‘Falar
de agroecologia é falar de autonomia no campo’, diz Olga Muthambe
Em
Moçambique, país localizado no sudeste da África, mais de 1,6 mil mulheres
integram programas de práticas agroecológicas nas províncias de Maputo, Gaza
(ambas ao sul), Tete (centro) e Cabo Delgado (extremo norte). As ações são
conduzidas pela ONG Hikone Moçambique, uma associação da sociedade civil,
fundada em 2013, que busca empoderar
mulheres no campo. A entidade procura trabalhar sobretudo com
moçambicanas em situação de vulnerabilidade social.
O
deslocamento da população local, com implicações para os seus meios de
subsistência, a expropriação e a concentração de recursos e da terra estão
entre os efeitos negativos mais comumente identificados como desdobramentos do
extrativismo, que muitas vezes consiste na apropriação da natureza por meio da
exploração do trabalho.
Segundo
a Hikone Moçambique, o extrativismo ainda fragiliza a soberania alimentar e
agrava desigualdades, afetando desproporcionalmente as mulheres — que perdem
alternativas de geração de renda.
A
Hikone foi cofundada pela ativista social moçambicana Olga Muthambe, atual
diretora-executiva da organização. Feminista, praticante de desenvolvimento
comunitário, professora autodidata e mãe de sete filhos, ela possui mais de 30
anos de experiência no trabalho com comunidades rurais. Na década de 1990,
Muthambe trabalhou com mulheres e jovens em projetos de reabilitação após os
anos da guerra civil de Moçambique (1977-1992), coordenando iniciativas para
garantir segurança alimentar.
Décadas
depois, em 2021, com o prolongamento de
outro conflito armado em Cabo Delgado, a ONG expandiu seu trabalho para apoiar
mulheres afetadas pela violência e pelo deslocamento forçado — que, só nessa
província, afetou cerca de um milhão de pessoas.
Ao
longo da sua trajetória, a entidade desenvolveu trabalhos com mais de 5 mil
mulheres por meio de diferentes frentes, incluindo capacitações, encontros
comunitários e seminários em todo o Moçambique.
Em
2025, Muthambe também esteve no Brasil para o 2º Encontro da Articulação
Nacional Mulheres e Clima, organizado pelo governo brasileiro como parte das
metas governamentais de enfrentamento à crise climática até 2035.
A
Mongabay conversou com a diretora-executiva da Hikone Moçambique sobre o
cenário social do país africano, os desafios enfrentados pela ONG e o papel da
agroecologia na inclusão de mulheres que vivem em diferentes contextos de
vulnerabilidade.
LEIA A
ENTREVISTA:
• Que tipo de agroecologia as mulheres
praticam nos projetos da Hikone em Moçambique?
Olga
Muthambe: As mulheres praticam uma agroecologia baseada nos princípios da
sustentabilidade, da diversidade produtiva e da valorização dos conhecimentos
locais e tradicionais. Em pequenas parcelas de terra e nos seus quintais,
cultivam diferentes culturas alimentares, hortícolas, plantas medicinais e
frutíferas, utilizando métodos que respeitam a natureza e promovem a
conservação do solo, da água e da biodiversidade.
Para
estas mulheres, a agroecologia é muito mais do que produção de alimentos ou um
meio de sustento. Falar de agroecologia é falar de mobilização, autonomia,
liberdade, solidariedade e sustentabilidade. É uma forma de resistência e de
construção de alternativas diante dos impactos do extrativismo, da perda de
terras e de territórios, das desigualdades sociais, das mudanças climáticas e
dos conflitos armados. Através da agroecologia, as mulheres fortalecem a sua
capacidade de organização coletiva e de defesa dos seus direitos e meios de
vida.
• Quais benefícios essa prática acrescenta
a quem a pratica?
Em
primeiro lugar, [a atividade] contribui para a segurança alimentar e
nutricional, garantindo maior
diversidade de alimentos saudáveis e livres de produtos químicos. Além disso,
fortalece a autonomia econômica das mulheres por meio da venda de excedentes
agrícolas, reduzindo a dependência de insumos externos e aumentando a
capacidade de geração de renda. A agroecologia também promove a preservação dos
recursos naturais, melhora a fertilidade do solo, protege a biodiversidade e
aumenta a resiliência das comunidades diante das mudanças climáticas. Também há
o fortalecimento da liderança feminina, da solidariedade e da organização
coletiva. Os espaços agroecológicos tornam-se locais de aprendizagem, troca de
experiências, apoio mútuo e mobilização social para a defesa dos direitos das
mulheres e dos seus territórios.
• No geral, quais problemas levaram essas
mulheres a adotar as práticas agroecológicas?
A
adoção da agroecologia surgiu como resposta aos diversos desafios enfrentados
pelas mulheres rurais, especialmente as que vivem em áreas afetadas pelo
extrativismo e pelos conflitos armados. Entre os principais problemas estão a
perda de terras agrícolas para projetos extrativistas, a degradação ambiental,
a redução da fertilidade dos solos, os impactos das mudanças climáticas, a
insegurança alimentar e a limitação de oportunidades econômicas para as
mulheres.
