quarta-feira, 29 de julho de 2026

Doutorado para quê?

Há dois meses publiquei no site A Terra é Redonda o texto “Por que ainda alguém escolhe ser professor(a)?”. Depois da publicação, chegaram mensagens de docentes, licenciandos(as), pesquisadores(as), familiares de educadores(as) e pessoas que haviam deixado a profissão. Parte concordava; parte discordava; quase todas acrescentavam uma história. A pergunta saiu das telas e reapareceu em corredores universitários, grupos de pesquisa, conversas depois de bancas e salas de professores(as).

Essa circulação fora das redes me ensinou algo. Perguntas públicas ganham força quando devolvem voz a experiências vividas em silêncio. Foi durante uma dessas conversas que outra inquietação começou a me acompanhar. Se ainda há quem escolha ser professor(a) diante de tantas adversidades, por que alguém escolhe seguir até o doutorado? E, concluída a tese, o que o país faz com essa pessoa?

Pensei em uma conhecida. Ela já publicou muitos artigos, vários em periódicos A1. Foi bolsista da Fapesp na pós-graduação, integrou redes de pesquisa, participou de grupos de pesquisa, apresentou trabalhos, recebeu prêmio e lecionou na educação básica. Fala inglês, comunica-se em espanhol, estuda alemão, tornou-se doutora e iniciou um pós-doutorado sem bolsa. Na fotografia da defesa, os anos de estudo pareciam finalmente encontrar reconhecimento. Havia flores, abraços e familiares orgulhosos.

Pouco depois, veio a pergunta material: como pagar as contas? Sem bolsa, sem concurso próximo de sua área e sem contrato docente, ela voltou a trabalhar em uma pequena loja. Tornou-se vendedora, ocupação que exercera no começo da vida adulta, antes da graduação. O emprego comercial virou ponte até a abertura de algum concurso, processo seletivo municipal, seleção estadual ou edital universitário.

Nada há de menor no trabalho de uma vendedora. A questão aparece na distância entre a formação socialmente financiada e a destinação profissional oferecida. Uma pesquisadora capaz de produzir conhecimento, ensinar, orientar e contribuir com políticas públicas vende produtos para sobreviver porque o sistema científico a formou sem preparar vias suficientes para sua inserção. A loja paga pouco. O currículo não paga remédios, alimentação nem as despesas de um pai acamado.

Ela não pode viajar milhares de quilômetros para disputar cada vaga. Assumiu sozinha o cuidado do pai. Chamar essa impossibilidade de falta de ambição seria converter responsabilidade familiar em culpa individual. A mobilidade acadêmica costuma ser narrada como prova de coragem: mudar de cidade, aceitar contratos breves, colecionar endereços. Essa narrativa esquece vínculos, dependentes e doenças na família. Para alguns(as), fazer uma prova em outro estado exige passagem e hotel; para outros(as), exige abandonar quem necessita de cuidado diário.

Mulheres já constituem maioria entre as pessoas tituladas na pós-graduação brasileira, mas carregam parcela maior do cuidado familiar. Dados do IBGE referentes a 2022 registraram média semanal de 21,3 horas para mulheres, ante 11,7 horas para homens. O currículo não possui campo para noites interrompidas por medicação, consultas e medo.

Cada novo edital devolve alegria à minha conhecida. Por alguns dias, ela relê o programa, confere as exigências, imagina a aula e planeja o projeto. Depois percebe que a especialidade pedida não corresponde à sua formação. Fecha o arquivo e espera o próximo. Seus olhos vivem em regime de editalismo, uma vigília profissional na qual a vida permanece suspensa entre a publicação de uma vaga e a descoberta de que ela foi escrita para outro perfil.

A disputa também mudou de escala. Em junho de 2025, numa sessão do Conselho Universitário da Universidade de São Paulo (USP), a própria instituição discutiu concursos com mais de cem candidatos(as) e bancas prolongadas por muitos dias. Uma vaga pode reunir uma centena de doutores(as), cada qual com tese, artigos, experiência docente e anos de formação. O volume não prova que existam doutores(as) demais. Prova que existem vias de ingresso de menos.

