Washington
Araújo: A pobreza invisível dos Estados Unidos
A
pobreza mais perturbadora não é aquela que se impõe ao olhar — é a que se
esconde deliberadamente dele. Nos Estados Unidos, maior economia do planeta, a
crise habitacional deixou de ser uma anomalia social para se tornar um sintoma
estrutural de um modelo que já não entrega estabilidade nem mesmo aos que
trabalham.
Os
números oficiais ajudam a romper essa camada de invisibilidade — e são mais
incômodos do que qualquer discurso ideológico. O U.S. Department of Housing and
Urban Development (HUD) registrou, em seu relatório anual de 2024, cerca de 771
mil pessoas em situação de rua em uma única noite, o maior patamar da série
histórica.
Não há
margem para relativização: é uma contagem direta, metodologicamente robusta,
que expõe um país onde o crescimento econômico convive com o aumento da
exclusão habitacional.
Mas
esse dado, embora impactante, captura apenas a superfície. A crise real se
espalha por territórios estatísticos menos evidentes. O Joint Center for
Housing Studies of Harvard University estima que mais de 20 milhões de famílias
norte-americanas vivem sob “cost burden”, comprometendo acima de 30% de sua
renda com moradia. Dentro desse universo, uma parcela expressiva enfrenta
condições consideradas inadequadas: imóveis deteriorados, superlotação ou
instabilidade residencial crônica.
Quando
se somam essas camadas, o quadro deixa de ser socialmente tolerável e passa a
ser politicamente constrangedor. Ao agregar coabitação forçada, habitação
precária e aluguel informal, especialistas apontam para algo próximo de 30
milhões de pessoas em insegurança habitacional.
Não é
um número único em uma base oficial — é pior do que isso: é um mosaico
consistente de dados que, juntos, desmontam a narrativa de eficiência do
sistema.
A
intersecção entre moradia, saúde mental e dependência química aprofunda ainda
mais o quadro. Dados do Substance Abuse and Mental Health Services
Administration (SAMHSA) e do próprio HUD indicam que entre 25% e 30% da
população em situação de rua apresenta transtornos mentais graves, enquanto 35%
a 40% enfrentam dependência de substâncias. A sobreposição desses fatores é
frequente — e, mais importante, não obedece a uma lógica linear.
Em
muitos casos, a vulnerabilidade psicológica antecede a perda da moradia; em
outros, é consequência direta dela.
É aqui
que a comparação com o Brasil se impõe — e desconcerta. No Brasil, a
precariedade urbana se materializa em territórios densos, contínuos e
reconhecíveis: as favelas. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e
Estatística (IBGE), mais de 13 milhões de brasileiros vivem em aglomerados
subnormais, onde a ausência do Estado abre espaço para dinâmicas próprias de
poder, informalidade e, não raro, violência organizada. A pobreza, ali, ocupa o
mapa, define paisagens, impõe presença.
Nos
Estados Unidos, ocorre o inverso: a favelização existe, mas foi desarticulada
antes de ganhar forma territorial. Leis de zoneamento rigorosas, fiscalização
permanente e proteção quase absoluta à propriedade privada impedem a
consolidação de assentamentos informais de grande escala.
O
resultado não é a eliminação da precariedade, mas sua pulverização em unidades
invisíveis, legalmente constituídas e socialmente diluídas.
Essa
diferença produz efeitos profundos. No Brasil, a favela é um fato político —
visível, debatido, explorado eleitoralmente. Nos Estados Unidos, a precariedade
habitacional é um fenômeno estatístico — disperso, silencioso e, por isso
mesmo, menos mobilizador.
Onde o
Brasil enfrenta o excesso de visibilidade, os Estados Unidos operam sob o risco
oposto: a invisibilidade funcional.
Ela se
manifesta em motéis convertidos em moradia permanente, em carros estacionados
durante a noite em grandes redes comerciais, em casas aparentemente estáveis
que escondem múltiplas famílias sob o mesmo teto. É uma precariedade que não
ocupa o horizonte — infiltra-se no cotidiano.
Essa
configuração tem implicações políticas profundas — e convenientes. Sem imagens
icônicas de degradação urbana concentrada, a crise perde força simbólica e
urgência pública. Torna-se estatística fria, administrável, quase invisível —
exatamente como sistemas desiguais preferem que seja.
No
entanto, os dados insistem em contrariar a narrativa confortável. Em um país
que lidera rankings globais de riqueza, inovação e produtividade, a moradia — o
mais elementar dos direitos — tornou-se um privilégio instável para milhões.
