Ficção
científica: O Brasil encara seu presente
Na
quinta-feira, 23 de julho, chegou aos cinemas brasileiros “Futuro Futuro”, de
Davi Pretto: um homem sem memória, uma síndrome neurológica misteriosa, um
dispositivo de inteligência artificial que vicia quem o usa. O filme venceu o
Candango de Melhor Longa no 58º Festival de Brasília, o mais antigo do país
ainda em atividade, e chega às salas como prova recente de que a ficção
científica brasileira não é a que copia o imaginário estrangeiro, é a que
pergunta o que o país ainda pode se tornar.
É o que
aponta Bela Eichler. Arquiteta de formação, crítica de cinema, videomaker e
fotógrafa profissional, ela criou em Brasília o canal Futurices, hoje um dos
maiores canais brasileiros dedicados à ficção científica. Nos primeiros seis
meses, sem nenhum investimento em anúncios, já eram 19 mil inscritos e meio
milhão de visualizações; hoje, seu público é de duzentos mil. Depois vieram
mais de oito anos dedicados ao cinema e cerca de 100 produtos audiovisuais e
fotográficos autorais, roteirizados, filmados e editados quase sempre sozinha.
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Eis a entrevista.
• Em seu vídeo sobre distopias, você
pergunta: “Por que, mesmo já sentindo essa confusão toda do dia a dia, a gente
ainda é seduzido por visões de futuro ainda mais sombrias?” Essa é uma chave de
leitura que conecta Admirável Mundo Novo, 1984 e Fahrenheit 451 com o nosso
presente. Como você vê a responsabilidade do crítico de ficção científica em um
momento em que a realidade já parece ter ultrapassado a distopia?
Confesso
que tenho um pouco de resistência à frase de que “a realidade ultrapassou a
distopia”. Entendo perfeitamente de onde ela vem, porque às vezes a gente abre
o jornal (se é que essas relíquias ainda existem) ou entra nas redes sociais e
parece que está diante de um roteiro que seria considerado exagerado alguns
anos atrás. Mas acho que essa sensação diz menos sobre a realidade ter se
tornado mais inventiva do que a ficção e mais sobre ela ter ficado cada vez
mais difícil de interpretar. São tantas transformações acontecendo ao mesmo
tempo (inteligência artificial, vigilância digital, mudanças climáticas, crises
políticas, precarização do trabalho, manipulação algorítmica) que a gente tem a
impressão de estar sempre tentando alcançar o próprio presente. Nesse contexto,
a ficção científica oferece alguma coisa muito importante, que é uma linguagem
para organizar essas angústias. Ela pega medos que ainda são difusos e
transforma tudo em imagens, personagens, sociedades e conflitos que conseguimos
observar de fora. É como se ela criasse uma distância segura (e muito
catártica) para que a gente consiga encarar questões que, na vida real, estão
próximas demais e misturadas demais para serem compreendidas com clareza. Por
isso, não acho que a principal função de uma distopia seja prever o futuro. A
diva Ursula K. Le Guin escreveu que o propósito de um experimento mental não é
prever o futuro, mas descrever a realidade, o mundo presente. E concluiu de uma
maneira que resume muito do que penso sobre o gênero: “A ficção científica não
é preditiva; é descritiva”.
Quando
lemos 1984, por exemplo, é muito tentador fazer uma lista de tudo o que Orwell
teria “acertado”: as câmeras, a vigilância, a manipulação da linguagem, o
controle da informação. Só que Orwell não estava olhando magicamente para o
nosso século. Ele estava observando os regimes totalitários, a propaganda
política e as disputas pelo controle da realidade que já existiam em seu
próprio tempo. Da mesma forma, em Admirável Mundo Novo, Aldous Huxley não
precisou conhecer as redes sociais para falar de uma sociedade anestesiada pelo
consumo, pelo entretenimento e pela busca constante por conforto e satisfação
imediata, quase sempre embalados por algum “soma” da vez, que promete
acrescentar felicidade, mas pode também acabar subtraindo reflexão. Já Ray
Bradbury, em Fahrenheit 451, também não precisava imaginar exatamente os
dispositivos que usaríamos hoje (apesar de ter chegado bizarramente perto) para
criar uma sociedade cercada por telas, distrações permanentes e cada vez mais
inclinada a evitar tudo aquilo que exige reflexão, confronto ou desconforto.
