segunda-feira, 1 de setembro de 2025

O prisioneiro de guerra de 95 anos forçado a viver na Coreia do Sul e que busca voltar para a Coreia do Norte para morrer

Em uma manhã quente de agosto, uma multidão se reunia na estação de Imjingang, na última parada da linha de metrô de Seul e a mais próxima da Coreia do Norte.

Havia dezenas de ativistas e policiais, todos com a atenção voltada para um homem: Ahn Hak-sop, um ex-prisioneiro de guerra norte-coreano de 95 anos, que tentava retornar para a casa, do outro lado da fronteira que divide a península coreana.

Era o que Ahn chamava de sua viagem final: ele queria voltar ao Norte para ser enterrado lá, depois de ter passado a maior parte da sua vida na Coreia do Sul — grande parte dela contra sua vontade.

Mas ele não chegou a atravessar a fronteira: foi impedido, como era de se esperar, porque o governo sul-coreano afirmou não ter tido tempo suficiente para concluir os trâmites necessários.

Ainda assim, Ahn se aproximou ao máximo que conseguiu.

Debilitado por causa de um edema pulmonar, não podia realizar a caminhada de 30 minutos da estação até a Ponte da Unificação — ou Tongil Dae-gyo —, um dos poucos pontos que conectam a Coreia do Sul à Coreia do Norte.

Então, ele saiu do carro a cerca de 200 metros da ponte e completou o trecho final a pé, acompanhado por duas pessoas em que ele se apoiava.

Voltou com uma bandeira norte-coreana na mão — uma imagem pouco comum e desconcertante no Sul — e se dirigiu aos jornalistas e à equipe de voluntários que tinham ido apoiá-lo.

"Só quero que meu corpo descanse em uma terra verdadeiramente independente", disse. "Uma terra livre do imperialismo."

<><> A vida no outro lado

Ahn Hak-sop tinha 23 anos quando foi capturado pelos sul-coreanos.

Três anos antes, ele estava no ensino médio quando o então líder norte-coreano Kim Il-sung atacou a Coreia do Sul.

Kim, que queria reunificar as duas Coreias, mobilizou seus compatriotas, afirmando que o Sul havia iniciado o ataque de 1950.

Ahn estava entre os que acreditaram nele. Em 1952, se alistou no Exército Popular da Coreia do Norte como oficial de ligação e logo foi designado para uma unidade enviada ao Sul.

Foi capturado em abril de 1953, três meses antes do armistício, e condenado à prisão perpétua naquele mesmo ano.

Mais de 42 anos depois, foi liberado graças a um indulto especial no Dia da Independência da Coreia.

Fim do Whatsapp!

Como muitos outros presos norte-coreanos, Anh também foi rotulado como "cabeça vermelha", em referência às suas simpatias comunistas, e teve dificuldades para conseguir um emprego adequado.

Em uma entrevista à BBC, em julho, ele contou que não foi um período fácil. O governo, segundo ele, não ajudou muito no início, e os agentes o monitoraram por anos.

Ele se casou e até adotou uma criança, mas nunca sentiu que realmente pertencia à sua família.

Durante todo esse tempo, estabeleceu-se em uma pequena cidade de Gimpo, o mais próximo que um civil pode viver da fronteira com o Norte.

Contudo, em 2000, ele recusou a possibilidade de ser devolvido ao Norte, junto com outras dezenas de presos que também queriam retornar.

Na época, ele estava otimista quanto à melhora dos laços entre os dois países e à possibilidade de seus cidadãos poderem viajar livremente de um lado para o outro.

Mas optou por ficar porque tinha medo que partir fosse uma vitória para os americanos.

"Naquela época, eles estavam pressionando para os Estados Unidos governassem [no Sul]", afirmou.

"Se eu tivesse retornado ao Norte, teria me sentido como se estivesse entregando meu próprio quarto para os americanos, o desocupando. Minha consciência não permitiu isso."

Não está claro a que ele se referia exatamente, além dos laços crescentes entre Seul e Washington, que incluem uma sólida aliança militar garantindo à Coreia do Sul proteção contra qualquer ataque do Norte.

Essa relação incomoda profundamente a Ahn, que nunca deixou de acreditar na propaganda da família Kim: que o único obstáculo que impedia a reunificação da península coreana eram "os Estados Unidos imperialistas" e um governo sul-coreano que estava em dívida com eles.

<><> Lutar pela Coreia do Norte

Nascido em 1930, no condado de Ganghwa, província de Gyeonggi, durante o domínio colonial japonês da península coreana, Ahn era o caçula de três irmãos e também tinha duas irmãs mais novas.

O patriotismo chegou cedo. Seu avó se recusou a deixá-lo ir à escola porque "não queria me tornar japonês", recorda Ahn.

Por isso, começou a estudar mais tarde que o habitual, somente depois da morte do avô.

Quando o Japão se rendeu, em 1945, pondo fim à Segunda Guerra Mundial e à colonização da Coreia, Ahn e seu irmão, que haviam desertado do exército japonês, se esconderam na casa de uma tia, ao pé do monte Mani, na ilha de Ganghwa.

"Não foi uma libertação, e sim uma transferência do domínio colonial", afirmou.

"Um panfleto que vimos dizia que a Coreia não ia ser libertada, mas que, em seu lugar, se implantaria o governo militar americano. Inclusive dizia que se alguém violasse a lei militar americana, seria castigado estritamente sob a lei militar."

Como a União Soviética e os Estados Unidos disputavam entre si a península coreana, fizeram um acordo para dividi-la. Os soviéticos assumiram o controle do Norte, enquanto os americanos ficaram com o Sul, onde estabeleceram uma administração militar até 1948.

Quando Kim atacou, em 1950, já existia um governo sul-coreano, mas Ahn, como muitos outros norte-coreanos, acreditavam que o Sul tinha provocado o conflito e que sua aliança com Washington impedia a reunificação.

<><> Crença inabalável

Uma vez capturado, Ahn teve várias oportunidades de evitar a prisão: pediram que assinasse documentos renunciando ao Norte e à sua ideologia comunista, o que ele chamou de "conversão". Mas ele se negou.

"Como me recusei a assinar um juramento de conversão por escrito, tive que suportar humilhações, torturas e violências sem fim, dias repletos de vergonha e dor. Não há como descrever todo esse sofrimento com palavras", disse à multidão que se formou perto da fronteira em agosto.

