quarta-feira, 29 de julho de 2026

Ficção científica: O Brasil encara seu presente

Na quinta-feira, 23 de julho, chegou aos cinemas brasileiros “Futuro Futuro”, de Davi Pretto: um homem sem memória, uma síndrome neurológica misteriosa, um dispositivo de inteligência artificial que vicia quem o usa. O filme venceu o Candango de Melhor Longa no 58º Festival de Brasília, o mais antigo do país ainda em atividade, e chega às salas como prova recente de que a ficção científica brasileira não é a que copia o imaginário estrangeiro, é a que pergunta o que o país ainda pode se tornar.

É o que aponta Bela Eichler. Arquiteta de formação, crítica de cinema, videomaker e fotógrafa profissional, ela criou em Brasília o canal Futurices, hoje um dos maiores canais brasileiros dedicados à ficção científica. Nos primeiros seis meses, sem nenhum investimento em anúncios, já eram 19 mil inscritos e meio milhão de visualizações; hoje, seu público é de duzentos mil. Depois vieram mais de oito anos dedicados ao cinema e cerca de 100 produtos audiovisuais e fotográficos autorais, roteirizados, filmados e editados quase sempre sozinha.

<><> Eis a entrevista.

•        Em seu vídeo sobre distopias, você pergunta: “Por que, mesmo já sentindo essa confusão toda do dia a dia, a gente ainda é seduzido por visões de futuro ainda mais sombrias?” Essa é uma chave de leitura que conecta Admirável Mundo Novo, 1984 e Fahrenheit 451 com o nosso presente. Como você vê a responsabilidade do crítico de ficção científica em um momento em que a realidade já parece ter ultrapassado a distopia?

Confesso que tenho um pouco de resistência à frase de que “a realidade ultrapassou a distopia”. Entendo perfeitamente de onde ela vem, porque às vezes a gente abre o jornal (se é que essas relíquias ainda existem) ou entra nas redes sociais e parece que está diante de um roteiro que seria considerado exagerado alguns anos atrás. Mas acho que essa sensação diz menos sobre a realidade ter se tornado mais inventiva do que a ficção e mais sobre ela ter ficado cada vez mais difícil de interpretar. São tantas transformações acontecendo ao mesmo tempo (inteligência artificial, vigilância digital, mudanças climáticas, crises políticas, precarização do trabalho, manipulação algorítmica) que a gente tem a impressão de estar sempre tentando alcançar o próprio presente. Nesse contexto, a ficção científica oferece alguma coisa muito importante, que é uma linguagem para organizar essas angústias. Ela pega medos que ainda são difusos e transforma tudo em imagens, personagens, sociedades e conflitos que conseguimos observar de fora. É como se ela criasse uma distância segura (e muito catártica) para que a gente consiga encarar questões que, na vida real, estão próximas demais e misturadas demais para serem compreendidas com clareza. Por isso, não acho que a principal função de uma distopia seja prever o futuro. A diva Ursula K. Le Guin escreveu que o propósito de um experimento mental não é prever o futuro, mas descrever a realidade, o mundo presente. E concluiu de uma maneira que resume muito do que penso sobre o gênero: “A ficção científica não é preditiva; é descritiva”.

Quando lemos 1984, por exemplo, é muito tentador fazer uma lista de tudo o que Orwell teria “acertado”: as câmeras, a vigilância, a manipulação da linguagem, o controle da informação. Só que Orwell não estava olhando magicamente para o nosso século. Ele estava observando os regimes totalitários, a propaganda política e as disputas pelo controle da realidade que já existiam em seu próprio tempo. Da mesma forma, em Admirável Mundo Novo, Aldous Huxley não precisou conhecer as redes sociais para falar de uma sociedade anestesiada pelo consumo, pelo entretenimento e pela busca constante por conforto e satisfação imediata, quase sempre embalados por algum “soma” da vez, que promete acrescentar felicidade, mas pode também acabar subtraindo reflexão. Já Ray Bradbury, em Fahrenheit 451, também não precisava imaginar exatamente os dispositivos que usaríamos hoje (apesar de ter chegado bizarramente perto) para criar uma sociedade cercada por telas, distrações permanentes e cada vez mais inclinada a evitar tudo aquilo que exige reflexão, confronto ou desconforto. Essas obras continuam atuais não necessariamente porque acertaram os objetos tecnológicos que usaríamos, mas porque perceberam estruturas de poder e comportamentos humanos que permanecem entre nós. Então, para mim, o que ocorre é que a tecnologia muda muito rápido, enquanto algumas angústias humanas mudam bem mais devagar.