Essas obras continuam atuais não necessariamente porque acertaram os objetos
tecnológicos que usaríamos, mas porque perceberam estruturas de poder e
comportamentos humanos que permanecem entre nós. Então, para mim, o que ocorre
é que a tecnologia muda muito rápido, enquanto algumas angústias humanas mudam
bem mais devagar.
Talvez
por isso a gente continue tão seduzido por visões sombrias do futuro. A
distopia assusta, mas também organiza o medo, digamos assim. É menos
angustiante olhar para uma sociedade fictícia em que todos são vigiados do que
tentar compreender uma realidade em que nós mesmos compramos os dispositivos
que coletam nossos dados, aceitamos termos que não lemos e ainda sentimos
prazer quando somos vistos. Na ficção, o problema costuma ter um rosto, uma
instituição ou um sistema claramente identificável. Na vida real, quase sempre
somos participantes das estruturas que nos incomodam, e isso, para mim, é ainda
mais inquietante. Não porque sejamos os únicos responsáveis por elas, mas
porque também ajudamos a alimentá-las todos os dias. Buscamos conforto na tecnologia,
delegamos decisões aos algoritmos, passamos cada vez mais tempo diante das
telas e, agora, começamos a transferir até parte do nosso pensamento para
ferramentas de inteligência artificial. Nada disso é necessariamente ruim por
si só (eu adoro tecnologia e dificilmente estaria fazendo o trabalho que faço
sem ela), mas a ficção científica nos lembra de fazer uma pergunta importante:
em que momento a conveniência deixa de ser uma escolha e passa a moldar
silenciosamente a forma como pensamos, nos relacionamos e enxergamos o mundo?
Também existe um aspecto curioso, porque a nossa imaginação foi muito treinada
para visualizar o colapso. Conseguimos imaginar cidades destruídas, pandemias,
guerras nucleares, regimes autoritários, catástrofes ambientais e máquinas se
voltando contra a humanidade com uma riqueza impressionante de detalhes (ainda
bem). Mas temos uma dificuldade enorme para imaginar sociedades verdadeiramente
diferentes da nossa. Mark Fisher popularizou, em Realismo capitalista, aquela
ideia famosa de que é mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do
capitalismo. Acho que parte do fascínio contemporâneo pela distopia vem
justamente daí, de como a gente consegue imaginar o mundo terminando, mas não
consegue imaginar o mundo mudando. É justamente aí que movimentos como o
solarpunk me parecem tão importantes, afinal eles lembram a gente que imaginar
alternativas também é um exercício político e criativo. E é nesse ponto que
vejo uma responsabilidade importante para quem trabalha com crítica de ficção
científica. Não acho que o papel do crítico seja apontar para uma obra e dizer
“Eita ferro! Tão vendo? Isso vai acontecer!”. Quando a gente faz isso, corremos
o risco de transformar a ficção científica numa espécie de horóscopo
tecnológico, em que o valor de uma história depende da quantidade de previsões
que ela acertou. Para mim, o mais interessante não é perguntar se Orwell,
Huxley ou Bradbury adivinharam o futuro, mas o que essas obras ainda conseguem
revelar sobre seu próprio tempo e também sobre o nosso presente.
A
crítica pode ajudar a construir essas pontes. Por exemplo, quando uma série
como Ruptura apresenta uma tecnologia capaz de separar as memórias pessoais das
profissionais, a discussão mais interessante não é se algum dia esse
procedimento será cientificamente possível, mas sim o que essa ideia revela
sobre a maneira como enxergamos o trabalho e sobre as violências que aceitamos
quando elas vêm embaladas por uma linguagem corporativa simpática. Quando
Gattaca fala de seleção genética, ela também está falando de meritocracia.
Quando Ex Machina fala de inteligência artificial, está falando de poder,
objetificação e controle. A tecnologia é a ferramenta narrativa, mas o objeto
de investigação continua sendo o ser humano.
Por
isso, acho que o papel da crítica não é entregar respostas prontas, mas ampliar
as perguntas que uma obra desperta na gente. Também é resistir a uma leitura
fatalista das distopias, porque existe um perigo em repetir o tempo inteiro que
estamos vivendo em 1984, em Admirável Mundo Novo ou em um episódio de Black
Mirror já que, a partir daí, a gente começa a tratar essas realidades como
inevitáveis, fora que a distopia deixa de funcionar como alerta quando passa a
funcionar como destino.
