Por
que a Guerra do Paraguai está no centro de nova crise diplomática e a versão
daqueles a contestam
A Guerra do Paraguai, o
maior e mais sangrento conflito armado da história da América
Latina, voltou ao centro de uma disputa diplomática entre Brasil
e Paraguai nesta
semana.
A crise
foi desencadeada após o presidente Luiz Inácio
Lula da Silva (PT) afirmar, na última sexta-feira (24/7), que
"um belo dia o Paraguai resolveu invadir o Brasil".
A fala
ocorreu durante um evento no interior de São Paulo, em que o presidente fala
sobre a importância de investimentos na indústria de defesa brasileira.
"A
gente gosta de paz, mas a gente não pode se esquecer que um belo dia o Paraguai
resolveu invadir o Brasil. Invadiu Corumbá, ao mesmo tempo invadiu o Uruguai,
invadiu a Argentina. E aquela guerra que parecia que era nada durou cinco
anos", disse Lula.
A
declaração foi interpretada por autoridades paraguaias como uma simplificação
das causas do conflito e provocou reações imediatas no país vizinho.
Nesta
quinta-feira (30/7), o governo do presidente Santiago Peña convocou o
embaixador brasileiro em Assunção, José Antônio Marcondes de Carvalho, para
prestar esclarecimentos sobre o episódio.
O
Congresso paraguaio também aprovou manifestações de repúdio às declarações do
presidente brasileiro.
A
repercussão reacendeu um debate histórico que, mais de 160 anos após o fim da
guerra, continua sensível no Paraguai e cercado de interpretações divergentes
sobre as origens e a condução do conflito — muitas delas em desacordo com a
versão que, por décadas, foi ensinada nas escolas.
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Guerra de versões
A
Guerra do Paraguai durou de dezembro de 1864 a março de 1870. De um lado estava
a pequena República do Paraguai, com cerca de 400 mil habitantes. De outro, a
Tríplice Aliança formada por Brasil, Argentina e Uruguai — juntos, somavam
pouco mais de 11 milhões de habitantes.
O
resultado foi arrasador. Calcula-se que a população paraguaia tenha se reduzido
para menos de 190 mil pessoas. "90% dos homens morreram", afirma o
historiador Francisco Doratioto, professor aposentado da Universidade de
Brasília (UnB).
"Do
sexo masculino, sobraram apenas idosos e crianças."
Mas ao
longo de pelo menos duas décadas, a maior parte dos estudantes brasileiros
aprendeu uma história errada sobre o conflito.
A
versão mais contada pelos professores de História era aquela popularizada pelos
ideólogos de esquerda que faziam oposição ao regime militar que comandou o
Brasil durante a ditadura, de 1964 a 1985.
Com
foco em uma aversão ao imperialismo estrangeiro e qualquer interferência das
grandes potências nos destinos sul-americanos, vendia-se a narrativa de que o
conflito do século 19 havia sido causado, financiado e indiretamente
capitaneado pela Grã-Bretanha.
Nessa
história, o Paraguai ascendia
como um país que caminhava para ser considerado desenvolvido, com
industrialização, justiça social e uma produção de riquezas sem igual, de forma
independente, configurando assim uma exceção naquele contexto de novos países
americanos que estavam conseguindo autonomia frente aos colonizadores a preço
de uma dependência econômica de nações ricas.
Vendo-se
ameaçados por aquele paisinho que se tornaria um concorrente de sua influência,
sobretudo no Brasil e na Argentina, os ingleses despejaram dinheiro e reforços
bélicos. O resultado: um massacre que teria condenado ao
Paraguai à pobreza e ao subdesenvolvimento. Fim do sonho
sul-americano.
Doratioto,
contudo, questiona essa versão. "Onde está qualquer documento que prove
que foi a Inglaterra? Não existe um documento oficial, não existe nada que
mostre que o governo inglês tinha interesse em fazer uma guerra na
região", disse em entrevista concedida à BBC News Brasil em dezembro de
2024.
