Lavanda,
hibisco e outras flores comestíveis que podem ser encontradas no seu jardim
"Desprenda
com muito cuidado as pétalas de rosas, procurando não espetar os dedos, pois,
além de isso ser muito doloroso, as pétalas podem ficar impregnadas de sangue,
o que, além de alterar o sabor do prato, pode provocar reações químicas muito
perigosas..."
Assim
começava a receita mais memorável do delicioso romance Como Água para
Chocolate, de Laura Esquivel (Ed. Martins Fontes, 2015). Sua protagonista Tita
impregna os alimentos que ela cozinha com seus sentimentos.
Para
preparar codornas com pétalas de rosas, ela embebeu o prato com sua paixão, mas
também com o aroma e o sabor de uma flor que, por séculos, serviu de deleite
para culturas gastronômicas milenares, como a persa, além de oferecer
discretamente uma dose de vitamina C e antioxidantes.
Mas a
rosa não é a única flor que oferece, ao mesmo tempo, beleza e sabor.
A flor
de laranjeira perfuma o tradicional Pão dos Mortos no México, além da Rosca de
Reis da Espanha e de vários países do Cone Sul. Ela também tem uma longa
história culinária.
Já a
lavanda era popular entre os antigos romanos e muito usada na Inglaterra
vitoriana no preparo de chás e biscoitos. Ela e a flor de laranjeira têm mais
uma virtude: nos ajudam a relaxar.
E,
quando o assunto é tradição, a flor de abóbora, nativa da América Central e do
sul do México, é excepcional.
Registros
arqueológicos demonstram que a planta foi domesticada há mais de 10 mil anos,
tendo sido uma das primeiras a serem cultivadas em todo o continente americano.
Os
povos originários da América já a consumiam e, após a chegada dos espanhóis,
seu cultivo se expandiu pelo mundo.
A flor
de abóbora se integrou tão profundamente na Europa que, hoje em dia, é um
ingrediente tradicional da cozinha italiana, onde é recheada e frita.
Como se
pode ver, o consumo de flores não é nada novo. E, embora elas possam passar
despercebidas, nós as consumimos com mais frequência do que imaginamos.
Na
botânica, muitas verduras e especiarias cotidianas não são folhas nem raízes,
mas sim inflorescências (conjuntos de flores) ou botões, que são colhidos pouco
antes de abrirem.
O
brócolis e a couve-flor, por exemplo, são enormes ramos densos carregados de
milhares de botões florais imaturos.
Se você
deixar um brócolis passar do ponto de colheita, ele começa a se estirar, até se
transformar em um ramalhete repleto de diminutas flores amarelas brilhantes.
Botanicamente,
a alcachofra também é uma flor. Mais especificamente, ela é um botão floral
imaturo que, se for deixado em crescimento, abre-se por completo e se
transforma em uma flor espetacular de cor violeta ou púrpura brilhante.
As
alcaparras também são botões florais fechados. Quando não são colhidos, eles se
abrem para formar uma bela flor de pétalas brancas e longos filamentos púrpura.
Desta flor, nasce um fruto, que também é comestível.
Já o
cravo-da-índia, que usamos para aromatizar assados e sobremesas no Natal, é o
botão floral seco da árvore do cravo, colhido à mão quando o casulo verde muda
para um tom avermelhado, antes de abrir suas pétalas, e seco ao sol em seguida.
E não
podemos esquecer o açafrão, a especiaria mais cara do mundo, composta pelos
estigmas da flor Crocus sativus.
Cada
flor contém apenas três filamentos de coloração vermelha intensa. Por isso,
para conseguir apenas 1 kg de açafrão puro, é preciso colher à mão os fios de
cerca de 150 mil flores.
Mas
existem outras que não deixam margem a dúvidas. E, da mesma forma que a rosa, a
lavanda ou a flor de laranjeira, estão presentes em várias partes do Brasil e
da América Latina.
Aqui
estão algumas flores que talvez você conheça e outras que poderá ter o prazer
de conhecer — e um alerta sobre o consumo de qualquer uma delas.
<><>
Hibisco (Hibiscus sabdariffa)
Originário
da África tropical, o hibisco chegou às Américas na época colonial, onde
encontrou um novo lar nas regiões quentes do continente.
