segunda-feira, 28 de outubro de 2024

Apostas online impactam o desenvolvimento de crianças e adolescentes, alerta especialista

Em um mundo cada vez mais digital, o acesso das crianças e adolescentes a conteúdos online, como sites de apostas (bets esportivas, ‘jogo do tigrinho’ e afins), é uma realidade crescente. Como a reportagem do Sul21 mostrou, essa exposição já causa preocupação dentro de escolas no Rio Grande do Sul.

Em entrevista ao Sul21, a psicóloga infantojuvenil Laís Ribeiro, especialista na abordagem cognitivo-comportamental, compartilhou alguns pontos a serem levantados neste debate. O principal deles é o quanto estes “jogos” de apostas online impactam o desenvolvimento dos mais novos. Segundo ela, o uso abusivo da tecnologia pode resultar em prejuízos significativos no âmbito emocional e cognitivo dos jovens, afetando habilidades como controle de emoções, atenção e sociabilidade.

“O uso de tela e o uso da internet vai modificar tanto o funcionamento quanto a estrutura do nosso cérebro. E quando a gente fala sobre essa temática, não tem como não trazer que, quando estamos falando de crianças e de adolescentes, estamos falando de um cérebro que ainda não está 100% desenvolvido, um cérebro que ainda não está maturado”, explica a psicóloga.

Ribeiro também informa que o córtex pré-frontal, responsável por funções como tomada de decisão e manejo de impulsos, só atinge a maturidade por volta dos 25 anos. Portanto, a expectativa de que sujeitos menores de idade tenham um controle emocional semelhante ao dos adultos é irreal.

Neste sentido, também há o sistema límbico, parte do cérebro em que estão presentes os receptores de dopamina – ligada ao sistema de recompensa, o que significa que tem um papel importante em como sentimos prazer e motivação. Assim, para a especialista, “se a gente for olhar, por exemplo, para 10 minutos apostando online e 10 minutos lendo um livro, a descarga de dopamina que a gente vai receber é muito diferente, vai ser muito maior nos 10 minutos apostando. Então, é uma competição muito injusta, se a gente for parar para pensar, né? Porque a descarga de dopamina vai ser maior”.

Conforme a psicóloga, é como se o sistema límbico enviasse um sinal para o córtex pré-frontal, que então avalia se aquela ação é suficientemente recompensadora para ser repetida. Após uma aposta, há uma grande liberação de dopamina, e o córtex pré-frontal reflete: “apostar é ilegal, mas vamos repetir essa ação no futuro”. “Com o tempo, a gente vai ativando de uma forma muito intensa o nosso sistema de recompensa, e o que isso causa? Isso causa que o nosso cérebro precisa de uma dose cada vez mais alta para sentir aquela mesma sensação agradável. Então, a gente vai precisar apostar cada vez mais. A gente vai precisar de mais tempo apostando”, afirma.

Os impactos dos jogos de apostas são ainda mais complexos durante a adolescência, uma fase em que a influência dos grupos sociais é particularmente intensa. “No momento em que o adolescente está em uma turma em que a grande maioria está jogando, ele está muito mais suscetível a apostar também, não porque ele quer ou porque está interessado, mas para se incluir nesse grupo”, pontua Ribeiro. No âmbito escolar, também há o risco de que o desempenho caia, acarretando futuras perdas, como repertório de palavras reduzido, por exemplo.

Para lidar com esse emaranhado de complexabilidades, a profissional recomenda que as famílias e escolas adotem abordagens que vão além da proibição e do castigo. “Geralmente (as punições) só funcionam na presença do agente punidor, da pessoa que está castigando. Ou seja, a família, por exemplo, proíbe a criança ou adolescente de usar o celular. Ok, o adolescente não vai usar na frente do pai e da mãe, mas e na escola? Se chega na escola e o colega está utilizando o celular e oferece, será que o adolescente não vai usar?”, questiona.

Uma alternativa para isso, porém, envolve algo muitas vezes tido como complexo, o diálogo. “Para as famílias, eu penso que é importante conversar com a criança e com o adolescente, explicar os riscos do jogo, explicar as consequências que aquele jogo traz, estabelecer regras, estabelecer limites e discutir muito sobre as dúvidas que a criança e o adolescente têm”, sugere Ribeiro. Para ela, não há vantagem alguma em dizer “não” sem quaisquer explicações. É necessário “trazer essas discussões para a mesa” e tentar entender o que estes “jogos” estão representando emocionalmente para os usuários.

Também é recomendado que haja bastante tempo de qualidade em grupo, seja na escola ou em casa. Para atrair a atenção das crianças e adolescentes e os manter distantes do uso excessivo de celulares e aplicativos, é necessário oferecer atividades alternativas que sejam igualmente envolventes. Ou seja, momentos dedicados a interações positivas e significativas, o que é um grande reforçador (motivador) para eles.

