segunda-feira, 2 de março de 2026

O cerco ao Brasil e a hora da ruptura

Enquanto Washington normaliza a força como linguagem da política internacional, o Brasil se vê cada vez mais pressionado por tarifas, sanções, disputas tecnológicas e interferências narrativas. Neste novo tabuleiro, não há espaço para neutralidade: ou Lula se descola de Trump e afirma a soberania brasileira como projeto político global, ou o país será progressivamente enquadrado como periferia estratégica de um poder em declínio, mas ainda capaz de impor seus interesses.

<><> O mundo voltou a falar a língua da força

O que se desenha neste momento não é apenas mais uma crise internacional. É uma inflexão. A política global volta a operar, de forma explícita, pela linguagem da força. O ataque dos Estados Unidos e de Israel ao Irã, em meio a negociações em curso, não é um episódio isolado. É um sinal inequívoco de que a mediação deixou de ser o princípio organizador das relações entre Estados.

Esse deslocamento não surge agora, mas agora se torna impossível de ignorar. A exceção virou regra. Guerra preventiva, coerção econômica, sanções unilaterais e pressão diplomática deixaram de ser recursos extraordinários e passaram a compor o repertório ordinário de poder. O que antes exigia justificativa, hoje se impõe como fato.

Nesse cenário, o direito internacional não desaparece, mas perde centralidade prática. Ele passa a ser mobilizado conforme a conveniência das potências. A assimetria não é apenas material. É também a capacidade de definir o que é legítimo.

Para países como o Brasil, isso altera o próprio campo de ação. Já não se trata de equilibrar interesses divergentes com técnica diplomática. Trata-se de reconhecer que o ambiente foi reorganizado em torno de disputas abertas, onde neutralidade não protege. Expõe.

O mundo mudou de linguagem. E quem não compreender isso rapidamente deixará de negociar seu lugar. Será empurrado a ele.

<><> A coerção virou método, não exceção

Se a força voltou ao centro, é porque deixou de ser contingência. O que se observa não é uma sequência de crises desconectadas, mas a consolidação de um método. A coerção, em suas múltiplas formas, passou a estruturar a ação das grandes potências. Não se limita ao uso direto da força. Opera em camadas, combinando instrumentos econômicos, jurídicos, tecnológicos e narrativos.

O ataque ao Irã explicita sua forma mais visível. A Venezuela, com episódios de intervenção e captura de liderança, revela outra dimensão. No caso brasileiro, a coerção assume contornos mais sofisticados. Manifesta-se por meio de sanções direcionadas a autoridades, pressões comerciais, investigações unilaterais, disputas sobre regulação digital e tentativas de enquadramento discursivo em torno de categorias como “liberdade de expressão”.

Não há contradição nesse arranjo. Há adaptação. A forma varia conforme o custo político e a posição estratégica do país alvo. Onde o custo é baixo, a força é direta. Onde há maior densidade institucional e econômica, a pressão se torna difusa, contínua e fragmentada.

O ponto central não é punir. É moldar comportamento. Induzir alinhamento. Estabelecer limites informais sobre o que pode ser feito por Estados que buscam autonomia.

Quando a coerção se torna método, eventos isolados perdem relevância. O que importa é o padrão. E, nesse padrão, o Brasil já não figura como observador. É alvo em processo de enquadramento.

<><> O Brasil entrou no raio de ação do império em modo crise

O Brasil já não ocupa uma zona neutra no tabuleiro. Passou a integrar o raio de ação de uma potência que opera sob lógica de crise e, por isso, reduz sua tolerância à autonomia alheia. Esse deslocamento não foi anunciado. Foi construído por sinais dispersos, decisões aparentemente técnicas e movimentos que, isolados, poderiam parecer pontuais. No conjunto, formam um padrão consistente de pressão.

Sanções a membros do Supremo Tribunal Federal, tarifas com motivação política, investigações comerciais unilaterais e a ofensiva diplomática contra iniciativas de soberania de dados não são episódios desconectados. São instrumentos distintos aplicados sobre o mesmo alvo. Cada um atua em uma dimensão, mas todos convergem para um objetivo comum: restringir a margem de manobra do Estado brasileiro.

Há ainda uma camada mais sensível. A disputa por minerais críticos, como as terras raras, insere o Brasil em uma cadeia estratégica que extrapola o comércio. Trata-se de controle sobre infraestrutura produtiva, tecnologia e futuro industrial. Ao mesmo tempo, a nomeação de operadores ideológicos para lidar diretamente com o país indica que a pressão não será apenas técnica ou econômica. Será também política e narrativa.

O que se configura não é ruptura súbita, mas cerco progressivo. Um movimento que avança pelas instituições, pelas cadeias produtivas e pelo próprio debate público. E exatamente por isso é mais difícil de perceber. O Brasil já não está à margem desse processo. Está no centro dele.

<><> A ambiguidade diplomática virou vulnerabilidade estratégica

Durante décadas, a capacidade brasileira de transitar entre polos de poder foi tratada como virtude. A diplomacia do equilíbrio ampliou margens de negociação, evitou confrontos diretos e extraiu ganhos em um sistema que ainda admitia mediação. Esse repertório, porém, dependia de uma condição que deixou de existir: a expectativa de reciprocidade.

No cenário atual, essa base colapsa. Quando um dos polos opera pela coerção, a ambiguidade deixa de ser ferramenta e passa a ser lida como hesitação. E hesitação, em ambiente de disputa aberta, converte-se rapidamente em oportunidade de pressão. O espaço de negociação é ocupado por mecanismos de enquadramento.

Isso não exige abandonar a tradição diplomática brasileira, mas reconhecer seus limites diante de uma mudança estrutural. Manter canais abertos com todos os polos já não amplia autonomia por si só. Pode, ao contrário, diluí-la, ao permitir que pressões externas avancem sem resposta clara.

O problema não está no equilíbrio, mas em um equilíbrio que pressupõe condições inexistentes. Quando o jogo muda, a estratégia precisa acompanhar. Caso contrário, o país não se posiciona. É posicionado.

A ambiguidade, que foi ativo, torna-se vulnerabilidade. E vulnerabilidades, em cenários de coerção, não permanecem em aberto. São exploradas.

<><> O paradoxo interno: soberania como acelerador político

Há um elemento que altera o cálculo interno e costuma ser subestimado. O mesmo movimento externo que busca constranger o Brasil produz, no plano doméstico, efeito inverso. Quando a pressão é percebida como interferência, o debate se reorganiza em torno da soberania. E, nesse terreno, o governo se fortalece.

Não se trata de nacionalismo retórico, mas de um mecanismo recorrente. Ao ultrapassar certos limites, o ator externo desloca a disputa interna. Ela deixa de ser apenas programática e passa a incorporar a defesa do próprio Estado. As diferenças permanecem, mas são reordenadas diante de um fator comum.

Esse padrão já se manifestou. Sempre que o país foi alvo de tarifas, sanções ou declarações de caráter interventivo, a resposta ancorada na soberania encontrou ressonância social. Nesses momentos, Lula deixa de ser apenas chefe de governo e passa a ocupar a posição de representante de uma resposta nacional ao enquadramento externo.

Eis o paradoxo. O cerco que pretende enfraquecer pode, se bem interpretado, tornar-se vetor de fortalecimento. Mas isso não é automático. Exige leitura precisa, capacidade de nomear o conflito e de traduzir pressão em narrativa política.

Soberania, aqui, não é apenas princípio. É instrumento. Quando mobilizada com clareza, torna-se um dos mais potentes aceleradores de apoio interno.

<><> A ruptura necessária: descolar de Trump para governar e crescer

Diante desse cenário, a questão deixa de ser tática e passa a ser estrutural. Não se trata de ajustar discurso ou calibrar gestos. Trata-se de reconhecer que a ambiguidade já compromete a capacidade de governar, de crescer politicamente e de preservar autonomia. A relação com os Estados Unidos, sob a lógica atual, deixou de oferecer equilíbrio e passou a operar como vetor de pressão.

Descolar-se de Trump, portanto, não é um gesto ideológico. É uma decisão estratégica. Significa redefinir os termos da relação, retirando-a do campo da adaptação e recolocando-a no terreno da afirmação soberana. Significa estabelecer limites claros, inclusive simbólicos, sobre o que o Brasil aceita como forma de interlocução.

