Especialistas
explicam o que significa para a América Latina o conflito entre Argentina e
Brasil
O
conflito, desencadeado por insultos proferidos pelo presidente argentino Javier
Milei contra seu homólogo Luiz Inácio Lula da Silva, "abre caminho para a
fragmentação de mecanismos de integração como o Mercosul e a CELAC, reforçando
a influência de atores externos", alertaram especialistas à Sputnik.
A
escalada das tensões diplomáticas entre Buenos Aires e Brasília soou o alarme
em toda a América Latina. Além da questão sobre qual será a reação formal do
Itamaraty, que convocou seu embaixador Julio Bitelli para consultas e deve se
pronunciar nas próximas horas, especialistas disseram à Sputnik que esse
incidente não apenas prejudica a relação bilateral entre dois países vizinhos e
parceiros comerciais, como também enfraquece categoricamente a soberania
estratégica do continente, beneficiando diretamente os Estados Unidos.
A crise
eclodiu durante o lançamento da campanha presidencial do senador Flávio
Bolsonaro (PL-RJ) em São Paulo, quando Milei, convidado de honra do evento que
já havia criticado o atual governo brasileiro, referiu-se a Lula, sem
mencioná-lo nominalmente, chamando-o de "ladrão" e
"presidiário". Ele também criticou duramente governos de esquerda na
região, incluindo o do Partido dos Trabalhadores (PT), pedindo um "fim ao
lixo socialista" nas próximas eleições gerais.
A
reação brasileira foi imediata. Além de convocar seu principal representante
diplomático na Argentina (uma medida anterior à retirada do embaixador),
diversos membros do governo responderam com veemência às declarações de Milei,
incluindo o vice-presidente Geraldo Alckmin, que afirmou que as declarações
eram prejudiciais à Argentina, algo que ele considerou "lamentável",
visto que ambos os países são membros do Mercosul.
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Quadro multilateral em risco
Para
José Luis Romano, especialista em relações internacionais e graduado pela
Universidade da República do Uruguai (Udelar), a referência de Alckmin à
dimensão intergovernamental do episódio revela que a principal vítima dessa
disputa não é a Casa Rosada (Palácio Presidencial argentino) ou o governo Lula,
mas sim o quadro multilateral que protegeu e fortaleceu a região por décadas,
como o especialista declarou à Sputnik.
"Há
vários anos, coincidindo com a vitória de diversos presidentes alinhados a
Washington, tanto a Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos
[CELAC] quanto a União de Nações Sul-Americanas [UNASUL] sofrem de uma clara
paralisia operacional, e esse confronto entre Argentina e Brasil ameaça
enfraquecer também o Mercosul", afirmou o especialista, que acrescentou
que o enfraquecimento desses fóruns de integração é um "objetivo histórico
dos EUA", que nos últimos meses apresentaram sua própria iniciativa, o
Escudo das Américas, destinada a subordinar a agenda regional aos interesses
estadunidenses.
O
especialista afirmou que, embora a falta de afinidade entre Milei e Lula seja
notória (o brasileiro nunca escondeu sua simpatia pelo kirchnerismo, atualmente
na oposição, enquanto o argentino é um admirador declarado do ex-presidente
Jair Bolsonaro, a quem tentou visitar sem sucesso em sua última viagem ao
Brasil), a relação institucional deve prevalecer sobre as diferenças
ideológicas.
"O
alinhamento estratégico entre Argentina e Brasil, as duas principais economias
do Cone Sul, sempre serviu como um baluarte contra as tentativas hegemônicas de
Washington, e um esfriamento dessa relação implicaria muito mais do que
manchetes ou disputas na mídia: representa uma ruptura no diálogo em alto
nível, a eliminação de posições compartilhadas e canais técnicos de integração.
A longo prazo, isso torna a região muito mais vulnerável e só beneficia os EUA,
em um momento em que a defesa da soberania é mais necessária do que
nunca", afirma Romano.
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Um ataque para apaziguar Washington?
Para o
dr. Oliver Santin Peña, professor de Relações Internacionais da Universidade
Nacional Autônoma do México (UNAM), esse confronto não é simplesmente um duelo
entre duas personalidades antagônicas, mas sim uma resposta às necessidades
políticas internas de ambos os líderes, mesmo que o instigador tenha sido o
chefe de Estado argentino.
"Milei
usa a figura de Lula como um emblema estatista para justificar o custo social
de suas políticas de austeridade, enquanto Lula aproveita esse ataque desse
ícone da direita para unir o progressismo brasileiro na corrida para as
eleições de outubro", disse o especialista à Sputnik.
No
entanto, Santin Peña acredita que as declarações do presidente argentino
decorrem de sua necessidade de apaziguar constantemente seu homólogo
norte-americano, bem como seu círculo íntimo, e estão longe de ser um mero
desabafo. "Milei sabe muito bem que entrar em conflito com o Brasil,
buscando enfraquecer Lula e permitindo a chegada do filho de alguém que Trump
chamou de grande amigo, é algo que a Casa Branca apreciará", afirmou.
Nesse
sentido, o analista alerta que o enfraquecimento da cooperação bilateral entre
Brasil e Argentina abre caminho para que países como os Estados Unidos — e
também outros, como Israel — assumam um papel central na região, afastando-se
da estratégia de integração multilateral promovida em fóruns como o BRICS, que
buscam fortalecer o Sul Global. "É preocupante", conclui.
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Chanceler argentino descarta rompimento de relações com Brasil após desgaste
entre governos
Apesar
da crise diplomática entre Brasil e Argentina, elevada após ataques do
presidente argentino Javier Milei ao governo brasileiro, Pablo Quirino,
ministro das Relações Exteriores da Argentina, afirmou que Buenos Aires não
pretende romper com Brasília.
Em
entrevista realizada nesta quarta-feira (29) à rádio argentina Mitre, descartou
o rompimento após a crise diplomática. Segundo ele, as declarações de Milei
refletem a diferença ideológica entre os dois países e isso não seria levado
para o campo institucional.
"Temos
que enquadrar esse último episódio em uma série de acontecimentos que vêm
ocorrendo entre Brasil e Argentina por diferenças políticas e ideológicas que o
presidente Milei tem com o presidente Lula. Nós vemos o mundo de uma maneira
totalmente diferente", disse.
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Embaixador brasileiro ficará no Brasil
Segundo
apurou o G1, após uma reunião com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva no
Ministério das Relações Exteriores, foi decidido manter o embaixador do Brasil
na Argentina, Julio Bitelli, no país por um tempo indeterminado. Na agenda do
chanceler Mauro Vieira, a reunião consta com a participação da secretária de
América Latina e Caribe, Gisela Maria Figueiredo Padovan.
A ideia
é estudar a reação argentina e prosseguir com seu retorno, ou recolhimento, a
partir disso. O ato é visto no mundo diplomático como um sinal de protesto e de
reavaliação das relações entre os Estados.
As
tensões se elevaram no fim de semana quando Milei insultou o presidente
brasileiro durante a convenção do PL, que oficializou a candidatura do senador
Flávio Bolsonaro (PL-RJ) à presidência da República para as eleições de 2026.
A
resposta do lado brasileiro foi imediata. Enquanto Lula, em tom irônico tenha
respondido "quem é esse cara?" ao ser questionado sobre as
declarações do líder argentino, o ministro da Fazenda, Dario Durigan, chamou
Javier Milei de "palhaço".
Durante
a entrevista à rádio argentina, Quirino ainda reiterou o apoio do governo da
Argentina ao candidato Flávio Bolsonaro.
Mesmo
com as diferenças políticas e as quedas nas transações comerciais registradas
recentemente, o Brasil segue sendo o principal parceiro comercial da Argentina.