O governo sul-coreano nunca respondeu diretamente a essa acusação, embora uma comissão especial tenha reconhecido a violência nas prisões em 2004.

As denúncias feitas por Ahn foram investigadas em 2009 pela Comissão da Verdade e da Reconciliação da Coreia do Sul — órgão independente que investiga as violações de direitos humanos cometidas no passado — que concluiu que houve um esforço deliberado para forçar sua conversão, que incluía atos de tortura.

Na Coreia do Sul, há muito se reconhece que esses prisioneiros costumavam sofrer violência atrás das grades.

"Quando recuperava a consciência, a primeira coisa que eu fazia era olhar para as minhas mãos, para ver se tinha tinta vermelha", recordou Ahn em sua entrevista de julho à BBC.

Isso costumava indicar que alguém havia forçado sua impressão digital em um juramento escrito de conversão ideológica.

"Se não havia, eu pensava: 'Não importa o que tenham feito, eu venci.' E me sentia satisfeito."

O Norte mudou bastante desde que Ahn se foi.

Hoje, o neto de Kim Il-sung governa o país — uma ditadura isolada com armamento nuclear, mais rica do que em 1950, mas que continua sendo um dos países mais pobres do mundo.

Ahn não esteve no Norte durante a devastadora fome da década de 90, que matou centenas de milhares de pessoas. Naquele período, dezenas de milhares de pessoas fugiram em jornadas arriscadas para escapar da vida no país.

Ahn, contudo, rejeita qualquer preocupação com violação de direitos humanos no Norte, culpando a imprensa de ser parcial e somente mostrar "o lado obscuro" do país.

Ele afirma que a Coreia do Norte está prosperando e defende a decisão de Kim de enviar tropas para ajudar a Rússia em sua invasão na Ucrânia.

O Sul também mudou muito durante o tempo que Ahn viveu lá: antes era uma ditadura militar pobre, hoje é uma democracia rica e poderosa.

Sua relação com o Norte passou por altos e baixos, oscilando entre a hostilidade aberta e tentativas de reaproximação.

Mas as convicções de Ahn nunca mudaram. Ele dedicou os últimos 30 anos de sua vida a protestar contra um país que, na sua opinião, continua colonizando a Coreia do Sul: os Estados Unidos.

"Dizem que os humanos, diferente dos animais, têm dois tipos de vida. Uma é a vida biológica básica, em que falamos, comemos, fazemos nossas necessidades, dormimos. A segunda é a vida política, também chamada de vida social. Se um ser humano é privado de sua vida política, não se diferencia de um robô", disse à BBC em julho.

"Vivi sob domínio colonial japonês todos aqueles anos. Mas não quero ser enterrado sob o domínio colonial americano, nem depois de morto."

 

Fonte: BBC News Coreia

 

8 principais causas do estresse (e como aliviar)

O estresse pode ser causado por preocupações no dia a dia, como excesso de pressão no trabalho, terminar um relacionamento, perder um amigo ou familiar, falta de tempo para o lazer ou até o surgimento de alguma doença na família, por exemplo.

Essas situações ativam o cérebro e estimulam a liberação de hormônios como adrenalina e cortisol, colocando o corpo em estado de alerta constante, que pode causar sintomas físicos, como palpitações, dor no peito, sensação de nó na garganta, falta de ar, tremores, suor frio e irritabilidade intensa.

Além disso, o estresse excessivo pode levar à ansiedade ou à depressão. Por isso, é importante adotar estratégias para aliviá-lo, como organizar melhor o tempo, praticar atividades físicas ou dedicar-se a um hobby e, se necessário, buscar ajuda profissional do médico ou psicoterapeuta.

<><> Principais causas do estresse

Os principais motivos que podem desencadear o estresse são:

# 1. Pressão no trabalho

A pressão no trabalho é uma das principais causas de estresse, podendo surgir por jornadas exaustivas, prazos apertados, metas desafiadoras, competitividade, cobranças excessivas ou sensação de tratamento injusto em relação aos colegas.

Essa pressão excessiva pode comprometer a produtividade e o desempenho no trabalho, aumentando ainda mais o estresse.

Além disso, pode afetar negativamente a vida pessoal, os relacionamentos familiares e sociais, assim como a saúde física e mental.

# 2. Problemas financeiros

Os problemas financeiros são uma fonte constante de estresse, podendo resultar da perda do emprego, aumento das dívidas, gastos inesperados ou da combinação desses fatores.

Essa preocupação constante pode prejudicar a saúde física e mental, sendo comum sintomas como insônia, baixa autoestima e cansaço excessivo. Além disso, podem surgir mudanças de humor e aumentar o risco de depressão e ansiedade.

# 3. Mudanças e traumas

Mudanças na vida, como formatura, casamento, novo emprego, aposentadoria, término de relacionamento ou a chegada de um filho, podem gerar sentimentos de insegurança, incerteza sobre o futuro ou expectativas intensas.

Além disso, acontecimentos marcantes como divórcio e experiências traumáticas, incluindo violência, abuso, acidentes ou desastres naturais, também têm grande impacto emocional, aumentando a chance de estresse intenso e duradouro.

# 4. Falta de tempo para o lazer

A falta de tempo para lazer, causada pelo excesso de trabalho ou estudo e pela dificuldade em organizar a rotina, pode gerar estresse. Isso impede o descanso da mente e do corpo, aumentando a sensação de sobrecarga nas tarefas diárias.

# 5. Problemas familiares

Os problemas familiares são uma importante causa de estresse e podem surgir por motivos como falta de comunicação, doenças graves de algum familiar, abuso de álcool ou drogas, rivalidades, discussões frequentes e casos de violência doméstica.

Essas situações podem gerar ansiedade intensa e sensação constante de medo, contribuindo para o desenvolvimento do estresse.

# 6. Problemas de saúde

Situações relacionadas a problemas de saúde, como ataques cardíacos ou câncer, frequentemente provocam estresse devido à preocupação constante e à ansiedade diante de tratamentos difíceis e das limitações físicas diárias.