Esse movimento produz efeitos internos imediatos. Ao assumir uma posição nítida, o governo reduz zonas de ambiguidade exploradas tanto externamente quanto no debate doméstico. Reorganiza o campo político em torno de um eixo definido, no qual a soberania deixa de ser abstração e passa a orientar decisões concretas.

Há também um efeito externo. Países submetidos a pressões semelhantes buscam referências. Lideranças capazes de transformar essa experiência em projeto ampliam sua capacidade de influência. Ao se descolar, Lula não apenas reage. Passa a propor.

A alternativa é permanecer em um espaço intermediário que já não oferece proteção. Nesse ambiente, quem não define sua posição tem sua posição definida por outros.

<><> Lula como contraponto: soft power e a disputa do século

Ao se descolar, abre-se um espaço que ultrapassa a política doméstica. Surge a possibilidade de ocupar um papel hoje em disputa no plano global. Em um cenário marcado pela escalada da coerção, torna-se evidente a ausência de lideranças capazes de articular uma alternativa consistente. Esse vazio não é apenas político. É também simbólico. Diz respeito à capacidade de oferecer um horizonte que não se baseie na imposição, mas na legitimidade.

É nesse ponto que o soft power ganha densidade estratégica. Não como instrumento de sedução superficial, mas como expressão de um projeto político reconhecível. Diplomacia ativa, defesa do multilateralismo, respeito à autodeterminação dos povos e compromisso com o desenvolvimento social deixam de ser diretrizes históricas e passam a constituir um diferencial concreto.

Lula reúne condições específicas para ocupar esse espaço. Sua trajetória, sua capacidade de interlocução e o reconhecimento acumulado em diferentes regiões do mundo formam uma base que poucos líderes possuem hoje. Em um ambiente fragmentado, a habilidade de dialogar com múltiplos polos converte-se em ativo geopolítico.

Mas esse papel exige clareza. Não há contraponto sem distinção. Para que o Brasil seja percebido como alternativa, precisa diferenciar-se de forma nítida do modelo que hoje se impõe pela força. Isso implica assumir posições, ainda que produzam tensões no curto prazo.

A disputa em curso não é apenas por influência. É pela definição das regras do jogo nas próximas décadas. E quem ocupa o lugar de contraponto não apenas reage ao presente. Ajuda a moldar o futuro.

<><> O custo da hesitação: quando o cerco vira enquadramento

Há um ponto a partir do qual pressão deixa de ser episódica e passa a estruturar o comportamento de um país. Esse ponto não é declarado. Ele se instala. Enquanto há reconhecimento do movimento e resposta proporcional, ainda existe margem de manobra. Quando há hesitação, essa margem começa a se fechar. O cerco deixa de ser percebido como tal e passa a operar como normalidade.

Esse deslocamento ocorre por acúmulo. Uma concessão, uma omissão, um silêncio diante de um episódio que poderia ter sido enfrentado. Aos poucos, os parâmetros do aceitável se alteram. O que antes seria lido como interferência passa a ser tratado como parte do jogo. E, quando isso se consolida, a autonomia já foi parcialmente comprometida.

No plano econômico, isso se traduz em dependência crescente de cadeias produtivas externas. No plano tecnológico, em perda de controle sobre dados, infraestrutura e plataformas. No plano político, em limitação progressiva da capacidade de decisão. A soberania permanece formal, mas sua efetividade se reduz.

A hesitação raramente se apresenta como escolha. Surge como prudência, cautela, tentativa de evitar conflito. Mas, em um ambiente em que o conflito já está dado, evitar nomeá-lo não o elimina. Apenas transfere sua resolução para condições menos favoráveis.

Quando o enquadramento se completa, a reversão se torna mais custosa. O que poderia ter sido enfrentado com clareza passa a exigir rupturas mais profundas, muitas vezes sob desvantagem. Em certos momentos, adiar não é preservar. É decidir em piores condições.

<><> A hora da decisão

O Brasil não enfrenta um dilema abstrato. Enfrenta uma encruzilhada concreta, moldada por forças já em movimento. De um lado, um sistema internacional reorganizado sob a lógica da coerção, no qual a força volta a ser o principal idioma da política. De outro, a possibilidade de afirmar um caminho distinto, baseado em soberania, legitimidade e capacidade de articulação.

Lula ocupa uma posição singular nesse cenário. Não apenas pela presidência, mas pelo acúmulo histórico, pelo reconhecimento internacional e pela capacidade de interlocução com diferentes blocos. Essa posição, porém, não se sustenta por inércia. Precisa ser ativada. E ativá-la exige decisão.

Descolar-se de Trump não significa romper com os Estados Unidos enquanto país. Significa recusar uma forma específica de condução da política internacional baseada na pressão, na assimetria e na imposição. Significa estabelecer que a relação bilateral deve se dar em termos de respeito mútuo, não de enquadramento.

Ao fazer isso, Lula não apenas reposiciona o Brasil. Redefine seu próprio papel. De gestor de um equilíbrio instável, passa a articulador de uma alternativa. De ator reativo, torna-se referência em um mundo que busca novos pontos de apoio.

A escolha, portanto, não é entre confronto e acomodação. É entre assumir o lugar que as circunstâncias abriram ou permitir que ele seja ocupado por outros. Em momentos como este, não agir não preserva o presente. Compromete o futuro.

 

Fonte: Por Reynaldo José Aragon Gonçalves, em Brasil 247

 

O apelo neofascista

No streaming, no cinema ou na literatura, cenas espetaculares de ficção científica têm ocupado parte significativa de nosso imaginário cultural e afirmado a atratividade do colapso da sociedade tal como a conhecemos: um meteoro aniquila grande parte da civilização, uma guerra de destruição total transforma o cotidiano em caos, a ditadura das máquinas se implanta, alienígenas dominam a humanidade ou um desastre climático faz a civilização moderna voltar à fase mais crua da luta pela sobrevivência – todos esses enredos exemplificam a irresistível sedução pelos escombros em nossa época.

A distopia tem se mostrado a língua franca da sociedade contemporânea não apenas na crítica sociológica e na ficção científica, mas também nos telejornais, nos reality shows, nos portais de entretenimento ou no feed das redes sociais. Quando buscamos nos informar ou mesmo nos distrair, somos arrebatados por um mundo de violência, agressividade, corrupção, assédio e concorrência.

A atmosfera pessimista se torna cotidiana em meio às ruínas da gramática liberal e do otimismo oficial que eram norma até há pouco, e podemos notar que o mal-estar vai se normalizando desde as palavras do cotidiano ou do entretenimento até a linguagem de políticos que proclamam “acabar com tudo o que está aí”.

A sociedade neoliberal já não esconde a degradação que provoca e os seus efeitos psíquicos – que incluem ansiedade, depressão, burnout, vícios, desmotivação, culpa e sentimento de insuficiência – também podem justificar aflição nos produtos culturais. Mas, além dos motivos realistas das representações, talvez haja certo fascínio em constatar o pandemônio, a recessão econômica, a insignificância humana, a destruição ambiental, o desalento dos sujeitos, a crise política e os estilhaços da moralidade pública.

Anna Kornbluh nomeou como “imediatez” a atual corrosão das instituições e símbolos coletivos que têm levado à hostilidade competitiva desenfreada, aos discursos de ódio, às humilhações públicas e às linguagens estéticas apelativas e superficiais. A autora chama de “capitalismo tardio demais” esse estágio em que as expectativas estéticas e ideológicas implodem, mas deveríamos também nos questionar sobre o impacto político de tal reconfiguração do imaginário. Como esse prazer da destrutividade tem seduzido as massas e o desejo fascista renascido tem sido transformado em objeto de consumo?

O fascismo histórico propagandeou o desenvolvimento da produção e a prosperidade seletiva, ou seja, a expansão do capitalismo ensejou o contexto em que se tornou possível fortalecer uma moral guerreira que celebrava a potência dos grandes homens e aspirava à construção de impérios.