Analiso
essas histórias não porque acredito que elas necessariamente vão acontecer, mas
porque acredito que ainda podem ser evitadas (sim, existe otimismo nesse
coração). A ficção científica pode mostrar futuros terríveis, mas também lembra
a gente, mesmo que de maneira indireta, que todo futuro nasce de escolhas
feitas no presente. Se uma história consegue imaginar como uma sociedade chegou
ao pior cenário possível, ela também nos permite perguntar em que momento
aquele caminho poderia ter sido interrompido. E talvez a responsabilidade do
crítico, num momento em que a realidade parece tão distópica, seja justamente
devolver às pessoas essa sensação de possibilidade. Mostrar que tecnologia não
é uma força da natureza que simplesmente acontece conosco, que nenhum sistema é
inevitável e que o futuro não chega pronto. Ele é disputado, construído e,
muitas vezes, limitado pela nossa própria capacidade de imaginar alternativas.
A boa ficção científica não nos oferece apenas previsões. Ela amplia o nosso
repertório de possibilidades e, se existe uma responsabilidade para quem fala
sobre o gênero, acredito que não seja convencer as pessoas de que o futuro será
necessariamente pior. É lembrar que ele continua em aberto.
• O cinema brasileiro de ficção científica
sempre foi tratado como um gênero marginal, mas “Futuro Futuro”, de Davi Pretto
— grande vencedor do 58º Festival de Brasília —, prova que há uma vitalidade
pulsante no Sul. Você, que tem mapeado esse cenário no Futurices, como avalia o
momento atual da sci-fi brasileira? E o que ainda falta para que esses filmes
rompam a bolha dos festivais?
Gosto
muito dessa pergunta porque ela parte de uma ideia que me incomoda há um
tempão, que é a de que a ficção científica brasileira seria uma espécie de
“exceção” ou um fenômeno recente. Na verdade, acho que ela sempre existiu,
enquanto o que nem sempre existiu foi espaço para ela ser vista. Talvez a gente
esteja vivendo menos um momento em que a sci-fi brasileira finalmente nasceu e
mais um momento em que as pessoas começaram a prestar atenção nela. Quando a
gente olha para obras como Branco Sai, Preto Fica, Era Uma Vez Brasília, Divino
Amor, A Nuvem Rosa e, agora, Futuro Futuro, fica claro que existe uma produção
consistente acontecendo há anos. São filmes muito diferentes entre si, mas
todos parecem entender que a ficção científica brasileira não precisa tentar
reproduzir o imaginário gringo para funcionar. Existe uma expectativa muito
forte de que ficção científica precise ter cidades ultratecnológicas, naves
espaciais, alienígenas verdes melequentos, megacorporações ou robôs humanoides
para ser reconhecida como tal. Só que a ficção científica brasileira costuma
seguir outro caminho. Ela explora questões que já fazem parte da nossa
experiência cotidiana, como desigualdade, violência, religião, memória,
mudanças climáticas, território, relações de trabalho, e pergunta como elas
podem se transformar nas próximas décadas. Não é uma ficção científica que
abandona o Brasil para imaginar o futuro; é uma ficção científica que pergunta
como o Brasil continuará sendo Brasil no futuro. E, para mim, isso é muito mais
interessante do que simplesmente tentar reproduzir modelos estrangeiros. Acho
que Futuro Futuro conversa justamente com esse movimento. Pelo que conheço da
proposta do filme, ele usa elementos clássicos da ficção científica, como
inteligência artificial e manipulação da memória, para falar de questões
profundamente brasileiras e contemporâneas. Isso me parece um ótimo exemplo de
como o gênero pode ser usado não para escapar da nossa realidade, mas para
enxergá-la de outro ângulo. Também acho interessante observar que muitos desses
filmes surgem a partir de um olhar muito localizado. Eles não tentam esconder o
sotaque, o território ou os conflitos sociais em nome de uma suposta
universalidade. E, ironicamente, talvez seja justamente isso que torne essas obras
universais, afinal, eu acredito muito que, quanto mais uma obra parte de uma
experiência concreta, mais ela consegue dialogar com outras realidades e
pessoas.
