quarta-feira, 29 de julho de 2026

Milei, mais do que um conflito com Lula

A interferência de Milei no Brasil não é um simples conflito bilateral, mas parte de um movimento global que ecoa o intervencionismo de Trump.

A relação entre Argentina e Brasil esteve à beira do colapso. Os insultos de Javier Milei dirigidos a Lula da Silva e ao ministro do Supremo Tribunal Federal, Alexandre de Moraes, causaram grande desconforto em Brasília. Esse desconforto se manifestou na convocação do embaixador brasileiro Julio Bitelli para consultas. Bitelli, um conhecido de longa data da Argentina, está servindo no país pela terceira vez. Seu temperamento e profissionalismo o tornaram a figura ideal para gerir uma relação perpetuamente tensa pela antipatia entre os presidentes e pelo temperamento volátil de Milei. Há um precedente para esse conflito: a convocação do embaixador da Espanha em Buenos Aires pelo governo de Pedro Sánchez, que nunca retornou. Isso também se deveu à participação de Milei em eventos de oposição ao governo socialista, onde ele insultou o primeiro-ministro e sua esposa. Presume-se que, dada a proximidade e a estreita rede de interesses em comum, os brasileiros não retirarão seu embaixador.

Um fator que complica ainda mais a resolução desse conflito é o estilo do governo argentino. Ninguém se atreve a moderar os desabafos emocionais de Milei. Nem mesmo sua irmã. O ministro das Relações Exteriores, Pablo Quirno, que é mais um defensor da confrontação e da benevolência, também se mostra hesitante. Qual será o papel de Diego Santilli em seu novo cargo? Ele se arriscará a recomendar que as coisas voltem aos trilhos?

Milei viajou ao Brasil para se juntar à campanha presidencial de Flávio Bolsonaro. Ele é filho do ex-presidente Jair Bolsonaro, que está preso sob a acusação de orquestrar a tentativa de golpe de Estado de 8 de janeiro de 2023. Milei tentou visitar Jair, mas o juiz Moraes restringiu as visitas ao ex-presidente. Discursando no Estádio do Pacaembu, onde a candidatura presidencial de Flávio Bolsonaro estava sendo oficialmente reconhecida, Milei proferiu uma mensagem de raiva, chamando o juiz de "lixo careca". Ele então lembrou que as visitas eram permitidas quando Lula da Silva estava preso, inclusive a do "vergonhoso ex-presidente Alberto Fernández".

Uma série de reações a Milei começou a surgir do Brasil. A mais significativa veio de Luiz Edson Fachin, presidente do Supremo Tribunal Federal, que pediu respeito às instituições brasileiras. Edinho Silva, presidente do PT, partido governista, também afirmou ser inaceitável que um presidente estrangeiro visite o país e trate suas autoridades legítimas com desrespeito.

Milei também se manifestou contra Lula, chamando-o de "totalitário", "ladrão" e "presidiário". Ele fez algo talvez ainda mais ofensivo: disse que, assim como existe um "risco kirchnerista" na Argentina, existe um "risco lula" no Brasil, o que é evidente no mercado de ações. Lula está concorrendo à reeleição. Segundo as últimas pesquisas, ele tem 48% das intenções de voto, contra 43% para Bolsonaro Jr.

A controvérsia entre Milei e Lula já dura um longo tempo. A novidade neste caso foi a inclusão de um ministro da Suprema Corte em seus insultos. A contradição começou quando Lula visitou Joe Biden e lhe disse que "a democracia está em perigo na Argentina". Ele não mencionou Milei, mas Milei liderava as pesquisas. Essa situação foi agravada pela adição à campanha de Sergio Massa da equipe que havia gerenciado a própria campanha de Lula. Milei interpretou isso como se Lula tivesse enviado essa equipe.

O presidente brasileiro já havia participado de campanhas na Argentina, principalmente na de Daniel Scioli em 2015. Lula percorreu a região metropolitana de Buenos Aires com o candidato e então presidente Cristina Kirchner, sob o pretexto de que Scioli estava inaugurando unidades de primeiros socorros nos moldes das existentes no Brasil. Mais tarde, Scioli atuou como embaixador no governo Lula e, posteriormente, representou a Argentina no governo Bolsonaro. Fiel ao seu estilo, ele mudava seu círculo de amizades conforme a época. Esses laços com o movimento Kirchner continuaram com a visita de Fernández a Lula na prisão. O ex-presidente argentino juntou-se a uma lista simbólica de advogados de Lula e pressionou o Papa Francisco para que denunciasse uma operação jurídica fraudulenta contra o brasileiro, iniciativa que o Papa acatou.

