Doutorado
para quê?
Há dois
meses publiquei no site A Terra é Redonda o texto “Por que ainda alguém escolhe ser professor(a)?”. Depois da
publicação, chegaram mensagens de docentes, licenciandos(as),
pesquisadores(as), familiares de educadores(as) e pessoas que haviam deixado a
profissão. Parte concordava; parte discordava; quase todas acrescentavam uma
história. A pergunta saiu das telas e reapareceu em corredores universitários,
grupos de pesquisa, conversas depois de bancas e salas de professores(as).
Essa
circulação fora das redes me ensinou algo. Perguntas públicas ganham força
quando devolvem voz a experiências vividas em silêncio. Foi durante uma dessas
conversas que outra inquietação começou a me acompanhar. Se ainda há quem
escolha ser professor(a) diante de tantas adversidades, por que alguém escolhe
seguir até o doutorado? E, concluída a tese, o que o país faz com essa pessoa?
Pensei
em uma conhecida. Ela já publicou muitos artigos, vários em periódicos A1. Foi
bolsista da Fapesp na pós-graduação, integrou redes de pesquisa, participou de
grupos de pesquisa, apresentou trabalhos, recebeu prêmio e lecionou na educação
básica. Fala inglês, comunica-se em espanhol, estuda alemão, tornou-se doutora
e iniciou um pós-doutorado sem bolsa. Na fotografia da defesa, os anos de
estudo pareciam finalmente encontrar reconhecimento. Havia flores, abraços e
familiares orgulhosos.
Pouco
depois, veio a pergunta material: como pagar as contas? Sem bolsa, sem concurso
próximo de sua área e sem contrato docente, ela voltou a trabalhar em uma
pequena loja. Tornou-se vendedora, ocupação que exercera no começo da vida
adulta, antes da graduação. O emprego comercial virou ponte até a abertura de
algum concurso, processo seletivo municipal, seleção estadual ou edital
universitário.
Nada há
de menor no trabalho de uma vendedora. A questão aparece na distância entre a
formação socialmente financiada e a destinação profissional oferecida. Uma
pesquisadora capaz de produzir conhecimento, ensinar, orientar e contribuir com
políticas públicas vende produtos para sobreviver porque o sistema científico a
formou sem preparar vias suficientes para sua inserção. A loja paga pouco. O
currículo não paga remédios, alimentação nem as despesas de um pai acamado.
Ela não
pode viajar milhares de quilômetros para disputar cada vaga. Assumiu sozinha o
cuidado do pai. Chamar essa impossibilidade de falta de ambição seria converter
responsabilidade familiar em culpa individual. A mobilidade acadêmica costuma
ser narrada como prova de coragem: mudar de cidade, aceitar contratos breves,
colecionar endereços. Essa narrativa esquece vínculos, dependentes e doenças na
família. Para alguns(as), fazer uma prova em outro estado exige passagem e
hotel; para outros(as), exige abandonar quem necessita de cuidado diário.
Mulheres
já constituem maioria entre as pessoas tituladas na pós-graduação brasileira,
mas carregam parcela maior do cuidado familiar. Dados do IBGE referentes a 2022
registraram média semanal de 21,3 horas para mulheres, ante 11,7 horas para
homens. O currículo não possui campo para noites interrompidas por medicação,
consultas e medo.
Cada
novo edital devolve alegria à minha conhecida. Por alguns dias, ela relê o
programa, confere as exigências, imagina a aula e planeja o projeto. Depois
percebe que a especialidade pedida não corresponde à sua formação. Fecha o
arquivo e espera o próximo. Seus olhos vivem em regime de editalismo, uma
vigília profissional na qual a vida permanece suspensa entre a publicação de
uma vaga e a descoberta de que ela foi escrita para outro perfil.
A
disputa também mudou de escala. Em junho de 2025, numa sessão do Conselho
Universitário da Universidade de São Paulo (USP), a própria instituição
discutiu concursos com mais de cem candidatos(as) e bancas prolongadas por
muitos dias. Uma vaga pode reunir uma centena de doutores(as), cada qual com
tese, artigos, experiência docente e anos de formação. O volume não prova que
existam doutores(as) demais. Prova que existem vias de ingresso de menos.
