Os
lesa-pátria bolsonaristas
Nunca
houve na história do Brasil ruptura instauradora que interrompesse nossa
herança de extermínio de indígenas, escravocata, colonial, neocolonial e da
elite do atraso. Elas ocuparam o poder político desde o império e jamais foram
apeadas dele. As mudanças havidas nunca trocaram a natureza deste poder que
sempre foi elitista excludentee anti-popular, frustrando o
projeto-Brasil-de-todos.
Os
poderosos, em tempo algum, reconheceram os direitos dos injustamente humilhados
e os empurraram para a marginalidade, onde pensam que lá é seu lugar natural.
São as elites do atraso no justo dizer do sociólogo Jessé Souza.
O
inconformismo popular foi sempre reprimido com extrema violência a ponto de o
historiador mulato Capistrano de Abreu ter dito rudemente que “o povo foi
capado e recapado, sangrado e ressangrado”.
Não
obstante e contra a vontade destas elites, criou-se aqui, ao longo de cinco
séculos, um experimento civilizacional singular.
No
dizer do saudoso historiador José Honório Rodrigues, “somos uma república
mestiça, étnica e culturalmente. Não somos europeus nem latinoamericanos. Somos
tupinizados, africanizados, orientalizados e ocidentalizados. A síntese de
tantas antíteses é o produto singular e original que é o Brasil atual …O grande
sucesso da história do Brasil é o seu povo e a grande decepção é a sua
liderança. Esta nunca se reconciliou com o povo; nunca viu nele uma criatura de
Deus, nunca o reconhceu, pois gostaria que ele fosse o que não é; nunca viu
suas virtudes nem admirou seus serviços ao país, chamou-o de de tudo – de Jeca
Tatu – negou seus direitos, arrasou suas vidas e logo que o viu crescer e ele
lhe negou, pouco a pouco, sua aprovação, conspirou para colocá-lo de novo na
periferia, no lugar que contuna achando que lhe pertence”.[1]
Deste
caldo cultural está surgindo uma nação inventada por nós mesmos, ainda em
fazimento, com características próprias, capaz de fundar um Brasil nosso. Esse
era o sonho de Darcy Ribeiro em seu derradeiro e inspirador livro O povo
brasileiro.[2]
Uma
utopia-Brasil-diferente esteve sempre em curso, reprimida mas nunca vencida,
gestada no sindicalismo autêntico, no seio das classes populares, nas igrejas
da libertação, nos segmentos das elites progressistas, dos intelectuais e dos
artístas que se associam à causa dos oprimidos.
Tais
atores criaram expressivo poder social de resistência e de libertação, que está
se canalizando em poder político, sem se esvaziar como poder social. Surgiram
partidos identificados com a utopia-Brasil-diferente. Mas o principal deles foi
o Partido dos Trabalhadores (PT) que contou desde o início com o extraordinário
carisma de mobilização popular que foi Luiz Inácio Lula da Silva,hoje
reconhecido com uma das lideranças mundiais mais expressivas.
Depois
de várias tentativas, ele finalmente chegou ao poder central. Por ser
nordestino e da classe operária,foi rejeitado,perseguido,caluniado e condenado
por um juiz parcial a 580 dias de prisão e,por uma razão inédita e exótica
jamais documentada, nem pelo código de Hamurabi (1750 a.C.): “por um crime não
definido”.
Nos
três governos que exerceu realizou em parte o sonho do Brasil diferente, pelo
menos para aqueles milhões que mal comiam,moravam miseravelmente,não tinham luz
elétrica nem escolas adequadas,nem espaços de lazer e jamais teriam acesso à
universidade ou às escolas técnicas.
Podem
dizer o que quiserem de Lula, ofendê-lo de ladrão que nunca foi e mil agressões
vis como recentemente o fez o extravagante Javier Milei,presidente da
Argentina. Mas jamais poderão negar seu entranhável amor aos pobres e
insultados e as dezenas de obras que pôs em marcha a seu favor, resgatando-lhe,
o que sempre enfatizou, a dignidade negada.
Como
fez anteriormente, colocou agora o poder a serviço da sociedade brasileira a
partir de baixo, democrática, popular, promotora da multipolaridade.Não
obstante a pressão exercida por um ensandecido “imperador do mundo”, de extrema
direita, o norte-americano Donald Trump.
No
entanto,seja no Brasil seja no mundo cresce o pensamento conservador, de cariz
fascista e até de extrema direita.Esse movimento levou à Presidência um
personagem dos mais perversos de nossa história que permitiu,por sua estupidez
deixar morrer 700 mil pessoas,vítimas do Corona-virus e desmontar os projetos
sociais. É vergonhoso citar seu nome,tal é a brutalidade das relações sociais
que introduziu.Seus filhos traíram a pátria, fazendo o jogo explícito do
império norte-americano, colocando o país a serviço de Donald Trump.
O que
está em jogo nas próximas eleições é precisamente o confronto de duas opções:
aquela da submissão ao “imperador Donald Trump”, como sócio menor e agregado.
Ou a opção pela soberania do Brasil, como nação democrática e popular, com
projeto nacional autônomo, consciente do que podemos, como nação, recontribuir
nossa indústria e com as nossas tecnologias o beneficiamento das terras raras.
É
imperativo que a utopia-Brasil-diferente derrote a Flávio Bolsonaro, o traidor
da pátria e filho do golpista covarde e preso, e fazer frente ao tradicional
pacto das elites conservadoras e reacionárias que nunca tiveram um
projeto-Brasil,mas um só para si, e fundar um novo rumo ao nosso país. O tempo
corre veloz e contra o propósito libertário. Importa não só resistir,mas
avançar e travar o debate teórico e político.
Como
bem sentenciava Dom Quixote, “não devemos reconhecer as derrotas, sem antes dar
as batalhas”. E desta vez,vamos dá-las todas para realizar o sonho tantas vezes
negado e sempre ressuscitado.
Fonte: Por Leonardo Boff, em A Terra é Redonda

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