Além disso, doenças crônicas, como diabetes, artrite reumatoide e lúpus, também geram estresse, pois exigem tratamentos prolongados, mudanças na rotina e nos hábitos de vida, o que pode causar ansiedade e, em alguns casos, depressão.

# 7. Desejo de aprovação social

Na vida moderna, o desejo de ser aprovado, ter sucesso financeiro e ser admirado pode gerar muito estresse, especialmente com a influência das redes sociais.

Isso faz com que as pessoas fiquem dependentes da opinião alheia, perdendo a própria valorização e diminuindo a autoestima.

Além disso, essa busca constante por aprovação pode causar desgaste emocional, ansiedade generalizada e levar ao desenvolvimento da depressão.

# 8. Luto

O luto é uma causa comum de estresse, pois é uma resposta emocional natural ao sofrimento após a perda de uma ligação afetiva importante, seja com uma pessoa ou um animal.

Essa sensação de perda pode desencadear emoções intensas, como raiva, incredulidade, culpa e tristeza profunda.

Para aliviar o estresse é recomendado:

•        Reservar tempo para hobbies e lazer;

•        Fortalecer conexões com amigos e familiares;

•        Desenvolver o senso de humor e rir mais;

•        Fazer pausas das notícias e redes sociais;

•        Organizar e priorizar tarefas diárias;

•        Realizar psicoterapia;

•        Praticar respiração profunda e meditação;

•        Exercício físico regular;

•        Buscar contato com a natureza;

•        Sono adequado.

Essas práticas ajudam a reduzir a produção de hormônios do estresse como cortisol e adrenalina, e promovem a liberação de endorfinas pelo corpo que são substâncias que dão sensação de bem-estar.

Alguns remédios naturais também podem ajudar a evitar o estresse e a diminuir a sensação de ansiedade, como o chá de camomila ou chá de valeriana, por exemplo, por terem propriedades calmantes ou relaxantes. Veja todas as opções de remédios naturais para evitar o estresse.

É ainda importante fazer uma dieta incluindo alimentos ricos em vitaminas do complexo B, como carne vermelha, leite ou gérmen de trigo, pois melhoram o funcionamento do organismo, ajudando a manter a calma e a prevenir o estresse.

 

Fonte: Tua Saúde

 

‘Demarcar terras indígenas é uma política para combater mudanças climáticas’, diz indígena

2025, além de ser o ano da COP no Brasil, é um marco para a agenda climática internacional. É quando todos os países signatários do Acordo de Paris, assinado por 196 nações em 2015, precisam estabelecer novas metas para reduzir suas emissões de gases do efeito estufa. Na prática, é quando se saberá o quanto cada país está disposto a colaborar para evitar o colapso do planeta.

Como anfitrião da COP30, o Brasil quis mostrar que fez o dever de casa e apresentou as suas metas em novembro do ano passado. Elas são as chamadas NDC, ou Contribuições Nacionalmente Determinadas, na linguagem das negociações climáticas.

Mas para contribuir, de fato, com uma mudança, os povos indígenas brasileiros defendem que o país precisa fazer isso colocando a demarcação, regularização e proteção dos territórios indígenas como uma política de mitigação climática.

Essa é a principal reivindicação da NDC dos Povos Indígenas do Brasil, ou seja, a lista do que os indígenas brasileiros querem ver como política contra o aquecimento global.

O documento foi lançado no começo deste mês, pela Articulação dos Povos Indígenas do Brasil, a Apib, em conjunto com organizações de base locais. São 36 demandas, como a exigência do reconhecimento legal dos 86 registros de Povos Indígenas em Isolamento Voluntário.

O argumento dos indígenas é fortalecido pelos dados de desmatamento. Segundo o Relatório Anual do Desmatamento no Brasil, o RAD, apenas 1,3% de todo o desmatamento registrado no Brasil em 2024 ocorreu em terras indígenas.

A NDC indígena ressalta que a taxa de desmatamento em territórios indígenas reconhecidos foi 87,5% menor que o registrado no país entre 2013 e 2023, de acordo com dados do SEEG – principal plataforma de monitoramento de emissões de gases de efeito estufa na América Latina.

As metas dos indígenas, lançadas pela Apib na mesma semana em que o presidente Lula sancionou com 63 vetos o PL da Devastação, se soma à Declaração política dos povos indígenas da Bacia Amazônica e de todos os biomas do Brasil para a COP30 na composição da NDC indígena, também liderada pela Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira, a Coiab.

O lançamento do documento ocorreu, não por acaso, durante a Conferência e Marcha das Mulheres Indígenas realizadas em Brasília. É do Brasil a copresidência para América Latina e Caribe no Caucus Indígena da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima, o tratado internacional que objetiva reduzir a emissão dos gases do efeito estufa.

O cargo é ocupado por Sineia Wapichana, também conhecida como Sineia do Vale, nativa das Terras Indígenas Raposa Serra do Sol e Serra da Lua, em Roraima. Como gestora ambiental, Wapichana desenvolveu estudos inéditos sobre a crise climática em territórios indígenas do seu estado, a partir da estruturação do Departamento Territorial e Ambiental do Conselho Indigena de Roraima, o CIR, onde formou agentes ambientais indígenas e formulou os primeiros Planos de Gestão Territorial e Ambiental, os PGTAs, para enfrentamento das mudanças climáticas.

Os PGTAs são  instrumentos de gestão e planejamento participativo voltados à proteção das terras indígenas, que respeitam a autonomia dos territórios. Atualmente os PGTAs são apontados como mecanismos fundamentais para o combate às mudanças climáticas no Plano Clima, o guia da política climática brasileira até 2035.

Por ser considerada uma das vozes mais importantes do movimento indígena brasileiro na arena internacional das mudanças climáticas, Wapichana foi nomeada “Cientista Indígena do Brasil” pelo Planetary Guardians, coletivo que reúne pesquisadores e ativistas que se destacam por estudos sobre ação climática e proteção de comunidades vulneráveis. Também foi nomeada a enviada especial da COP30 para os povos indígenas, sendo responsável por levar as demandas dos povos indígenas para a presidência da conferência.

Em entrevista ao Intercept Brasil, ela defendeu que um dos pontos mais relevantes da NDC dos povos indígenas brasileiros é o financiamento direto para os povos, sem intermediários e peneiras dos governos, destacando a existência de mecanismos próprios, como os fundos indígenas, para captação e distribuição dos recursos destinados às ações desenvolvida pelos povos, associações e comunidades.