Hoje, é
uma das flores mais conhecidas do México e do Caribe. Seu cálice vermelho de
tom intenso é usado para preparar bebidas, chás e diversos pratos.
Embora
seja mais conhecido pela sua flor, a parte que consumimos não são as pétalas da
flor aberta, mas sim o cálice carnoso que protege o fruto.
Seco ou
fresco, esse cálice tem uma coloração rubi característica e um sabor
ligeiramente ácido, refrescante e frutado, similar ao de certas frutas
vermelhas.
Além
dos seus atrativos culinários, o cálice contém vitamina C, ácidos orgânicos,
antocianinas e outros compostos fenólicos com atividade antioxidante.
Diversos
estudos pesquisaram sua possível relação com a saúde cardiovascular e o
metabolismo, mas os efeitos observados dependem da preparação e da quantidade
consumida.
<><>
Primavera (Bougainvillea spp.)
Também
conhecida como bougainville ou buganvília, entre outros nomes, a primavera é
originária da América do Sul, especialmente do Brasil, Peru e Bolívia.
Ela não
apenas embeleza muros e jardins com suas cores vibrantes, como é conhecida pelo
seu tradicional chá, usado para aliviar a tosse.
Na
cozinha, são usadas suas atraentes brácteas, que são estruturas similares a
folhas de cores vivas que rodeiam as pequenas flores brancas no centro. Elas
têm sabor neutro, ligeiramente doce e floral, com um sutil toque amargo que faz
com que sejam incrivelmente versáteis.
Com
elas, são preparadas bebidas refrescantes, como a água de buganvília do México,
uma infusão fria que, com limão, muda de um tom púrpura para um rosa intenso e
chamativo, já que seus pigmentos naturais reagem com a acidez da fruta.
A
primavera também é empregada na preparação de xaropes com espetacular coloração
magenta para colorir margaritas, limonadas ou panquecas, além de concentrados
para confeitaria.
Além do
seu uso culinário, estudos de laboratório e em animais indicam que seus
compostos fenólicos, flavonoides e outros metabólitos podem ter atividade
antioxidante, anti-inflamatória, antimicrobiana e até efeitos relacionados ao
controle da glicose.
Mas
estes resultados ainda são preliminares e não comprovam que o consumo das
flores realmente produz esses benefícios.
Em
termos de nutrição, a primavera tem muito poucas calorias e fornece pequenas
quantidades de fibras e sais minerais.
<><> Flor de yucca (Yucca guatemalensis)
Considerada
um dos grandes tesouros culinários da América Central, a yucca faz parte da
cozinha tradicional da Guatemala e do sul do México há séculos, sem falar em El
Salvador, onde foi declarada Flor Nacional.
Suas
grandes flores brancas são rapidamente fervidas para suavizar seu sabor amargo
característico. Em seguida, elas são incorporadas a guisados, sopas, tamales ou
mexidos com ovos, tomates e cebola.
Seu
sabor relembra o da alcachofra ou dos aspargos tenros, com agradável toque
ligeiramente amargo.
Nutricionalmente
falando, a flor de yucca tem baixo teor de calorias e fornece pequenas
quantidades de fibras, proteínas e sais minerais, como cálcio, fósforo e
potássio.
Ela
também contém compostos fenólicos com atividade antioxidante, embora ainda não
existam comprovações suficientes para afirmar que seu consumo produz benefícios
específicos para a saúde.
<><>
Capuchinha (Tropaeolum majus)
Não é
um ingrediente de consumo de massa, como a alface. Mas, dentro do mundo das
flores comestíveis, a capuchinha é um verdadeiro clássico.
Originária
dos Andes do Peru, Bolívia e Equador, ela chegou à Europa no século 16 e logo
conquistou os jardins e as cozinhas.
Diferentemente
de muitas flores comestíveis, a capuchinha não tem sabor doce, nem floral.
Toda a
planta é comestível (flores, folhas, botões e as próprias sementes verdes). Seu
sabor é fresco, picante e com um toque de mostarda, muito similar ao agrião ou
à rúcula.
Suas
flores enriquecem saladas, sanduíches e manteigas aromáticas. Já os botões e as
sementes costumam ser curtidos para consumo no lugar das alcaparras.