Uma vez no poder, Milei fez repetidamente comentários ofensivos sobre Lula. Estes só foram atenuados por períodos de silêncio impostos por meio de enormes esforços diplomáticos. Lula, por sua vez, permitiu-se algumas declarações, ainda que discretamente. Durante a campanha de Milei contra Paolo Rocca, ele apareceu ao lado do chefe da Techint, que inaugurava uma das escolas técnicas que a empresa costuma construir, em um bairro operário do Rio de Janeiro.

Seria um erro entender a ação de Milei no Brasil como apenas mais um episódio em uma relação bilateral bastante tensa. Ela faz parte de um movimento internacional mais amplo. Em princípio, ecoa ações semelhantes de Donald Trump, que vem intervindo na política interna brasileira de maneira bastante desinibida. Quando os ministros do Supremo Tribunal Federal estavam prestes a indiciar Bolsonaro, Trump aumentou as tarifas sobre produtos brasileiros importados para os Estados Unidos, explicando que o fazia para vingar seu amigo. Ele também está participando da atual fase da campanha, a começar por ter recebido o candidato Flávio Bolsonaro para uma espécie de pequeno evento de campanha no Salão Oval.

No Brasil, há um debate sobre o custo dessa afinidade. O Partido dos Trabalhadores (PT) argumenta que o apoio de Trump a Bolsonaro acarreta diversas consequências caso a direita retome o poder. A mais significativa é o endurecimento das relações com a China. Outra é uma política altamente favorável ao acesso de empresas americanas à mineração, especialmente de terras raras. Além disso, há a isenção de tarifas para a entrada do etanol americano no mercado brasileiro, o que seria uma concessão muito prejudicial para um setor crucial da economia do país sul-americano.

Na segunda-feira, a situação tomou um rumo significativo: o governo chinês divulgou uma declaração de Xi Jinping em apoio ao Brasil. Ele afirmou o direito da China de não tolerar interferências externas e elogiou o papel do Brasil na manutenção do equilíbrio regional e global. Pequim compreende claramente que esse conflito interno entre dois líderes do Mercosul é uma luta pelo poder e influência entre duas grandes potências da América Latina: os Estados Unidos e a própria China. Vale lembrar que o Brasil é parceiro da China no grupo BRICS, do qual a Argentina de Milei optou por não fazer parte.

Uma questão pragmática diz respeito ao que é melhor para Milei: se o governo brasileiro cair nas mãos da extrema-direita, isso aumentará ou diminuirá seu poder na região? Uma resposta mais ou menos óbvia é que a influência relativa de Milei depende de o gigante brasileiro não ser liderado por um apoiador de Trump como ele.

Milei está se unindo a esse movimento ao estilo Bolsonaro, que faz parte de um plano mais amplo: criar uma liga de governos de direita com uma identidade dupla quase explícita: pró-Trump, anti-Lula. Essa iniciativa, formulada por Santiago Caputo, deve ser colocada em prática nos próximos dias, com a viagem de Milei ao Peru para a posse de Keiko Fujimori na próxima terça-feira. No dia 7 de agosto, ele estará na Colômbia para se encontrar com o recém-eleito presidente, Abelardo de la Espriella. Embora a data ainda não tenha sido definida, Milei também planeja viajar ao Equador para se encontrar com Daniel Noboa.

A grande questão a ser respondida é qual o efeito da "importação" da política de outros países para o cenário local. Em outras palavras, quais seriam as consequências para Milei de uma vitória de Lula nas eleições brasileiras em outubro, ou de uma vitória republicana nas eleições de novembro nos Estados Unidos? Ainda mais preocupante é a questão das consequências de uma derrota em qualquer um dos casos, que é o que as pesquisas de opinião vêm prevendo. Um detalhe revelador: Milei tinha duas viagens planejadas para os Estados Unidos para participar de grandes comícios. Uma para o feriado de 4 de julho e outra para a cerimônia de encerramento da Copa do Mundo. Em ambos os casos, ele optou por cancelar, e suspeita-se que isso possa ter sido para evitar vaias devido aos seus laços estreitos com Trump.

•        Redes sociais de Milei são invadidas por críticas ao argentino e defesa de Lula

As redes sociais do presidente argentino Javier Milei foram invadidas por comentários em defesa dos presidente Lula e críticas ao argentino na segunda-feira (27). Milei, que chamou Lula de “ladrão”, “presidiário” e “lixo socialista” durante o lançamento da pré-candidatura do senador Flávio Bolsonaro no sábado (25), fez uma série de posts no X na segunda-feira (27) e no Instagram com referências ao presidente Lula.