• Lula chama Bolsonaro de 'homicida' e
Milei de 'coisa' ao selar chapa com Alckmin 'santista'
O PSB
referendou nesta quarta-feira (29) a indicação da candidatura do atual
vice-presidente, Geraldo Alckmin, para compor a chapa do presidente Luiz Inácio
Lula da Silva (PT), reeditando a composição que venceu as eleições de 2022. O
anúncio foi formalizado durante a convenção nacional da legenda, realizada em
Brasília. Com a decisão, o PSB se torna o segundo partido — depois do PDT — a
oficializar apoio à candidatura de Lula à reeleição.
O
evento expôs um contraste com o campo adversário: enquanto Lula e Alckmin
repetem a dobradinha vitoriosa há dois pleitos, o senador Flávio Bolsonaro
(PL-RJ) teve sua candidatura à Presidência oficializada na última convenção do
seu partido sem um nome definido para vice.
O
presidente Lula disse estar "feliz" pela aprovação do nome de Alckmin
na convenção. Na sequência, Lula devolveu a brincadeira do vice-presidente com
uma alfinetada nos rivais políticos: "Com o Alckmin, nunca vamos pensar se
vai ter um golpe no dia seguinte".
A
parceria entre Lula e Alckmin, reafirmada para mais um pleito, une dois nomes
que, em 2006, disputaram o segundo turno da eleição presidencial um contra o
outro.
Lula
também elogiou o comportamento do companheiro de chapa ao longo do mandato:
"O Alckmin é um homem de muita honestidade". O tom ameno, porém, deu
lugar a uma crítica dura ao ex-presidente Jair Bolsonaro: para Lula, o
"homicida" Bolsonaro é responsável por metade das mortes de Covid-19
no país.
"Não
há nenhuma razão, mesmo que só erremos daqui para frente, para que percamos
essas eleições.”
O
presidente do Brasil respondeu às provocações do presidente da Argentina,
Javier Milei, proferidas durante a convenção nacional do PL. Ao rebater o líder
vizinho, Lula condenou a "patacoada que fez aqui o Milei" e sinalizou
que não pretende alimentar o embate pessoal.
"Gosto
do povo argentino e não vou ficar trocando coisa com aquela coisa."
Ao
discursar na convenção, Alckmin dedicou parte de sua fala a rebater o discurso
de setores da extrema-direita, em um recado direto ao bolsonarismo.
"Há
não muito tempo atrás víamos os extremistas falarem em Deus, Pátria, Família e
Liberdade, mas não é possível usar o nome de Deus em vão para promover o ódio e
arquitetar o assassinato daqueles que o povo legitimamente elegeu. Pátria é
união, não é entreguismo, e não trabalhar de maneira servil fora do país.
Família é paixão. Não é possível falar em famílias quando se tem 700 mil
famílias devastadas pela Covid e pelo descaso. Não é possível falar em
liberdade querendo derrubar a democracia."
O
vice-presidente também questionou a legitimidade de candidaturas que não
reconhecem as regras do jogo democrático: "Quem não acredita na democracia
não devia nem disputar a eleição".
Alckmin
ainda fez um balanço da gestão, contrapondo o cenário atual ao herdado do
governo anterior: "O presidente Lula recebeu um governo que não tinha
dinheiro nem para pagar o Bolsa Família". E completou, ao avaliar os
resultados alcançados: "Onde a gente pensar, a gente vai ver que
avançamos".
Encerrando
o discurso em tom mais leve, Alckmin brincou com a rivalidade esportiva que o
separa do presidente, reafirmando a parceria na disputa eleitoral.
"Nós
não somos iguais, ele é corinthiano, eu sou santista. Conte conosco, presidente
Lula, nessa jornada."
No
palco, o presidente do PSB, João Campos, pré-candidato ao governo de
Pernambuco, projetou crescimento para a legenda no Congresso. Segundo ele, o
partido pretende dobrar o tamanho de sua bancada e garantiu que o PSB estará no
palanque do presidente Lula nos 27 estados do país.
Fonte:
Sputnik Brasil

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