Wapichana também falou sobre o que precisa ser feito para incluir os indígenas brasileiros nas negociações da COP30. Nós perguntamos ao Governo Federal se as demandas indígenas serão incorporadas à agenda brasileira de enfrentamento às mudanças climáticas, mas até a publicação desta entrevista não tivemos retorno.

LEIA A ENTEVISTA:

•        Os povos indígenas lançaram metas e contribuições para o enfrentamento às mudanças climáticas por meio da NDC indígena. Quais pontos da NDC indígena são mais importantes para você? Existe, de fato, a possibilidade de esses documentos serem anexados às metas do Brasil?

Sineia Wapichana – Eu quero acreditar que sim e acho fundamental porque nestes compromissos assumidos pelo Brasil, contidos na NDC [lançada em novembro de 2024], não está muito explícita a questão da demarcação das terras indígenas. E enxergamos a demarcação das terras indígenas com uma política do clima.

Estamos falando da questão do desmatamento, da proteção da biodiversidade e da proteção territorial, que estão contidas nas propostas dos povos indígenas.

A gente tem visto que se os países não estão cumprindo suas metas, a tendência é que essa questão da temperatura aumente cada vez mais. Para nós, povos indígenas, a questão da terra, do território, é a base de tudo. E nós temos feito todo esse trabalho de conservação milenarmente falando. Os povos indígenas sempre estiveram lá, nas florestas.

Atualmente falamos muito de floresta em pé, da questão da água também, mas muitos não consideram a sabedoria milenar dos povos indígenas como responsável pelo manejo de toda essa floresta, o que garantiu a sua permanência.

•        O que as contribuições dos povos indígenas destacam sobre financiamento climático?

O financiamento direto para os povos indígenas, sem intermediários, é um dos pontos mais importantes da NDC indígena porque a gente precisa de recursos que nos atendam rapidamente.

O que ocorre hoje é que os recursos passam por várias peneiras dos governos e chega muito pouco às comunidades. Precisamos dar respostas rápidas às diversas emergências climáticas que ocorrem nos nossos territórios. Atualmente, temos organização e os fundos indígenas estruturados, então existem plenas condições para esse financiamento direto.

Além desses fundos, temos elaborado os planos de gestão territorial e os planos indígena de adaptação às mudanças climáticas. Então tudo isso são mecanismos utilizados pelos povos indígenas para receber recursos de forma direta, para aplicar nas comunidades naquilo que realmente precisam.

•        O Brasil se propõe a liderar o combate às mudanças climáticas, mas estamos presenciando polêmicas e contradições internas importantes, como a exploração de petróleo na Foz do Amazonas, a aprovação no Congresso Nacional do PL da Devastação e o Marco Temporal. Como esse cenário reverbera na atuação dos povos indígenas há poucos meses da realização da COP30?

Para nós, povos indígenas, o Marco Temporal tem que cair. Nós estamos, legitimamente, nas nossas terras desde sempre. Não precisa vir um documento dizer o que é terra indígena ou não, porque toda nossa vida cultural, social, nosso trabalho sempre esteve atrelado ao território. Esse direito se baseia nas nossas vivências e em todo o tempo que estamos nas terras.

Por outro lado, sobre o projeto de lei conhecido como PL da Devastação, acho que as pessoas não estão tendo consciência do quanto isso pode afetar diretamente a vida de todos, não só dos povos indígenas e comunidades tradicionais. Com esse PL, nós vamos abrir as portas para o desmatamento e outros problemas que estão sendo freados minimamente pelo licenciamento ambiental.

Quanto ao petróleo, nós estamos falando que as altas temperaturas estão nos matando, que temos um trabalho consistente no Brasil para diminuir a utilização de combustíveis fósseis. Como a gente vai se contradizer?

A gente precisa ter algum contraponto do governo que diga que não é isso, até mesmo antes da COP. Nosso país detém a maior parte da floresta amazônica e a gente tem também a maior bacia de água doce do mundo.

Essa água não vai acabar, mas ela pode ser gravemente contaminada, e nós que estamos diretamente conectados com a água e com a floresta vamos sentir primeiro. Mesmo morando na beira d’água a gente não vai poder beber nem usar essa água. Todo esse contexto vai impactar diretamente não só a vida dos povos indígenas e comunidades tradicionais, estamos falando de riscos para o Brasil e o mundo todo.

•        As mulheres são as mais afetadas pelas mudanças climáticas nos territórios tradicionais e são também as primeiras a enfrentarem ameaças. Como é possível que elas participem de forma efetiva dos debates e tomadas de decisão sobre o clima?

Desde 2011, estamos trabalhando em Roraima, aqui na Amazônia, os planos de enfrentamento às mudanças climáticas ou planos de adaptação indígena. A gente acompanha a rotina das mulheres e como elas estão sentindo diretamente o impacto das mudanças climáticas na sua vida social, cultural e no trabalho.

As mulheres são mais sensíveis às mudanças climáticas porque todos os dias elas estão ali, fazendo a comida dos filhos, plantando, colhendo, pegando semente para fazer o seu artesanato. Com tudo isso, elas vão percebendo como as coisas têm mudado. Então, as mulheres têm um potencial muito grande para falar como elas estão sendo impactadas.

Quando a gente tem uma grande seca ou uma grande cheia, como tem sido recorrente nos três últimos anos na Amazônia, elas nem se refizeram da última seca e já vem outro impacto muito sério. Quando vem a cheia, elas perdem o direito dos filhos irem à escola porque alagou. As roças e a mata também alagam.

Como é que a gente se refaz disso rapidamente? Isso ocorre principalmente com mulheres que estão fazendo todo esse trabalho, nesse contexto da sabedoria indígena, do manejo com a água, com a floresta e tudo o que está envolvido.

Por isso, cada vez mais as mulheres estão ocupando esses espaços, em nível regional, nacional e internacional. Elas compreendem muito bem a dimensão do que estamos enfrentando.

•        Então, a articulação das mulheres indígenas tem um grande potencial?

Sim. Por isso estamos chamando atenção para o que foi essa 4ª Marcha das Mulheres Indígenas. Estamos trabalhando para apresentar estratégias claras sobre o que as mulheres gostariam de ter como políticas públicas que atendam suas demandas. 