Talvez por isso a gente continue tão seduzido por visões sombrias do futuro. A distopia assusta, mas também organiza o medo, digamos assim. É menos angustiante olhar para uma sociedade fictícia em que todos são vigiados do que tentar compreender uma realidade em que nós mesmos compramos os dispositivos que coletam nossos dados, aceitamos termos que não lemos e ainda sentimos prazer quando somos vistos. Na ficção, o problema costuma ter um rosto, uma instituição ou um sistema claramente identificável. Na vida real, quase sempre somos participantes das estruturas que nos incomodam, e isso, para mim, é ainda mais inquietante. Não porque sejamos os únicos responsáveis por elas, mas porque também ajudamos a alimentá-las todos os dias. Buscamos conforto na tecnologia, delegamos decisões aos algoritmos, passamos cada vez mais tempo diante das telas e, agora, começamos a transferir até parte do nosso pensamento para ferramentas de inteligência artificial. Nada disso é necessariamente ruim por si só (eu adoro tecnologia e dificilmente estaria fazendo o trabalho que faço sem ela), mas a ficção científica nos lembra de fazer uma pergunta importante: em que momento a conveniência deixa de ser uma escolha e passa a moldar silenciosamente a forma como pensamos, nos relacionamos e enxergamos o mundo? Também existe um aspecto curioso, porque a nossa imaginação foi muito treinada para visualizar o colapso. Conseguimos imaginar cidades destruídas, pandemias, guerras nucleares, regimes autoritários, catástrofes ambientais e máquinas se voltando contra a humanidade com uma riqueza impressionante de detalhes (ainda bem). Mas temos uma dificuldade enorme para imaginar sociedades verdadeiramente diferentes da nossa. Mark Fisher popularizou, em Realismo capitalista, aquela ideia famosa de que é mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo. Acho que parte do fascínio contemporâneo pela distopia vem justamente daí, de como a gente consegue imaginar o mundo terminando, mas não consegue imaginar o mundo mudando. É justamente aí que movimentos como o solarpunk me parecem tão importantes, afinal eles lembram a gente que imaginar alternativas também é um exercício político e criativo. E é nesse ponto que vejo uma responsabilidade importante para quem trabalha com crítica de ficção científica. Não acho que o papel do crítico seja apontar para uma obra e dizer “Eita ferro! Tão vendo? Isso vai acontecer!”. Quando a gente faz isso, corremos o risco de transformar a ficção científica numa espécie de horóscopo tecnológico, em que o valor de uma história depende da quantidade de previsões que ela acertou. Para mim, o mais interessante não é perguntar se Orwell, Huxley ou Bradbury adivinharam o futuro, mas o que essas obras ainda conseguem revelar sobre seu próprio tempo e também sobre o nosso presente.

A crítica pode ajudar a construir essas pontes. Por exemplo, quando uma série como Ruptura apresenta uma tecnologia capaz de separar as memórias pessoais das profissionais, a discussão mais interessante não é se algum dia esse procedimento será cientificamente possível, mas sim o que essa ideia revela sobre a maneira como enxergamos o trabalho e sobre as violências que aceitamos quando elas vêm embaladas por uma linguagem corporativa simpática. Quando Gattaca fala de seleção genética, ela também está falando de meritocracia. Quando Ex Machina fala de inteligência artificial, está falando de poder, objetificação e controle. A tecnologia é a ferramenta narrativa, mas o objeto de investigação continua sendo o ser humano.

Por isso, acho que o papel da crítica não é entregar respostas prontas, mas ampliar as perguntas que uma obra desperta na gente. Também é resistir a uma leitura fatalista das distopias, porque existe um perigo em repetir o tempo inteiro que estamos vivendo em 1984, em Admirável Mundo Novo ou em um episódio de Black Mirror já que, a partir daí, a gente começa a tratar essas realidades como inevitáveis, fora que a distopia deixa de funcionar como alerta quando passa a funcionar como destino.