O futurismo italiano fez a celebração afetada da máquina e da velocidade como fins em si mesmos num contexto em que elas reverberavam o sentimento histórico de ruptura e inovação. Coube aos líderes fascistas de então associar o impulso e a euforia do progresso ao culto guerreiro à autoridade, o desprezo pelo atraso aos outsiders e a potência científica à pseudociência racial que desprezava a figura da alteridade para se engrandecer sem contradição.

O desejo neofascista não comercializa exatamente os mesmos materiais ideológicos pois já não se encontram disponíveis as ilusões ascendentes daquele contexto, que se baseavam no processo de modernização, na crescente concentração urbana e na potência industrial nascente. Hoje, o contraste entre passado, presente e futuro se encontra esmaecido pela amnésia histórica pós-moderna e o projeto neofascista tem assumido uma feição mais dispersa e niilista.

No entanto, como sugere Franco Berardi, a completa dissolução dos laços de solidariedade comunitários, o desenvolvimento de técnicas de controle e a plastificação mercantil dos sujeitos parecem ter criado indivíduos mais suscetíveis à dessensibilização fascista e reduzido o potencial de resposta à sua desumanização.

Mas a conquista do imaginário coletivo por tais forças destrutivas só se faz possível quando a ordem anterior já foi consumida por suas próprias falhas e apenas a perversidade de um líder autoritário sacia a ânsia por vingança contra a leis do velho mundo. Dessa forma, a atomização e a deterioração social são chaves para se compreender como os demagogos vendem seus produtos salvacionistas e, de formas tão astutas quanto irracionais, capturam o desejo das massas. Os momentos de crise do capitalismo, de instabilidade política, disfuncionalidade do trabalho, queda da renda e degradação social são os momentos em que o fascismo tende a florescer.

Na Alemanha do século XX, a humilhante derrota na Primeira Guerra Mundial, a recessão de 1929 e a esmagadora derrota das organizações de trabalhadores no espaço de apenas uma década formaram o cenário de uma tempestade perfeita.

A reversão dos projetos imperiais e modernizadores alemães, a traição do SPD, a derrota dos conselhos operários e, em geral, a decadência da nação tornaram possível tanto a captura da imaginação política pelo ressentimento quanto o triunfo do ódio genocida proposto pelo partido nacional-socialista e por Hitler. O colapso do país alimentou um ímpeto de destrutividade que chegaria aos extremos da irracionalidade perversa em que a “Solução Final” se sobrepôs ao esforço de guerra.

Nos Estados Unidos do XXI, o declínio relativo de seu domínio econômico, a crise de 2008, o fracasso das correntes social-liberais e a impotência das forças de resistência são processos em curso que criaram uma considerável base para Donald Trump e o movimento MAGA (Make America Great Again).

A corrosão das instituições e atual ascensão neofascista se deu de forma gradual, com a dispersão e fragmentação dos movimentos sociais após o advento do neoliberalismo e a derrota do socialismo real. A desmoralização coletiva se mostrou um ingrediente mais decisivo do que o malogro de alternativas revolucionárias.

Claramente, os efeitos desse longo processo se fazem sentir hoje em todo o Ocidente e se tornam mais sombrios à medida que não há oposição à vista, não há Stalingrado e, na maior parte dos lugares, não há organizações de massa com projetos concorrentes. Os mercadores do ódio passaram a deter o monopólio das perspectivas antissistema num momento em que a demanda por alternativas não tem previsão de parar de crescer.

A agressividade aparece como solução mágica para todos os defeitos da miséria social porque ela tanto promete atacar a insatisfação popular quanto pelo fato de ser, em si, um entretenimento que aplaca a infelicidade. Um indivíduo forte deve comandar para que todos os outros estejam protegidos contra a insatisfação cristalizada na figura do outro.

O líder autoritário é visto como capaz de colocar ordem no caos, de reproduzir na sociedade como um todo a lógica patriarcal da família e de expurgar da comunidade o indesejado personificado. O culto à personalidade e o masculinismo se complementam no sentimento de que apenas o pater familias pode retomar o equilíbrio social contra os dissidentes que seriam responsáveis pelo mal-estar comunitário.

A alquimia de todo fascismo é unir o individualismo e a comunidade, o mérito e o pertencimento, conferindo sentido para o ressentimento através de uma “ambiguidade estratégica”, de modo que a hierarquia separa a todos, mas que haja unidade da maioria contra uma escória bem delimitada.

O grupo étnico, a religião, a orientação sexual, a posição política são todas imagens de alteridade que podem servir à demarcação clara de um antagonista amedrontador o suficiente para justificar a destruição preventiva. Naturalmente, o essencialismo que toma a identidade alheia como atestado de propensões deletérias permite resguardar a identidade dominante como benigna, representar perversamente a fratura social e, sobretudo, defender a propriedade e os interesses de classe em meio às crises.

O apelo do discurso neofascista reside em tal união entre o desejo regressivo e o interesse material. O seu aspecto decisivo é o “pessimismo antropológico” que desacredita a razão e reduz as relações humanas à concorrência entre as raças, os povos e os indivíduos na lógica do darwinismo social. Todo universalismo é ofensivo, porque o fascismo radicaliza a premissa liberal de que o egoísmo e a competição são a base da natureza humana.

Como poderia alguma conquista econômica, social ou científica ser benéfica para todos quando a própria ideia de humanidade comum foi descartada e se compreende que todos são competidores?

Uma vez legitimada a assimetria e posta a desigualdade crescente, o processo de essencialização é necessário: “Aqueles que se beneficiam das desigualdades são frequentemente sobrecarregados por certas ilusões que os impedem de reconhecer a contingência de seus privilégios. Quando as desigualdades se intensificam, essas ilusões tendem a entrar em metástase. Que ditador, rei ou imperador não suspeitou ter sido escolhido pelos deuses para a sua função? Que poder colonial não alimentou ilusões de superioridade étnica, ou a superioridade de sua religião, cultura ou modo de vida, superioridade que supostamente justifica suas expansões e conquistas imperiais?”.

A auto-organização dos trabalhadores é combatida justamente por expressar um princípio de solidariedade que ameaça o núcleo do desejo autoritário e, na verdade, “a aversão pelos sindicatos é um tema tão importante na política fascista que o fascismo não pode ser totalmente compreendido sem um entendimento disso”. Os liberais pensaram que o liberalismo, o nazifascismo e o socialismo soviético foram projetos alternativos da modernidade, ou seja, a derrota nazista e a implosão socialista seriam provas da superioridade de seu sistema.

Deveríamos compreender, no entanto, as tendências fascizantes, e também as socializantes, como latências do capitalismo que se manifestam nos momentos de crise e apontam para os princípios antagônicos da hierarquia ou do igualitarismo.

As instituições oficiais da democracia liberal são o negativo do fascismo até o momento em que a austeridade, a intransigência e as medidas de exceção se fazem necessárias para proteger o “interesse nacional”, ou seja, quando o braço forte do Estado se torna o fascio. Se é verdade que a esfera da circulação é o “verdadeiro Éden dos direitos inatos do homem” e “o reino exclusivo da liberdade, da igualdade, da propriedade e de Bentham”, sabemos bem que o paraíso se transforma em inferno quando adentramos o terreno oculto da produção, a ditadura do labor.

O lado sombrio da utopia liberal é bem reconhecido pelos tiranos que buscam ampliá-lo para a sociedade como um todo, tornando a fábrica o modelo da totalidade da vida social: “No domínio da iniciativa privada (bem como das forças armadas), o nacional-socialismo reconheceu uma estrutura autoritária familiar que sua política poderia explorar para fins de propaganda […] Hitler enfatizou que os industriais deveriam apoiar o movimento nazista, uma vez que as empresas já funcionavam de acordo com o ‘princípio do líder’, o princípio do Führer”.

Dessa forma, compreendemos que o neofascismo não é uma perspectiva estranha ao liberalismo, mas um desdobramento específico de suas tensões internas. Os discursos social-liberais também têm como pressuposto a fragmentação das expectativas coletivas, mas, enquanto eles insistem em manter as aparências de um mundo compartilhado e democrático, os líderes autoritários preferem ritualizar a divisão. A hipocrisia dos primeiros encontra resposta no charlatanismo dos últimos.