E conseguimos realizar a 1ª Conferência de Mulheres Indígenas no Brasil. Isso, pra mim, é um grande avanço na nossa articulação porque estamos combatendo a nossa invisibilização.

É também uma grande conquista estarmos em espaços de decisão internacionais, como a COP30, levando nossas vozes, como ocorre no Caucus Indígena. Nesse fórum, discutimos todos os temas da COP, como adaptação, mitigação, financiamento e gênero. Temos pontos focais no Caucus que tratam de cada uma dessas pautas.

Também temos, por exemplo, mulheres da África que são pastoras de gado e trazem todo o contexto de seca, uma diversidade de situações. É muito importante a gente ver mulheres indígenas do mundo inteiro participando, ecoando nossas vozes nesse espaço.

•        Quanto à COP30, como garantir que as lideranças indígenas não sejam apenas ouvidas, mas também influenciem diretamente as negociações climáticas?

A gente vem conversando e nos reunindo com o movimento indígena, criando estratégias, campanhas como “A resposta somos nós” e vamos levar essas estratégias para dentro da COP. Sabemos que a COP no Brasil traz uma nova metodologia, que não houve em nenhuma outra.

Por exemplo, a participação dos enviados especiais. Estou enviada especial para a questão dos povos indígenas. A criação do Círculo de Povos, que tem como principal objetivo aumentar a escuta de demandas e contribuições de povos indígenas, comunidades tradicionais e afrodescendentes junto à presidência da COP30.

Então, temos dinâmicas diferentes de participação. Temos que aproveitar esses espaços para criar estratégias dentro da COP, nos espaços de decisão, mas também nos espaços que não são ditos oficiais, mas que são considerados oficiais para os povos indígenas. Toda a nossa luta, em qualquer lugar que estejamos, é oficial.

Sabemos da importância dos espaços de decisão na COP, que é um espaço ONU, mas daremos importância a todos os nossos espaços, como a COP indígena, a Cúpula dos Povos. E estando lá dentro, vamos nos juntar para impulsionar política pública, como financiamento, como a questão da adaptação, da mitigação e da demarcação das terras indígenas.

•        Há muita expectativa sobre a Cúpula dos Povos por ocorrer na Amazônia e porque, em COPs anteriores, houve casos de repressão [a quem tentou realizar mobilizações durante a conferência]. O que podemos esperar da participação dos povos indígenas na Cúpula?

Todo movimento é válido, importante e legítimo, e na Cúpula dos Povos se reúnem sociedade civil, povos indígenas, ribeirinhos, quilombolas e muitas outras comunidades tradicionais. Queremos levar uma única voz pelos nossos direitos. Cada um com as suas especificidades, mas a questão do direito ao território, à vida e à conservação do planeta para todos é o que nos une nesse espaço.

Estamos na luta para não ultrapassar um grau e meio [limite de aumento da temperatura global, de acordo com meta estabelecida no Acordo de Paris], mas vimos muita coisa acontecer nos últimos três anos. Então, quem tem contato diretamente com a água, com a floresta, sente tudo muito mais rápido do que quem está na cidade.

Quando perdemos espécies de animais e plantas, como as medicinais, isso para nós é uma perda enorme porque sabemos seu valor. É a farmácia viva indo embora, a água secando… Então tudo isso influencia na vida de todos, povos indígenas, comunidades tradicionais, ribeirinhos.

A gente sabe que muitos ribeirinhos são pescadores e, com o aquecimento das águas dos rios, muitos peixes regionais estão sumindo. Então, estamos todos juntos pelos nossos direitos.

•        Como o enfrentamento às mudanças climáticas está influenciando a conexão entre conhecimentos tradicionais e científicos?

É muito importante trazer o conhecimento indígena para a academia e investigar como ele se conecta com o conhecimento científico. Precisamos valorizar essa conexão porque os conhecimentos precisam caminhar juntos.

Quando recebi o Prêmio Cientista Indígena e, agora, ao concluir o mestrado em sustentabilidade junto a povos e territórios tradicionais, tudo isso é fruto do que vivenciei a minha vida toda: esse movimento que, na ida, leva nossas vozes aos espaços de incidência nacionais e internacionais e faz o caminho de volta para as comunidades.

Procuro compreender como esse trabalho pode influenciar políticas públicas. O objetivo é oferecer subsídio às políticas públicas conectando essas duas formas de produção do conhecimento e mostrando que a sabedoria dos povos indígenas aponta muitas soluções.

Por meio do Conselho Indígena de Roraima, nós criamos, com as comunidades, todo um trabalho de construção de planos de enfrentamento às mudanças climáticas ou planos de adaptação indígena. São metodologias próprias nossas que também foram apresentadas ao Ministério do Meio Ambiente para fazer parte do Plano Clima.

Esse é o meu desejo com os planos de adaptação. Então, é fundamental unir os dois conhecimentos para avançar no combate às mudanças climáticas, e acho que isso está dando muito certo. Os resultados são benéficos para toda a sociedade.

 

Fonte: Por Tatiana Ferreira Reis, EM The Intercept

 

Marina Hyde: Acabar com o horror em Gaza ainda depende das piores pessoas do mundo

No dia 222 da presidência de Donald Trump, e a guerra da Rússia na Ucrânia – que ele prometeu encerrar no primeiro dia – não dá sinais de ter recebido o memorando . Esta não foi uma promessa de uso único de Trump; ele a fez pelo menos 53 vezes . No entanto, o presidente dos EUA não a cumpriu, seja literalmente ou em sua forma favorita: figurativamente. É possível encerrar uma guerra figurativamente? Nem mesmo, aparentemente. O que sua mais recente rodada de fracasso significa, no entanto, é que Trump está voltando para outra guerra , a catástrofe humanitária grotescamente horripilante e ilegal que se desenrola em Gaza. Não da maneira como ele a expressaria, possivelmente. Esta semana, ele desviou os comentários sobre a invasão da Cidade de Gaza por Israel ou as crescentes declarações de que a fome e a inanição estão claramente em andamento no território e, em vez disso, anunciou: "Acho que dentro das próximas duas, três semanas, vocês terão um final muito bom e conclusivo." Certo. A receita de Trump para um fim ao horror até agora pareceu assemelhar-se ao famoso plano de negócios dos gnomos de South Park . Fase 1: Colecionar Cuecas. Fase 2: ?. Fase 3: Lucro.