Analiso essas histórias não porque acredito que elas necessariamente vão acontecer, mas porque acredito que ainda podem ser evitadas (sim, existe otimismo nesse coração). A ficção científica pode mostrar futuros terríveis, mas também lembra a gente, mesmo que de maneira indireta, que todo futuro nasce de escolhas feitas no presente. Se uma história consegue imaginar como uma sociedade chegou ao pior cenário possível, ela também nos permite perguntar em que momento aquele caminho poderia ter sido interrompido. E talvez a responsabilidade do crítico, num momento em que a realidade parece tão distópica, seja justamente devolver às pessoas essa sensação de possibilidade. Mostrar que tecnologia não é uma força da natureza que simplesmente acontece conosco, que nenhum sistema é inevitável e que o futuro não chega pronto. Ele é disputado, construído e, muitas vezes, limitado pela nossa própria capacidade de imaginar alternativas. A boa ficção científica não nos oferece apenas previsões. Ela amplia o nosso repertório de possibilidades e, se existe uma responsabilidade para quem fala sobre o gênero, acredito que não seja convencer as pessoas de que o futuro será necessariamente pior. É lembrar que ele continua em aberto.

•        O cinema brasileiro de ficção científica sempre foi tratado como um gênero marginal, mas “Futuro Futuro”, de Davi Pretto — grande vencedor do 58º Festival de Brasília —, prova que há uma vitalidade pulsante no Sul. Você, que tem mapeado esse cenário no Futurices, como avalia o momento atual da sci-fi brasileira? E o que ainda falta para que esses filmes rompam a bolha dos festivais?

Gosto muito dessa pergunta porque ela parte de uma ideia que me incomoda há um tempão, que é a de que a ficção científica brasileira seria uma espécie de “exceção” ou um fenômeno recente. Na verdade, acho que ela sempre existiu, enquanto o que nem sempre existiu foi espaço para ela ser vista. Talvez a gente esteja vivendo menos um momento em que a sci-fi brasileira finalmente nasceu e mais um momento em que as pessoas começaram a prestar atenção nela. Quando a gente olha para obras como Branco Sai, Preto Fica, Era Uma Vez Brasília, Divino Amor, A Nuvem Rosa e, agora, Futuro Futuro, fica claro que existe uma produção consistente acontecendo há anos. São filmes muito diferentes entre si, mas todos parecem entender que a ficção científica brasileira não precisa tentar reproduzir o imaginário gringo para funcionar. Existe uma expectativa muito forte de que ficção científica precise ter cidades ultratecnológicas, naves espaciais, alienígenas verdes melequentos, megacorporações ou robôs humanoides para ser reconhecida como tal. Só que a ficção científica brasileira costuma seguir outro caminho. Ela explora questões que já fazem parte da nossa experiência cotidiana, como desigualdade, violência, religião, memória, mudanças climáticas, território, relações de trabalho, e pergunta como elas podem se transformar nas próximas décadas. Não é uma ficção científica que abandona o Brasil para imaginar o futuro; é uma ficção científica que pergunta como o Brasil continuará sendo Brasil no futuro. E, para mim, isso é muito mais interessante do que simplesmente tentar reproduzir modelos estrangeiros. Acho que Futuro Futuro conversa justamente com esse movimento. Pelo que conheço da proposta do filme, ele usa elementos clássicos da ficção científica, como inteligência artificial e manipulação da memória, para falar de questões profundamente brasileiras e contemporâneas. Isso me parece um ótimo exemplo de como o gênero pode ser usado não para escapar da nossa realidade, mas para enxergá-la de outro ângulo. Também acho interessante observar que muitos desses filmes surgem a partir de um olhar muito localizado. Eles não tentam esconder o sotaque, o território ou os conflitos sociais em nome de uma suposta universalidade. E, ironicamente, talvez seja justamente isso que torne essas obras universais, afinal, eu acredito muito que, quanto mais uma obra parte de uma experiência concreta, mais ela consegue dialogar com outras realidades e pessoas.