Sobre
romper a bolha dos festivais, eu confesso que não acredito que exista uma
resposta simples. Claro que financiamento e políticas públicas são
fundamentais, mas, para mim, existe um problema que começa antes mesmo da
produção, que é o nosso “imaginário”. Como falei de início, durante décadas,
fomos ensinados a associar ficção científica a determinados cenários,
principalmente norte-americanos. Aliás, o heliporto oficial dos ETs parece ser
Nova York, né? Que coisa… Então, quando um filme se passa em Porto Alegre,
Recife, Ceilândia ou Belém e usa a ficção científica para falar dessas
realidades, parte do público simplesmente não reconhece aquilo como ficção
científica. Também acho que a forma como comunicamos esses filmes faz
diferença. Muitas vezes, eles chegam ao público apresentados primeiro como
“vencedores de festivais”, quando talvez o que despertasse curiosidade fosse
justamente a premissa. Se alguém me diz que um filme ganhou um prêmio
importante, eu fico feliz por ele, mas, se alguém me diz que existe um filme
brasileiro sobre uma inteligência artificial capaz de reconstruir memórias em
um país devastado pela crise climática, eu já estou com “coquinha” e pipoca na
mão. No fim das contas, eu sou bastante otimista com o momento da ficção
científica brasileira (sim, existe otimismo nesse coração, de novo). Tenho a
impressão de que ela está cada vez menos preocupada em provar que consegue
fazer o que Hollywood faz e cada vez mais interessada em descobrir o que só ela
pode fazer, a partir do seu território, da sua história e das suas próprias
experiências. E talvez seja justamente aí que esteja a sua maior potência. Não
em tentar produzir uma ficção científica “com sotaque brasileiro”, mas em
entender que o Brasil, com todas as suas contradições, já é um excelente ponto
de partida para imaginar o futuro.
• Ao divulgar o Amazofuturismo e ao
valorizar autores como Rogério Pietro, você se conecta a um movimento que pensa
o futuro a partir da Amazônia, e não do Vale do Silício. Como você vê a relação
entre a ficção científica latino-americana e a tradição europeia/norte-americana?
Existe uma “sci-fi do Sul Global” com identidade própria?
Confesso
que fico um pouco cabreira quando a gente fala em “uma ficção científica do Sul
Global”, porque parece que estamos colocando debaixo do mesmo guarda-chuva
experiências culturais extremamente diferentes. A América Latina, a África, o
Sudeste Asiático e tantos outros lugares compartilham algumas marcas
históricas, como a colonização e diferentes formas de desigualdade, mas isso
não significa que imaginem o futuro da mesma maneira. Então, se existe uma
sci-fi do Sul Global, acho que ela é muito menos uma identidade única e muito
mais uma conversa entre diferentes formas de imaginar o amanhã. Ao mesmo tempo,
também acho que existe um ponto de encontro entre essas obras. Durante muito
tempo, boa parte da ficção científica que circulou pelo mundo foi produzida a
partir de países que ocupavam posições centrais na economia, na indústria e na
tecnologia. Isso acabou moldando o nosso próprio imaginário sobre o futuro. A
gente cresceu acreditando que ele sempre teria sotaque norte-americano ou
europeu, aconteceria em megacidades ultratecnológicas e seria conduzido pelas
mesmas referências culturais que já conhecíamos. Só que isso nunca foi uma
regra da ficção científica, mas sim uma consequência de quem teve mais espaço
para publicar, filmar, distribuir e exportar suas histórias. Talvez por isso eu
ache tão interessante o momento que estamos vivendo. Não porque exista uma
disputa para decidir qual visão de futuro vai substituir a outra, mas porque
finalmente começamos a enxergar que existem muitos futuros possíveis. Eu não
quero um mundo sem Blade Runner, sem Ursula K. Le Guin ou sem Isaac Asimov.
Quero um mundo em que essas histórias possam conviver com o Amazofuturismo, com
o Afrofuturismo, com a ficção científica indígena, andina, caribenha e tantas
outras formas de imaginar o amanhã. Ora, quanto mais perspectivas diferentes a
gente coloca em diálogo, mais rica a ficção científica se torna, não? É
justamente isso que mais me encanta no Amazofuturismo. Ele não propõe apenas
uma estética diferente ou um cenário diferente. Ele muda o ponto de partida da
imaginação.