A conscientização sobre o próprio uso de tecnologia por parte dos pais ou responsáveis é outra característica muito importante, segundo a Ribeiro. “Os pais apostam, os pais utilizam esses jogos, os pais ficam muito tempo online… As crianças aprendem observando, e a família é referência. […] É importante se questionar sobre o seu próprio uso: ‘O que eu estou passando de exemplo?’ Porque isso é essencial também”, ressalta.

No ambiente educacional, a psicóloga defende a promoção de um ambiente de conscientização nas escolas e nos contextos que as crianças e adolescentes estão inseridos. “Promover debates e poder trazer pessoas que conversem com as crianças sobre o uso de tecnologia e sobre o uso desses jogos é fundamental. É importante promover um ambiente em que as crianças e os adolescentes consigam expressar suas opiniões e entender por que aquilo ali é prejudicial para elas”, diz.

Em complemento, ela menciona o quão importante é que haja esse “porto seguro” na escola, para além das proibições. “Claro que a regra é extremamente importante, o limite é extremamente importante, mas isso deve ser aliado a essa explicação, a esse espaço de acolhimento”, fala.

Para a psicóloga, ao participar de atividades como fazer cartazes ou montar peças de teatro, os alunos se tornam “protagonistas” no processo de aprendizagem, e isso os leva a refletir sobre os temas de forma mais profunda. Além disso, envolver os pais nas apresentações reforça o engajamento da família. “Isso tudo é muito interessante, porque coloca eles para pensar a respeito. Fingir que não existe e proibir, geralmente, vai ter pouca eficácia. É bacana poder colocar os alunos para o debate”, afirma.

As diversas vertentes do tema, ainda, exigem um olhar atento e cuidadoso por parte de adultos, educadores e profissionais de saúde. Em casos em que ocorra a percepção de que “algo não está certo”, e que o “às vezes” está se tornando um vício, é recomendado procurar auxílio especializado.

“Eles (os jovens) ainda estão aprendendo muita coisa, eles precisam do suporte dos adultos. Tem que ter esse olhar atento para eles. E, no momento em que os adultos também não sabem muito o que fazer, porque acontece, às vezes os adultos vão pensar: ‘Poxa, eu não sei o que fazer. Estou na dúvida, não sei o que faço. Estou preocupado’. É importante buscar suporte também”, pontua a psicóloga.

 

•        Diretora de escola diz que apostas em sala de aula estão ‘saindo do controle’

Com as contas acumulando ou a vontade crescente de comprar algum item, a possibilidade de conseguir dinheiro fácil parece um sonho. Essa busca por soluções rápidas, no entanto, tem levado muitas pessoas a cair em armadilhas, principalmente os mais novos. Segundo pesquisa divulgada pelo Datafolha, 30% dos brasileiros com idades entre 16 e 24 anos já se envolveu com apostas online, o dobro da média nacional, 15%. As famosas bets, casas esportivas legalizadas, são especialmente populares entre os homens, onde 21% afirmam já ter apostado. Enquanto isso, no cenário feminino, esse índice cai para 9%.

Mas se engana quem pensa que a idade mínima dos “jogadores” beira os 16 anos. Um estudo da Unicef, Fundo das Nações Unidas (ONU) para a Infância, revelou que 22% dos adolescentes entrevistados disseram ter apostado em “jogos de azar”, proibidos no Brasil, pela primeira vez aos 11 anos ou menos. A maioria, porém, começou aos 12 anos ou mais, representando 78% dos entrevistados. 

Enquadrando-se nas estatísticas, Cauã*, 12 anos, estudante do sexto ano do Ensino Fundamental II em Porto Alegre, relata que começou a apostar ano passado, quando tinha 11 anos. Na época, conheceu as plataformas – como o jogo do “Tigrinho”, Fortune Tiger – por meio de colegas, que frequentemente jogavam em sala de aula ou durante os intervalos. Ao ser questionado sobre a origem do dinheiro que utilizava para os lances iniciais, explicou que primeiro “o site te dá um crédito”, mas depois é necessário desembolsar os valores por conta própria. Ele fazia depósitos na plataforma via Pix.

“Daí, comecei a pegar o dinheiro do lanche e juntar. Às vezes, uso a mesada também. É meio viciante, né? Se tu aposta e ganha, fica querendo mais”, conta o aluno. Durante os primeiros dias, de acordo com ele, apostar era algo pontual, para “se distrair no recreio” e se enturmar com os mais velhos. Depois de um mês, não conseguia mais parar. “Na real, agora eu jogo em todo lugar. Na sala de aula, durante o intervalo… Já teve professor que pegou eu jogando e deu bronca”, diz.