Slavoj Žižek aponta que o desembaraço de personagens como Donald Trump produz o prazer da obscenidade, a normalização do absurdo, como se as suas patologias lhe permitissem maior desprendimento das diretrizes caducas de outro tempo. O seu carisma provém dessa liberdade desregrada que evoca em gestos e palavras, encenando uma independência que é a desconexão em relação a qualquer norma de empatia.

Quando Donald Trump fala de “imigrantes criminosos”, por exemplo, não pensa em subdividi-los a partir de uma categoria universal, mas em fundir os dois termos, afirmar que os imigrantes são essencialmente criminosos e legitimar a política violenta do ICE (Serviço de Imigração e Controle) contra essas minorias.

A “permissividade pós-moderna” é o caráter vanguardista dos líderes neofascistas e o seu caráter cômico se baseia na banalidade com que defendem a violência e a “lei do mais forte”, enquanto acenam com vagas promessas de recompensas para aqueles que se alinharem aos mais fortes. O seu humor já não é a quebra de expectativas, mas o desengano com qualquer expectativa, a transformação das ruínas em espetáculo. Eles transfiguram o caráter crítico da comédia em riso a favor da ordem, mas a transgressão dos limites, o irracionalismo e o individualismo parecem até aqui ter impedido sequer a sua coordenação como nos partidos de massa do século XX.

O show dos neofascistas é a gratificação imediatista no contexto de frustração generalizada, onde performar a desarmonia coletiva é extravasar uma pulsão agressiva que já não pode ser sublimada em meio à situação de precariedade crescente.

O descrédito de alternativas, o alargamento da fronteira dos discursos aceitáveis e o prazer pelo abjeto e escatológico são todos sintomas mórbidos do crescente autoritarismo que domina o cenário de colapso da antiga ordem social. O apelo do neofascismo é a zombaria da miséria neoliberal, mas o seu objetivo é transformar a comédia em terror.

 

Fonte: Por Thomas Amorim, em A Terra é Redonda

 

Medicina 4.0 - Entre algoritmos e decisões vitais

Para compreender o que é ser médico faz mister irmos para seus primórdios, sua base, seu locus nascendi, e entender o desenvolvimento dessa arte que chamamos de medicina.

Não querendo me prolongar muito na arqueologia do desenvolvimento do papel de médico, vou me ater no entanto na única e verdadeira observação que considero indispensável: não há como dissociar a medicina e o médico da constituição de um sujeito ético.

Então, devemos analisar como formamos esse sujeito ético, o médico, que irá aprender a medicina em alguma instituição de ensino, dentro da nossa realidade contemporânea informacional, imerso na infosfera.

Lá no começo, com Hipócrates, foi possível sair do clã dos Asclepíades e ensinar a medicina fora dos templos, pautados pelo famoso Juramento de Hipócrates, que conferia o novo ethos no período clássico: primun non nocere!

Acompanhar o mestre às casas daqueles que padeciam, observar suas feridas e dores, menos diagnosticar e mais restituir a saúde do corpo através de receitas, dietas e cuidados, respeitando a physis e o tempo da clínica, seu kairós, perfaziam a prática dos hipocráticos. Imerso na teoria dos humores, sem detalhes anatômicos, sem bioquímica, sem microscopia, sem antibióticos, observando os ciclos febris e o efeito de purgantes, o médico ia destrinchando os sinais do corpo e apaziguando o sofrimento do seu paciente. Não significava cura propriamente, mas, trazia alento e respeito à ananke physeos.

Ao longo dos tempos, o progresso técnico em todas as esferas humanas foi sensacional e quase ininterrupto, progredindo de forma exponencial e na medicina não foi diferente. Do surgimento das vacinas à cirurgia robótica, vidas sendo salvas como nunca antes, dobrando a expectativa de vida da população ao final do séc. XX. Mesmo assim, a ética dos hipocráticos continuou como faceta estruturante daquilo que se chama “ser médico”. Nenhuma faculdade de medicina até hoje, que se tenha notícia no mundo ocidental, pauta seu ensino sem as considerações éticas implícitas e indispensáveis à prática médica.

Mas obviamente a preponderância da pauta técnica, ainda mais recentemente com a aplicação em vias de fato da Inteligência Artificial no âmbito da vida humana, vem tomando um espaço não desprezível na formação médica, colocando-se como indiscutível e necessária no mercado de trabalho competitivo atual: é a medicina 4.0 entrando no palco do ensino.

Corte para uma cena:

Estamos diante de uma paciente com diagnóstico de câncer de pulmão, uma caiçara, com vida dedicada aos filhos, o fogão à lenha era sua lida diária. Foi internada com falta de ar e já usava oxigênio suplementar em casa. Há uma dúvida no que é possível fazer em termos terapêuticos, pois a doença vem se agravando, porém os médicos têm em mãos uma biópsia que sugere um crescimento tumoral possivelmente benigno.

A falta de ar foi maior e ela precisou ser intubada e respira agora com ajuda da ventilação mecânica. Não consegue ficar sem esse auxílio. Chama-se a família e se explica o mau prognóstico: “gostaríamos de poder extrair o tumor, mas tecnicamente isso não é possível e ela não sobreviveria a uma cirurgia tão invasiva, ela está muito fraca e sem os recursos físicos necessários para aguentar o trauma da operação”.

Aqui a cautela se apresenta. Cada médico avalia, de acordo com sua sensibilidade o melhor a ser feito a partir de agora. A forma de comunicar, a conversa, o toque e a delicadeza são fundamentais. A finitude diante dos olhos é também espelho para quem cuida. Segundo Berardi, a sensibilidade é a capacidade de interpretar e entender aquilo que não pode ser expresso em signos verbais ou digitais. Essa percepção intuitiva de cada qual que vai se deparar com situações desse tipo, procurando sempre fazer o melhor para o paciente, como deveria ser ensinada?

Fazer bons diagnósticos não é a completude do ensino médico. Máquinas e auxílios acadêmicos provenientes da interface com a internet e computadores proporcionam informação de forma prática e rápida. Para se obter uma informação crítica, um último artigo de revisão, uma equação que ajude a prescrever uma medicação, uma diretriz, um protocolo e etc… são bem vindos, mas não exaure a totalidade da prática da medicina e não abarca a dimensão ética de sua pragmática.

A medicina 4.0 está aí como produto de marketing das faculdades de medicina, quem não tem corre o risco de ser arcaica na sua proposta de ensino. A dita “quarta revolução industrial” promete fazer a medicina entrar em uma nova fronteira antecipando benefícios econômicos e técnicos, mas também colocando em xeque o papel do médico no futuro. Mas é possível ensinar coisas como empatia e humanismo aprendendo com uma máquina? Então pergunta-se, quais são os reflexos da Inteligência Artificial na formação do médico?

Outro corte de cena:

Em uma Unidade de Terapia Intensiva, à mercê de algumas decisões de vida e de morte, o paciente é um corpo sem sujeito ou um sujeito dessubjetivado. Na ausência de alguém que se interesse por sua história de vida, seus projetos interrompidos, seu lugar na família e seu temor ou horror diante da solidão de uma cama de UTI, o paciente/sujeito está desprovido de autonomia e identidade própria.

Ao seu redor ele ouve apitos que não fazem sentido, outros barulhos constantes, vozes que muitas vezes não entende, onde ele não vê a luz do sol entrar, não sabendo ao certo se é dia ou noite, sendo controlado por monitores e câmeras, sob o torpor de medicações ou sentindo alguma dor física. Como ensinar o médico em formação para a percepção desse entorno que se coloca como a “quase-essência” de casos do seu dia-a-dia utilizando-se de máquinas que carecem de espírito?

O treinamento e o conhecimento onde aplicamos nossa habilidade de saber o que deve ser feito, a conduta certa a ser tomada, se encontra agora em um espaço mais distante, uma sala ao lado, ou um balcão em separado, onde se pode ver os traçados do eletrocardiograma, as curvas de pressão e a oximetria do paciente.