Nutricionalmente,
ela se destaca pelo seu teor de vitamina C, carotenoides e compostos fenólicos
com atividade antioxidante.
A
capuchinha também contém glucosinolatos, as mesmas substâncias presentes no
brócolis, na mostarda e em outros vegetais da família das couves, responsáveis
tanto pelo seu sabor picante quanto pelos seus possíveis efeitos benéficos para
a saúde, que vêm despertando o interesse da ciência.
Estudos
de laboratório já descreveram a atividade antioxidante e antimicrobiana de
alguns desses compostos, mas ainda não há comprovação suficiente para atribuir
benefícios específicos ao consumo da flor.
<><>
Flor de bananeira (Musa spp.)
Popular
em todo o mundo pelos seus frutos, a bananeira é muito mais aproveitável do que
a maioria das pessoas imagina.
Originária
do sudeste asiático, a banana chegou às Américas durante o início do comércio
entre os continentes, no século 16. E, com o passar do tempo, ela se integrou
profundamente às cozinhas tropicais do Caribe e da América Latina.
Sua
enorme inflorescência púrpura ou granada, conhecida como flor ou coração da
bananeira, também é comestível e tradicionalmente aproveitada em diversas
regiões tropicais.
Para
isso, são retiradas as camadas exteriores, até chegar aos delicados floretes no
seu interior. Eles são consumidos crus ou cozidos, em saladas, sopas, molhos e
salteados.
Seu
sabor é suave, ligeiramente vegetal e com um toque amargo. Já sua textura é
similar à da alcachofra, absorvendo facilmente os aromas de outros
ingredientes.
Em
termos de nutrição, é um alimento leve, rico em água e fibras. Ela fornece
pequenas quantidades de sais minerais e compostos fenólicos com atividade
antioxidante.
Alguns
dos seu compostos já foram estudados para determinar suas possíveis funções,
mas seus benefícios específicos à saúde ainda não foram demonstrados em seres
humanos.
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E quantas outras!
Há
muitas outras flores comestíveis além das descritas acima.
Como o
encantador amor-perfeito que, além da sua beleza, oferece ao prato uma nota
fresca, entre verde e levemente doce, quase como uma mistura de alface com
menta.
Ou a
bela violeta, com seu sabor delicado e floral. Há séculos, ela faz brilhar as
sobremesas e a confeitaria fina, cristalizada com açúcar sobre bolos e bombons.
A
rústica borragem, com sabor surpreendente similar ao pepino, estrela de saladas
e sopas frias na região do Mediterrâneo. Ou o aromático sabugueiro, com suas
flores brancas que perfumam xaropes, fortificantes e licores há várias
gerações.
A
pequena flor lilás da cebolinha fornece um suave toque de cebola ou alho para
coroar molhos e queijos frescos.
Ou a
flor de sisal. Na região central do México, ela é refogada com cebola e pimenta
para se transformar em um guisado de sabor terroso e ligeiramente amargo, uma
espécie de primo distante da flor de abóbora.
E mais,
muito mais. Mas há uma advertência que não pode ser esquecida.
Nunca
consuma flores compradas em viveiros ou floriculturas.
Estas
plantas são cultivadas para enfeite, não para alimentação. Por isso, elas
costumam receber pesticidas, inseticidas e fungicidas agressivos, que são
completamente absorvidos pelas plantas.
O mais
seguro é recorrer a flores da sua própria horta orgânica, plantas de jardim que
tenham passado meses sem receber tratamento químico ou comprá-las em mercados,
onde são vendidas especificamente para consumo alimentar.
As
flores comestíveis não são medicamentos. Mas elas podem fornecer variedade,
fibras, sais minerais e uma ampla variedade de compostos vegetais bioativos,
como polifenóis e carotenoides.
Incorporar
as flores ocasionalmente à alimentação pode aumentar a diversidade de
nutrientes e substâncias protetoras presentes na dieta.
Por
isso, na próxima vez em que você olhar para o seu jardim, não pense apenas na
beleza. Talvez esteja ali o ingrediente de destaque ideal para o seu próximo
jantar.
Fonte:
BBC News Mundo

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