Constituição Federal, e classifica como "inteiramente descabido" caracterizar o Brasil como uma ameaça aos Estados Unidos, destacando os históricos laços diplomáticos e a amizade dos dois países.

Anunciada na terça-feira (28), a prorrogação mantém em vigor uma declaração assinada pelos EUA em julho de 2025, na qual foram instituídas tarifas de 40% sobre produtos brasileiros. No entanto, como a medida foi derrubada pela Suprema Corte norte-americana, a renovação não tem efeitos práticos.

No entanto, a decisão do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, é vista com desconfiança pelo governo de Luiz Inácio Lula da Silva. A preocupação com uma possível interferência norte-americana nas eleições remonta a 9 de julho de 2025, quando Trump enviou uma carta a Lula anunciando a imposição de uma tarifa de 50% sobre produtos brasileiros.

<><> Exportações do Brasil para a Argentina caem 18% e perdem espaço para avanço chinês

Exportações brasileiras para a Argentina caíram 18,1% em 12 meses, reduzindo a fatia do país vizinho nas vendas externas de 5,6% para 3,7%. Mesmo com tensões políticas, a Argentina segue como terceiro maior parceiro comercial, mas perde espaço para a China no setor automotivo, que historicamente sustenta o fluxo bilateral.

As exportações brasileiras para a Argentina caíram 18,1% nos últimos 12 meses, segundo o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), reduzindo a participação do país vizinho de 5,6% para 3,7% nas vendas externas do Brasil. Mesmo com tensões políticas entre Javier Milei e Lula, a Argentina segue como terceiro maior destino dos produtos nacionais, atrás de China e EUA.

Do lado argentino, o Brasil perdeu para a China o posto de principal origem das importações. Em 2025, 14,6% das vendas externas argentinas tiveram o Brasil como destino.

A queda recente, porém, não é política: especialistas consultados por um jornal de grande circulação no país apontam o avanço tecnológico e a força dos veículos elétricos chineses como fatores centrais, afetando o tradicional comércio automotivo bilateral.

Em junho, as exportações brasileiras somaram US$ 1,3 bilhão (cerca de R$ 7,3 bilhões), enquanto as importações de produtos argentinos cresceram 3,8%, também puxadas pela indústria automotiva. A Argentina permanece estratégica para o Brasil por comprar majoritariamente manufaturados — segmento pressionado pelo tarifaço dos EUA.

A concorrência tende a aumentar uma vez que o país vizinho firmou acordo com os EUA e enfrenta a ofensiva global dos manufaturados chineses. De acordo com analistas consultados pela apuração, preservar mercados no Mercosul e na União Europeia é vital para evitar que o Brasil dependa apenas de commodities.

O comércio bilateral é historicamente volátil, influenciado por crises econômicas e oscilações cambiais. Nos anos 1990, o acordo automotivo impulsionou as exportações brasileiras, mas a instabilidade argentina reduziu esse dinamismo ao longo das décadas.

Hoje, veículos, autopeças e máquinas lideram as vendas brasileiras, enquanto o Brasil importa principalmente trigo e automóveis. A dependência do trigo argentino permanece alta, com cerca de metade do consumo nacional vindo de fora.

Com a China avançando no setor automotivo e ocupando espaço nos dois mercados, Brasil e Argentina enfrentam o desafio de manter relevância em um cenário global mais competitivo, conclui a apuração.

 

Fonte: DW Brasil/Sputnik Brasil 

 

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