Nessa conexão do médico treinado em captar essa informação, concatenando dados, visualizando os monitores e interpretando sinais computacionais é que surge o campo propício para a constituição de um médico maquínico. O pensamento se torna um mecanismo semelhante ao da máquina. É o médico que se concentra em absorver, na tentativa de interpretar todos os sinais magnéticos, os fluxos e as estatísticas numéricas de registros biológicos na tela de um monitor e na rede de informática que lhe entrega os sinais do paciente além de uma série de resultados de exames laboratoriais e estatísticas.

Vejamos que na medicina moderna já estamos lidando com uma proliferação de sinais e signos com os quais o médico precisa interagir e decifrar, buscando estabelecer uma conexão, muitas vezes procurando um sentido de causa e efeito. A subjetividade médica em formação tenta se alinhar com a subjetividade das máquinas que lhe auxiliam e são indissociáveis, formando um construto operacional maquínico. Nessa formatação não há a possibilidade de uma intersubjetividade à la Jacob Levy Moreno: falta um “outro”.

Não irei fazer um juízo de valor sobre faculdades médicas que desejam estar atualizadas naquilo que de melhor existe em termos de tecnologia. A verdade é que a tecnologia moderna digital e as plataformas médicas online, estão se tornando cada vez mais prevalentes, para o bem ou para o mal: a vindoura medicina 4.0. Apenas acredito que devemos nos perguntar então que médico estarão formando, como forma de provocação para aprofundamento da discussão em pauta: serão ainda hipocráticos esses egressos?

Pergunto mais, precisamos de “mais medicina” ou de “mais cuidado”? À primeira vista não precisariam ser tópicos excludentes, mas o contexto atual exige um esforço de discernimento. Sabemos desde muito que é pela prevenção que evitamos a maioria das doenças e que é pelo fortalecimento do sistema básico de saúde e da melhoria das condições de vida da população no geral que oferecemos o que se produziu de melhor em termos de saúde. A medicina preventiva não é só mais barata, ela também é a melhor abordagem a ser ensinada e aplicada quando almejamos cuidar do povo.

Contudo, estamos chegando ao ponto em que daqui a pouco tempo será possível que um robô faça diagnósticos melhores que os humanos, pois já conseguem fazer cirurgias menos lesivas com cortes milimetricamente precisos pelo auxílio da robótica. Se para chegar em alguns diagnósticos fazemos roteiros, algoritmos e pontuações, seria ingênuo desacreditar na primeira afirmação acima. O que nos faz argumentar que com o aumento da utilização da Inteligência Artificial na medicina, treinamento específico nessa área deverá se impor.

Qual será o lugar do médico e da medicina na sociedade da informação? Um dos criadores da Inteligência Artificial, Kai-Fu Lee, fez uma pergunta intrigante: “quando as máquinas podem fazer tudo que podemos, o que significa ser humano?” Ele mesmo, após ser diagnosticado com um linfoma avançado parou para ressignificar aquele crescimento dentro de si e afirmar a centralidade do amor na experiência humana em detrimento da busca pela superação do cérebro humano que ele almejava como cientista da computação.

Para Kai-Fu Lee, em contrapartida ao valor econômico e a prosperidade em escala inigualável alcançada pela humanidade a partir da “nova eletricidade”, a própria inteligência artificial, resta aos humanos a procura por profissões que ainda não estão sujeitas à automação e que exijam mais inteligência emocional.

Uma consultora de projetos em Inteligência artificial, Sol Rashidi, criou critérios para decidir o que ainda deve ficar exclusivamente nas mãos dos seres humanos, em qualquer área de atuação. Se a iniciativa é de alto risco e alta complexidade é melhor que as decisões recaiam sobre os humanos, mas se a tarefa é de baixo risco e baixa complexidade pode ser delegada aos robôs. Parece uma obviedade, mas que deve ser levada à sério quando a “Inteligência Artificial Geral” chegar. Decisões críticas poderão escapar ao controle humano.

Na medicina já estamos diante de quase isso, se considerarmos que do ponto de vista individual uma decisão terapêutica ou diagnóstica pode representar um risco significativo para o paciente. Estudos sobre a perspectiva de pacientes do uso da inteligência artificial através de plataformas médicas /chatbots revelam que, até o presente, a maioria ainda prefere receber recomendações diretamente de um médico.

Considerando que estamos na era da “medicina de precisão”, é compreensível que o auxílio de plataformas que contabilizam dados e atualizam o conhecimento médico se torne cada vez mais indispensáveis. No entanto, devemos admitir e lembrar que empatia e atendimento humanizado são insubstituíveis, podendo impactar no uso de algoritmos e plataformas informacionais no atendimento ao paciente.

Isso é tão verdadeiro que mesmo hoje muitos laboratórios e clínicas diagnósticas tomam cuidado e recomendam que agentes médicos e não-médicos envolvidos na realização de exames se eximam de fazer comentários sobre seus resultados, deixando para o clínico responsável conversar com o paciente sem intermediários, evitando mal-entendidos e falta de acolhimento com certos diagnósticos difíceis. Nada mais prudente e humano.

Uma outra questão importante, e que foi muito cara aos médicos hipocráticos, é a questão da responsabilidade pelas ações e resultados da prática médica. Quem há de se responsabilizar no caso de um erro relacionado à Inteligência Artificial?

Na relação médico-paciente fatores múltiplos estão envolvidos no processo de decisão em relação às condutas médicas. A aliança terapêutica influencia na adesão do paciente ao tratamento, a empatia e o respeito às crenças individuais são fundamentais para o sucesso de uma abordagem que almeja a saúde integral e não apenas física. O que fazer quando o computador, através de dados analisados pela Inteligência Artificial, sugerir que o prognóstico de um caso é muito ruim e isso ser colocado digitalmente para o paciente e ele optar pela eutanásia?

Recentemente houve um caso em que o ChatGPT foi implicado no suicídio de um adolescente que mantinha uma conversa com o computador que imitava a “empatia humana”, e ao que parece, os diálogos do jovem com a máquina haviam durado meses até seu fim trágico! Nenhum algoritmo interno da Inteligência Artificial foi capaz de barrar ou alterar o curso dos eventos. Restou aos pais processarem a OpenAI.

Talvez por temer situações como essa, pesquisas sobre a percepção dos pacientes em relação à Inteligência Artificial indicam que muitos ainda não confiam completamente na tecnologia, principalmente os mais idosos e com menor grau de escolaridade (digital gap), e que esperam que um humano propriamente esteja à frente das decisões médicas e que possam inclusive desfazer uma recomendação dada como certa pelo computador.

Uma das habilidades que os médicos aprendem a desenvolver durante o ensino na faculdade é que existem maneiras diversas de fazer o que é certo; são caminhos alternativos que guiam o paciente pelo seu percurso em direção à cura ou de como ir sobrevivendo com os desafios de carregar uma doença ao longo da vida que ainda lhe resta.

Importante salientar que o uso e aplicação da Inteligência Artificial na área da saúde tem sido um dos campos de pesquisa que mais cresce na medicina de hoje. Muitos desses estudos visam aumentar a confiança das pessoas nos diagnósticos baseados em dados gerados pela Inteligência Artificial.

A velocidade com que a tecnologia avança não deve fazer com que se perca de vista nossa habilidade de reflexão sobre os dilemas éticos que se impõe à profissão de médico, tomando-se cuidado e atenção para não sermos atropelados por interesses econômicos que procuram vender a tecnologia de forma acrítica. Interessante ver em um jornal de grande circulação uma matéria que diz: “novas tecnologias ajudam a agilizar diagnósticos, desburocratizar rotinas e garantem mais tempo para o médico se dedicar ao paciente”.

A tecnologia sendo vendida como um instrumento que potencializa o cuidado e a redução do tempo gasto pelo emprego de algoritmos usados em exames com aplicação da Inteligência Artificial é o suprassumo da ideologia neoliberal na medicina: mais eficiência, mais produtividade, menos atrito de corpos! Dedicação ao paciente não é uma questão de tempo, é uma questão de princípio ético.

A formação do médico enquanto um sujeito ético deve estar sempre no foco das faculdades de medicina, apesar e com todos os avanços tecnológicos atuais e que porventura ainda venham a existir. Fato este que coloca o Juramento de Hipócrates como núcleo a-histórico, imóvel e atemporal do que chamamos de “ser médico”.