A visão
contemporânea que se tem do conflito, deflagrado oficialmente com a declaração de guerra do Paraguai ao
Brasil em 13 de dezembro de 1864, véspera da invasão das forças do
país vizinho à então província do Mato Grosso, é aquela que foi construída por
historiadores como o próprio Doratioto depois de minuciosa pesquisa em
documentos históricos paraguaios, brasileiros, argentinos, uruguaios e
ingleses.
Em
2002, o historiador lançou seu mais conhecido livro: Maldita Guerra:
Nova História da Guerra do Paraguai, consolidando-se como autoridade no
tema. Outros estudiosos que foram reconhecidos pela reescrita da história dessa
guerra foram os historiadores Ricardo Salles (1950-2021) e, de forma pioneira,
Moniz Bandeira (1935-2017).
Segundo
Doratioto, a versão outrora ensinada no Brasil acabou se tornando a mais
conhecida e difundida no país, sobretudo por conta da ditadura militar. E seu
registro mais popular foi o livro Genocídio Americano: A Guerra do
Paraguai, publicado em 1979, de autoria do jornalista Júlio José
Chiavenato.
"Ele
não é historiador e comete erros de metodologia que qualquer aluno de graduação
[se o fizesse] não seria aprovado na matéria", aponta Doratioto.
"Mas
tem o grande mérito de reviver o tema que estava abandonado pelos historiadores
e por militares que vinham com uma visão ufanista e oficial da guerra."
Nessa
obra, nota-se que o autor tenta passar sua indignação pelas crueldades
cometidas pela guerra. "Ele vai pelos corações e ganha pela emoção",
analisa Doratioto. "Na época, ao ler aquilo, eu achei correto."
Tanto
que o historiador foi um dentre a imensa maioria de sua geração que contava
essa versão nas salas de aula, quando professor de colégios em São Paulo.
"Eu
ensinei isso", admite. "Lembro-me que tinha um aluno brilhante que,
no final de uma aula, me perguntou: mas, professor, se a Inglaterra queria
acesso ao mercado paraguaio e fez a guerra para ter esse acesso, qual era a
lógica de destruir esse mercado?"
O
revisionismo que trouxe à tona essa narrativa, na época, tinha um foco:
desmoralizar os militares que autoritariamente chefiavam o país, segundo o
historiador. E, de quebra, criticar a influência imperialista de forças
estrangeiras.
"No
momento histórico em que aquilo foi escrito, em pleno regime militar, os
setores democráticos da sociedade tinham perdido o espaço", contextualiza.
"De
repente apareceu um livro que dizia que o Caxias, que é o patrono do Exército
brasileiro, tinha feito praticamente crimes de guerra, mandando jogar cadáveres
coléricos no rio Paraguai para contaminar tropas paraguaias", comenta
Doratioto. "O livro desmoralizava os ícones do regime militar. Dava à
guerra ideológica uma vantagem contra o regime militar."
Nesse
exemplo trazido pelo historiador, a narrativa é de que o marechal Luís Alves de
Lima e Silva (1803-1880), o Duque de Caxias, que comandava as tropas
brasileiras no Paraguai, teria determinado que os corpos daqueles que haviam
morrido por uma epidemia de cólera que matou 4 mil de seus soldados fossem
jogados no rio Paraguai, nos arredores de Humaitá, para que contaminassem os
soldados paraguaios entrincheirados a quilômetros ali em uma guerra biológica.
Mas
Doratioto aponta contradições: a primeira, de cunho geográfico. O sentido em
que corre o rio é contrário ao que faria sentido nessa narrativa. "Os
cadáveres nadaram contra a corrente? Isto é absurdo", provoca o
historiador.
O outro
é o fato de que os militares tinham o costume de queimar ou enterrar os que
morriam durante as campanhas. "Como era uma região pantanosa, a água do
rio acabou contaminada. E isso provocou a epidemia que matou ainda mais
soldados brasileiros", explica ele.
Em
carta destinada à mulher, Caxias lamentou que havia perdido "um
exército" antes mesmo de entrar em combate, já que quase 4 mil soldados
brasileiros morreram de cólera no episódio.
