Ministério
Público investiga flagrantes plantados por policiais no interior de São Paulo
O
caminhoneiro Paulo* voltava do hospital em Piracicaba, no interior paulista,
com a esposa e os filhos, sendo um deles de poucos meses, quando foram parados
por policiais militares. Após revistarem o casal, as crianças e o veículo, os
agentes nada encontraram. No entanto, os PMs teriam exigido que a família
entregasse um dos traficantes de drogas da região, um fuzil e 10 quilos de
maconha, ou seriam presos. Sob ameaças, Paulo concordou com as exigências, mas,
logo depois, denunciou a coação no Ministério Público do Estado de São Paulo
(MPSP).
A
investigação aberta pelo MPSP, a partir da denúncia dele e de outras duas
denúncias de coação e de flagrantes plantados por PMs na região, resultou em
uma operação deflagrada em fevereiro deste ano, que cumpriu mandados de busca e
apreensão nos endereços de 10 PMs que atuavam no 10º Batalhão de Polícia
Militar do Interior (BPM/I). Na ocasião, foram apreendidos aparelhos celulares,
cartões de memória, blocos de anotações e munições de um revólver calibre ponto
40, que foram levadas para serem periciadas e identificadas.
A
Secretaria de Segurança do Estado não confirmou se os policiais envolvidos
foram afastados dos cargos. O relatório, montado pelo MPSP e obtido pela
Agência Pública, foi endereçado à Secretaria da Segurança Pública (SSP) e ao
Comando da Polícia Militar de São Paulo, com recomendações do uso de câmeras
corporais para reduzir os índices criminais na região e garantir a segurança
dos agentes, além de orientações para que sejam aprimoradas as condutas
policiais.
A
Corregedoria da Polícia Militar de São Paulo também instaurou um inquérito para
avaliar a conduta dos policiais no caso de Paulo. O procedimento segue aberto.
Por
meio de nota, a Secretaria de Segurança Pública do Estado de São Paulo, sob o
comando do delegado Osvaldo Nico Gonçalves, informou que o inquérito “tramita
sob sigilo”, mas que “realizou as diligências necessárias ao esclarecimento dos
fatos, incluindo o cumprimento de mandados de busca e apreensão e a análise dos
materiais recolhidos”.
A
secretaria informou que “ao término das apurações, as medidas legais,
administrativas e disciplinares cabíveis serão adotadas de acordo com as
conclusões do inquérito”. Leia a nota completa aqui.
Segundo
a investigação do MPSP, Paulo contou que, durante a abordagem, “[um dos PMs]
batia com o bico da pistola no meu peito. Ele também sacou uma faca e disse que
ia me picar inteiro”. E que, no prazo estipulado pelos agentes, ele teria sido
contatado pelo WhatsApp por um PM, que havia cobrado o combinado. Porém, as
exigências haviam mudado para 10 quilos de cocaína. O caminhoneiro gravou a
conversa e tirou prints, que foram entregues ao MPSP.
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Juiz encontra inconsistências em prisão por tráfico
Outro
caso que faz parte do documento de investigação do MPSP sobre a atuação da
polícia em Piracicaba é o de Janaina*. Os policiais entraram na casa de sua
mãe, onde ela morava com o esposo, Anselmo*, sem mandado judicial, segundo o
relato dela no boletim de ocorrência, registrado no 9º Distrito Policial (DP)
da cidade, em 1° de dezembro de 2025.
Os
agentes prenderam seu esposo porque acreditavam que ele fosse membro da
organização criminosa PCC. A defesa dele nega envolvimento com a organização
criminosa. “Não foi comprovado até hoje. Em nenhum inquérito policial, nenhum
processo criminal, em absolutamente nada”, disse o profissional.
De
acordo com o depoimento dos policiais militares Luan Moreira Da Silva e Gilmar
Pereira Da Costa, à Polícia Civil, quando abordaram o trio, eles teriam
encontrado um revólver de numeração raspada, munições e porções de drogas. No
entanto, o advogado de defesa da família apresentou imagens da entrada dos PMs,
sem mandado, à casa da mãe de Janaína, contradizendo a versão dos agentes, de
que eles faziam um patrulhamento de rotina naquele dia.
Segundo
a Constituição Federal, agentes de segurança não podem entrar em residências
sem autorização da Justiça.
A
partir de imagens e mensagens trocadas entre a família e seu advogado, a
Justiça considerou que a sequência dos fatos não batia com o relato oficial dos
policiais, e a prisão de Anselmo foi revogada, quase dois meses depois do
suposto flagrante. Na decisão, o juiz informou que “as provas apresentadas pela
defesa, indicam que os policiais militares estiveram na residência dos réus,
antes mesmo da abordagem realizada em via pública, trazendo inconsistências
entre a versão apresentada pelos policiais militares no auto de prisão em
flagrante, e os demais elementos coligidos”.
Segundo
a SSP, a PM instaurou um inquérito policial militar e o caso foi encaminhado ao
Tribunal de Justiça Militar, onde tramita. “A pasta informa que eventuais
apurações relacionadas à atuação de policiais militares seguem os trâmites
legais e administrativos cabíveis, com respeito ao devido processo legal e não
comenta sobre processos em andamento”, diz a nota.