Dentro da universidade, cem doutores(as) numa seleção parecem multidão. Fora dela, o Brasil continua sendo um país com poucos(as) doutores(as). A Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) informou que cerca de 0,2% da população brasileira possuía doutorado, diante de média de 1,1% nos países da OCDE.

Outro cálculo oficial registrou dez doutores(as) titulados(as) por cem mil habitantes, cerca de um terço da média indicada para aquele conjunto de países. Entre 1996 e 2021, o sistema nacional formou 319 mil doutores(as). O número parece imenso numa fila de concurso; torna-se pequeno quando distribuído por mais de duzentos milhões de habitantes, milhares de municípios, escolas, hospitais, museus e órgãos públicos.

Faça um exercício simples. Pense em sua árvore familiar. Quantos(as) avós doutores(as) aparecem nela? Quantos(as) pais, mães, tios, tias, irmãos(ãs) ou primos(as) concluíram um doutorado? Há famílias com avô/avó doutor(a), pai/mãe doutor(a), filho(a) doutor(a) e neto(a) doutor(a). Formam uma exceção rara, concentrada em círculos que aprenderam cedo a linguagem acadêmica, os ritos da seleção, a escrita do projeto e a função da iniciação científica.

Para grande parte das famílias brasileiras, a pessoa doutora é a primeira de sua linhagem e, às vezes, a primeira a entrar numa universidade pública. Pode ser filha de trabalhadores(as) que nunca conheceram um laboratório ou uma defesa de tese. Carrega orgulho coletivo e uma dívida afetiva imaginária: depois de estudar tanto, precisa “dar certo”. Quando a carreira não se firma logo, a família compara rendimentos. Um parente que nunca gostou de ler pode receber salário maior e alcançar estabilidade sem ter passado por dez anos de formação superior. Isso não diminui o parente. Revela que escolarização e remuneração obedecem a lógicas distintas.

Uma pesquisa pode levar anos; uma tese pode beneficiar pessoas que jamais conhecerão quem a escreveu. Quando a medida financeira se torna o único juiz da vida, todo conhecimento sem retorno imediato parece desperdício.

Minha conhecida lamenta ter se tornado doutora. Diz isso em dias de exaustão, depois de trabalhar na loja, cuidar do pai e conferir outra lista de requisitos. Também sofre calada. Aprendeu que verbalizar a dor pode atrair duas sentenças prontas: “se não conseguiu, faltou mérito” ou “isso é mimimi”. A racionalidade neoliberal converte processos coletivos em defeitos privados, transforma escassez de vagas em falha moral e exige que cada pessoa administre sozinha riscos produzidos socialmente.

A saúde mental paga parte dessa conta. A pós-graduação treina a exposição contínua a avaliações: projeto, bolsa, relatório, artigo, banca, currículo, concurso, produtividade. Após a defesa, a cobrança continua, mas desaparecem vínculos institucionais que protegiam o(a) pesquisador(a). Caberia perguntar como essa geração dorme, paga aluguel, cuida de familiares e preserva forças para pesquisar sem renda.

Seria errado concluir que o Brasil formou gente demais. O país precisa de mais pesquisadores(as) nas universidades, escolas, secretarias, hospitais, arquivos, bibliotecas, museus, institutos, empresas públicas, organizações sociais, prefeituras e ministérios. O baixo percentual nacional convive com um funil profissional estreito. Eis a contradição: faltam doutores(as) para as necessidades brasileiras e sobram candidatos(as) diante das poucas portas institucionais.

