UEFA
se levanta contra o plano de corrupção do futebol de Trump e Infantino
A Uefa
emitiu um novo posicionamento oficial nesta quarta-feira (29) reforçando sua
firme oposição aos planos da Fifa de comercializar uma fatia dos direitos
econômicos da Copa do Mundo para investidores privados. Em tom contundente, a
entidade europeia declarou que a organização máxima do futebol mundial “não
pode usar nosso esporte para continuar enriquecendo a si própria e seus
aliados”, ressaltando que o objetivo central da modalidade deve ser o
desenvolvimento do esporte da “maneira correta”.
No
comunicado mais recente, a federação europeia expôs a insatisfação do meio
esportivo e criticou abertamente os métodos de pressão adotados pela entidade
global. “Hoje tomamos conhecimento do prazo estabelecido pela Fifa para que as
associações apoiem suas propostas ou tenham retirada a oferta de um pagamento
único. Isso diz tudo o que é preciso saber sobre esse plano”, revelou a Uefa.
A nota
acrescenta ainda a dimensão da rejeição à medida no cenário mundial: “Após
conversar com diversos envolvidos no futebol, a Uefa sabe que há uma oposição
significativa e crescente ao projeto da Fifa. A Fifa não pode continuar usando
o nosso esporte para enriquecer a si própria e aos seus aliados. Podemos
desenvolver o futebol da maneira correta. É hora de priorizar as associações,
os clubes, as ligas, os jogadores e os torcedores”, publicou a entidade.
A
escalada da crise ocorre após uma primeira manifestação da Uefa, divulgada na
terça-feira (28), na qual afirmou que o projeto “ultrapassa uma linha que as
instituições do futebol jamais deveriam cruzar”. Na ocasião, a federação
destacou que “a alma e a governança do futebol não são ativos para negociação.
Nenhum de nós é dono do futebol. Não cabe à Fifa vendê-lo”. A reação ganhou
ainda mais força nesta quarta-feira, quando a Federação Inglesa, a Concacaf
(América do Norte, Central e Caribe) e a Confederação Asiática de Futebol (AFC)
se juntaram publicamente à Uefa, aumentando consideravelmente a pressão
política sobre a gestão da Fifa.
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O projeto de US$ 20 bilhões e a presença de investidores americanos
O plano
da Fifa consiste na criação da FIFA Forward Enterprise (FFE), uma empresa
subsidiária que passará a administrar toda a gestão comercial de grandes
competições da entidade, como a Copa do Mundo, o Mundial de Clubes e os
torneios de base. A nova estrutura é avaliada com um valor de mercado estimado
em US$ 20 bilhões (cerca de R$ 102,6 bilhões). A intenção da gestão da Fifa é
vender até 20% dessa participação para agentes privados, buscando captar cerca
de US$ 4,2 bilhões (aproximadamente R$ 21,5 bilhões). Entre os potenciais
compradores interessados em fatias comerciais do torneio está um grupo de
investidores liderado por Joshua Kushner, CEO da firma de capital Thrive
Eternal e irmão de Jared Kushner, ex-conselheiro sênior e genro de Donald
Trump, presidente dos Estados Unidos. A Fifa esclareceu que Jared não integra o
grupo financeiro em questão. A estruturação do projeto conta ainda com o
assessoramento financeiro do banco JP Morgan e com a participação de Greg
Maffei, CEO da BANN Ventures e ex-presidente e CEO da Liberty Media, grupo
responsável pela Fórmula 1.
A
aproximação entre o presidente da Fifa, Gianni Infantino, e o entorno político
de Trump intensificou-se ao longo da Copa do Mundo de 2026, disputada nos
Estados Unidos, Canadá e México, período em que o cartola foi visto com
frequência ao lado do líder norte-americano. Reportagens indicam que o projeto
comercial também serve de pano de fundo para o futuro pessoal de Infantino:
favorito à reeleição em 2027, o dirigente poderá assumir o comando da nova
subsidiária ao encerrar seu mandato na presidência da Fifa, em 2031.
Para
sair do papel, a proposta precisa passar pelo crivo do Conselho da Fifa e obter
a aprovação da maioria das 211 associações-membro da entidade. O plano foi
apresentado por Infantino aos conselheiros na véspera da final da Copa do
Mundo, em Nova York. Tentando conter as objeções, a Fifa garantiu que a fatia
dos investidores privados será rigorosamente minoritária — entre 20% e 30% das
ações — e que manterá controle exclusivo sobre a FFE, preservando a
organização, o calendário internacional e todas as decisões regulatórias e
esportivas das competições.
• Fifa está indo longe demais com projeto
de 'vender a Copa do Mundo'?
Gianni
Infantino chama a ideia de democratização do futebol.
Mas o
anúncio da Fifa de que a entidade pretende buscar investimentos privados para
suas competições de futebol (incluindo a Copa do Mundo), por meio de associados
do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, foi recebido com incredulidade
e revolta pelos torcedores, políticos e organismos regionais.
O
grande atrativo, segundo Infantino, são os US$ 40 milhões (cerca de R$ 205
milhões) de financiamento a serem fornecidos para todos os países da Fifa para
"desenvolver o esporte", após a finalização do acordo.