Em vez
de perguntar como seria a Amazônia se ela reproduzisse o mesmo modelo
tecnológico do Vale do Silício, ele faz uma pergunta muito mais interessante: e
se o futuro fosse pensado a partir da própria Amazônia? A partir dos
conhecimentos produzidos por quem vive aquele território, da relação com a
floresta, das cosmologias indígenas, das comunidades ribeirinhas e de outras
formas de produzir ciência e tecnologia que, durante muito tempo, foram
tratadas como se não fossem conhecimento. Isso conversa muito com uma ideia que
gosto bastante e que aparece em diferentes áreas do pensamento contemporâneo:
tecnologia não é só aquilo que sai de um laboratório ou de uma startup. Ela
também nasce da forma como uma sociedade aprende a resolver problemas,
transmite conhecimento e constrói sua relação com o mundo. Talvez seja
justamente aí que a ficção científica latino-americana encontre uma identidade
muito interessante. Não porque ela rejeite a tradição europeia ou
norte-americana, mas porque ela amplia essa conversa. Em vez de imaginar um
único caminho para o futuro, ela lembra que existem muitos e que esses caminhos
dependem da história, da cultura, da geografia e das perguntas que cada
sociedade decide fazer. No fundo, acho que a maior contribuição desses movimentos
não é imaginar tecnologias diferentes. É imaginar perguntas diferentes.
Durante
muito tempo, a ficção científica perguntou como seria o futuro da humanidade.
Movimentos como o Amazofuturismo também nos convidam a perguntar de qual
humanidade estamos falando, e isso é uma mudança muito poderosa, porque ela
amplia o nosso repertório de futuros possíveis sem apagar aqueles que já
existiam. Se na resposta anterior eu dizia que a boa ficção científica amplia o
nosso repertório de possibilidades, talvez aqui eu complete dizendo que ela
também amplia o nosso repertório de referências e isso faz toda a diferença.
Afinal, quando só um grupo imagina o futuro, o risco é que a gente comece a
acreditar que existe apenas um jeito de chegar até ele. Quando mais vozes
entram nessa conversa, o futuro deixa de ser um destino único e passa a ser um
espaço de disputa, criação e diversidade.
• Você é crítica de cinema, mas também
videomaker, fotógrafa e arquiteta de formação. O olhar que constrói o Futurices
é um olhar híbrido, que entende a imagem como linguagem total. Existe, na sua
trajetória, uma tensão entre a crítica — que analisa o que já foi feito — e a
criação — que propõe algo novo? Ou essas duas dimensões se alimentam?
Adorei
essa pergunta porque ela me fez pensar em uma tensão que eu nunca tinha
nomeado, mas que realmente existe. Acho que criar e criticar são atividades que
vivem em diálogo dentro da minha cabeça, e nem sempre esse diálogo é pacífico.
Eu
nunca me apresentei como crítica de cinema. Sempre gostei mais da ideia de
alguém que usa filmes, séries, livros e jogos como ponto de partida para pensar
o mundo. Mas, olhando para trás, eu percebo que, enquanto analisava essas
obras, também estava aprendendo a criar. O Futurices nunca foi só um espaço
para comentar filmes, séries ou livros. Cada vídeo exige pesquisa, escrita,
roteiro, direção, fotografia, gravação, edição, thumbnail, escolha de trilha,
ritmo, enquadramento… Na maior parte do tempo, eu faço tudo isso sozinha. De
certa forma, ser criadora de conteúdo hoje é ser uma pequena produtora
independente e isso muda completamente a forma como enxergo o trabalho criativo
dos outros.
Antes
eu analisava principalmente o resultado. Hoje eu também consigo imaginar os
bastidores. Quando vejo uma solução de montagem muito elegante, uma fotografia
bonita ou um roteiro que parece simples, eu penso em todas as escolhas,
perrengues, tentativas e versões que provavelmente existiram até aquilo chegar
na tela. Então, eu diria que criar me deixou muito menos interessada em apontar
erros e muito mais interessada em entender escolhas. É claro que produzir um
vídeo para o YouTube é muito diferente de realizar um longa-metragem, mas,
guardadas as proporções, o processo criativo também é feito de decisões,
tentativas e revisões constantes.