A
pobreza, ali, não desapareceu. Ela foi reorganizada para não incomodar — e, por
isso mesmo, tornou-se ainda mais difícil de combater. E talvez resida aí a
ironia mais incômoda: no país que exportou ao mundo a ideia do “sonho
americano”, multiplicam-se trajetórias em que o esforço já não garante abrigo,
a meritocracia se revela insuficiente e o sonho, para milhões, não passa de uma
narrativa bem contada — mas cada vez menos vivida. Seria mais apropriado chamar
de “pesadelo americano”, ou aquele sonho mau recorrente… que se vive acordado.
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Os Estados Unidos estão se autodestruindo. Por Rebecca Solnit
Os
Estados Unidos estão sendo assassinados, e é um crime interno. Todos os
departamentos, todos os ramos, todas as repartições e funções do governo
federal estão sendo fatalmente corrompidos, desmantelados ou desativados por
completo. Tudo isso é de conhecimento geral, mas, como a informação é divulgada
aos poucos em notícias sobre incidentes ou departamentos específicos, as
reportagens nunca descrevem adequadamente uma administração que sabota o
funcionamento do governo federal e, ao mesmo tempo, destrói a economia global,
as alianças e relações internacionais e o meio ambiente nacional e global, de
maneiras que terão consequências por décadas e, talvez, especialmente no que
diz respeito ao clima, por séculos.
Em
todos os ramos do governo, os serviços que deveriam nos proteger –
monitoramento do arsenal nuclear, segurança cibernética, contraterrorismo –
estão sendo minados, reduzidos em número de funcionários ou destruídos. Um
outro tipo de proteção, que engloba saúde pública, programas de vacinação,
segurança alimentar, ar e água limpos, serviços sociais, direitos civis e o
Estado de Direito, também está sob ataque. O governo federal que nos serve está
sendo sugado, enquanto o governo federal que serve à agenda de Trump e à
oligarquia se farta com o dinheiro dos contribuintes, incluindo as somas
grotescas despejadas no Departamento de Segurança Interna e nas Forças Armadas
dos EUA, agora distorcidas segundo a visão deturpada de Pete Hegseth de uma
força mercenária implacável. Hegseth teria impedido a promoção de mais de uma
dúzia de oficiais negros e mulheres.
É
impressionante que a equipe de Trump repita constantemente que não podemos nos
dar ao luxo de proteger os vulneráveis ou prover para o povo, razão
pela qual a pessoa mais rica do mundo, Elon Musk, no comando do Doge, destruiu a USAID no ano passado , o que já
resultou em dezenas de milhares de mortes por fome e doenças evitáveis. A
guerra com o Irã está criando uma crise de fertilizantes na Europa, África e
Ásia, que também pode resultar em fome generalizada. Enquanto isso, a
ex-secretária de Segurança Interna, Kristi Noem, gastou mais de US$ 200 milhões
em uma campanha publicitária estrelada por ela mesma antes de ser demitida.
Embora
haja aspectos muito piores na guerra totalmente gratuita e literalmente
injustificada contra o Irã, o fato de ela consumir bilhões por dia é
impressionante, considerando os enormes cortes que estão sendo feitos na
proteção ambiental e nos parques nacionais, e o serviço florestal está
sendo efetivamente sabotado ,
enquanto terras públicas estão sendo oferecidas
a empresas de combustíveis fósseis e
interesses de mineração . A sede do serviço florestal está sendo
transferida para outras partes do país, o que provavelmente causará muitas
demissões, assim como ocorreu com a transferência do Bureau of Land Management durante o
primeiro mandato de Trump . Mais de 50 estações de pesquisa do serviço
florestal estão
sendo fechadas, o que significa mais perdas de pesquisas, dados, instalações e
pessoal insubstituíveis.
Trump
disse em seu discurso monótono e enfadonho na semana passada: “Não podemos
cuidar de creches. Somos um país grande... Estamos em guerra... Não é possível
cuidarmos de creches, Medicaid, Medicare, todas essas coisas individuais.” Seu
dinheiro, nosso dinheiro, nossas terras públicas, nossas crianças. Trump chegou
a subornar os construtores de parques eólicos offshore com quase um bilhão de
dólares para que parassem, simplesmente porque tem uma vingança pessoal contra
os sistemas de energia limpa. Os EUA costumavam liderar o mundo em pesquisa
científica, incluindo pesquisa médica, que levou a importantes avanços no
tratamento de doenças e na saúde, mas tudo isso foi drasticamente reduzido.
Isso é um assassinato.
O velho
ditado sobre o tempo que um porta-aviões leva para dar a volta pode explicar
por que a nação parece relativamente estável e por que as reações têm sido
inadequadas; o impacto total ainda está por vir. Em algum momento, se o navio
não der a volta, talvez comece a afundar, a adernar gravemente ou a colidir com
um iceberg, ou talvez o iceberg sempre tenha estado lá e se chame Donald Trump.
Ele iniciou uma guerra sem nenhum motivo específico – a palavra " diversão" foi usada – que
está minando ainda mais a economia global que ele já prejudicou seriamente com
suas tarifas em constante flutuação. As empresas precisam poder planejar, e
tarifas que triplicam, desaparecem e reaparecem como seus humores minam essa capacidade.
Da mesma forma, ameaças que não são cumpridas, negociações que nunca
aconteceram, ações do governo que os tribunais revertem se tornam formas de
manipulação política, sacudindo tudo e todos, uma demonstração de força que
também é uma demonstração de incoerência e inconsistência.
Precisamos
falar sobre a reconstrução que um país devastado e corrompido precisa realizar
para voltar a funcionar.
Mas a
ofensividade pode ser uma distração do caráter destrutivo. Todo um setor da
grande mídia agora funciona como médiuns espirituais, tentando interpretar as
ações de Trump para encaixá-las no contexto de uma liderança competente e de
agendas coerentes e consistentes. Se houvesse uma agenda coerente, ela seria
destrutiva, malévola. O slogan recentemente popularizado "o propósito de
um sistema é o que ele faz" é útil aqui, porque o que este sistema faz é
enfraquecer, prejudicar, corromper e causar danos. A ideia de que existe uma
agenda coerente conduzida por Vladimir Putin funciona no sentido de que a maior
parte do que Trump fez é bom para o ditador russo envelhecido, ao mesmo tempo
que é ruim para os EUA.
É
evidente também que Trump queria voltar ao poder em parte para se vingar de um
país que o rejeitou em 2020, da mesma forma que um ex-parceiro às vezes se
torna um perseguidor assassino da mulher que ousou escapar dele, e
especificamente para se vingar dos indivíduos e instituições que o processaram
por crimes ou o frustraram de alguma forma. Trump, em algum nível, sabe que
está fracassando política, cognitiva e fisicamente e quer levar tudo consigo
para o fundo do poço, da mesma forma que os antigos governantes eram enterrados
com seus cavalos e servos mortos. Ele também está, enquanto a mortalidade lhe
espreita, tentando alcançar alguma imortalidade estampando seu nome em prédios,
ingressos para parques e moedas.
Mas
tentar entender as motivações é quase um passatempo quando o foco precisa estar
nas consequências. Não precisamos entender esses criminosos para tentar
contê-los e, em última instância, removê-los. Eles não durarão para sempre, e
precisamos pensar no que acontecerá quando eles se forem – precisamos discutir
o tipo de reconstrução que os EUA enfrentarão pela primeira vez desde a Guerra
Civil, a reconstrução pela qual um país devastado e corrompido precisa passar
para voltar a funcionar. Mas não para voltar a ser como era antes.
São as
fragilidades antidemocráticas do nosso sistema que criaram as vulnerabilidades
que permitiram que isso acontecesse: o colégio eleitoral e a supressão de votos
que deram a Trump uma vitória minoritária em 2016, o gerrymandering que
concedeu a um partido minoritário o poder majoritário no Congresso e nas
assembleias estaduais, uma Suprema Corte grotescamente corrupta e
irresponsável, e a influência corrosiva dos ultrarricos em um sistema que lhes
confere poder em uma escala que representa um ataque direto à democracia.
Precisamos imaginar um país mais democrático, mais igualitário, mais generoso,
um país que reconheça a abundância de riqueza que deve servir a todos nós — e à
natureza e às futuras gerações também — em vez de ser movido pela pobreza moral
dos bilionários.
¨ China supera EUA em
aprovação global. Por José Reinaldo de Carvalho
A China
supera os EUA em aprovação global e evidencia uma mudança estrutural no cenário
internacional, marcada pela queda da popularidade americana e pela consolidação
de um mundo cada vez mais multipolar, no qual novas referências de liderança
passam a ganhar espaço.
Os
dados divulgados pela Gallup mostram que a liderança chinesa alcançou 36% de
aprovação global em 2025, superando os 31% registrados pelos Estados Unidos. A
informação, publicada em análise de Julie Ray, Benedict Vigers e Zaccary
Ritter, indica que essa diferença representa a maior vantagem chinesa já
registrada em quase duas décadas.
A
ultrapassagem não ocorre por acaso. Ela reflete um movimento mais profundo:
enquanto a imagem dos Estados Unidos sofre desgaste contínuo, a China mantém
uma trajetória mais estável e, recentemente, em leve ascensão. A aprovação
americana caiu de 39% para 31% em apenas um ano, ao passo que a chinesa avançou
de 32% para 36%, sinalizando uma inversão simbólica no imaginário global.
Mais do
que números isolados, esses dados revelam uma transformação na percepção
internacional sobre liderança e governança. A política externa dos EUA enfrenta
resistência crescente, inclusive entre parceiros tradicionais. A queda
acentuada da aprovação em países europeus, como Alemanha e Portugal, ilustra
esse distanciamento.
Ao
mesmo tempo, a China avança de maneira distinta. Seu crescimento em aprovação é
consistente. Esse padrão sugere uma construção gradual de confiança,
especialmente em um contexto global marcado por instabilidade e incertezas. Em
vários países, o aumento da percepção positiva sobre Pequim ocorre justamente
onde a imagem de Washington se deteriora, evidenciando uma mudança comparativa
de referência.
Outro
elemento relevante é a estabilidade relativa da desaprovação chinesa, que
permanece em 37%, enquanto a dos Estados Unidos atinge um recorde de 48%. Essa
diferença indica que, embora ambas as potências enfrentem críticas, a rejeição
aos EUA se intensifica de forma mais acentuada, ampliando o contraste entre as
duas lideranças.
A
análise da aprovação líquida reforça essa tendência. A China registra um índice
próximo da neutralidade (-1), enquanto os Estados Unidos atingem o pior
resultado já medido (-15). Essa distância evidencia não apenas uma vantagem
estatística, mas uma mudança qualitativa na percepção global, na qual a
liderança americana deixa de ser vista como referência dominante.
Ainda
que nenhuma das grandes potências alcance maioria de aprovação, o fato de a
China ocupar a segunda posição global, atrás apenas da Alemanha, já representa
um avanço significativo em relação ao padrão histórico. Durante décadas, o
protagonismo dos EUA parecia incontestável; hoje, ele é claramente disputado.
O
cenário também aponta para um mundo menos polarizado entre aliados fixos e mais
aberto a múltiplos centros de poder. A maioria dos países não demonstra
alinhamento forte com nenhuma potência, preferindo manter relações
equilibradas. Esse comportamento reflete uma busca por autonomia estratégica e
maior margem de manobra diante das disputas globais.
Nesse
contexto, a ascensão relativa da China pode ser interpretada como parte de um
processo mais amplo de reorganização internacional. Não se trata apenas de
substituir uma liderança por outra, mas de redefinir os critérios de influência
e legitimidade no sistema global.
A
evolução dos dados sugere que a percepção pública internacional está se
tornando mais definida, com menos neutralidade e maior polarização de opiniões.
Esse fator tende a influenciar decisões políticas, econômicas e diplomáticas,
ampliando o peso da opinião pública nas relações internacionais.
Diante
desse cenário, o avanço da China não pode ser visto apenas como um crescimento
pontual de popularidade, mas como um indicativo de transformação estrutural. A
queda dos Estados Unidos, por sua vez, revela os limites de um modelo de
liderança que já não encontra o mesmo respaldo global.
O
resultado é um equilíbrio de poder mais difuso e no qual a China emerge como um
ator cada vez mais central, não apenas pela força econômica, mas também pela
mudança gradual na forma como é percebida no cenário internacional.
As
Iniciativas Globais lançadas pelo Presidente Xi Jinping, certamente são fatores
que, na medida em que cheguem amplamente ao conhecimento da opinião pública,
favorecerão cada vez mais a avaliação positiva da China. A Iniciativa Cinturão
e Rota, lançada em 2013, impulsiona a cooperação e fomenta o
desenvolvimento dos países parceiros. A Iniciativa de Desenvolvimento Global,
proposta em setembro de 2021 na Assembleia Geral da ONU, foca em erradicação da
pobreza, segurança alimentar, financiamento para o desenvolvimento e mudanças
climáticas, visando acelerar a Agenda 2030 da ONU. Não há dúvida de que tal
iniciativa desperta enormes simpatias.
Já a
Iniciativa de Segurança Global, apresentada em abril de 2022, promove uma visão
de segurança indivisível, baseada no diálogo e no respeito à soberania
nacional, servindo como uma alternativa aos modelos de aliança liderados pelas
potências ocidentais. A Iniciativa de Civilização Global, lançada em março de
2023, defende o respeito à diversidade das civilizações, o diálogo entre
culturas e a oposição à imposição de valores ou modelos de desenvolvimento
únicos, um contraste com a falsa ideia do “choque de civilizações”.
Recentemente,
em setembro de 2025, o Presidente Xi Jinping propôs a Iniciativa de Governança
Global (GGI), que busca reformar o sistema internacional para torná-lo mais
justo, equitativo e centrado no multilateralismo, na igualdade soberana e na
paz.
Um país
soberano, em pleno e vigoroso desenvolvimento, próximo de completar a grande
meta centenária do rejuvenescimento nacional, desperta o interesse e a
admiração de cada vez mais pessoas no mundo.
Fonte:
Brasil 247/The Guardian

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