Dentro
da universidade, cem doutores(as) numa seleção parecem multidão. Fora dela, o
Brasil continua sendo um país com poucos(as) doutores(as). A Coordenação de
Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) informou que cerca de 0,2%
da população brasileira possuía doutorado, diante de média de 1,1% nos países
da OCDE.
Outro
cálculo oficial registrou dez doutores(as) titulados(as) por cem mil
habitantes, cerca de um terço da média indicada para aquele conjunto de países.
Entre 1996 e 2021, o sistema nacional formou 319 mil doutores(as). O número
parece imenso numa fila de concurso; torna-se pequeno quando distribuído por
mais de duzentos milhões de habitantes, milhares de municípios, escolas,
hospitais, museus e órgãos públicos.
Faça um
exercício simples. Pense em sua árvore familiar. Quantos(as) avós doutores(as)
aparecem nela? Quantos(as) pais, mães, tios, tias, irmãos(ãs) ou primos(as)
concluíram um doutorado? Há famílias com avô/avó doutor(a), pai/mãe doutor(a),
filho(a) doutor(a) e neto(a) doutor(a). Formam uma exceção rara, concentrada em
círculos que aprenderam cedo a linguagem acadêmica, os ritos da seleção, a
escrita do projeto e a função da iniciação científica.
Para
grande parte das famílias brasileiras, a pessoa doutora é a primeira de sua
linhagem e, às vezes, a primeira a entrar numa universidade pública. Pode ser
filha de trabalhadores(as) que nunca conheceram um laboratório ou uma defesa de
tese. Carrega orgulho coletivo e uma dívida afetiva imaginária: depois de
estudar tanto, precisa “dar certo”. Quando a carreira não se firma logo, a
família compara rendimentos. Um parente que nunca gostou de ler pode receber
salário maior e alcançar estabilidade sem ter passado por dez anos de formação
superior. Isso não diminui o parente. Revela que escolarização e remuneração
obedecem a lógicas distintas.
Uma
pesquisa pode levar anos; uma tese pode beneficiar pessoas que jamais
conhecerão quem a escreveu. Quando a medida financeira se torna o único juiz da
vida, todo conhecimento sem retorno imediato parece desperdício.
Minha
conhecida lamenta ter se tornado doutora. Diz isso em dias de exaustão, depois
de trabalhar na loja, cuidar do pai e conferir outra lista de requisitos.
Também sofre calada. Aprendeu que verbalizar a dor pode atrair duas sentenças
prontas: “se não conseguiu, faltou mérito” ou “isso é mimimi”. A racionalidade
neoliberal converte processos coletivos em defeitos privados, transforma
escassez de vagas em falha moral e exige que cada pessoa administre sozinha
riscos produzidos socialmente.
A saúde
mental paga parte dessa conta. A pós-graduação treina a exposição contínua a
avaliações: projeto, bolsa, relatório, artigo, banca, currículo, concurso,
produtividade. Após a defesa, a cobrança continua, mas desaparecem vínculos
institucionais que protegiam o(a) pesquisador(a). Caberia perguntar como essa
geração dorme, paga aluguel, cuida de familiares e preserva forças para
pesquisar sem renda.
Seria
errado concluir que o Brasil formou gente demais. O país precisa de mais
pesquisadores(as) nas universidades, escolas, secretarias, hospitais, arquivos,
bibliotecas, museus, institutos, empresas públicas, organizações sociais,
prefeituras e ministérios. O baixo percentual nacional convive com um funil
profissional estreito. Eis a contradição: faltam doutores(as) para as
necessidades brasileiras e sobram candidatos(as) diante das poucas portas
institucionais.