Infantino
estabeleceu um prazo até 19 de setembro para que as federações nacionais de
futebol aceitem seu projeto, que dará acesso ao valor inicial de US$ 20 milhões
(cerca de R$ 102,5 milhões).
Esta é
a medida mais ousada do atual presidente da Fifa em uma década de mandato.
Infantino
é um administrador que se considera um líder mundial, no mesmo patamar de
presidentes e primeiros-ministros.
Se a
Fifa levar o projeto a cabo, ele terá consolidado seu poder a longo prazo e
enriquecido seus investidores no processo.
Mas por
que Infantino sente que seu poder é suficiente para tomar uma decisão tão
controversa? E quais seriam as suas consequências?
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Como Infantino pode implementar seu plano? E como ele pode ser derrubado?
Infantino
tem apoio suficiente para que o plano tenha boas probabilidades de seguir
adiante.
Desde
que foi eleito presidente da Fifa em 2016, ele conquistou apoio generalizado e
duradouro de muitos países da África, Ásia e do continente americano, que se
beneficiaram financeiramente de diversas políticas gerenciadas por ele.
Elas
incluem a ampliação da Copa do Mundo para 48 países, o crescimento da receita
comercial e de direitos de transmissão supervisionada pela Fifa e um programa
que aloca milhões de dólares diretamente para os países membros, todos os anos.
Estas
medidas concederam a ele uma base de apoio composta de mais da metade dos 211
países membros da Fifa.
As
votações na Fifa exigem maioria simples. Se mais da metade votar a favor, o
plano de Infantino será aprovado.
A
proposta será atraente para muitos países, principalmente aqueles mais abaixo
na cadeia alimentar do futebol. Para eles, um aporte de US$ 20 milhões seria
mais do que eles ganhariam normalmente ao longo de vários anos.
O nível
de apoio a Infantino parece ter fortalecido sua visão da presidência da
entidade.
Recentemente,
sua administração tomou decisões sem a votação dos seus membros, como a
padronização das pausas de hidratação e do show musical de meia hora na final
da Copa do Mundo. Elas seriam consideradas impensáveis quando Infantino assumiu
o cargo, uma década atrás.
E o
relacionamento próximo entre Trump e Infantino também é de fundamental
importância.
O fundo
de investimentos Thrive Capital, com quem a Fifa está negociando, é comandado
por Josh Kushner, cunhado da filha do presidente americano, Ivanka Trump.
A Fifa
afirma que Greg Maffei também atua como "importante consultor
comercial". Ele é ex-presidente da empresa Liberty Media, proprietária da
Fórmula 1, e doador para as campanhas políticas de Trump no passado.
A
proposta se segue a anos de declaradas tentativas de Infantino de aprofundar os
laços, seus e da Fifa, com Donald Trump.
Ele
criou um Prêmio da Paz e o concedeu a Trump. Ele abriu um escritório da Fifa na
Trump Tower, em Nova York.
Ele
permitiu que o troféu da Copa do Mundo de Clubes fosse mantido no Escritório
Oval, na Casa Branca. Ele riu durante o discurso de posse de Trump, no qual o
presidente ameaçou os coanfitriões da Copa do Mundo, Canadá e México.
E, na
semana passada, Infantino reproduziu precisamente a linguagem de Trump, ao
publicar uma declaração descrevendo aqueles que criticaram alguns aspectos da
organização da Copa do Mundo como tendo sido "consumidos pelo ódio e pelas
críticas".
Trabalhar
com associados de Trump no projeto permite a Infantino fazer uso do poder
gerado pelos laços que ele cultivou com a pessoa mais poderosa do mundo, com a
promessa de resultados benéficos para as duas partes.
A Fifa
manteve discussões sobre a possível busca de investimentos privados de forma
unilateral, gerando irritação entre os países e regiões que sentiram que tudo
foi feito pelas suas costas.
Existe
um elemento de risco significativo nesta proposta. Mas a possibilidade de
Infantino ser derrubado por ela é pequena, considerando o forte apoio que ele
detém em outras partes do mundo.
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Quais os benefícios para Infantino e os investidores?
Se a
proposta for aprovada, a Fifa receberá de imediato um enorme fluxo de dinheiro
e a parcela destinada às federações nacionais seria disponibilizada a partir de
1° de janeiro de 2027, segundo uma carta enviada por Infantino para cada país
membro da entidade.
"A
decisão de prosseguir ou não com esta proposta pertence inteiramente a
vocês", destacou ele. "Em troca, tudo o que é necessário é a sua
confiança. Todo o resto permanece igual."
O apelo
é claro: vote para ajudar a nos deixar mais ricos e também enriqueceremos você.
Mas
cada Copa do Mundo lucra muito mais que a anterior. O evento provavelmente irá
valer muito mais daqui a quatro anos — e quatro anos depois do próximo torneio.
Se a
Fifa vender as participações agora, os investidores privados irão se beneficiar
desse crescimento nos próximos anos, não apenas a Fifa e o futebol.
