Lenacapavir:
inovação para quem?
O
lenacapavir, medicamento injetável de aplicação semestral para prevenção do
HIV, vem sendo apresentado como uma das grandes promessas da resposta global à
epidemia. Após demonstrar resultados expressivos em ensaios clínicos, passou a
ser tratado por muitos atores do campo da saúde, organismos internacionais,
pesquisadores e pela indústria farmacêutica como um possível “divisor de águas”
na história da prevenção do HIV.
De
fato, trata-se de uma inovação importante. Uma estratégia preventiva que pode
ampliar as possibilidades de escolhas, beneficiar pessoas que não se adaptam ao
uso diário de comprimidos e fortalecer o repertório da prevenção combinada. No
entanto, os resultados obtidos em ensaios clínicos (eficácia) não se traduzem
automaticamente em impacto na vida real (efetividade). Reconhecer essa
distinção é essencial para decisões responsáveis em saúde pública.
Ensaios
clínicos são desenhados para responder se uma intervenção funciona em condições
controladas. Eles não são capazes, sozinhos, de mostrar como essa intervenção
será entregue em sistemas de saúde reais, com equipes sobrecarregadas,
desigualdades territoriais, barreiras de acesso, estigma, dificuldades de
seguimento, limitações orçamentárias e diferentes formas de relação das pessoas
com seus corpos, seus riscos e seus serviços de saúde.
Quando
a eficácia demonstrada em ensaios clínicos é rapidamente convertida em promessa
de controle da epidemia, sem uma avaliação prévia de efetividade, viabilidade,
aceitabilidade, sustentabilidade, custo de oportunidade e prioridades locais,
cria-se uma expectativa arriscada. Para a população, essa promessa pode não
responder às necessidades concretas de prevenção; para os sistemas públicos de
saúde, pode justificar o deslocamento de recursos de outras estratégias
igualmente essenciais.
No
Brasil, precisamos entender urgentemente para quem o lenacapavir deve ser
prioritário, em que condições deve ser ofertado e como garantir que sua
incorporação reduza, em vez de ampliar, as desigualdades.
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A lição da PrEP oral para os injetáveis
A PrEP
oral está disponível no SUS desde 2018. Ainda assim, seu acesso permanece
profundamente desigual. No Brasil, o perfil predominante entre as pessoas que
utilizam a PrEP é o de homens gays, brancos e com maior escolaridade. Esse
cenário evidencia que pessoas negras, mulheres, pessoas trans, trabalhadoras e
trabalhadores do sexo, pessoas privadas de liberdade, populações periféricas e
outros grupos historicamente vulnerabilizados continuam enfrentando barreiras
importantes, mesmo quando uma tecnologia já foi incorporada ao sistema público
de saúde.
Para
que uma estratégia de prevenção se torne efetiva não basta que o medicamento
funcione. São necessários serviços acessíveis e acolhedores, atendimento
humanizado e livre de estigma e discriminação, profissionais capacitados e
sensibilizados, testagem regular para o HIV, agendas organizadas, sistemas de
busca ativa, farmacovigilância, cadeia de abastecimento confiável,
financiamento sustentável e preço compatível com políticas públicas.
O cabotegravir,
PrEP injetável de aplicação bimestral, também foi celebrado como uma tecnologia
altamente eficaz. Porém, seu alto custo no Brasil inviabiliza a sua
implementação. O mesmo problema se coloca para o lenacapavir: embora seu
intervalo semestral possa facilitar a vida de muitas pessoas, seu preço elevado
representa uma grande barreira ao acesso e pode impedir sua oferta ampla e
equitativa no sistema público de saúde. Além disso, a aplicação a cada seis
meses não elimina as exigências de cuidado, acompanhamento e organização dos
serviços. Pelo contrário: por ser uma tecnologia de longa duração, exige ainda
mais responsabilidade na testagem, no monitoramento de eventos adversos, na
continuidade do acesso e na resposta rápida a intercorrências.
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O que os dados de vida real já começam a mostrar
Um
estudo multicêntrico de implementação em vida real nos Estados Unidos,
envolvendo 17 programas e 501 pessoas, ajuda a ilustrar por que precisamos ter
cautela antes de transformar uma tecnologia promissora em solução automática
para a epidemia.
O tempo
mediano entre a prescrição e a primeira aplicação foi de 27 dias. Autorizações
prévias e barreiras relacionadas a seguros de saúde aumentaram esse intervalo.
Uma tecnologia biologicamente muito eficaz pode se tornar menos efetiva no
nível populacional se demorar para chegar a quem precisa.
Outro
ponto crítico observado foram as reações no local da injeção, principalmente
dor local e formação de nódulos. A descontinuação precoce foi pouco frequente,
mas ocorreu em proporção maior do que a observada nos ensaios clínicos, e
esteve relacionada à experiência com a aplicação do medicamento. No estudo,
aplicações no abdômen estiveram mais frequentemente relacionadas à procura por
atendimento devido a reações locais, e todas as descontinuações ocorreram entre
pessoas que receberam o medicamento nessa região, e não na coxa. Esse é um
sinal relevante para protocolos de aplicação, na escolha e rotação de locais,
aconselhamento prévio e seguimento após a administração.