A fuga
de cérebros participa dessa discussão. Estudo do Instituto de Pesquisa
Econômica Aplicada (Ipea), publicado em 2026, identificou 3.145 doutores(as)
titulados(as) no Brasil entre 2013 e 2024 com residência no exterior,
equivalentes a 1,2% do universo examinado. O percentual ainda é pequeno, mas
muitos(as) concluíram cursos bem avaliados e vieram de áreas de ciência,
tecnologia, engenharia e matemática. Minha conhecida já consulta oportunidades
em outra nação. Não deseja abandonar o pai nem o Brasil. Deseja trabalhar com
aquilo para o qual se preparou. Caso parta, talvez seja convertida em
estatística; antes disso, será uma pessoa empurrada a procurar acolhimento
profissional fora do país que financiou parte de sua formação.
Chegamos
novamente à pergunta que fiz no título: doutorado para quê? Para obter emprego
e aumentar a renda? Sim. Ninguém deve sentir vergonha de desejar salário digno,
estabilidade e carreira. Pesquisadores(as) comem, adoecem, envelhecem,
sustentam famílias e pagam boletos. A fantasia do cientista movido(a)
unicamente por vocação serve com frequência para baratear seu trabalho. Amor ao
conhecimento não substitui remuneração.
Nenhum
título, porém, funciona como contrato antecipado. Classe social, redes de
contato, região de origem, gênero, raça, responsabilidades de cuidado e
distribuição das vagas continuam pesando sobre trajetórias individuais. O
diploma amplia possibilidades; não dissolve a sociedade dentro da qual será
usado. Ser chamado(a) de doutor(a) dura poucos segundos. Aprender a pesquisar
permanece.
É nesse
ponto que minha resposta se afasta da melancolia: compensa, sim, fazer
doutorado no Brasil, desde que compensação não seja confundida com garantia
mercantil. O doutorado pode ser uma emancipação intelectual de rara
intensidade. Não porque torne alguém superior, mas porque ensina a desconfiar
do óbvio, investigar causas, suportar a demora de uma pergunta difícil,
distinguir prova de opinião e reconhecer a própria ignorância sem vergonha.
Uma boa
formação científica altera a relação com o tempo. Em vez da resposta
instantânea, pede investigação. Em vez da certeza vendável, exige demonstração.
Em vez de repetir o mundo recebido, convida a interrogá-lo. A pessoa aprende
que nenhum problema social nasce isolado, que biografias carregam história e
que uma dor privada pode revelar uma falha pública.
O
diploma registra uma conclusão administrativa; a formação continua agindo na
maneira de ler notícias, ensinar, votar, escrever, ouvir e comparar fontes. Há
algo libertador em descobrir que o mundo social não é uma fatalidade natural.
Salários, instituições, escolas e formas de trabalho foram construídos
historicamente e podem ser modificados por ação coletiva.
A
iniciação científica costuma ser a primeira abertura dessa porta. Muitos(as)
ex-alunos(as) que passaram por faculdades privadas contam que concluíram a
graduação sem ouvir a expressão “iniciação científica”. Foram conduzidos(as)
desde o primeiro semestre pela corrida “trabalho, emprego e renda”, fórmula
compreensível num país desigual. Estudar aparecia como meio para conseguir
vaga; pesquisar parecia luxo distante. Ao conhecerem uma universidade pública
ou um grupo de pesquisa, descobriram que também podiam produzir conhecimento e
participar de uma comunidade intelectual.
Alguns(as)
estudantes chegam conhecendo projetos, bolsas e grupos. Outros(as) acreditam
que ciência pertence a pessoas extraordinárias de jaleco ou a sobrenomes
consagrados. Iniciação científica, mestrado e doutorado podem romper essa
herança desigual ao dizer a alguém: sua pergunta também merece método, leitura,
tempo e interlocução.
Ser
doutor(a) não equivale a acumular um prefixo diante do nome. Significa
conquistar instrumentos para compreender com maior profundidade um fragmento da
realidade e devolvê-lo à vida coletiva. Uma tese sobre alfabetização pode
melhorar práticas escolares. Uma pesquisa sobre doenças pode orientar
tratamentos. Um estudo sobre moradia pode auxiliar políticas urbanas. Uma
investigação histórica pode proteger a memória contra falsificações. Toda
sociedade livre precisa preservar pessoas dedicadas a perguntar antes de
obedecer.