Na versão do presidente dos EUA, isso seguia o seguinte raciocínio. Fase 1. Catástrofe humanitária grotescamente horripilante e ilegal. 2. ? 3. Resort de praia. É estranho olhar para a foto de Churchill, Stalin e Roosevelt na conferência de Yalta e pensar em quão mais rapidamente os três líderes aliados em tempo de guerra poderiam ter resolvido as coisas se tivessem evitado várias complexidades e entendido o mundo como uma simples seleção de oportunidades imobiliárias à beira-mar. E, no entanto, talvez seja ainda mais estranho imaginar que, embora não tenhamos uma selfie em grupo de Donald Trump, Vladimir Putin e Benjamin Netanyahu, a maldição dos nossos tempos é que o destino de tantas pessoas terrivelmente desesperadas e perseguidas no mundo depende de três homens que poderiam muito bem estar presos se não estivessem no poder. Mas estas são as realidades. O caminho para a paz em Gaza passa por Trump, não por postagens em redes sociais, bandeiras em vitrines, criativos "usando sua plataforma", ou quaisquer outros gestos que, embora os otimistas possam considerá-los como a verdade ao poder, na verdade apenas realçam ainda mais o sentimento cada vez mais difundido de impotência da nossa era.

Nem, em qualquer sentido não gnomo, chega perto do anúncio de Ed Davey esta semana de que, após muita reflexão e oração, ele não compareceria ao banquete do rei para Trump durante sua próxima visita de Estado. É desnecessário dizer que Trump não teria a menor ideia de quem é o líder liberal-democrata. (Mais urgente para Davey, e talvez mais em seu poder de fazer algo a respeito, é a pesquisa desta semana que mostrou que 35% de seus próprios eleitores liberais-democratas também não têm a menor ideia de quem ele é quando mostram uma foto dele.) Mas Davey acredita que boicotar o jantar é a melhor maneira de "enviar uma mensagem tanto para Trump quanto para Starmer" de que eles não podem desejar que a catástrofe que se desenrola em Gaza desapareça. Ele tem boas intenções, mas esse gesto ainda parece um degrau acima de um tuíte – ou, na verdade, de uma coluna do jornal Guardian , que foi como ele o anunciou. Lamentavelmente, nenhuma das opções acima são alavancas em conflitos internacionais.

Ser incapaz de traçar um caminho para as respostas significa que uma pergunta domina nossa era turbulenta: ser bem-intencionado é suficiente? É, de fato, tudo o que posso ser? Cumpri minhas responsabilidades diante do horror histórico postando sobre ele, atacando outra pessoa por não postar sobre ele ou sugerindo que alguém não se importa com um assunto sobre o qual não tenha postado? Talvez seja bom pensar assim, mas temo que, longe de serem os mais engajados, aqueles que vivem assim sejam os mais derrotados. Algumas das piores pessoas do mundo – pelo menos, algumas das piores pessoas sem acesso a exércitos estatais – comandam as empresas de mídia social, e a ideia de que passar horas confortáveis ​​policiando suas plataformas, trabalhando para elas de graça, é tomar uma posição ou demonstrar que você se importa de alguma forma útil, vai além do bizarro e se torna uma doença cultural.

As mídias sociais alegavam conectar e empoderar as pessoas – uma promessa populista, se é que você já ouviu uma – e, no entanto, o que muitos de nós ouvimos nossos amigos e familiares dizerem o tempo todo em conversas sobre as notícias é que eles se sentem impotentes. As pessoas foram atomizadas e narcotizadas por essa tecnologia supostamente unificadora e inspiradora, e quando a grande perspectiva da história for oferecida aos nossos descendentes e talvez até mesmo aos nossos eus futuros, podemos muito bem descobrir que a maioria das nossas crises atuais foram catalisadas por ela, em vez de curadas por ela. Esta manhã, vi um recorte muito compartilhado de Travis Kelce beijando Taylor Swift em sua foto de noivado, sobreposto no topo de um prédio demolido pela guerra, acima de uma citação de bell hooks: "Todos os nossos silêncios diante de ataques racistas são atos de cumplicidade". Meu Deus. Coloque-o em uma cápsula do tempo, junto com um bilhete de desculpas pelos escombros culturais dos quais ele terá que ser desenterrado.

No nível operacional, porém, as coisas não mudam. O caminho para a paz ainda passa por políticos poderosos. Muitos deles ainda são pessoas terríveis. Eles ainda terão que ter conversas desagradáveis ​​e até mesmo "tóxicas", nas quais negociações e concessões morais são inevitáveis. E, no entanto, essas coisas ainda são desejáveis, porque é assim que sempre terminou. É assim que as bombas silenciam, é assim que as crianças param de morrer de fome, é assim que a carnificina hedionda termina. É um caminho longo, perigoso e precário – mas a história o tornou famili

¨       Trump poderia acabar com a fome em Gaza. Em vez disso, ele está seguindo o exemplo de Biden.Por Mohamad Bazzi

Um grupo global de monitoramento da fome declarou na semana passada que a maior cidade de Gaza e seus arredores sofriam de uma fome "inteiramente provocada pelo homem", causada principalmente pela estratégia deliberada de fome de Israel e pelo cerco contínuo ao território. Esta notícia não surpreenderá ninguém que tenha prestado, mesmo que superficialmente, atenção às imagens e vídeos de crianças emaciadas e pais desesperados que vêm saindo de Gaza há meses.

Mas a primeira confirmação de fome pela Classificação Integrada de Segurança Alimentar (IPC), que inclui o Programa Mundial de Alimentos, a Organização Mundial da Saúde e outras agências humanitárias, é um importante marco institucional. Daqui a alguns anos, servirá como um lembrete de como Israel usou a fome como arma de guerra enquanto as potências ocidentais nada fizeram. E será uma fonte de vergonha para todos aqueles que inevitavelmente alegarão não ter percebido a extensão da guerra genocida de Israel em Gaza, apesar de dezenas de jornalistas palestinos terem sido mortos por transmitir essa realidade ao mundo.