Essas
reações podem parecer um problema pequeno quando comparadas à eficácia do
medicamento. Mas, na vida real, elas podem impactar aceitação, conforto, adesão
e segurança. Nódulos visíveis ou dolorosos, especialmente em áreas como o
abdômen, podem ter significado diferente para diferentes pessoas. Para quem
depende do corpo para trabalhar, para quem vive situações de violência, para
quem precisa preservar privacidade sobre o uso da PrEP ou para quem já enfrenta
estigma relacionado ao HIV, essas reações podem ser barreiras relevantes. Por
isso, efeitos adversos não devem ser tratados apenas como eventos clínicos.
Eles precisam ser compreendidos também em sua dimensão social, subjetiva e
comunitária.
Protocolos
sobre local de aplicação, possibilidade de escolha, rotação, aconselhamento
antecipatório e acompanhamento pós-injeção podem fazer diferença na
persistência e na aceitação. Mas isso precisa ser estudado na população
brasileira e nos serviços brasileiros de forma conjunta.
Outro
ponto crítico que exige atenção são as interações medicamentosas. O lenacapavir
pode interagir com medicamentos comumente utilizados pelos grupos que já
acessam mais a PrEP oral, como os homens gays. Alguns ansiolíticos, o
canabidiol e medicamentos como a tadalafila e a sildenafila — utilizados para
disfunção erétil e, por vezes, sem prescrição médica — podem apresentar
interações clinicamente relevantes com o lenacapavir. A questão ganha especial
importância porque o lenacapavir permanece no organismo por um período
prolongado, e seu efeito sobre outros medicamentos pode persistir por meses
após a última aplicação. Por isso, os protocolos de implementação devem prever
a avaliação regular de medicamentos prescritos, produtos adquiridos sem
receita, suplementos e outras substâncias utilizadas pelas pessoas. Esse
acompanhamento deve ocorrer de forma acolhedora, confidencial e sem
julgamentos, para que os usuários se sintam seguros para fornecer informações
essenciais à prevenção de eventos adversos.
Esses
achados não diminuem a importância do lenacapavir. Mas demonstram que o
lenacapavir pode beneficiar alguns e outros não.
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A urgência do debate no SUS
O
debate sobre o lenacapavir no SUS precisa ocorrer agora, porque preço, equidade
e capacidade dos serviços definirão se essa inovação será um direito ou um
privilégio. O primeiro desafio é o preço. Se o custo se mantiver em
patamares incompatíveis com o financiamento público, a oferta universal pelo
SUS se torna estruturalmente inviável. Isso reforça a urgência de negociações
transparentes, redução de preços e estratégias de acesso orientadas pelo
interesse público, inclusive com uso de flexibilidades legais como a licença
compulsória.
O
segundo é a equidade. A definição de prioridades não pode se limitar aos perfis
observados nos ensaios clínicos nem reproduzir as desigualdades já existentes
no acesso à PrEP. Deve considerar território, raça, gênero, condições de vida,
autonomia, vulnerabilidades e barreiras concretas de acesso, com participação
efetiva das comunidades.
Quem
mais se beneficiaria do lenacapavir no Brasil? Pessoas que vivem em áreas
remotas? Pessoas com rotinas instáveis? Pessoas que enfrentam dificuldade de
comparecer com frequência aos serviços? Pessoas em situação de violência,
estigma ou exclusão? Populações LGBTQIA+, pessoas negras, pessoas que usam
substâncias, pessoas privadas de liberdade, trabalhadores e trabalhadoras do
sexo? Essas respostas devem ser construídas com estudos de implementação e com
participação social.
O
terceiro é a preparação dos serviços. A PrEP semestral exige equipes
capacitadas, atendimento humanizado e sem estigma, horários acessíveis,
acompanhamento adequado e garantia de continuidade. Sem isso, a
responsabilidade pelo “fracasso” tende a ser deslocada injustamente para os
usuários, como se baixa adesão ou abandono fossem escolhas individuais
desconectadas das condições concretas de acesso.
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A resposta ao HIV não cabe em uma tecnologia
O lenacapavir
deve ser entendido como mais uma ferramenta dentro de um repertório amplo de
prevenção combinada, ao lado de outras tecnologias biomédicas, intervenções
comportamentais, políticas sociais e medidas estruturais. Há um risco crescente
de reduzir a resposta ao HIV quase exclusivamente aos medicamentos e às novas
tecnologias. Essa visão, conhecida como biomedicalização excessiva, coloca os
produtos biomédicos no centro da política de prevenção e relega a segundo plano
os direitos humanos, a mobilização comunitária, as políticas sociais e o
enfrentamento das desigualdades.
A
prevenção do HIV não é um produto a ser entregue a indivíduos considerados “de
risco”. É um direito que depende de informação, autonomia, serviços públicos
acessíveis e acolhedores, participação social e condições dignas de vida.
Quando a epidemia é reduzida ao risco individual e à adesão a tecnologias
biomédicas, perdem espaço os debates sobre pobreza, racismo, desigualdade de
gênero, violência, criminalização, estigma e barreiras institucionais. As
condições que produzem vulnerabilidade passam a ser descritas apenas como
“barreiras à adesão” ou “obstáculos à entrega do produto”.
A
resposta ao HIV sempre foi mais potente quando combinou ciência, direitos
humanos, mobilização comunitária, políticas públicas e enfrentamento das
desigualdades. Nenhuma tecnologia, por mais inovadora que seja, substitui essa
construção. O lenacapavir e os medicamentos que ainda virão somente
representarão verdadeiro progresso se fortalecerem o direito universal à
prevenção, em vez de transformar esse direito em um mercado de produtos
inacessíveis.
Fonte: Por
Fernanda Rick, em Outra Saúde

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