O
Brasil tem margem para negociar o tarifaço de Trump?
Em uma
cerimônia na última quarta-feira (22/07) o presidente Luiz Inácio Lula da Silva foi categórico
ao afirmar que o Brasil seguia na mesa de negociação para tentar reverter
as tarifas de 25% impostas pelos Estados
Unidos sobre uma série de produtos brasileiros.
"A
gente não vai sair da mesa de negociação. Eles que digam que não querem
negociar, porque nós vamos estar lá sentados na mesa, fazendo proposta toda vez
e desafiando eles a provarem que eles tinham alguma razão de taxar o Brasil
porque são deficitários conosco", disse Lula durante evento no Palácio do
Planalto, lembrando que há décadas os EUA acumulam superávit com o Brasil.
Mas
analistas apontam que a questão vai muito além da balança comercial. Em um
momento em que os Estados Unidos buscam rever
acordos multilaterais, combater o avanço da influência chinesa e se impor
economicamente de forma mais agressiva, especialistas salientam que o
Brasil não deveria encarar as tarifas somente como uma discussão puramente
técnica. Haveria mais em jogo.
Reino
Unido, Japão e a União Europeia assinaram acordos bilaterais com os Estados
Unidos nos últimos meses, por exemplo. Eles fizeram concessões importantes em
troca de mais estabilidade na relação comercial com os americanos, mas ainda
enfrentam incertezas, como o anúncio recente de tarifas sobre
combate ao trabalho forçado.
Já o
Canadá, que assinou um amplo acordo comercial com os EUA de Trump em 2025, também foi alvo neste mês de um novo
tarifaço por parte da Casa Branca, levando os canadenses a acusarem Washington de violar o
tratado.
Ainda assim, o premiê do Canadá, Mark Carney, disse que pretende
"intensificar" as negociações comerciais com Trump.
Com
tudo isso em jogo, o Brasil deveria seguir pelo mesmo caminho?
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A natureza das tarifas
Para o
professor Daniel Vargas, da FGV Direito Rio, o primeiro passo é
estabelecer as diferenças das negociações com os Estados Unidos durante o
segundo mandato do presidente Donald Trump. Segundo ele, as tratativas agora
também envolvem aspectos referentes à influência americana na região e a
relação política entre os dois países.
“Esse
não é apenas um diálogo negocial em sentido estrito. É uma disputa muito mais
profunda que envolve tanto questões econômicas e políticas, mas sobretudo
questões geopolíticas que se tornaram prioridade para os Estados Unidos”,
afirma Vargas.
Ele
explica que o caráter político da medida seria a construção de uma afinidade
ideológica entre os dois países por meio de um possível impacto nas
eleições brasileiras. O segundo seria a utilização das tarifas para
desincentivar que países mantenham uma relação comercial próxima à China.
"Não
é uma tarifa cujo cálculo carrega consigo a esperança de ter um retorno
econômico amanhã. É uma tarifa cujo cálculo tem a expectativa de afirmar a
autoridade americana e a sua influência geopolítica sobre a região”, diz.
A
posição é corroborada pelo professor de relações internacionais do Berea
College Carlos Gustavo Poggio. “É difícil negociar porque não se trata de uma
questão técnica. A abertura da investigação no Brasil foi política. Ela começa
quando Trump envia uma carta falando sobre Jair Bolsonaro, sobre o Supremo
Tribunal Federal”, explica Poggio, em referência à primeira rodada de
tarifas anunciadas pelo governo americano em julho de 2025.
A
investigação aberta naquela ocasião visava responder a medidas econômicas de
países que restringissem o comércio americano e foi encerrada com o recente
anúncio de uma tarifa de 25% sobre produtos brasileiros.
Para
Poggio, porém, a aplicação de tarifas estaria mais ancorada em uma visão
ideológica do governo Trump, encabeçada pelo Secretário de Estado Marco Rubio,
do que uma estratégia de longo prazo que visa afastar a influência chinesa de
parceiros comerciais estratégicos. “O governo Trump não pensa dessa forma
porque não existe estratégia, existem impulsos e emoção. Não é algo coerente”,
afirma.
Rubio,
que é filho de cubanos, é considerado integrante da ala mais ideológica do
governo americano e tem tido papel central na relação do governo Trump com
países da América Latina.
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Houve tentativa de negociar?
O
Brasil não se absteve de negociar com os Estados Unidos, segundo o professor
Daniel Vargas, mas a posição do governo brasileiro não tem levado em
consideração os componentes políticos da medida.
“Acho
que o governo está tentando negociar, mas de maneira muito estreita, mais do
que de qualquer outra negociação em curso ou que aconteceu entre outros países
e os Estados Unidos. A negociação com a Europa também envolveu um conjunto de
componentes valorativos”, afirma.
Já
Gustavo Blum, que é analista geopolítico e pesquisador convidado no Geneva
Graduate Institute, defende que o país tentou negociar com os Estados Unidos,
mas o processo não avançou por conta da lógica “maximalista” do governo Trump,
onde há pouca ou nenhuma margem para concessões.
“O
Brasil não fez uma abertura total e completa, o governo buscou encontrar
soluções sem prejudicar setores estratégicos da economia brasileira”, afirma.
Blum
defende que o tarifaço ocorre num contexto em que os Estados Unidos buscam
aumentar sua influência na América Latina, mas questiona a efetividade da
medida. “Existe uma lógica neste processo, mas que é pautada pela
inconstância”, afirma. Ele menciona que o recente telefonema entre Lula e o
líder chinês Xi Jinping, onde um possível acordo entre o Mercosul e a China foi
discutido, mostra como o tarifaço pode produzir um efeito reverso ao buscado
pelos americanos.