A fuga de cérebros participa dessa discussão. Estudo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), publicado em 2026, identificou 3.145 doutores(as) titulados(as) no Brasil entre 2013 e 2024 com residência no exterior, equivalentes a 1,2% do universo examinado. O percentual ainda é pequeno, mas muitos(as) concluíram cursos bem avaliados e vieram de áreas de ciência, tecnologia, engenharia e matemática. Minha conhecida já consulta oportunidades em outra nação. Não deseja abandonar o pai nem o Brasil. Deseja trabalhar com aquilo para o qual se preparou. Caso parta, talvez seja convertida em estatística; antes disso, será uma pessoa empurrada a procurar acolhimento profissional fora do país que financiou parte de sua formação.

Chegamos novamente à pergunta que fiz no título: doutorado para quê? Para obter emprego e aumentar a renda? Sim. Ninguém deve sentir vergonha de desejar salário digno, estabilidade e carreira. Pesquisadores(as) comem, adoecem, envelhecem, sustentam famílias e pagam boletos. A fantasia do cientista movido(a) unicamente por vocação serve com frequência para baratear seu trabalho. Amor ao conhecimento não substitui remuneração.

Nenhum título, porém, funciona como contrato antecipado. Classe social, redes de contato, região de origem, gênero, raça, responsabilidades de cuidado e distribuição das vagas continuam pesando sobre trajetórias individuais. O diploma amplia possibilidades; não dissolve a sociedade dentro da qual será usado. Ser chamado(a) de doutor(a) dura poucos segundos. Aprender a pesquisar permanece.

É nesse ponto que minha resposta se afasta da melancolia: compensa, sim, fazer doutorado no Brasil, desde que compensação não seja confundida com garantia mercantil. O doutorado pode ser uma emancipação intelectual de rara intensidade. Não porque torne alguém superior, mas porque ensina a desconfiar do óbvio, investigar causas, suportar a demora de uma pergunta difícil, distinguir prova de opinião e reconhecer a própria ignorância sem vergonha.

Uma boa formação científica altera a relação com o tempo. Em vez da resposta instantânea, pede investigação. Em vez da certeza vendável, exige demonstração. Em vez de repetir o mundo recebido, convida a interrogá-lo. A pessoa aprende que nenhum problema social nasce isolado, que biografias carregam história e que uma dor privada pode revelar uma falha pública.

O diploma registra uma conclusão administrativa; a formação continua agindo na maneira de ler notícias, ensinar, votar, escrever, ouvir e comparar fontes. Há algo libertador em descobrir que o mundo social não é uma fatalidade natural. Salários, instituições, escolas e formas de trabalho foram construídos historicamente e podem ser modificados por ação coletiva.

A iniciação científica costuma ser a primeira abertura dessa porta. Muitos(as) ex-alunos(as) que passaram por faculdades privadas contam que concluíram a graduação sem ouvir a expressão “iniciação científica”. Foram conduzidos(as) desde o primeiro semestre pela corrida “trabalho, emprego e renda”, fórmula compreensível num país desigual. Estudar aparecia como meio para conseguir vaga; pesquisar parecia luxo distante. Ao conhecerem uma universidade pública ou um grupo de pesquisa, descobriram que também podiam produzir conhecimento e participar de uma comunidade intelectual.

Alguns(as) estudantes chegam conhecendo projetos, bolsas e grupos. Outros(as) acreditam que ciência pertence a pessoas extraordinárias de jaleco ou a sobrenomes consagrados. Iniciação científica, mestrado e doutorado podem romper essa herança desigual ao dizer a alguém: sua pergunta também merece método, leitura, tempo e interlocução.

Ser doutor(a) não equivale a acumular um prefixo diante do nome. Significa conquistar instrumentos para compreender com maior profundidade um fragmento da realidade e devolvê-lo à vida coletiva. Uma tese sobre alfabetização pode melhorar práticas escolares. Uma pesquisa sobre doenças pode orientar tratamentos. Um estudo sobre moradia pode auxiliar políticas urbanas. Uma investigação histórica pode proteger a memória contra falsificações. Toda sociedade livre precisa preservar pessoas dedicadas a perguntar antes de obedecer.