Em
última análise, a Fifa é uma organização sem fins lucrativos, segundo a
legislação suíça. Isso significa que, pelo menos teoricamente, seu principal
objetivo é manter o futebol a longo prazo, não gerar lucros.
Os
grandes vencedores do projeto, sem dúvida, seriam alguns dos menores países do
futebol, os investidores privados e Gianni Infantino.
"O
que sabemos até agora sobre como algumas federações nacionais gastam seu
dinheiro levanta muitas dúvidas se o dinheiro chega aos níveis de futebol
prometidos pela Fifa", afirma o ex-presidente do comitê de governança da
entidade, Miguel Maduro.
Ele
afirma ter se demitido do cargo após 10 meses, devido a discordâncias entre
Infantino e a liderança da Fifa como um todo sobre a forma de operação do
comitê.
"A
Fifa funciona como um cartel político", explica ele.
"Ela
é alimentada e sustentada por um sistema de apadrinhamento, que funciona por
meio do dinheiro que a Fifa distribui para as federações nacionais. Houve casos
de corrupção."
"A
probabilidade de aprovação desta proposta é muito grande", prossegue
Maduro.
"É
uma forma de propina legalizada."
A BBC
Sport entrou em contato com a Fifa, pedindo comentários sobre a avaliação de
Maduro, mas não obteve resposta.
Os
investimentos de capital privado já transformaram os esportes nos Estados
Unidos.
Regras
foram alteradas no baseball, basquete, futebol americano e hóquei sobre o gelo,
para permitir o aumento dos investimentos minoritários na última década. Com
isso, o valor das equipes disparou.
La Liga
e a Ligue 1 (os campeonatos de futebol espanhol e francês, respectivamente) já
venderam partes das suas operações para a empresa de capital privado CVC
Capital Partners, em troca de um pagamento imediato em dinheiro.
Infantino
segue uma tendência da economia esportiva, em vez de tentar algo totalmente
novo. Mas ele estará prestes a fortalecer ainda mais o seu próprio poder, se
for bem sucedido.
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O conflito entre Infantino e Ceferin
A
proposta de Infantino aprofundou seus conflitos já existentes com a entidade
europeia — a Uefa, a mais rica e poderosa associação regional de futebol do
planeta.
O
presidente da Uefa, Aleksander Ceferin, boicotou a final da Copa do Mundo, em
protesto contra a decisão da Fifa de eliminar a suspensão automática do
atacante americano Folarin Balogun após intervenção de Donald Trump.
O
incidente se seguiu a uma série de anúncios feitos pela Uefa, deixando claro
que não seguiria a política da Fifa sobre questões controversas, como os preços
dinâmicos dos ingressos e as pausas de hidratação.
Um dos
marcos da divisão entre Infantino e Ceferin é a Copa do Mundo de Clubes da
Fifa. Ampliada e reformulada, ela se tornou uma ameaça clara e direta à Uefa
Champions League.
Até
então, a Uefa era a única organização que promovia uma competição internacional
de clubes de futebol com os melhores jogadores do mundo, que é acompanhada por
bilhões de pessoas em todo o mundo e gera lucros significativos.
No ano
passado, a Fifa fortaleceu sua presença no território dos clubes de elite,
acrescentando equipes de outros continentes à competição.
Algumas
federações nacionais expressaram sua irritação por só terem tomado conhecimento
dos planos da Fifa quando eles foram anunciados para o público.
Mas,
fundamentalmente, muitas das declarações emitidas até agora não condenaram
explicitamente o conceito de busca de investimentos privados em si.
Dito
isso, a BBC Sport apurou que muitos membros da Uefa ficaram irritados com o
projeto e que deve ser realizada uma reunião para discutir uma resposta.
Na
terça-feira (28/7), a Uefa declarou que o plano da Fifa é "usar o nosso
esporte para enriquecer, a eles e aos seus amigos".
Alguns
relatos indicam uma possível ameaça de boicote à Copa do Mundo pelos países
europeus. Teoricamente, uma Copa do Mundo sem a participação de seleções
europeias comprometeria gravemente o valor do torneio para a Fifa.
Mas as
possibilidades de que isso aconteça são discutíveis. A Europa abriga dois dos
principais países-sede da próxima Copa do Mundo, em 2030.
Espanha
e Portugal detêm a maior parte dos jogos, ao lado do Marrocos. E a Espanha vem
trabalhando arduamente para conquistar o direito de receber a final no lugar da
nação africana.
Existe
também uma Copa do Mundo Feminina a ser realizada no Brasil no ano que vem. Ela
poderia ser objeto de eventuais ações iniciais, caso a Uefa realmente queira
tomar uma medida séria a este respeito.
A
entidade europeia poderia também encontrar e inscrever um candidato para
concorrer com Infantino na eleição para presidente da Fifa em 2026. Mas, como
as nações da Uefa totalizam apenas 55 votos, uma vitória na votação seria
improvável.
Se
Ceferin e outros líderes europeus quiserem realmente combater o projeto de
Infantino ao máximo possível, eles devem se dispor a tomar medidas importantes,
de alguma espécie, com muita rapidez.
No
momento, Infantino está mais fortalecido do que nunca.
Fonte:
Brasil 247

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