Sobre romper a bolha dos festivais, eu confesso que não acredito que exista uma resposta simples. Claro que financiamento e políticas públicas são fundamentais, mas, para mim, existe um problema que começa antes mesmo da produção, que é o nosso “imaginário”. Como falei de início, durante décadas, fomos ensinados a associar ficção científica a determinados cenários, principalmente norte-americanos. Aliás, o heliporto oficial dos ETs parece ser Nova York, né? Que coisa… Então, quando um filme se passa em Porto Alegre, Recife, Ceilândia ou Belém e usa a ficção científica para falar dessas realidades, parte do público simplesmente não reconhece aquilo como ficção científica. Também acho que a forma como comunicamos esses filmes faz diferença. Muitas vezes, eles chegam ao público apresentados primeiro como “vencedores de festivais”, quando talvez o que despertasse curiosidade fosse justamente a premissa. Se alguém me diz que um filme ganhou um prêmio importante, eu fico feliz por ele, mas, se alguém me diz que existe um filme brasileiro sobre uma inteligência artificial capaz de reconstruir memórias em um país devastado pela crise climática, eu já estou com “coquinha” e pipoca na mão. No fim das contas, eu sou bastante otimista com o momento da ficção científica brasileira (sim, existe otimismo nesse coração, de novo). Tenho a impressão de que ela está cada vez menos preocupada em provar que consegue fazer o que Hollywood faz e cada vez mais interessada em descobrir o que só ela pode fazer, a partir do seu território, da sua história e das suas próprias experiências. E talvez seja justamente aí que esteja a sua maior potência. Não em tentar produzir uma ficção científica “com sotaque brasileiro”, mas em entender que o Brasil, com todas as suas contradições, já é um excelente ponto de partida para imaginar o futuro.

•        Ao divulgar o Amazofuturismo e ao valorizar autores como Rogério Pietro, você se conecta a um movimento que pensa o futuro a partir da Amazônia, e não do Vale do Silício. Como você vê a relação entre a ficção científica latino-americana e a tradição europeia/norte-americana? Existe uma “sci-fi do Sul Global” com identidade própria?

Confesso que fico um pouco cabreira quando a gente fala em “uma ficção científica do Sul Global”, porque parece que estamos colocando debaixo do mesmo guarda-chuva experiências culturais extremamente diferentes. A América Latina, a África, o Sudeste Asiático e tantos outros lugares compartilham algumas marcas históricas, como a colonização e diferentes formas de desigualdade, mas isso não significa que imaginem o futuro da mesma maneira. Então, se existe uma sci-fi do Sul Global, acho que ela é muito menos uma identidade única e muito mais uma conversa entre diferentes formas de imaginar o amanhã. Ao mesmo tempo, também acho que existe um ponto de encontro entre essas obras. Durante muito tempo, boa parte da ficção científica que circulou pelo mundo foi produzida a partir de países que ocupavam posições centrais na economia, na indústria e na tecnologia. Isso acabou moldando o nosso próprio imaginário sobre o futuro. A gente cresceu acreditando que ele sempre teria sotaque norte-americano ou europeu, aconteceria em megacidades ultratecnológicas e seria conduzido pelas mesmas referências culturais que já conhecíamos. Só que isso nunca foi uma regra da ficção científica, mas sim uma consequência de quem teve mais espaço para publicar, filmar, distribuir e exportar suas histórias. Talvez por isso eu ache tão interessante o momento que estamos vivendo. Não porque exista uma disputa para decidir qual visão de futuro vai substituir a outra, mas porque finalmente começamos a enxergar que existem muitos futuros possíveis. Eu não quero um mundo sem Blade Runner, sem Ursula K. Le Guin ou sem Isaac Asimov. Quero um mundo em que essas histórias possam conviver com o Amazofuturismo, com o Afrofuturismo, com a ficção científica indígena, andina, caribenha e tantas outras formas de imaginar o amanhã. Ora, quanto mais perspectivas diferentes a gente coloca em diálogo, mais rica a ficção científica se torna, não? É justamente isso que mais me encanta no Amazofuturismo. Ele não propõe apenas uma estética diferente ou um cenário diferente. Ele muda o ponto de partida da imaginação.