Ao
mesmo tempo, a crítica também interfere na criação. Quanto mais repertório a
gente acumula, mais difícil fica desligar essa voz que está constantemente
analisando tudo. Às vezes, ela é uma grande aliada. Me ajuda a perceber quando
um argumento está confuso, quando um vídeo perdeu ritmo ou quando uma ideia
ainda não amadureceu. Outras vezes, ela aparece cedo demais e começa a julgar
um roteiro antes mesmo de ele ter tido a chance de existir (inclusive, ela está
aqui comigo agora, a danada). Acho que todo mundo que trabalha com criatividade
conhece um pouco essa sensação.Talvez por isso eu tenha aprendido que existe um
momento para analisar e outro para criar. Quando estou escrevendo, tento deixar
a curiosidade falar mais alto do que a autocrítica. A análise vem depois,
quando já existe alguma coisa construída. Se a crítica chega cedo demais, ela
corre o risco de impedir que uma ideia floresça. A arquitetura também me
ensinou bastante sobre isso. Existe uma ideia muito presente na formação de um
arquiteto de que forma e função não competem entre si. Elas se transformam
mutuamente. Acho que levo esse pensamento para tudo o que faço. Um vídeo não é
só o texto que está sendo dito. É também o ritmo da edição, a fotografia, a
trilha, os silêncios, os memes, as “piadinhas de tiozão” que quebram um
raciocínio mais denso, a forma como uma imagem conversa com a outra. A
linguagem audiovisual é feita dessas camadas, e talvez por isso eu nunca tenha
conseguido separar completamente análise e criação.
No fim
das contas, eu percebo que elas fazem perguntas diferentes sobre o mesmo
objeto. A crítica tenta entender por que uma obra produz determinado efeito. A
criação tenta produzir esse efeito em outra pessoa. As duas exigem observação,
repertório e sensibilidade. As duas começam do mesmo lugar, que é a
curiosidade.
Então,
sim, existe uma tensão. Elas vivem batendo boca aqui na minha cabeça. Mas,
sinceramente, eu acho que o Futurices só existe justamente porque nenhuma das
duas conseguiu vencer essa discussão.
• Por fim, e pensando no que discutimos
com Sabrina Fernandes sobre o colapso do capitalismo e com Donatella Di Cesare
sobre o tecnofascismo: em um Brasil onde as plataformas digitais são dominadas
por algoritmos que premiam o sensacionalismo, qual é o papel de quem produz
conteúdo sobre cultura, cinema e pensamento crítico? Ainda é possível furar a
bolha sem se render à lógica dos cliques?
Acho
que existe uma ideia muito difundida de que, na internet de hoje, a gente
precisa escolher entre fazer conteúdo profundo ou fazer conteúdo que alcance
pessoas. Como se pensamento crítico e comunicação acessível fossem
incompatíveis. Eu nunca acreditei muito nessa divisão. É claro que as
plataformas digitais influenciam a forma como a gente consome informação. Os
algoritmos tendem a privilegiar aquilo que desperta reações rápidas,
indignação, certezas absolutas e conflito. Não porque tenham uma intenção
política própria, mas porque esse tipo de conteúdo costuma manter as pessoas
engajadas por mais tempo. Talvez por isso o tal do rage bait tenha virado quase
um gênero da internet. Parece que, hoje, provocar uma reação vale mais do que
provocar uma reflexão. O problema é que, quando essa lógica se torna dominante,
existe um risco enorme de a complexidade parecer um defeito. Afinal, explicar
costuma dar mais trabalho do que simplificar. Fazer uma pergunta costuma render
menos cliques do que oferecer uma resposta definitiva. Talvez por isso eu veja
o papel de quem produz conteúdo sobre cultura de uma forma um pouco diferente.
Eu nunca enxerguei filmes, livros ou séries só como entretenimento. Eles são
maneiras de pensar. São espaços onde a gente pode experimentar ideias,
questionar valores e imaginar outros modos de viver antes mesmo que eles
existam no mundo real. E, curiosamente, acho que isso conversa muito com a
própria ficção científica, afinal, ela lembra que aquilo que hoje parece
inevitável já foi imaginado de muitas outras formas. No Futurices, eu sempre
tento partir desse lugar.
Fonte:
Por Thiago Gama, em Outras Palavras

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