Donald Trump pode acabar com essa fome – os EUA são o maior fornecedor de armas e o mais importante apoiador político de Israel. Mas ele optou por não fazê-lo. Em vez disso, Trump está apoiando o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu , em seu plano mais recente de semear mais morte e destruição invadindo a Cidade de Gaza e deslocando 1 milhão de palestinos. No mês passado, o presidente americano disse que as crianças em Gaza "parecem muito famintas", acrescentando que cenas de sofrimento demonstravam "fome real". Trump contradisse a alegação espúria do governo israelense de que os alertas sobre a iminente fome eram notícias falsas.

No entanto, o governo Trump permaneceu em silêncio após o IPC emitir seu último relatório na semana passada , confirmando que a Cidade de Gaza e seus arredores estão no meio de uma fome generalizada. Para declarar uma fome, o IPC exige que uma área ultrapasse três limites críticos : pelo menos 20% das famílias enfrentam uma escassez extrema de alimentos; pelo menos 30% das crianças sofrem de desnutrição aguda; e pelo menos dois adultos ou quatro crianças em cada 10.000 pessoas morrem a cada dia devido à fome, ou doenças e desnutrição. Desde que o IPC foi fundado em 2004 para alertar sobre a escassez global de alimentos, ele confirmou apenas três fomes anteriores: na Somália em 2011, no Sudão do Sul em 2017 e no Sudão no ano passado. Quando uma situação de fome é declarada, muitas vezes é tarde demais para conter o aumento exponencial de mortes por inanição e desnutrição. Quando uma fome causada pela seca atingiu a Somália entre 2010 e 2012, cerca de metade das 250.000 pessoas mortas já havia morrido quando o IPC concluiu que o país havia ultrapassado o limiar da fome.

Em períodos anteriores de fome, a declaração do CPI ajudou a atrair a atenção global e levou doadores internacionais a enviar ajuda às regiões afetadas. Mas a atenção mundial já está voltada para Gaza, e a ONU e outros grupos humanitários afirmam ter alimentos suficientes perto das fronteiras de Gaza para alimentar toda a sua população de 2,1 milhões por quase três meses. Israel simplesmente se recusa a permitir que grande parte dessa ajuda entre no território sitiado – uma campanha deliberada de fome apoiada pelo governo Trump.

Como Tom Fletcher, chefe de ajuda humanitária da ONU, afirmou na semana passada: "A comida se acumula nas fronteiras devido à obstrução sistemática de Israel". Ele acrescentou que a fome em Gaza foi "causada pela crueldade, justificada pela vingança, possibilitada pela indiferença e sustentada pela cumplicidade". Fletcher então apelou aos líderes mundiais para que pressionassem Netanyahu a suspender o cerco.

Esse apelo, em última análise, era dirigido a Trump, o único líder que pode forçar Netanyahu a pôr fim ao sofrimento em Gaza. Mas o primeiro-ministro israelense e seu governo continuam a desafiar a indignação global, em grande parte porque contam com o apoio inabalável de Trump.

Desde o início de 2024, a ONU e grupos internacionais de ajuda humanitária vêm alertando sobre o potencial de fome generalizada em Gaza devido ao bloqueio militar israelense iniciado poucos dias após o ataque do Hamas a Israel em outubro de 2023. Como escrevi recentemente , Joe Biden ignorou esses alertas enquanto seu governo tentava minar as críticas aos seus envios incondicionais de armas para Israel. Ao longo de 2024, quando partes de Gaza chegassem à beira da fome, Israel aliviaria o cerco, permitindo que alguns alimentos e suprimentos chegassem aos palestinos desesperados – e evitando uma queda em direção à fome generalizada.

Mas Netanyahu abandonou essa estratégia no início de março, quando impôs um novo cerco a Gaza, com a aprovação tácita de Trump , privando os palestinos de alimentos, remédios e outras necessidades básicas. Netanyahu, preocupado com o colapso de sua coalizão governamental extremista caso concordasse com uma trégua permanente com o Hamas, rapidamente retomou a guerra israelense , rompendo um cessar-fogo em vigor há dois meses. Desde então, Israel impôs um cerco mais severo e uma campanha de fome em Gaza.

Em 18 de agosto, o Hamas anunciou que havia aceitado um acordo de cessar-fogo praticamente idêntico ao que Israel e os EUA haviam proposto algumas semanas antes. Mas, como vem fazendo há quase dois anos , Netanyahu está resistindo e fazendo novas exigências para obstruir as negociações e torpedear qualquer possível acordo. Em última análise, Netanyahu quer prolongar a guerra e permanecer no poder.

Parece que Trump foi seduzido pela promessa de Netanyahu de uma vitória decisiva com seu plano mais recente de conquistar a Cidade de Gaza e outras partes do território ainda não ocupadas pelo exército israelense. Em declarações a repórteres na Casa Branca na segunda-feira, Trump disse que a guerra em Gaza chegaria a "um fim definitivo" nas próximas duas ou três semanas.

Netanyahu vem prometendo – e falhando em cumprir – uma "vitória total" sobre o Hamas há mais de um ano. "A vitória total sobre o Hamas não levará anos", disse ele com confiança em um discurso em fevereiro de 2024. "Levará meses." Desde então, Netanyahu expressou ambições elevadas de remodelar todo o Oriente Médio, mas continuou a desafiar a pressão internacional e doméstica para especificar os planos pós-guerra de Israel para Gaza ou como a guerra poderia terminar antes de atingir seu objetivo amorfo de "vitória total". E essa foi uma tática deliberada: desde o início, os aliados de Netanyahu queriam uma guerra prolongada que terminasse com Israel ocupando Gaza e realizando uma limpeza étnica em seus habitantes palestinos.

Na semana passada, um alto funcionário do governo Biden confirmou em uma entrevista transmitida por um canal de TV israelense que, logo após o ataque do Hamas em outubro de 2023, Netanyahu estava se preparando para uma guerra de guerrilha em Gaza que poderia durar "décadas". Matthew Miller, ex-porta-voz do Departamento de Estado que frequentemente defendia o apoio incondicional do governo a Israel, também disse que Netanyahu havia sabotado repetidamente as negociações de cessar-fogo mediadas pelos EUA. (Uma reportagem da TV israelense descobriu que o primeiro-ministro rejeitou acordos ou quase acordos sete vezes .) Mas o governo Biden culpou consistentemente o Hamas por se recusar a aceitar um cessar-fogo e raramente criticou Netanyahu por sua obstinação, pensando que isso endureceria a posição do Hamas.