O
professor Carlos Poggio destaca que não é possível fazer uma comparação direta
entre as outras negociações bilaterais dos Estados Unidos e um possível acordo
com o Brasil, já que elas envolviam países com uma relação geopolítica e
econômica muito mais importante com os americanos.
“Além
disso, no caso de negociações com a Europa e Japão, por exemplo, não havia o
componente político, que há no caso brasileiro”, ressalta.
Para
Poggio, o país não tem margem de negociação, considerando que as tarifas são
utilizadas pelo governo americano para conseguir concessões unilaterais e um
alinhamento quase incondicional de outros países, além de serem pouco efetivas
para manter as relações comerciais estáveis.
“Qualquer
negociação com Trump é muito efêmera. Qualquer governo futuro pode anulá-la
porque não tem nada que passa pelo Congresso”, explica.
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Brasil repudia decisão dos EUA de prorrogar declaração de
emergência por mais um ano
O
governo brasileiro expôs em nota, nesta quarta-feira (29), seu repúdio à
decisão dos Estados Unidos de prorrogar por mais um ano a declaração de
emergência nacional em relação ao Brasil, anunciada ontem (28) pela Casa
Branca.
No
texto, a Secretaria de Comunicação Social da Presidência afirma que a medida
reitera "argumentos infundados e inverídicos" de que o Brasil
representaria uma "ameaça incomum e extraordinária à segurança
nacional, à política externa e à economia dos Estados Unidos".
O
governo também rejeita as acusações de violações à liberdade de expressão,
censura por parte do Supremo Tribunal Federal (STF), violações de direitos
humanos e perseguição política a um ex-presidente brasileiro e seus apoiadores,
referindo-se à prisão do ex-presidente Jair
Bolsonaro.
"O
Brasil reafirma sua soberania e a independência dos Poderes da União", diz
a nota, acrescentando que as alegações já foram amplamente rebatidas em
encontros bilaterais entre autoridades.
O
informe ainda defende a atuação do Judiciário brasileiro, afirmando que o STF
age em conformidade com a Constituição Federal, e classifica
como "inteiramente descabido" caracterizar o Brasil como uma
ameaça aos Estados Unidos, destacando os históricos laços diplomáticos e a
amizade dos dois países.
Anunciada
na terça-feira (28), a prorrogação mantém
em vigor uma
declaração assinada pelos EUA em julho de 2025, na qual foram instituídas
tarifas de 40% sobre produtos brasileiros. No entanto, como a medida foi
derrubada pela Suprema Corte norte-americana, a renovação não tem efeitos
práticos.
No
entanto, a decisão do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, é vista com
desconfiança pelo governo de Luiz Inácio Lula da Silva. A preocupação com
uma possível
interferência norte-americana nas eleições remonta a 9 de julho de
2025, quando Trump enviou uma carta a Lula anunciando a imposição de uma tarifa
de 50% sobre produtos brasileiros.
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Exportações do Brasil para a Argentina caem 18% e perdem espaço para avanço
chinês
Exportações
brasileiras para a Argentina caíram 18,1% em 12 meses, reduzindo a fatia do
país vizinho nas vendas externas de 5,6% para 3,7%. Mesmo com tensões
políticas, a Argentina segue como terceiro maior parceiro comercial, mas perde
espaço para a China no setor automotivo, que historicamente sustenta o fluxo
bilateral.
As exportações
brasileiras para
a Argentina caíram 18,1% nos últimos 12 meses, segundo o Ministério do
Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), reduzindo a
participação do país vizinho de 5,6% para 3,7% nas vendas externas do Brasil.
Mesmo com tensões políticas entre Javier Milei e Lula, a Argentina segue
como terceiro maior
destino dos
produtos nacionais, atrás de China e EUA.
Do lado
argentino, o Brasil perdeu para a China o posto de principal origem das
importações. Em 2025, 14,6% das vendas externas argentinas tiveram o Brasil
como destino.
A queda
recente, porém, não é política: especialistas consultados por um jornal de
grande circulação no país apontam o avanço
tecnológico e a força dos veículos elétricos chineses como fatores centrais,
afetando o tradicional comércio automotivo bilateral.
Em
junho, as exportações brasileiras somaram US$ 1,3 bilhão (cerca de R$
7,3 bilhões), enquanto as importações de produtos argentinos cresceram 3,8%,
também puxadas pela indústria automotiva. A Argentina permanece estratégica para o
Brasil por
comprar majoritariamente manufaturados — segmento pressionado pelo tarifaço dos
EUA.
A concorrência
tende a aumentar uma vez que o país vizinho firmou acordo com os EUA e
enfrenta a ofensiva global dos manufaturados
chineses.
De acordo com analistas consultados pela apuração, preservar mercados no
Mercosul e na União Europeia é vital para evitar que o Brasil dependa apenas de
commodities.
O
comércio bilateral é historicamente volátil, influenciado por crises
econômicas e oscilações cambiais. Nos anos 1990, o acordo automotivo
impulsionou as exportações brasileiras, mas a instabilidade argentina reduziu esse
dinamismo ao
longo das décadas.
Hoje, veículos,
autopeças e máquinas lideram as vendas brasileiras, enquanto o Brasil importa
principalmente trigo e automóveis. A dependência do trigo argentino
permanece alta, com cerca de metade do consumo nacional vindo de fora.
Com a
China avançando no setor automotivo e ocupando espaço nos dois
mercados, Brasil e Argentina enfrentam o desafio de manter relevância em
um cenário global mais competitivo, conclui a apuração.
Fonte:
DW Brasil/Sputnik Brasil

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