Em vez de perguntar como seria a Amazônia se ela reproduzisse o mesmo modelo tecnológico do Vale do Silício, ele faz uma pergunta muito mais interessante: e se o futuro fosse pensado a partir da própria Amazônia? A partir dos conhecimentos produzidos por quem vive aquele território, da relação com a floresta, das cosmologias indígenas, das comunidades ribeirinhas e de outras formas de produzir ciência e tecnologia que, durante muito tempo, foram tratadas como se não fossem conhecimento. Isso conversa muito com uma ideia que gosto bastante e que aparece em diferentes áreas do pensamento contemporâneo: tecnologia não é só aquilo que sai de um laboratório ou de uma startup. Ela também nasce da forma como uma sociedade aprende a resolver problemas, transmite conhecimento e constrói sua relação com o mundo. Talvez seja justamente aí que a ficção científica latino-americana encontre uma identidade muito interessante. Não porque ela rejeite a tradição europeia ou norte-americana, mas porque ela amplia essa conversa. Em vez de imaginar um único caminho para o futuro, ela lembra que existem muitos e que esses caminhos dependem da história, da cultura, da geografia e das perguntas que cada sociedade decide fazer. No fundo, acho que a maior contribuição desses movimentos não é imaginar tecnologias diferentes. É imaginar perguntas diferentes.

Durante muito tempo, a ficção científica perguntou como seria o futuro da humanidade. Movimentos como o Amazofuturismo também nos convidam a perguntar de qual humanidade estamos falando, e isso é uma mudança muito poderosa, porque ela amplia o nosso repertório de futuros possíveis sem apagar aqueles que já existiam. Se na resposta anterior eu dizia que a boa ficção científica amplia o nosso repertório de possibilidades, talvez aqui eu complete dizendo que ela também amplia o nosso repertório de referências e isso faz toda a diferença. Afinal, quando só um grupo imagina o futuro, o risco é que a gente comece a acreditar que existe apenas um jeito de chegar até ele. Quando mais vozes entram nessa conversa, o futuro deixa de ser um destino único e passa a ser um espaço de disputa, criação e diversidade.

•        Você é crítica de cinema, mas também videomaker, fotógrafa e arquiteta de formação. O olhar que constrói o Futurices é um olhar híbrido, que entende a imagem como linguagem total. Existe, na sua trajetória, uma tensão entre a crítica — que analisa o que já foi feito — e a criação — que propõe algo novo? Ou essas duas dimensões se alimentam?

Adorei essa pergunta porque ela me fez pensar em uma tensão que eu nunca tinha nomeado, mas que realmente existe. Acho que criar e criticar são atividades que vivem em diálogo dentro da minha cabeça, e nem sempre esse diálogo é pacífico.

Eu nunca me apresentei como crítica de cinema. Sempre gostei mais da ideia de alguém que usa filmes, séries, livros e jogos como ponto de partida para pensar o mundo. Mas, olhando para trás, eu percebo que, enquanto analisava essas obras, também estava aprendendo a criar. O Futurices nunca foi só um espaço para comentar filmes, séries ou livros. Cada vídeo exige pesquisa, escrita, roteiro, direção, fotografia, gravação, edição, thumbnail, escolha de trilha, ritmo, enquadramento… Na maior parte do tempo, eu faço tudo isso sozinha. De certa forma, ser criadora de conteúdo hoje é ser uma pequena produtora independente e isso muda completamente a forma como enxergo o trabalho criativo dos outros.

Antes eu analisava principalmente o resultado. Hoje eu também consigo imaginar os bastidores. Quando vejo uma solução de montagem muito elegante, uma fotografia bonita ou um roteiro que parece simples, eu penso em todas as escolhas, perrengues, tentativas e versões que provavelmente existiram até aquilo chegar na tela. Então, eu diria que criar me deixou muito menos interessada em apontar erros e muito mais interessada em entender escolhas. É claro que produzir um vídeo para o YouTube é muito diferente de realizar um longa-metragem, mas, guardadas as proporções, o processo criativo também é feito de decisões, tentativas e revisões constantes.