Para a diretora Olívia*, que administra uma escola estadual em Sant’Ana do Livramento (RS), a situação está “saindo do controle”. “As crianças não param. A gente tentou fazer a caixinha dos eletrônicos pra colocar no início da aula e só pegar no final do dia, mas eles escondiam os celulares e usavam no banheiro. Inspetores já relataram que viram alunos jogando parados em frente às pias”, expõe.

No contexto mundial, esta não é a primeira vez que passamos por uma febre de aplicativos utilizados em escolas. Em 2016, com o lançamento de Pókemon GO e um bilhão de downloads, foi possível observar a invasão do “game” dentro do ambiente educacional. Entre relatos de professores e coordenadores, que reclamavam de diversas situações envolvendo a prática do jogo – que consistia em utilizar smartphones para capturar Pokémons no “mundo real”, localizados por meio de GPS –, algumas instituições chegaram a proibir a “caçada” em sala.

Em 2024, o problema se repete. Conforme Cauã, a maioria de seus colegas (meninos) apostam diariamente durante o horário escolar. “Muita gente na escola fala sobre isso, mas é escondido. A galera só não comenta muito pra não ser pego, né?”, diz o estudante.

Há cerca de um mês, o Ministério da Educação (MEC) divulgou que está nos estágios finais da elaboração de um projeto de lei (PL) que visa restringir o uso de celulares em instituições de ensino públicas e privadas no Brasil. A medida, prevista para ser apresentada ainda este ano, integra um conjunto de ações do governo federal voltadas a reduzir o uso de dispositivos eletrônicos por estudantes no ambiente escolar.

Olívia, que tomou conhecimento sobre a PL recentemente, diz ter ficado satisfeita com a proposta, embora não seja completamente efetiva. “Conversando com a gestão, concordamos que esta seria uma ótima manobra para facilitar o dia-a-dia dos professores e do pessoal que trabalha na escola, mas isso não acabaria com o problema. Os alunos continuariam jogando em casa ou em outros lugares. A medida precisa ser mais abrangente”, declara.

A diretora também não responsabiliza apenas os familiares dos estudantes, mas pontua que é preciso ter cuidado. “É claro que a culpa não é dos pais ou responsáveis, porque isso (os sites de aposta) está em todo o lugar. Mas não tem como fazer mais do que estamos fazendo. Ou verificam os celulares em casa, ou as crianças vão continuar viciadas”, afirma.

Ainda segundo o estudante Cauã, que teve seu telefone checado pelos pais algumas vezes ao longo do último ano para verificar se havia jogos de aposta instalados, as reações não foram agradáveis. “Eles viram e ficaram bravos. Nessa última, pegaram meu celular por duas semanas e só mandavam lanche pronto (pra escola)”, conta. O pré-adolescente também relata que chegou a ganhar R$ 500 em uma tentativa, mas no mesmo dia perdeu R$ 700.

Monique*, 13 anos recém completos e colega de Cauã, conta que também entrou para o universo das apostas, mas decidiu largar quando começou a ver os colegas ficarem viciados. “Eu conheci pelos meus amigos. A gente viu uns vídeos no TikTok, uns caras jogando e ganhando muito dinheiro. Aí a gente ficou curioso e decidiu tentar também. Todo mundo do nono ano joga, aí nós temos que jogar também. Mas agora eles jogam o dia todo, só sabem fazer isso”, diz.

Muito divulgadas em redes sociais como o TikTok, de fácil acesso para menores de idade, as plataformas crescem exponencialmente. Em 2023, o Brasil foi o terceiro País que mais esteve envolvido em apostas no mundo, gerando uma despesa que superou os R$ 50 bilhões, segundo estimativa do Banco Central. Atualmente, o gasto médio mensal entre aqueles que apostam é de R$ 263 – e três em cada dez envolvidos relatam gastar mais de R$ 100 por mês com os sites e aplicativos.

Dessa forma, a preocupação com a exposição de crianças e adolescentes a esse tipo de prática se tornou alarmante, o que levou o programa Criança e Consumo, do Instituto Alana, a denunciar a empresa Meta ao Ministério Público do Estado de São Paulo, em junho deste ano. A denúncia se baseou na identificação de influenciadores digitais mirins, com idades entre 6 e 17 anos, que promoviam sites de apostas por meio de links acessíveis a seus seguidores menores de idade.

Links estes que, de alguma forma, chegaram à Monique*, aos seus colegas e, eventualmente, ao Cauã*. Prestes a comemorar seu aniversário de 13 anos, o garoto, que alega ter desinstalado todos os jogos de seus eletrônicos, afirma que “não vale a pena” apostar. “Quando ganho é legal, né? Porque posso comprar jogos. Mas quando perco, é mó frustrante. Às vezes, eu fico pensando: ‘por que eu fiz isso?’”.

 

Fonte: Sul 21

 

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