No Instagram, as postagens de Milei receberam diversas respostas, tanto em português como em espanhol, de defesa de Lula, da soberania e da democracia brasileiras. Algumas respostas faziam referência à fala do ministro da Fazenda, Dario Durigan, que chamou o presidente argentino de “palhaço”, na segunda-feira (27).

Em comentário, uma internauta fez referência às denúncias de que o presidente argentino usou dinheiro público para comparecer à convenção de Flávio Bolsonaro: “Obrigada por pegar o dinheiro público da Argentina para ajudar na campanha da seita bolsonarista!”.  Outras respostas chamaram Milei de “lambe-botas” dos Estados Unidos: “Lambe botas dos Estados Unidos. Vira latas fanático”.  A frase de Lula sobre Milei — “Quem é esse cara?” — também foi usada por comentadores.

No X, Milei retuitou publicações de aliados que fizeram referência às acusações de que teria havido interferência  brasileira na eleição presidencial argentina de 2023. Na época, Milei acusou Lula, sem apresentar provas, de financiar a campanha do adversário, apesar de estrategistas de diversos países também terem atuado no processo eleitoral. Entre as postagens republicadas está a do analista financeiro Dario Epstein, aliado de Milei, que relembrou o apoio político de Lula a Massa durante a disputa de 2023 e as críticas feitas pelo presidente brasileiro ao argentino em 2024.

Ao longo dos últimos anos, Milei classificou Lula como comunista e corrupto, o que deteriorou a relação entre os dois líderes. Em junho de 2024, Lula chegou a afirmar que o argentino deveria pedir desculpas pelas ofensas, mas Milei respondeu que havia assuntos mais importantes do que “o ego inflado de algum esquerdista”.

•        ‘Sempre houve insultos de ambos os lados’, diz porta-voz de Milei sobre crise com Lula

O porta-voz da Casa Rosada afirmou nesta terça-feira (28) que “sempre houve insultos de ambos os lados” ao comentar a crise entre Argentina e Brasil após o presidente Javier Milei chamar Luiz Inácio Lula da Silva (PT) de ladrão durante o lançamento da candidatura de Flávio Bolsonaro (PL), em São Paulo.

“Se tomarmos o caso do Brasil, é evidente que sempre houve insultos de ambos os lados. Penso que se tratam de diferenças ideológicas e políticas, mas a Argentina nunca levou essas diferenças para o âmbito diplomático”, afirmou Adrian Ravier, porta-voz do ultraliberal.

“Milei é um dos principais líderes do movimento que busca promover ideias pró-mercado. Os Bolsonaros, no Brasil, são amigos e aliados nessa ideia. Lula se opõe a essa ideia, e creio que as diferenças são claras e fazem parte de uma questão ideológica e política, mas não acreditamos que isso impactará as relações diplomáticas entre os dois países, ou pelo menos não do lado argentino”, continuou.

A declaração foi dada em resposta a uma pergunta sobre a suposta participação financeira de Brasil, México e o Partido Democrata, dos Estados Unidos, na onda anti-Argentina que tomou conta das redes sociais na Copa do Mundo. A acusação foi feita sem provas por Milei no domingo (26), em entrevista a uma rádio local.

“Vocês sabem quem investiu mais dinheiro nessa campanha anti-Argentina? O governo brasileiro”, afirmou o ultraliberal na ocasião, sem apresentar qualquer evidência. “Vinte e cinco por cento dos recursos vieram do governo brasileiro. E depois eles vêm falar em interferência.”

A declaração parece fazer parte de uma estratégia do governo de tentar responsabilizar a oposição e críticos em geral pelo fenômeno -tese que o porta-voz repetiu nesta terça, embora o próprio Milei seja uma das causas da impopularidade do país.

“Existe uma hipótese de que a esquerda esteja, de alguma forma, fomentando essa campanha anti-Argentina para minar a ideia de que o modelo argentino consegue tirar as pessoas da pobreza, da miséria, reduzir a inflação, gerar produção e exportações recordes, e assim por diante”, afirmou o porta-voz nesta terça, sem dar uma fonte das acusações do presidente, como havia solicitado o jornalista.

 

Fonte: Por Carlos Pagni, no El País/ICL Notícias

 

Nenhum comentário: