Problemas no sono? Tente mudar a forma como
pensa nisso
Como você dormiu na
noite passada? Se você se revirou, tentou contar carneirinhos e olhou algumas
vezes para o relógio, é provável que se sinta menos revigorado.
Mas essa sensação de
sono e cansaço pode não ser apenas devido à quantidade, ou talvez até mesmo à
qualidade, do seu sono — também pode depender da sua mentalidade.
Porque o que você diz
a si mesmo no dia seguinte sobre como dormiu, e sobre o quanto isso importa,
pode fazer a diferença em como você percebe seu cansaço.
"Todo mundo
conhece a ideia de qualidade do sono. As pessoas presumem que ela se baseia no
desempenho do sono durante a noite, como algo mensurável", diz Nicole
Tang, diretora de um laboratório dedicado a estudos sobre o sono e a dor na
Universidade de Warwick, no Reino Unido.
"Mas o que
aconteceu depois, e o que aconteceu um pouco antes, também pode ter
influência."
O próprio trabalho de
Tang nessa área faz parte de um crescente corpo de pesquisa que sugere que
dormir a noite toda não é a única chave para se sentir revigorado na manhã
seguinte.
Também conta a nossa
percepção do sono e o nosso humor ao avaliar o quão cansados estamos,
argumentam Tang e seus colegas.
A ideia de que a
mentalidade afeta diretamente nosso sono não é nova.
Décadas de pesquisa
indicaram amplamente que, de fato, os processos psicológicos são provavelmente
o principal motivador por trás da insônia.
Nosso sono é
interrompido quando estamos em um estado de alta excitação psicológica, o que
geralmente é resultado de nossos pensamentos, crenças e a forma como
direcionamos nossa atenção.
Ainda assim, muitos de
nós presumiríamos que, se nos sentimos cansados, é porque dormimos mal.
Por décadas, no
entanto, um fenômeno frequentemente chamado de "insônia paradoxal"
tem intrigado os cientistas.
É quando as pessoas
acreditam que tiveram uma noite de sono ruim e se sentem cansadas — mas, quando
o sono delas é medido objetivamente, com uma polissonografia, por exemplo, ele
está dentro do normal.
Esse estado pode ser
mais comum do que se pensa.
Algumas pesquisas
sugerem que ele pode se aplicar à maioria dos casos de insônia. Uma revisão
sistemática de estudos identificou a prevalência da insônia paradoxal em
pacientes diagnosticados com insônia variando de 8% a 66%.
Para deixar claro, a
insônia e suas consequências são muito reais. E ninguém argumentaria que, se
você se sente sempre cansado, não deveria tentar mudar coisas na sua rotina, se
puder.
Mas a hipótese de que
a forma como interpretamos uma noite de sono ruim pode mudar o quão cansados
nos sentimos é uma consideração intrigante e potencialmente fortalecedora.
Na melhor das
hipóteses, isso significa que você pode se sentir mais acordado sem ter que
acumular mais horas de sono.
• 'Regras universais' sobre o sono fazem
sentido?
Essa abordagem pode
entrar em conflito com o que frequentemente nos dizem sobre o sono: ou seja,
que cumprir consistentemente um certo número de horas dormindo é absolutamente
crucial para o bem-estar — uma das principais ideias que impulsionam uma indústria
de US$ 78 bilhões (mais de R$ 440 bilhões) e que está crescendo.
Na verdade, dizem os
especialistas, a relação exata entre a duração do sono e nossa saúde a longo
prazo permanece obscura.
As pesquisas têm
resultados variados e, mesmo quando uma conexão é encontrada, os estudos
geralmente destacam correlações entre sono e saúde, em vez de causas.
Em outras palavras,
pode haver um problema subjacente que impediria alguém de dormir bem — pessoas
com problemas respiratórios, por exemplo, geralmente têm sono pior.
"Estamos
problematizando nosso sono", diz David Samson, antropólogo evolucionista e
diretor do Laboratório de Sono e Evolução Humana da Universidade de Toronto.
Ele também é autor de
um livro a ser lançado, The Sleepless Ape: The strange and unexpected story of
how social sleep made us human (em tradução livre, "O macaco insone: a
estranha e inesperada história de como o sono social nos tornou humanos").
Usando medidas
objetivas como a actigrafia, que monitora os ciclos de atividade e descanso,
ele e outros pesquisadores descobriram que pessoas de sociedades de
caçadores-coletores normalmente dormem entre 5,7 e 7,1 horas por noite — bem
menos que as sociedades industriais. O sono desses povos também é mais
fragmentado.
Mas isso também não os
incomoda, diz Samson. Nos dois grupos que ele analisou, na Namíbia e na
Bolívia, menos de 3% das pessoas disseram ter problemas para adormecer ou
permanecer dormindo — uma pequena fração comparada aos até 30% relatados em
sociedades industriais.