 

Fonte: Por Maria Luiza Pires, em A Terra é Redonda

 

Jean Marc von der Weid: A pré-campanha eleitoral

Este é o primeiro de uma série de artigos sobre temas estratégicos para o país e que estão ausentes dos debates, eleitorais ou não. Como os temas são muitos e complexos, prefiro tratá-los separadamente para não cansar os leitores.

<><> A crise climática, suas consequências e como preveni-las

Se nada for feito a nível global para conter as emissões de gases de efeito estufa (GEE) a elevação das temperaturas médias em todo mundo (terras e oceanos) chegará a 2ºC a mais, em relação ao período pré-industrial nos próximos anos, e a 3ºC no começo da próxima década ou, na previsão mais otimista, até 2050. Isto se forem tomadas algumas medidas de contenção das emissões. Nem vale a pena discutir as previsões para o fim do século para o caso de nada ser feito para contê-las (5º a 6º C), pois a sequência de catástrofes decorrentes do aquecimento anterior já terá destruído a civilização e talvez até já eliminado a vida humana na terra.

Para ser mais preciso, e para colocar uma pitada a mais de realismo assustador nas previsões, é necessário entender que o processo de aquecimento global não funciona numa relação imediata entre as emissões de gases de efeito estufa e o aumento da temperatura. Há um diferencial no tempo entre as emissões de gases de efeito estufa e o consequente aumento da temperatura. Isto se dá porque terra e oceano se aquecem aos poucos, de tal forma que os gases de efeito estufa emitidos hoje ou no passado terão efeito em anos ou décadas, dependendo do tipo de gases. Os cientistas sabem a quantidade de gases de efeito estufa na atmosfera atualmente e podem afirmar que, mesmo que nenhuma nova molécula de gases de efeito estufa seja emitida (por um passe de mágica) a partir de hoje, o planeta vai continuar aquecendo por algum tempo pelo acúmulo de gases já emitidos. Este fato garante que, para manter a temperatura abaixo de 2º Celsius, vai ser preciso não apenas cessar de emitir novos gases, mas conseguir retirar uma boa quantidade dos gases já emitidos. Ou seja, já estamos condenados a um mundo com temperaturas médias superiores às do período pré-industrial em, pelo menos, mais 3º C, isto porque já praticamente batemos a barreira dos 2º C.

Este é o recado do mundo científico, envolvendo especialistas de todo tipo, cujas opiniões vão ficando cada vez mais pessimistas (e precisas) na medida em que vão se acumulando mais e mais dados concretos e pesquisas na mesma direção. É bom lembrar que o IPCC, em seus relatórios periódicos, sempre produziu vários cenários, desde o mais pessimista (nenhum controle sobre os aumentos de emissões de gases de efeito estufa) até os mais otimistas (diminuição da aceleração, estancamento, diminuição, suspensão e retirada dos gases de efeito estufa da atmosfera). Em mais de 20 anos, apenas as previsões mais pessimistas vêm se confirmando ou até se mostrando otimistas. O senso comum tende ler estas informações com ignorante leveza. Para o cidadão comum, o aumento de 1º, 2º ou 3ºC na temperatura que ele percebe pessoalmente não chega a ser aterrorizante. A percepção dos cariocas, por exemplo, é de que isto não é mais do que a diferença entre as temperaturas na Baixada Fluminense, ou em Bangu, e as do bairro de Santa Tereza ou da Quinta da Boa Vista. Ocorre que a média mundial não é mais do que um balanço de temperaturas muito diferentes nas várias partes do mundo. Desde logo, como as temperaturas dos oceanos são sempre mais baixas (por se aquecerem mais lentamente), cada grau a mais no nível global implica em temperaturas ainda mais altas em terra firme. Por outro lado, todo o planeta está se aquecendo, mas as temperaturas nas latitudes extremas são mais baixas do que no Equador, embora estejam aumentando em ritmo mais acelerado do que no resto do mundo. Em resumo, 2ºC a mais em todo o mundo se traduzem em 4ºC ou 5ºC a mais nos trópicos, região do globo onde a maior parte do Brasil está situada.

Estas temperaturas devem ser ainda mais altas, dependendo de outros fatores, como altitude e cobertura vegetal. Sendo assim, as temperaturas na cidade do Rio de Janeiro podem chegar a 5ºC a mais em 2050 e a 7º ou 8ºC no Nordeste. Por outro lado, as temperaturas variam segundo a época do ano e para uma média de mais 5ºC em um ano, a temperatura de verão pode chegar a 10ºC a mais, não em relação ao século XVIII, mas em relação à temperatura de verão nos dias de hoje. Ou seja, em poucas décadas poderemos estar vivendo verões com temperaturas frequentes acima de 50ºC. E ainda, como as temperaturas variam durante o dia e a noite, esta média de 50ºC pode indicar valores ainda mais altos ao meio-dia. É preciso notar que a sensação térmica, função da temperatura e da humidade, pode ser ainda mais elevada. Hoje em dia, os cariocas estrebucham sob o sol quando as temperaturas chegam perto de 40º C de máxima, mas pensem no que vai significar viver com 40º C ou mais, como mínimo nos meses de verão?

<><> Ondas de calor

O aumento das temperaturas globais é sentido de forma concreta naquilo que se chama de ondas de calor, com dias, semanas ou no pior caso, meses inteiros de verão com temperaturas que tornam impossível o trabalho físico ao ar livre. Mesmo com as atuais temperaturas já se registram decisões de saúde pública em países como o Vietnam recomendando aos agricultores trabalharem durante a noite. No nordeste brasileiro, os agricultores já adotam há tempos a prática de ir para o campo antes do sol nascer, interrompendo a lida sob o sol das 9 às 16 horas. A busca de um horário de trabalho sem sol ou com sol mais fraco, vai aumentar com o aquecimento em curso. Com o tempo este vai ser o novo normal em muitas partes do planeta.

Nas últimas décadas, estas ondas de calor vêm se intensificando de forma notável e se estendendo por áreas maiores e com maior duração, provocando um forte aumento de óbitos de idosos e crianças, os mais vulneráveis. Por outro lado, não ocorrem, como seria de se esperar, invernos mais amenos e sim ondas de frio intenso, inversamente equivalentes ao calorão de verão. Ao sentir ou saber destas friacas, o senso comum tende a duvidar do aquecimento global, mas o que interessa são as médias e estas sobem implacavelmente. O aumento das temperaturas já está impactando diretamente a produtividade das culturas agrícolas em toda parte. Como exemplo recente, a organização internacional dos produtores de café registrou perdas médias de 10% nos rendimentos globais desta cultura e isto repete constatações de outros produtores, como os de cacau. Não por acaso, os preços destas duas comodities vêm subindo sem descanso nos últimos anos.

<><> Alterações climáticas

Mas os impactos mais importantes das temperaturas médias mais altas se dá pelas modificações no clima, com um aumento exponencial de dois fenômenos extremos: chuvas torrenciais, provocadas pelo aumento da evaporação das águas dos oceanos, e secas devastadoras, ambos fruto das mudanças na direção, regularidade e intensidade dos ventos. A alternância de secas e chuvas devastadoras tem efeitos mais amplos do que as ondas de calor, sobretudo pelo seu impacto sobre a produção agrícola. Nas áreas mais secas ocorre ainda a expansão dos incêndios florestais catastróficos como os registrados repetidas vezes nos Estados Unidos, Canadá Portugal, Espanha, França, Grécia, Itália, Indonésia, Rússia, Peru, Brasil e outros mais, cada vez mais intensos e frequentes. Por sua vez, os incêndios são hoje, e de forma crescente, responsáveis por fortes emissões de CO2, que retroalimentam o aquecimento global. A modificação do regime pluvial e da intensidade e direção dos ventos contribui para os impactos na agricultura e na cobertura vegetal. No caso da Amazônia, já se faz sentir a mudança do timing e intensidade dos ventos alísios que diminuem as chuvas na região. Por outro lado, o desmatamento crescente da floresta amazônica vem provocando a redução das chuvas originárias da evapotranspiração da própria cobertura vegetal. Os famosos “rios voadores”, que levam humidade para as regiões produtoras do centro-oeste, sudeste e sul do país, estão mais erráticos e menos volumosos, embora possam provocar chuvas mais intensas e devastadoras localizadamente. As mesmas mudanças vêm se fazendo sentir nos ventos de monções, que levam chuvas para o interior da Índia, Ceilão, Bangladesh, Vietnã e outros países. A consequência do duplo efeito da mudança nos alísios e na emissão de vapor d`água pela floresta é, por um lado, o ressecamento da Amazônia, empurrando o bioma na direção de uma cobertura vegetal do tipo savana seca, num primeiro momento e à desertificação, a longo prazo. Por outro lado, as áreas produtivas das regiões ao sul da Amazônia estão submetidas à uma crescente irregularidade e diminuição das chuvas.