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Região enfrentou alta na letalidade policial
O mesmo
documento do MPSP também mostrou que o número de mortes em decorrência de
intervenção policial, em Piracicaba, saltou de cinco óbitos em 2024 para 12 em
2025, representando um aumento de 140%. O aumento, segundo a reportagem apurou,
coincide com a chegada do coronel Cleotheos Sabino de Souza, figura próxima ao
ex-secretário de segurança de São Paulo, o deputado Guilherme Derrite
(Progressistas) e que tem histórico de elevar a taxa de letalidade policial por
onde passa.
“Dentro
de uma análise preliminar, observou-se que Piracicaba saiu de uma taxa
aproximada de [Mdip por 100 mil habitantes] de 1,14 por 100 mil em 2024 para
2,72 por 100 mil em 2025, enquanto o estado [de São Paulo] saiu de 1,57 para
1,66 por 100 mil. Ou seja, Piracicaba estava abaixo da taxa estadual em 2024 e
passou a estar acima em 2025”, citou o relatório.
Entre
as vítimas está Gabriel Junior Oliveira Alves da Silva, de 22 anos, morto em 1
de abril de 2025. O jovem foi assassinado por um disparo feito pelo cabo Junior
Cesar Rodrigues, vinculado ao 10º BPM/I, enquanto Silva tentava proteger a
esposa de uma abordagem violenta.
Como
forma de prevenir que policiais ajam de forma equivocada, o promotor Aluísio
Antônio Maciel Neto defende no relatório o uso de câmeras corporais, a revisão
de “procedimentos operacionais relativos a atendimento de locais de crime”,
“avaliação administrativa dos episódios descritos neste relatório” e outras
demandas.
“A
aceleração do cronograma de implantação de câmera corporal aparece como medida
central não por retórica, mas por lógica operacional, como instrumento que
protege o policial correto, fortalece a prova legítima, reduz litigiosidade
sobre versões contraditórias e preserva a credibilidade institucional”, aponta
o MPSP.
O
relatório finaliza fazendo recomendações para a redução dos índices de mortes
por ações policiais e melhor orientação policial para a condução de
ocorrências.
A
Pública questionou a SSP sobre a investigação do MPSP. A pasta, então, se
manifestou por meio de nota e afirmou que “mantém os dados em transparência
ativa e responde regularmente às solicitações dos órgãos de controle,
informando as circunstâncias das ocorrências, as medidas de preservação da vida
adotadas, os procedimentos instaurados e as comunicações às autoridades
competentes”.
Ainda
segundo a pasta, “sobre os dados de Piracicaba, a SSP encaminhou ao Ministério
Público, por meio da Procuradoria-Geral de Justiça, um estudo técnico sobre o
cenário das ocorrências de oposição à intervenção policial, o recrudescimento
da ação criminosa na região e as medidas adotadas pela Polícia Militar para
análise das condutas dos agentes envolvidos, por meio da Comissão de Mitigação
de Risco”.
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Leia a nota completa da SSP-SP
A
Secretaria da Segurança Pública acompanha permanentemente todos os indicadores
relacionados às mortes decorrentes de intervenção policial e analisa o contexto
de cada ocorrência e a legalidade da atuação policial. A pasta ressalta que
mortes decorrentes de intervenção policial não guardam relação com mudanças de
comando, uma vez que a atuação da Polícia Militar segue protocolos
institucionais padronizados em todo o estado. Esses casos decorrem de situações
de oposição à ação policial e são analisados individualmente. Sobre os dados de
Piracicaba, a SSP encaminhou ao Ministério Público, por meio da
Procuradoria-Geral de Justiça, um estudo técnico sobre o cenário das
ocorrências de oposição à intervenção policial, o recrudescimento da ação
criminosa na região e as medidas adotadas pela Polícia Militar para análise das
condutas dos agentes envolvidos, por meio da Comissão de Mitigação de Risco. A
SSP mantém os dados em transparência ativa e responde regularmente às
solicitações dos órgãos de controle, informando as circunstâncias das
ocorrências, as medidas de preservação da vida adotadas, os procedimentos
instaurados e as comunicações às autoridades competentes. Em relação às câmeras
operacionais portáteis, a Polícia Militar concluiu a implantação das 15 mil
câmeras previstas no acordo firmado perante o Supremo Tribunal Federal,
conforme cronograma estabelecido.
Além
disso, a PM mantém o Sistema de Supervisão e Padronização Operacional (SISUPA),
responsável pela elaboração, revisão, treinamento e supervisão dos
Procedimentos Operacionais Padrão (POPs), com foco na segurança, na
padronização e na qualidade da atividade policial. Sobre o caso específico
mencionado na reportagem, a PM instaurou Inquérito Policial Militar e relatou
ao Tribunal de Justiça Militar. A pasta informa que eventuais apurações
relacionadas à atuação de policiais militares seguem os trâmites legais e
administrativos cabíveis, com respeito ao devido processo legal e não comenta
sobre processos em andamento.
* Os
nomes dos envolvidos foram mudados para proteger suas verdadeiras identidades
Fonte:
Por Rafael Custódio, da Agência Pública

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