Ao mesmo tempo, a crítica também interfere na criação. Quanto mais repertório a gente acumula, mais difícil fica desligar essa voz que está constantemente analisando tudo. Às vezes, ela é uma grande aliada. Me ajuda a perceber quando um argumento está confuso, quando um vídeo perdeu ritmo ou quando uma ideia ainda não amadureceu. Outras vezes, ela aparece cedo demais e começa a julgar um roteiro antes mesmo de ele ter tido a chance de existir (inclusive, ela está aqui comigo agora, a danada). Acho que todo mundo que trabalha com criatividade conhece um pouco essa sensação.Talvez por isso eu tenha aprendido que existe um momento para analisar e outro para criar. Quando estou escrevendo, tento deixar a curiosidade falar mais alto do que a autocrítica. A análise vem depois, quando já existe alguma coisa construída. Se a crítica chega cedo demais, ela corre o risco de impedir que uma ideia floresça. A arquitetura também me ensinou bastante sobre isso. Existe uma ideia muito presente na formação de um arquiteto de que forma e função não competem entre si. Elas se transformam mutuamente. Acho que levo esse pensamento para tudo o que faço. Um vídeo não é só o texto que está sendo dito. É também o ritmo da edição, a fotografia, a trilha, os silêncios, os memes, as “piadinhas de tiozão” que quebram um raciocínio mais denso, a forma como uma imagem conversa com a outra. A linguagem audiovisual é feita dessas camadas, e talvez por isso eu nunca tenha conseguido separar completamente análise e criação.

No fim das contas, eu percebo que elas fazem perguntas diferentes sobre o mesmo objeto. A crítica tenta entender por que uma obra produz determinado efeito. A criação tenta produzir esse efeito em outra pessoa. As duas exigem observação, repertório e sensibilidade. As duas começam do mesmo lugar, que é a curiosidade.

Então, sim, existe uma tensão. Elas vivem batendo boca aqui na minha cabeça. Mas, sinceramente, eu acho que o Futurices só existe justamente porque nenhuma das duas conseguiu vencer essa discussão.

•        Por fim, e pensando no que discutimos com Sabrina Fernandes sobre o colapso do capitalismo e com Donatella Di Cesare sobre o tecnofascismo: em um Brasil onde as plataformas digitais são dominadas por algoritmos que premiam o sensacionalismo, qual é o papel de quem produz conteúdo sobre cultura, cinema e pensamento crítico? Ainda é possível furar a bolha sem se render à lógica dos cliques?

Acho que existe uma ideia muito difundida de que, na internet de hoje, a gente precisa escolher entre fazer conteúdo profundo ou fazer conteúdo que alcance pessoas. Como se pensamento crítico e comunicação acessível fossem incompatíveis. Eu nunca acreditei muito nessa divisão. É claro que as plataformas digitais influenciam a forma como a gente consome informação. Os algoritmos tendem a privilegiar aquilo que desperta reações rápidas, indignação, certezas absolutas e conflito. Não porque tenham uma intenção política própria, mas porque esse tipo de conteúdo costuma manter as pessoas engajadas por mais tempo. Talvez por isso o tal do rage bait tenha virado quase um gênero da internet. Parece que, hoje, provocar uma reação vale mais do que provocar uma reflexão. O problema é que, quando essa lógica se torna dominante, existe um risco enorme de a complexidade parecer um defeito. Afinal, explicar costuma dar mais trabalho do que simplificar. Fazer uma pergunta costuma render menos cliques do que oferecer uma resposta definitiva. Talvez por isso eu veja o papel de quem produz conteúdo sobre cultura de uma forma um pouco diferente. Eu nunca enxerguei filmes, livros ou séries só como entretenimento. Eles são maneiras de pensar. São espaços onde a gente pode experimentar ideias, questionar valores e imaginar outros modos de viver antes mesmo que eles existam no mundo real. E, curiosamente, acho que isso conversa muito com a própria ficção científica, afinal, ela lembra que aquilo que hoje parece inevitável já foi imaginado de muitas outras formas. No Futurices, eu sempre tento partir desse lugar.

 

Fonte: Por Thiago Gama, em Outras Palavras

 

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