Outro
problema da narrativa difundida por Chiavenato foi pintar o Paraguai como um
país em outro patamar de desenvolvimento, com industrialização avançada,
ferrovias e uma sociedade baseada na justiça social.
"Indústria
pesada no Paraguai em 1864? Praticamente não existia. Tinha uma fundição.
Protossocialismo? Como protossocialismo? Era uma estrutura de exploração do
camponês que colhia erva-mate e mesmo pela lógica marxista havia uma, entre
aspas, mais-valia apropriada pelo Estado paraguaio do camponês",
exemplifica.
Para
Doratioto, a ideia de mirar no imperialismo inglês e vilanizá-lo pelas
crueldades da guerra também encontra justificativa no cenário da ditadura.
A
esquerda ideológica brasileira tinha como inimigo o imperialismo
norte-americano, pois os Estados Unidos apoiaram o golpe de 1964 e os governos
militares da região. Assim, mudava-se o protagonista, mas havia uma mesma
semântica para configurar o "inimigo".
Se essa
versão revisionista da história se tornou popular no Brasil por conta da
esquerda, o curioso é que na Argentina ela se consolidou pela direita.
"[No
país vizinho, essa narrativa] É basicamente o pensamento autoritário da direita
xenófoba que vem desde as década de 1920 e 1930, um pensamento que se constrói
contra os ingleses, contra o imperialismo inglês", afirma. "E no
Brasil ele é reciclado frente a um sentimento anti-Estados Unidos."
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Por que a guerra?
Desde a
sua independência, em 1811, o Paraguai vivia uma situação atípica. Encurralado
e sem acesso ao mar, tinha dificuldade para escoar internacionalmente seus
produtos — erva-mate e madeira, basicamente.
No
centro do continente e sem oferecer as riquezas que eram importantes no mundo
colonial, ou seja, metais preciosos, o Paraguai já havia experimentado um certo
isolamento durante o domínio espanhol. Isso impactou na formação de sua
sociedade.
"Era
e ainda é a única sociedade na América do Sul bilíngue, com a cultura guarani
entranhada na cultura do colonizador", exemplifica Doratioto.
Além
disso, a população feminina era maior do que a masculina. Isso se dava
justamente porque, com a falta de ouro e prata, o território acabou se tornando
ponto de passagem para o contrabando — as mulheres se fixavam, mas os homens
iam e vinham.
Com a
independência das antigas colônias hispânicas, a elite de Buenos Aires
"tentou se tornar um centro de poder", explica o historiador.
"Eles buscavam manter subordinadas a ela todas as províncias do antigo
Vice-reino do Rio da Prata, ou seja, Uruguai, Bolívia e Paraguai", diz
ele.
O
Paraguai se recusou e acabou sozinho.
No
comando do país estava o ditador Gaspar de Francia (1766-1840). "Ele
estabeleceu uma ditadura impressionante, quase surrealista", analisa
Doratioto. "Para se ter uma ideia, ele rompeu com Roma e estabeleceu uma
Igreja Católica própria. E proibiu casamento interculturais, prendeu parte da
elite…"
O
isolamento sul-americano só fortaleceu seu regime, pois acabava justificando a
necessidade de seu poder autoritário e centralizado.
Seu
sucessor foi Carlos Antonio López (1790-1862) que, segundo Doratioto,
"tinha uma visão muito clara da situação" complicada que enfrentava o
país. "Ele tenta abrir o Paraguai, controladamente", comenta.
Nesse
processo, ganhou o apoio do Império Brasileiro. Que também tinha seus
interesses: não queria que a Argentina fosse tão poderosa, no xadrez
geopolítico que se desenhava na América do Sul.
López
decidiu criar uma elite preparada em seu país. Financiou o envio de duas
dezenas de jovens para estudar na Europa, contratou uma empresa inglesa para
representar os interesses paraguaios junto às grandes potências e começava a
investir em material bélico. Ele também contratou técnicos ingleses para fazer
obras pontuais de infraestrutura em seu território.