[Muthambe
destacou o prolongado conflito armado na província de Cabo Delgado, iniciado
por grupos insurgentes e fundamentalistas religiosos em outubro de 2017. A
crise deu origem a uma onda de assassinatos, sequestros e queima de habitações,
causando a morte de mais de 6,6 mil moçambicanos e deslocando cerca de um
milhão de civis, segundo estimativas]. Com o deslocamento da população, perda
de bens de produção e dificuldades de acesso aos meios de subsistência, as
mulheres identificaram a agricultura [como estratégia] e a Hikone sensibilizou
os coletivos de mulheres a aderirem à agroecologia, como uma alternativa para
superarem as dinâmicas do extrativismo e conflito armado, produzindo de forma
coletiva em pequenas áreas para conseguirem ter comida no prato, alimentos sem
agrotóxicos e saudáveis, recuperarem a sua autonomia, fortalecer a produção
local de alimentos, proteger os recursos naturais e reconstruir as suas vidas e
comunidades.
• E qual a ligação entre as vítimas do
extrativismo, os casos de terrorismo armado e a agroecologia?
Com o
terrorismo em Cabo Delgado, famílias ficavam em centros de acolhimento. Foi nos
centros onde encontramos as mulheres, em um cenário de desespero e trauma
total. Para nós, não era a melhor opção ficarem lá, naquela situação. Assim,
focamos na terapia comunitária, que foi o nosso instrumento de trabalho. Por
meio desse instrumento de trabalho, ‘despertamos’ as mulheres para que não
vivessem emocionalmente traumatizadas e dependentes de ajuda. Elas
‘despertaram’, ganharam autoestima e começaram a buscar alternativas de
sobrevivência. Foi assim que se identificaram com a agricultura.
Concordamos
com a opção delas, mas excluímos os agrotóxicos, por serem prejudiciais. Como
alternativa para acabar com as pragas, procuramos estabelecer uma agricultura
com os saberes tradicionais ensinados pelos antepassados. As mulheres ganharam
consciência ao apostar na agroecologia para evitar o consumo de alimentos com
produtos químicos.
[para
sensibilizar sobre o não uso de agrotóxicos]. No caso das mulheres vítimas do
terrorismo em Cabo Delgado, explicamos que era difícil adquirir adubo e
destacamos os benefícios da agroecologia para a saúde. Já as mulheres que
receberam compensações e reassentamentos, vítimas de extrativismo, por exemplo,
ficaram dependentes do que tinham recebido.
Quando
a compensação foi esgotada, elas tinham apenas as casas de reassentamento e
reclamaram [que precisavam de mais] terra para produção [agrícola]. [Como
sensibilização para promover a autonomia, neste caso] Nós as desafiamos e
incentivamos a praticar agroecologia nos seus quintais. Era uma alternativa
distante dos seus pensamentos porque estavam habituadas ao cultivo feito nas
machambas [pequenos terrenos para agricultura de subsistência, muitas vezes de
propriedade do Estado e de uso comunal por membros da mesma família].
• Como o conhecimento agroecológico é
transmitido a essas mulheres?
O
conhecimento agroecológico é transmitido por meio de processos de educação
popular e de aprendizagem coletiva. As mulheres aprendem umas com as outras por
meio de intercâmbios de experiências, escolas de campo, sessões práticas nos
locais de produção, demonstrações comunitárias e visitas de aprendizagem entre
diferentes coletivos, troca de experiências.
Também
são valorizados os conhecimentos e saberes tradicionais das mulheres mais
velhas, que partilham o que aprenderam e sabem sobre a preparação de composto e
inseticidas naturais, conservação de sementes locais, técnicas de cultivo,
conservação dos alimentos e gestão sustentável dos recursos naturais. A
metodologia privilegia o “aprender fazendo”, combinando conhecimentos
tradicionais com novas práticas agroecológicas adaptadas às realidades locais.
Este processo fortalece a confiança, a solidariedade e a liderança das mulheres
em suas comunidades.
• Até que ponto a Hikone sente que
consegue atingir os seus objetivos enquanto organização?
Os
resultados mais visíveis têm sido observados na área da agroecologia. As
mulheres produzem alimentos para o consumo familiar e para o comércio,
melhorando a segurança alimentar e gerando renda. Os coletivos de agroecologia
mantêm uma rede ativa de comunicação através de grupos de WhatsApp, onde
partilham experiências, desafios, soluções e sucessos relacionados com a
produção agrícola, fortalecendo a aprendizagem coletiva. Entre as mulheres
deslocadas pelo conflito armado, há mudanças importantes. Muitas, que
anteriormente dependiam exclusivamente de assistência humanitária, hoje estão
empenhadas em recuperar os seus meios de subsistência, solicitando apoio para
cultivar a terra, produzir alimentos saudáveis e reconstruir as suas economias
tradicionais. Na área da alfabetização de adultos, os resultados também são
significativos: muitas mulheres aprenderam a ler e escrever, ganharam maior
autonomia, passaram a assinar os seus próprios documentos, incluindo carteiras
de identidade e passaportes. Elas conseguem se deslocar de forma independente.
• Qual é a visão para o futuro?
A longo
prazo, a Hikone pretende consolidar coletivos de mulheres praticantes de
agroecologia cada vez mais fortes, organizados em cooperativas, com maior
capacidade produtiva e acesso a rendimentos estáveis e dignos. A organização
pretende igualmente fortalecer os coletivos de mulheres comerciantes informais,
promovendo a sua organização em cooperativas, o trabalho coletivo, o acesso a
mercados e o aumento dos seus rendimentos. Outro objetivo estratégico consiste
em ampliar a liderança das mulheres na defesa de seus direitos, na proteção dos
territórios, na adaptação às mudanças climáticas e na construção de comunidades
mais justas, resilientes e pacíficas.
Fonte:
Mongabay

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