Minha
conhecida ainda vende produtos na loja. O caixa e as prateleiras não apagam a
pesquisadora. Isso não justifica sua precariedade. Serve para lembrar que o
conhecimento incorporado não desaparece quando o cargo tarda. O trabalho
temporário paga o presente; a formação continua abrindo futuros possíveis.
Esperança,
aqui, não é pensamento mágico. É consciência das condições concretas somada à
decisão de agir sobre elas. Conhecimento financiado coletivamente pede
destinação coletiva. Governos, universidades, fundações, empresas e sociedade
civil precisam criar caminhos para que pesquisas retornem à população em forma
de ensino, tecnologia, cultura, saúde, memória e capacidade crítica. O problema
não está em o doutorado oferecer mais do que emprego. Está em o país aproveitar
menos do que essa formação pode oferecer.
Afinal,
doutorado para quê? Para obter um título, disputar um cargo e ampliar a renda,
certamente. Mas também para aprender a formular perguntas melhores, rejeitar
respostas fáceis, produzir conhecimento público e participar da construção
intelectual de um país. Nenhuma dessas finalidades paga contas sozinha, e seria
injusto pedir que pesquisadores(as) vivessem somente de vocação. Ainda assim,
reduzir o doutorado ao contracheque seria aceitar que tudo aquilo que não
produz retorno imediato perdeu valor.
A
questão consiste em construir uma sociedade na qual estudar profundamente um
problema não pareça um erro de vida. Para isso, precisamos recuperar a
capacidade de estranhar aquilo que a repetição transformou em costume.
Estranhamos uma doutora vendendo produtos para sobreviver, mas aceitamos que um
senador eleito permaneça durante semanas fora do país, atuando como
comentarista da Copa do Mundo, sem se licenciar do mandato e cumprindo parte
das atividades legislativas por via remota.
A
crítica não está no futebol nem no direito ao trabalho privado; concentra-se na
inversão de prioridades. Professores(as), pesquisadores(as), bolsistas e
servidores(as) precisam justificar ausências, entregar relatórios, cumprir
horários e demonstrar produtividade. Quando a função pública de um parlamentar
cabe nos intervalos de uma cobertura esportiva, revela-se uma indulgência
institucional que dificilmente seria concedida a quem leciona ou pesquisa.
Essa
tolerância ajuda a compreender por que educação e ciência ainda não ocupam o
centro do projeto político brasileiro. Existem parlamentares comprometidos(as)
com essas áreas, mas não há uma bancada da ciência ou da educação com força
comparável aos grupos associados às armas, às casas de apostas, às igrejas e ao
grande agro. Interesses econômicos chegam ao Congresso organizados, financiados
e acompanhados por equipes permanentes; pesquisadores(as), estudantes e
docentes chegam por meio de cartas abertas, audiências públicas, marchas e
pedidos de recomposição orçamentária.
É
diante dessa desigualdade concreta entre quem concentra força política e quem
produz conhecimento que a pergunta do título retorna como problema histórico:
compensa ser doutor(a) no Brasil? Compensa, porque a formação científica
oferece algo que nenhum mercado consegue medir por inteiro: capacidade de ler
criticamente a realidade, separar evidência de propaganda, formular perguntas
difíceis, produzir conhecimento público e compreender que problemas individuais
possuem causas históricas e sociais.
O
título não garante emprego, renda ou estabilidade, e romantizar essa incerteza
seria desonesto; ainda assim, aprender a pesquisar amplia a autonomia
intelectual, fortalece a participação pública e permite que escolas, hospitais,
governos, comunidades e instituições recebam contribuições construídas durante
anos de estudo.
Ser
doutor(a) não significa ocupar um lugar acima das outras pessoas, mas assumir
maior responsabilidade diante do mundo comum. Num país que necessita de
ciência, educação e pensamento crítico, essa escolha continua valendo porque
converte conhecimento em força social. Se o Brasil precisa de pessoas capazes
de compreender profundamente seus problemas, por que ainda hesita em criar
lugar para elas?
Fonte:
Por Everton Fargoni, em A Terra é Redonda

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