"Mas
o Paraguai era um país agrícola, não tinha escolas em nível superior, tinha
apenas uma fundição de ferro e uma pequena ferrovia que ligava Assunção a um
acampamento militar e que foi a terceira da América Latina", aponta.
A
modernização experimentada pelo Paraguai, segundo o historiador, tinha
finalidades apenas militares, de defesa. Não visava a uma sociedade igualitária
ou à justiça social.
Com sua
morte, a presidência foi assumida pelo filho, Francisco Solano López
(1827-1870). Que, menos pragmático do que o pai, acabou sendo o autor da
declaração de guerra que tornaria o conflito entre os países sul-americanos
inevitável.
De
acordo com o historiador Moniz Bandeira, a motivação do conflito foi de
natureza econômica. Naquela década de 1860, o isolado Paraguai estava sem caixa
para continuar o tímido porém calculado projeto de modernização empreendido por
López pai.
"Para
aumentar as exportações, o Paraguai precisava achar uma saída para o mar",
resume Doratioto. O historiador, contudo, comenta que mesmo se esse acesso
fosse possível o país teria dificuldades. "Era um pequeno país de
agricultura de técnicas medievais. E nenhum agricultor [paraguaio] tinha
interesse em produzir mais para a exportação. Eram agricultores de
subsistência, em um nível muito baixo."
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O investimento inglês
Um dos
achados de Doratioto que indicam que a Grã-Bretanha não queria uma guerra na
América do Sul é uma carta do diplomata Edward Thornton, então o embaixador
britânico na Argentina e no Paraguai — baseado em Buenos Aires, já que Assunção
não contava com este posto.
Dirigindo-se
ao chanceler paraguaio José Berges, o inglês escreveu que "a Inglaterra
também está em atritos com o Brasil" e que "particularmente sim, se
puder servir, no mínimo que seja, para contribuir para a reconciliação dos dois
países [Paraguai e Brasil], espero que Vossa Excelência não hesite em me
utilizar".
A carta
é datada de 7 de dezembro de 1864, cinco dias antes da declaração de guerra
emitida pelo governo paraguaio.
Um dos
principais pontos da historiografia revisionista é dizer que a prova do
interesse e do envolvimento inglês seria o fato de que houve financiamento da
potência europeia nas campanhas brasileira e argentina que acabariam dizimando
metade do Paraguai.
De
fato, esses empréstimos ocorreram. Mas Doratioto tem argumentos para
contextualizar esse fato. "A lógica do capital não tem nacionalidade nem
patriotismo. O capital está em busca de remuneração e garantia", pontua.
"Banqueiros ingleses emprestaram para o Brasil e para a Argentina, claro.
Vão emprestar para o Paraguai, um país isolado no interior do continente, sem
acesso ao mercado externo, sem ouro e fazendo guerra contra três países por
iniciativa própria?"
Ele
ainda lembra que esse financiamento inglês nem foi tão representativo como se
imagina para o lado brasileiro da guerra. Segundo o historiador, cerca de 12%
das despesas de guerra do Brasil foram bancadas com empréstimos estrangeiros,
apenas.
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Violência militar
Sobre
as atrocidades da guerra cometidas por Duque de Caxias e suas tropas, Doratioto
concorda que elas foram ressaltadas para manchar a imagem do patrono do
Exército no contexto da ditadura. Mas ele as confirma.
Em seu
livro, por exemplo, o historiador conta que os combatentes brasileiros chegaram
a matar crianças que se passavam por soldados nas trincheiras paraguaias.
"Guerra
é sempre uma selvageria. As acusações contra o Caxias fazem parte de uma
dialética da guerras: todos os chefes militares em combate deram ordem para
matar, até a Segunda Guerra vencia uma guerra quem matava mais",
argumenta.
Doratioto
avalia que a figura histórica do Duque de Caxias "até hoje não foi
suficientemente explorada pelos historiadores". E entende que
"desmoralizá-lo", na época da ditadura, "era desmoralizar o
regime militar".
Fonte:BBC News Brasil

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