sexta-feira, 31 de julho de 2026

Especialistas explicam o que significa para a América Latina o conflito entre Argentina e Brasil

O conflito, desencadeado por insultos proferidos pelo presidente argentino Javier Milei contra seu homólogo Luiz Inácio Lula da Silva, "abre caminho para a fragmentação de mecanismos de integração como o Mercosul e a CELAC, reforçando a influência de atores externos", alertaram especialistas à Sputnik.

A escalada das tensões diplomáticas entre Buenos Aires e Brasília soou o alarme em toda a América Latina. Além da questão sobre qual será a reação formal do Itamaraty, que convocou seu embaixador Julio Bitelli para consultas e deve se pronunciar nas próximas horas, especialistas disseram à Sputnik que esse incidente não apenas prejudica a relação bilateral entre dois países vizinhos e parceiros comerciais, como também enfraquece categoricamente a soberania estratégica do continente, beneficiando diretamente os Estados Unidos.

A crise eclodiu durante o lançamento da campanha presidencial do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) em São Paulo, quando Milei, convidado de honra do evento que já havia criticado o atual governo brasileiro, referiu-se a Lula, sem mencioná-lo nominalmente, chamando-o de "ladrão" e "presidiário". Ele também criticou duramente governos de esquerda na região, incluindo o do Partido dos Trabalhadores (PT), pedindo um "fim ao lixo socialista" nas próximas eleições gerais.

A reação brasileira foi imediata. Além de convocar seu principal representante diplomático na Argentina (uma medida anterior à retirada do embaixador), diversos membros do governo responderam com veemência às declarações de Milei, incluindo o vice-presidente Geraldo Alckmin, que afirmou que as declarações eram prejudiciais à Argentina, algo que ele considerou "lamentável", visto que ambos os países são membros do Mercosul.

<><> Quadro multilateral em risco

Para José Luis Romano, especialista em relações internacionais e graduado pela Universidade da República do Uruguai (Udelar), a referência de Alckmin à dimensão intergovernamental do episódio revela que a principal vítima dessa disputa não é a Casa Rosada (Palácio Presidencial argentino) ou o governo Lula, mas sim o quadro multilateral que protegeu e fortaleceu a região por décadas, como o especialista declarou à Sputnik.

"Há vários anos, coincidindo com a vitória de diversos presidentes alinhados a Washington, tanto a Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos [CELAC] quanto a União de Nações Sul-Americanas [UNASUL] sofrem de uma clara paralisia operacional, e esse confronto entre Argentina e Brasil ameaça enfraquecer também o Mercosul", afirmou o especialista, que acrescentou que o enfraquecimento desses fóruns de integração é um "objetivo histórico dos EUA", que nos últimos meses apresentaram sua própria iniciativa, o Escudo das Américas, destinada a subordinar a agenda regional aos interesses estadunidenses.

O especialista afirmou que, embora a falta de afinidade entre Milei e Lula seja notória (o brasileiro nunca escondeu sua simpatia pelo kirchnerismo, atualmente na oposição, enquanto o argentino é um admirador declarado do ex-presidente Jair Bolsonaro, a quem tentou visitar sem sucesso em sua última viagem ao Brasil), a relação institucional deve prevalecer sobre as diferenças ideológicas.

"O alinhamento estratégico entre Argentina e Brasil, as duas principais economias do Cone Sul, sempre serviu como um baluarte contra as tentativas hegemônicas de Washington, e um esfriamento dessa relação implicaria muito mais do que manchetes ou disputas na mídia: representa uma ruptura no diálogo em alto nível, a eliminação de posições compartilhadas e canais técnicos de integração. A longo prazo, isso torna a região muito mais vulnerável e só beneficia os EUA, em um momento em que a defesa da soberania é mais necessária do que nunca", afirma Romano.

<><> Um ataque para apaziguar Washington?

Para o dr. Oliver Santin Peña, professor de Relações Internacionais da Universidade Nacional Autônoma do México (UNAM), esse confronto não é simplesmente um duelo entre duas personalidades antagônicas, mas sim uma resposta às necessidades políticas internas de ambos os líderes, mesmo que o instigador tenha sido o chefe de Estado argentino.

"Milei usa a figura de Lula como um emblema estatista para justificar o custo social de suas políticas de austeridade, enquanto Lula aproveita esse ataque desse ícone da direita para unir o progressismo brasileiro na corrida para as eleições de outubro", disse o especialista à Sputnik.

No entanto, Santin Peña acredita que as declarações do presidente argentino decorrem de sua necessidade de apaziguar constantemente seu homólogo norte-americano, bem como seu círculo íntimo, e estão longe de ser um mero desabafo. "Milei sabe muito bem que entrar em conflito com o Brasil, buscando enfraquecer Lula e permitindo a chegada do filho de alguém que Trump chamou de grande amigo, é algo que a Casa Branca apreciará", afirmou.

Nesse sentido, o analista alerta que o enfraquecimento da cooperação bilateral entre Brasil e Argentina abre caminho para que países como os Estados Unidos — e também outros, como Israel — assumam um papel central na região, afastando-se da estratégia de integração multilateral promovida em fóruns como o BRICS, que buscam fortalecer o Sul Global. "É preocupante", conclui.

<><> Chanceler argentino descarta rompimento de relações com Brasil após desgaste entre governos

Apesar da crise diplomática entre Brasil e Argentina, elevada após ataques do presidente argentino Javier Milei ao governo brasileiro, Pablo Quirino, ministro das Relações Exteriores da Argentina, afirmou que Buenos Aires não pretende romper com Brasília.