Nenhum dos grupos
tinha uma palavra para "insônia" em suas línguas.
"Quando pergunto
a eles se estão felizes com o sono, se estão satisfeitos, se o sono é bom, 9,5
em cada 10 dizem: 'Sim, eu amo dormir'", relata Samson.
"No entanto,
sabemos, quantitativamente, que essas sociedades de pequena escala estão
dormindo menos do que aqueles no mundo economicamente desenvolvido."
"Temos essa
narrativa no Ocidente [de que] os humanos nunca foram tão privados de
sono", ele acrescenta.
É uma besteira, ele
diz.
Samson é um dos
pesquisadores que têm contestado as regras universais para quanto sono todos
deveríamos ter.
Em um artigo
científico recente, por exemplo, pesquisadores da Universidade de Oslo, na
Noruega, questionaram a ideia de que estamos vivenciando uma "epidemia de
insônia".
Eles apontam que os
experimentos de laboratório que deram origem às preocupações de que o sono ruim
atrapalha a saúde são muito diferentes das evidências da vida real.
"A necessidade de
sono deve ser considerada dinâmica, com potencial para se adaptar em resposta
às circunstâncias ambientais", escreveram os pesquisadores.
"Isso significa
que não há uma quantidade ideal de sono para um indivíduo em todas as situações
e épocas. Em vez disso, o sono tem uma quantidade negociável que é afetada por
fatores ambientais, culturais, psicológicos e fisiológicos."
• Ansiedades relacionadas ao sono
Acreditar que há
apenas uma maneira "certa" de dormir não é apenas, até o que se sabe
no momento, infundado — também pode sair pela culatra.
Isso vale para quando
estamos tentando dormir.
Pessoas com insônia
tendem a ter crenças rígidas sobre o sono (por exemplo: "Se eu não dormir
sete horas, vou me sentir péssimo amanhã") e muitas vezes temem uma noite
de sono ruim.
Elas também ficam mais
alertas a sinais relacionados ao sono, como olhar para o relógio.
Todas essas
preocupações podem aumentar a agitação e a ansiedade à noite, tornando o sono
mais difícil de atingir.
Elas também podem
continuar tendo efeito no dia seguinte, observa Tang. Ao tornar as pessoas mais
conscientes do quanto ficaram acordadas na noite anterior, as preocupações
podem exacerbar a sensação de que dormiram mal — não apenas fazendo com que se
sintam mais cansadas, mas também mais ansiosas para dormir bem na próxima
noite, o que se transforma em um ciclo vicioso.
Muitas vezes, no
entanto, essas preocupações não são realmente baseadas em fatos. Aqueles com
insônia tendem a pensar que precisam dormir mais do que o realmente necessário
e a superestimar o impacto de uma noite de sono ruim em seu funcionamento.
Como resultado, os
tratamentos tradicionais para insônia tendem a se concentrar em estratégias
cognitivo-comportamentais para mudar esses pensamentos e para diminuir a
agitação, como praticar relaxamento muscular.
Essa abordagem mais
compreensiva e menos quantitativa pode ajudar também os pais de bebês, diz
Pamela Douglas, médica australiana, pesquisadora do sono e fundadora do método
Possums — uma abordagem para o sono de pais e filhos que tem sido adotada por
profissionais de saúde em todo o mundo.
Ela diz que a maioria
das orientações sobre sono para pais de bebês enfatiza a duração do sono e a
contagem de quantas vezes foi necessário acordar à noite.
"Na verdade, não
queremos ficar olhando para o relógio ou contando horas", diz ela.
Além das crenças
particulares que temos sobre o sono, o problema é o quanto estamos apegados a
elas, diz Jason Ong, que foi por muito tempo pesquisador de sono na
Universidade Northwestern e agora é diretor de medicina comportamental na
empresa de diagnóstico do sono Nox Health, nos EUA.
"Para pessoas com
insônia, não é apenas o fato de que elas pensam coisas como 'Preciso de oito
horas de sono ou não vou estar bem no dia seguinte'. É o grau com que elas se
apegam a isso", ele aponta.
Seu trabalho aposta em
técnicas de meditação com atenção plena e no desapego desse tipo de pensamento.
• O dia seguinte
Focar muito no sono
não só dificulta o sono — também pode significar sentir-se mais cansado no dia
seguinte, mesmo que tenhamos dormido razoavelmente bem.
Jason Ong lembra de um
paciente que insistiu que precisava de seis horas para funcionar.
Quando Ong notou no
diário de sono do paciente que houve uma noite em que ele dormiu cinco horas, o
paciente disse que era horário de verão, mas ele não havia percebido isso.