Minha conhecida ainda vende produtos na loja. O caixa e as prateleiras não apagam a pesquisadora. Isso não justifica sua precariedade. Serve para lembrar que o conhecimento incorporado não desaparece quando o cargo tarda. O trabalho temporário paga o presente; a formação continua abrindo futuros possíveis.

Esperança, aqui, não é pensamento mágico. É consciência das condições concretas somada à decisão de agir sobre elas. Conhecimento financiado coletivamente pede destinação coletiva. Governos, universidades, fundações, empresas e sociedade civil precisam criar caminhos para que pesquisas retornem à população em forma de ensino, tecnologia, cultura, saúde, memória e capacidade crítica. O problema não está em o doutorado oferecer mais do que emprego. Está em o país aproveitar menos do que essa formação pode oferecer.

Afinal, doutorado para quê? Para obter um título, disputar um cargo e ampliar a renda, certamente. Mas também para aprender a formular perguntas melhores, rejeitar respostas fáceis, produzir conhecimento público e participar da construção intelectual de um país. Nenhuma dessas finalidades paga contas sozinha, e seria injusto pedir que pesquisadores(as) vivessem somente de vocação. Ainda assim, reduzir o doutorado ao contracheque seria aceitar que tudo aquilo que não produz retorno imediato perdeu valor.

A questão consiste em construir uma sociedade na qual estudar profundamente um problema não pareça um erro de vida. Para isso, precisamos recuperar a capacidade de estranhar aquilo que a repetição transformou em costume. Estranhamos uma doutora vendendo produtos para sobreviver, mas aceitamos que um senador eleito permaneça durante semanas fora do país, atuando como comentarista da Copa do Mundo, sem se licenciar do mandato e cumprindo parte das atividades legislativas por via remota.

A crítica não está no futebol nem no direito ao trabalho privado; concentra-se na inversão de prioridades. Professores(as), pesquisadores(as), bolsistas e servidores(as) precisam justificar ausências, entregar relatórios, cumprir horários e demonstrar produtividade. Quando a função pública de um parlamentar cabe nos intervalos de uma cobertura esportiva, revela-se uma indulgência institucional que dificilmente seria concedida a quem leciona ou pesquisa.

Essa tolerância ajuda a compreender por que educação e ciência ainda não ocupam o centro do projeto político brasileiro. Existem parlamentares comprometidos(as) com essas áreas, mas não há uma bancada da ciência ou da educação com força comparável aos grupos associados às armas, às casas de apostas, às igrejas e ao grande agro. Interesses econômicos chegam ao Congresso organizados, financiados e acompanhados por equipes permanentes; pesquisadores(as), estudantes e docentes chegam por meio de cartas abertas, audiências públicas, marchas e pedidos de recomposição orçamentária.

É diante dessa desigualdade concreta entre quem concentra força política e quem produz conhecimento que a pergunta do título retorna como problema histórico: compensa ser doutor(a) no Brasil? Compensa, porque a formação científica oferece algo que nenhum mercado consegue medir por inteiro: capacidade de ler criticamente a realidade, separar evidência de propaganda, formular perguntas difíceis, produzir conhecimento público e compreender que problemas individuais possuem causas históricas e sociais.

O título não garante emprego, renda ou estabilidade, e romantizar essa incerteza seria desonesto; ainda assim, aprender a pesquisar amplia a autonomia intelectual, fortalece a participação pública e permite que escolas, hospitais, governos, comunidades e instituições recebam contribuições construídas durante anos de estudo.

Ser doutor(a) não significa ocupar um lugar acima das outras pessoas, mas assumir maior responsabilidade diante do mundo comum. Num país que necessita de ciência, educação e pensamento crítico, essa escolha continua valendo porque converte conhecimento em força social. Se o Brasil precisa de pessoas capazes de compreender profundamente seus problemas, por que ainda hesita em criar lugar para elas?

 

Fonte: Por Everton Fargoni, em A Terra é Redonda

 

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