Em entrevista realizada nesta quarta-feira (29) à rádio argentina Mitre, descartou o rompimento após a crise diplomática. Segundo ele, as declarações de Milei refletem a diferença ideológica entre os dois países e isso não seria levado para o campo institucional.

"Temos que enquadrar esse último episódio em uma série de acontecimentos que vêm ocorrendo entre Brasil e Argentina por diferenças políticas e ideológicas que o presidente Milei tem com o presidente Lula. Nós vemos o mundo de uma maneira totalmente diferente", disse.

<><> Embaixador brasileiro ficará no Brasil

Segundo apurou o G1, após uma reunião com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva no Ministério das Relações Exteriores, foi decidido manter o embaixador do Brasil na Argentina, Julio Bitelli, no país por um tempo indeterminado. Na agenda do chanceler Mauro Vieira, a reunião consta com a participação da secretária de América Latina e Caribe, Gisela Maria Figueiredo Padovan.

A ideia é estudar a reação argentina e prosseguir com seu retorno, ou recolhimento, a partir disso. O ato é visto no mundo diplomático como um sinal de protesto e de reavaliação das relações entre os Estados.

As tensões se elevaram no fim de semana quando Milei insultou o presidente brasileiro durante a convenção do PL, que oficializou a candidatura do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) à presidência da República para as eleições de 2026.

A resposta do lado brasileiro foi imediata. Enquanto Lula, em tom irônico tenha respondido "quem é esse cara?" ao ser questionado sobre as declarações do líder argentino, o ministro da Fazenda, Dario Durigan, chamou Javier Milei de "palhaço".

Durante a entrevista à rádio argentina, Quirino ainda reiterou o apoio do governo da Argentina ao candidato Flávio Bolsonaro.

Mesmo com as diferenças políticas e as quedas nas transações comerciais registradas recentemente, o Brasil segue sendo o principal parceiro comercial da Argentina.

•        Lula chama Bolsonaro de 'homicida' e Milei de 'coisa' ao selar chapa com Alckmin 'santista'

O PSB referendou nesta quarta-feira (29) a indicação da candidatura do atual vice-presidente, Geraldo Alckmin, para compor a chapa do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), reeditando a composição que venceu as eleições de 2022. O anúncio foi formalizado durante a convenção nacional da legenda, realizada em Brasília. Com a decisão, o PSB se torna o segundo partido — depois do PDT — a oficializar apoio à candidatura de Lula à reeleição.

O evento expôs um contraste com o campo adversário: enquanto Lula e Alckmin repetem a dobradinha vitoriosa há dois pleitos, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) teve sua candidatura à Presidência oficializada na última convenção do seu partido sem um nome definido para vice.

O presidente Lula disse estar "feliz" pela aprovação do nome de Alckmin na convenção. Na sequência, Lula devolveu a brincadeira do vice-presidente com uma alfinetada nos rivais políticos: "Com o Alckmin, nunca vamos pensar se vai ter um golpe no dia seguinte".

A parceria entre Lula e Alckmin, reafirmada para mais um pleito, une dois nomes que, em 2006, disputaram o segundo turno da eleição presidencial um contra o outro.

Lula também elogiou o comportamento do companheiro de chapa ao longo do mandato: "O Alckmin é um homem de muita honestidade". O tom ameno, porém, deu lugar a uma crítica dura ao ex-presidente Jair Bolsonaro: para Lula, o "homicida" Bolsonaro é responsável por metade das mortes de Covid-19 no país.

"Não há nenhuma razão, mesmo que só erremos daqui para frente, para que percamos essas eleições.”

O presidente do Brasil respondeu às provocações do presidente da Argentina, Javier Milei, proferidas durante a convenção nacional do PL. Ao rebater o líder vizinho, Lula condenou a "patacoada que fez aqui o Milei" e sinalizou que não pretende alimentar o embate pessoal.

"Gosto do povo argentino e não vou ficar trocando coisa com aquela coisa."

Ao discursar na convenção, Alckmin dedicou parte de sua fala a rebater o discurso de setores da extrema-direita, em um recado direto ao bolsonarismo.

"Há não muito tempo atrás víamos os extremistas falarem em Deus, Pátria, Família e Liberdade, mas não é possível usar o nome de Deus em vão para promover o ódio e arquitetar o assassinato daqueles que o povo legitimamente elegeu. Pátria é união, não é entreguismo, e não trabalhar de maneira servil fora do país. Família é paixão. Não é possível falar em famílias quando se tem 700 mil famílias devastadas pela Covid e pelo descaso. Não é possível falar em liberdade querendo derrubar a democracia."

O vice-presidente também questionou a legitimidade de candidaturas que não reconhecem as regras do jogo democrático: "Quem não acredita na democracia não devia nem disputar a eleição".

Alckmin ainda fez um balanço da gestão, contrapondo o cenário atual ao herdado do governo anterior: "O presidente Lula recebeu um governo que não tinha dinheiro nem para pagar o Bolsa Família". E completou, ao avaliar os resultados alcançados: "Onde a gente pensar, a gente vai ver que avançamos".

Encerrando o discurso em tom mais leve, Alckmin brincou com a rivalidade esportiva que o separa do presidente, reafirmando a parceria na disputa eleitoral.

"Nós não somos iguais, ele é corinthiano, eu sou santista. Conte conosco, presidente Lula, nessa jornada."

No palco, o presidente do PSB, João Campos, pré-candidato ao governo de Pernambuco, projetou crescimento para a legenda no Congresso. Segundo ele, o partido pretende dobrar o tamanho de sua bancada e garantiu que o PSB estará no palanque do presidente Lula nos 27 estados do país.

 

Fonte: Sputnik Brasil

 

 

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