Se ainda existia uma dúvida para o público brasileiro sobre a mudança no regime de chuvas (e a nova tendência para fenômenos extremos), o ano de 2024 registrou a pior enchente (no Rio Grande do Sul) e a pior seca (na Amazônia), já registradas na história do país. A irregularidade no volume e distribuição das chuvas também afeta a produção de energia elétrica, pois os reservatórios das hidroelétricas são frequentemente afetados pela falta de chuva nas suas bacias. É o que estamos assistindo este ano (mais uma vez) no Brasil, com reservas caindo a níveis que obrigam a redução do fluxo que move as turbinas e diminuindo a oferta de energia. A “solução” disponível é o acionamento das termoelétricas, movidas a combustíveis fósseis como gás, petróleo ou carvão, mais caras e emissoras de gases de efeito estufa.

<><> Derretimento das geleiras

O outro efeito catastrófico do aquecimento é o derretimento das geleiras permanentes (ou eram até pouco tempo atrás) na Groenlândia, Ártico e Antártica. Este é um dos processos onde a previsão científica falhou muito, já que o ritmo do degelo vem se acelerando muito mais rapidamente do que foi calculado, e lançando bilhões de metros cúbicos de água doce nos oceanos e aumentando o nível das águas de forma a afetar não apenas as pequenas ilhas do Pacífico (Seicheles, Maldivas e muitas outras), mas áreas costeiras baixas como as do Bangladesh, Índia, China, Indonésia e outras com intrusão de água salgada em zonas produtivas costeiras e alagamentos de cidades e aldeias litorâneas quando ocorrem marés altas. Estes fenômenos já estão acontecendo e se intensificando a cada ano, apenas apontando para o futuro de outros locais do planeta menos ameaçados atualmente, já que as águas não sobem por toda parte no mesmo ritmo. O processo do degelo, segundo os cientistas, já está chegando a um ponto de não retorno que pode precipitar a fragmentação das imensas massas de gelo, acelerando muito o derretimento. Até o final do século, espera-se que os oceanos subam pelo menos entre um e dois metros, numa média mundial, se o aquecimento chegar a 3º ou 4ºC. Neste caso, e a avaliação pode ser otimista, é a maioria das grandes cidades à beira mar, como Nova Iorque, Miami, Los Angeles, Londres, Lisboa e muitas outras, inclusive a maioria das capitais estaduais do Brasil, terem bairros permanentemente alagados ou a ter que investir trilhões de dólares, euros ou reais em obras de contenção, fadadas a serem superadas com posteriores elevações do nível dos mares. Como no caso dos aumentos médios de temperatura mundial, os prováveis dois metros a mais no nível médio dos oceanos não quer dizer uma subida uniforme das águas em toda parte. Uma média de dois metros a mais globalmente implica, por exemplo, em aumentos quatro vezes maiores na linha do Equador. Ou ainda, significa Boston podendo erguer barreiras no seu litoral, ao estilo da Holanda, e Miami ficando totalmente alagada, no máximo se transformando em uma Veneza kitsch.

<><> Velocidade do aquecimento atual agrava o impacto

A última vez que estas altas temperaturas médias mundiais previstas para o fim do século aconteceram foi há 15 milhões de anos, muito antes do surgimento do homem sapiens. O nível dos oceanos subiu 40 metros acima dos níveis atuais. O volume de CO2 na atmosfera era de 500 partes por milhão, algo que estamos no caminho de atingir, na hipótese mais otimista, até o fim deste século e possivelmente até bem antes disso. Entretanto, este aumento de temperatura no passado ocorreu ao longo de milhares de anos, enquanto agora ele está acontecendo em décadas. No passado, o tempo mais dilatado do aquecimento permitiu que plantas e animais se adaptassem às novas condições, embora tenha havido muitas extinções de espécies. A velocidade atual do aumento da temperatura vai provocar maiores dificuldades de adaptação e um índice de extinções gigantesco. Para agravar a situação atual, a diferença com a Era do Mioceno é que há 15 milhões de anos não havia humanos destruindo os habitats do planeta, tornando todos os biomas mais vulneráveis à mudança climática.

E o aumento dos oceanos, ainda medido aos centímetros a mais por ano, está em franca aceleração e os impactos serão imensos, com o avanço das águas sobre as costas densamente habitadas em todo o mundo provocando o deslocamento de milhões e até bilhões de pessoas (nos piores cenários). É preciso incluir neste processo de derretimento dos gelos, os glaciares de grande altitude como os do Himalaia, dos Andes, dos Alpes, e das Montanhas Rochosas, entre outros. O efeito vai ser (já está em curso) o de secar alguns rios de grande porte como o Indus e o Ganges, na Índia, o Colorado nos Estados Unidos, o Reno na Europa e uma série de rios menores, mas que permitem ao Peru existir como país. Entre as perdas de cidades e áreas produtivas costeiras pelo avanço das águas marinhas, a desaparição de muitos rios importantes e a desertificação de grandes áreas interioranas, sobretudo nos trópicos, o que resulta é um planeta muito menor em termos de habitabilidade. Como já pintei catástrofes suficientes (há outras) frente às mudanças climáticas é hora de ver o que se ainda pode fazer.

<><> Medidas urgentes

A base científica para o Acordo de Paris sobre o clima apontava a necessidade de se dar uma forte desaceleração nas emissões de gases de efeito estufa, mirando em zerá-las até 2050. Isto permitiria iniciar um esforço de conseguir balanços negativos nas emissões nos seguintes cinquenta anos, reduzindo a quantidade de CO2 e outros gases na atmosfera de modo a obter as condições para se paralisar o aumento da temperatura em 1,5ºC, ao fim do século. Como as emissões continuaram crescendo, apenas com uma leve “tirada do pé” do acelerador, a tarefa de cumprir as metas do Acordo de Paris ficou mais difícil e desafiadora. Uma mudança de rumo que se escalonava em 35 anos terá que ser feita em 25 e partindo de um acúmulo de gases de efeito estufa maior do que o registrado em 2015. Ou seja, a radicalidade das medidas a serem tomadas ficou ainda maior.

A ciência já identificou quais são estas medidas: zerar o uso de combustíveis fósseis e os desmatamentos nos próximos cinco anos. O primeiro passo (imediato) é parar de pesquisar novos poços de petróleo, gás e minas de carvão. O segundo é parar de explorar os poços e minas existentes nos próximos anos, começando por zerar o uso do carvão imediatamente. Simultaneamente, vai ser preciso parar de desmatar imediatamente e iniciar um processo gigantesco de reflorestamento que não pode ser ao modo do agronegócio, com florestas plantadas uniformes. Replantar florestas heterogêneas é mais custoso e complexo, mas necessário. Já existem experiências nesta direção e cabe generalizá-las e para isso vai ser necessário recursos financeiros e gente, muita gente. O efeito deste reflorestamento será uma enorme absorção de CO2 pelos bilhões e bilhões de novas árvores, o mais eficaz meio de retirar gases de efeito estufa da atmosfera até agora.