Só mais tarde, no
final de uma aula de ginástica, ele percebeu que havia dormido 5,5 horas, não
6,5. Então, ele se sentiu exausto.
"Eu disse: 'Só a
informação de que você dormiu uma hora a menos mudou como você se sentiu no
resto do dia?'", lembra Jason Ong.
"É realmente
importante o quanto você dormiu ou apenas o quanto você acha que dormiu?"
O uso de aparelhos de
monitoramento do sono também pode sair pela culatra, alertam pesquisadores,
incluindo Tang e Samson.
Digamos que acordamos
nos sentindo bem, mas nosso relógio diz que dormimos pior do que a média:
agora, podemos nos sentir mais cansados do que se não tivéssemos essa
informação.
Algumas pesquisas
confirmam isso.
Em um estudo, pessoas
com insônia receberam informações sobre seu sono que, segundo ouviram, teriam
sido registradas por um relógio inteligente — mas, na verdade, os dados que
receberam eram falsos.
Metade foi informada
de que havia dormido mal, metade que havia dormido bem.
Mais tarde no dia, o
grupo que foi informado de que havia dormido mal relatou que se sentia mais
cansado, menos atento e com um humor pior do que o grupo que foi informado de
que havia dormido bem.
Sentir-se bem com o
nosso sono — mesmo que ele não tenha sido realmente ótimo— não afeta apenas o
quão cansados nos sentimos. Pode até afetar o nosso desempenho.
Em um pequeno estudo
recente, pessoas foram acordadas após cinco ou oito horas de sono, por duas
noites seguidas. Mas seus relógios foram ajustados para fazê-los pensar o
oposto: aqueles que dormiram cinco horas pensavam que tinham dormido oito, e
vice-versa.
Quando foram testados,
os participantes que dormiram cinco horas e pensavam que tinham dormido oito
tiveram tempos de reação mais rápidos do que aqueles que dormiram cinco, mas
foram informados da verdade.
E aqueles que dormiram
oito horas, mas pensavam que dormiram cinco? Eles tiveram tempos de reação mais
lentos do que aqueles que realmente dormiram oito e foram informados disso.
Como nos sentimos
sobre uma noite de sono também flutua ao longo do dia.
"A maneira como
pensamos sobre o nosso sono pode mudar, mesmo após o período de sono", diz
Tang.
Em um estudo que ela
participou, pessoas foram questionadas várias vezes ao longo do dia sobre como
dormiram na noite anterior.
Esse período de sono
não mudou — estava no passado —, mas suas avaliações sobre ele mudaram.
Por exemplo, se os
participantes estavam fazendo algo de que gostavam, como um esporte, de repente
tinham uma percepção mais positiva de como dormiram na noite anterior.
A importância da
mentalidade não significa que devemos adotar "positividade tóxica",
alertam os pesquisadores.
"Não estamos
tentando fazer com que as pessoas se deem 'notícias falsas'", diz Tang.
"Mas é sobre
conseguir ter esse entendimento, essa nuance. É pensar que mesmo que eu não
tenha tido uma noite muito boa de sono, ainda posso fazer coisas que
gosto."
• Dicas para o sono
Então, se você tem
problemas com o sono, o que pode fazer?
Todas as dicas usuais
se aplicam, dizem os especialistas — por exemplo, praticar a higiene do sono,
que normalmente inclui evitar álcool e cafeína e manter um horário regular para
dormir.
Mas, além disso, tente
adotar uma abordagem menos "preto e branco" para dormir.
Você pode se lembrar
de momentos em que não dormiu perfeitamente, mas ainda assim teve um bom dia,
por exemplo.
Adotar uma mentalidade
de iniciante também pode ajudar: não presumir que, porque você já teve um dia
ruim depois de uma noite mal dormida, é isso que sempre vai acontecer.
Cientistas, incluindo
Tang, Douglas e Ong, também aconselham não deixar uma noite ruim atrapalhar sua
vida mais do que o necessário — por exemplo, cancelando planos.
A pesquisa de Tang
também sugere que focar em coisas que melhoram seu humor pela manhã também pode
ajudar muito a melhorar sua avaliação de como dormiu.
Entender mais sobre
como o sono realmente funciona também pode ajudar, diz Tang.
Saber que é natural
despertar várias vezes durante a noite pode fazer com que esses buracos no sono
pareçam menos frustrantes.
"Não estou
dizendo que o sono não é importante para a saúde física e mental em
geral", diz Tang.
"Mas há uma
cultura em que, quando as pessoas falam muito sobre a duração do sono, elas se
esquecem do fato de que há muitas diferenças individuais e muitos aspectos
circunstanciais. E isso está causando expectativas irrealistas, culpa e
decepção para muitas pessoas."
Fonte: BBC Future

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