Durante 15 meses, Biden forneceu ao premiê israelense cobertura política e bilhões de dólares em armas americanas, tornando-se cada vez mais cúmplice do uso da fome como arma por Israel e de outros crimes de guerra. Hoje, Trump repete a mesma estratégia ineficaz e imoral, atraído pela promessa vazia de vitória de Netanyahu, enquanto a fome se espalha em Gaza .

¨       Por que o Hamas não é um grupo terrorista. Por Sayid Marcos Tenório

A narrativa dominante no Ocidente apresenta o Movimento de Resistência Islâmica (Hamas) como um “grupo terrorista”, repetindo de forma acrítica a retórica israelense e de seus aliados. Contudo, ao analisar a questão sob a ótica do direito internacional e da história dos movimentos de libertação nacional, fica evidente que o enquadramento de “terrorismo” é antes um instrumento de propaganda política do que uma definição jurídica.  À luz do Direito Internacional e da Carta das Nações Unidas, o Hamas deve ser compreendido como movimento de resistência palestina diante de mais de sete décadas de colonização, limpeza étnica e ocupação militar israelense. E de quase dois anos de enfrentamento ininterrupto ao genocídio na Faixa de Gaza. A Organização das Nações Unidas (ONU) nunca declarou o Hamas um grupo terrorista. Apenas alguns países, como Estados Unidos, União Europeia, Canadá, Reino Unido e Austrália, adotaram unilateralmente tal classificação. O direito internacional, por sua vez, não criminaliza a resistência contra a ocupação.

Desde 1967, Israel mantém a ocupação da Faixa de Gaza, da Cisjordânia e de Jerusalém Oriental, em flagrante violação à Carta da ONU e às resoluções do Conselho de Segurança. De acordo com o Direito Internacional Humanitário, povos submetidos à ocupação estrangeira têm o direito legítimo de resistir, inclusive por meios armados, contra a potência ocupante. Esse princípio está respaldado no Art. 51 da Carta da ONU, além das Resoluções de nº 2.649/1970, 2.787/1971, 3.070/1973 e 3.103/1974, que reconhecem explicitamente o direito inalienável dos povos de lutar contra a dominação colonial, a ocupação estrangeira e o apartheid. Além disso, há as Convenções de Genebra de 1949 e os Protocolos Adicionais de 1977, e a prática do Tribunal Penal Internacional (CPI), que distinguem entre resistência armada e terrorismo. Portanto, a simples existência de uma luta armada contra a ocupação não configura terrorismo, mas sim exercício legítimo de resistência.

Fundado em 1987, durante a Primeira Intifada, o Hamas não é apenas um braço armado: é também um movimento político, social e religioso profundamente enraizado na sociedade palestina.  Sua vitória surpreendente nas eleições legislativas de 2006, reconhecidas como livres e democráticas por observadores internacionais, demonstra sua representatividade popular, tendo eleito 76 das 132 cadeiras, enquanto o seu maior rival, o Fatah, de Yasser Arafat, conseguiu 43 cadeiras. 

Ao longo das décadas, o Hamas administrou instituições sociais, hospitais, escolas e programas de assistência, desempenhando papel semelhante ao de movimentos de libertação na Argélia (FLN), no Vietnã (Viet Minh) ou na África do Sul (ANC), todos eles também rotulados de terroristas em algum momento histórico. Hoje, muitos desses movimentos são reconhecidos como legítimos construtores de seus Estados nacionais. A classificação do Hamas como “terrorista” serve a objetivos claros da política israelense para silenciar o debate sobre a ocupação, o apartheid e o genocídio, desviando a atenção da raiz do conflito; justificar ataques massivos contra civis em Gaza, apresentados como “luta contra o terrorismo”; e criminalizar toda forma de resistência palestina, seja armada ou pacífica – desde ONGs até jornalistas e estudantes. Judith Butler, filósofa americana da Universidade de Berkeley, observa que a resistência armada sob ocupação não pode ser reduzida a terrorismo, pois isso ignora as causas estruturais da violência: o colonialismo, o supremacismo e a ocupação militar.

Desde 2007, Israel impôs à Faixa de Gaza um bloqueio terrestre, aéreo e marítimo, que a ONU classifica como punição coletiva – prática proibida pelo direito internacional. Milhões de palestinos vivem privados de liberdade de circulação, água potável, energia elétrica e medicamentos. A cada ofensiva israelense, milhares de civis são massacrados, casas e hospitais são destruídos e bairros inteiros são arrasados. O atual cenário de ataques indiscriminados contra hospitais, escolas e campos de refugiados é descrito por especialistas em direito internacional e por relatores da ONU como genocídio em andamento, pela dimensão da destruição e pela intenção explícita de expulsar ou exterminar a população palestina originária de Gaza. Diante dessa realidade, a resistência armada do Hamas deve ser entendida não como terrorismo, mas como exercício do direito de autodefesa de um povo sob ocupação e limpeza étnica. A luta palestina é, em essência, uma luta pela sobrevivência física e cultural diante de um projeto colonial de eliminação de toda forma de vida na Palestina.

O enquadramento do Hamas como grupo terrorista é uma construção política de Israel e de seus aliados ocidentais, sem base no direito internacional. A resistência palestina, armada ou não, é reconhecida como legítima pela ONU, pelos BRICS e por tratados internacionais sempre que se destina a enfrentar a ocupação estrangeira e a opressão colonial. Chamar o Hamas de “terrorista” é uma tentativa de deslegitimar a luta de um povo que busca liberdade, justiça e autodeterminação. A verdade é que Israel, a potência ocupante, viola sistematicamente o direito internacional, pratica apartheid e comete crimes de guerra e crimes contra a humanidade. O Hamas é parte integrante da resistência palestina e deve ser compreendido como um movimento de libertação nacional, não como terrorista. Reconhecer esse fato é passo fundamental para uma leitura justa e honesta do conflito, e para se buscar uma solução baseada na verdade histórica, na justiça e no direito dos povos à autodeterminação.

 

Fonte: The Guardian/Opera Mundi