<><> Impacto do fim do uso de combustíveis fósseis

Como o petróleo é o motor da economia mundial e o principal gerador de energia elétrica e mecânica, o problema energético que o mundo vai enfrentar vai ser colossal. A solução através das chamadas energias verdes ou “limpas”, eólica e solar é promissora, mas tem vários problemas para ser posta em prática na escala e velocidade necessárias. Para começar, a produção de painéis solares e de moinhos de vento no momento depende do uso de energia fóssil na extração de minérios, no seu transporte e transformação e no seu deslocamento para os locais de colocação (lembremos que hoje a maior parte dos painéis solares está sendo produzida na China). Há muita dúvida sobre a disponibilidade global de minérios (as chamadas terras raras), sobretudo os utilizados nos painéis solares e sobre a durabilidade destes equipamentos. Vai ser preciso pesquisar urgentemente o aperfeiçoamento destas tecnologias e sobre outras formas de geração de energia, como o aproveitamento da energia das marés oceânicas, já em estudos avançados. De toda forma, não vai ser possível manter o nível de consumo energético da economia mundial atual, eliminando o uso de combustíveis fósseis. A economia mundial vai sofrer um tremendo freio de arrumação e o uso da energia disponível vai ter que ser concentrado na produção de bens essenciais para a humanidade. Estamos a caminho de um inevitável decrescimento da produção industrial mundial, tal como ela existe hoje, e vamos experimentar uma forte desglobalização da economia, dado o custo dos transportes de grande distância.

O critério básico na seleção do que produzir é, como dito acima, o atendimento das necessidades básicas das pessoas como um todo e não, como hoje, a resposta às forças de mercado que jogam um peso enorme em produtos de alto custo energético dirigidos para uma pequena minoria de consumidores de alta renda.  Para introduzir o tema vou citar apenas algumas das prioridades. Desde logo, a produção e transporte de alimentos básicos será a prioridade um. Transporte coletivo (trens e metrôs) deverá substituir o carro individual, começando com os SUVs de luxo. Trens, hidrovias e cabotagem deverão fazer o transporte dos bens essenciais, no lugar dos caminhões. As viagens de avião serão reduzidas ao mínimo essencial.

Saneamento básico com compostagem de lodo de esgoto e de lixo deverão ser generalizados. Habitações com materiais renováveis deverão substituir o uso, hoje generalizado, de cimento, a segunda indústria mais emissora de GEE. A produção de caráter local deverá ser priorizada, diminuindo ao máximo o transporte até o consumidor. O uso da água potável terá que ser fortemente racionalizado já que uma outra previsão dos efeitos do aquecimento global é a insuficiência da disponibilidade deste bem essencial. Infraestruturas de captação de água de chuva terão que ser generalizadas. Não vai ser possível fazer esta gigantesca revolução nos processos de produção e de consumo sem que se produza uma desconcentração das populações, hoje cada vez mais habitando, muitas vezes precariamente, grandes centros urbanos. Além disso, os efeitos devastadores da mudança climática, que não poderão ser totalmente evitados mesmo com a contenção do aquecimento, vão gerar processos migratórios, envolvendo centenas de milhões pessoas. Reassentar estas multidões nos lugares habitáveis de forma ordenada vai ser um desafio para qualquer Estado sobrevivente neste novo mundo inóspito.

Estes são apenas alguns dos problemas a serem enfrentados, mas são os mais importantes para a sobrevivência da humanidade. De toda forma, a lógica essencial a seguir é a eliminação do consumo suntuário do 1% da população mundial, que se apropria de quase 40% da riqueza produzida e mais da metade da energia consumida. Isto terá que ser feito em benefício dos hoje deserdados (os 80% mais pobres) no acesso aos bens básicos para uma vida confortável. Resumindo para os que ainda não entenderam, para a humanidade sobreviver vai ser preciso abandonar o modo capitalista de produção, orientado pelo “deus” mercado e seu modelo atual, a hiper globalização. É claro que nada disso será possível sem uma revolução política que tire do poder a classe dominante e democratize as sociedades resultantes desta grande mudança.

<><> O que vem fazendo o governo Lula em relação a estas urgências?

No que concerne a eliminação do uso dos combustíveis fósseis o governo “popular” se comporta como se estivéssemos nos anos cinquenta, quando foi criada a Petrobras. Hoje somos um país que produz e exporta petróleo em grandes quantidades, com autossuficiência relativa para o consumo interno e entre os maiores exportadores. E os planos da Petrobras se orientam para a expansão da pesquisa no pré-sal e da extração no mar e na terra. O governo subsidia a produção e o consumo de derivados e incentiva a indústria automotriz, enquanto nas grandes cidades o transporte público perde passageiros ano a ano e o número de automóveis cresce sem parar. Na mesma direção vai o transporte de mercadorias, com subsídios para a renovação e expansão das frotas de caminhões e “bolsas motorista” para alegrar os caminhoneiros. Estamos na contramão do que tem que ser feito para eliminar o uso de gasolina e diesel. Vou discutir a questão energética em outro artigo, mas adianto que a estratégia da Petrobras é totalmente voltada para a expansão do uso combustíveis fósseis, com algumas pitadas de recursos de efeito publicitário para a produção de biodiesel ou a adoção de energia solar e eólica.

É ignorar que petróleo não serve apenas para matéria prima de combustíveis e que é usado em quase todas as cadeias produtivas industriais, em particular na petroquímica e que em um futuro com escassez de petróleo vai ser muito mais complicado substituir ouso deste insumo na indústria do que trocar carros e outros veículos para o uso de baterias elétricas. Na geração de energia elétrica o governo parece apostar mais na ampliação o uso das usinas térmicas, inclusive expandido o uso de carvão, o maior gerador de gases de efeito estufa por KWH.

As maiores fontes de emissões de gases de efeito estufa no Brasil são o desmatamento e as queimadas, sendo que apenas o desmatamento representa 70% da nossa contribuição para o aquecimento global (as queimadas não são computadas nas estatísticas do governo sobre as nossas emissões).  O governo Lula apresenta resultados mais promissores na redução dos desmatamentos. Segundo as estatísticas do MAPBIOMAS o desmatamento em todos os biomas, em 2019, estava em 1,22 milhões de hectares, chegando ao recorde de 2,11 milhões em 2022. Estes números vêm caindo no governo Lula, voltando aos valores do primeiro ano de Bolsonaro, 1,26 em 2024. Entretanto, estas reduções se referem ao corte raso da floresta com o uso de tratores de esteira para derrubar a vegetação e não incluem a forma cada vez mais utilizada de desmatar, o uso do fogo. As queimadas cresceram muito, mesmo em comparação com o governo do energúmeno, onde ficou famoso do “domingo de fogo”, promovido pelo agronegócio em 2019. A soma das áreas queimadas nos quatro anos do governo Bolsonaro ficou em 1,5 milhão de quilômetros quadrados enquanto no governo Lula a soma dos três primeiros anos foi de 1,45 milhão. Em todos os anos as queimadas foram maiores no governo Lula.

Não conheço um balanço abrangente que apresente o impacto conjunto dos desmatamentos e queimadas na destruição das matas brasileiras. Os dados são apresentados em separado e nem toda queimada ocorre na mata em pé, muito embora isto esteja ocorrendo em escalas cada vez maiores. Por outro lado, o controle do desmatamento e queimadas já não basta para evitar o processo de destruição das florestas e o perigo, cada vez mais próximo delas chegarem ao “tiping point” ou ponto de não retorno, a partir do qual elas não são mais capazes de se recuperar e entram em decadência espontânea mesmo sem uma ação antrópica. A retirada de madeira de lei segue descontrolada e afeta áreas quase tão importantes quanto às desmatadas e queimadas. Finalmente, o governo tem planos de construir novas hidroelétricas e estas têm um impacto enorme na destruição das matas e emitem gases de efeito estufa por longo tempo com a decomposição da vegetação nas áreas inundadas. A terceira maior fonte de emissões de gases de efeito estufa no Brasil vem do modo de uso do solo pelo agronegócio. Além de desmatar e queimar, o agronegócio emite gases de efeito estufa pelo enorme rebanho bovino do país e pelo uso de fertilizantes químicos em larga escala. Não é preciso enfatizar o quanto este governo Lula favoreceu o agronegócio, repetindo suas políticas para o setor com subsídios diretos e isenções de impostos. Em outras palavras, apesar da retórica do presidente na COP 30, atacando os negacionistas do aquecimento global, estamos na contramão de tudo que tem que ser feito para, entre outras coisas, diminuir a nossa contribuição para a tragédia anunciada da humanidade.

 

Fonte: A Terra é Redonda