Maria
Luiza Falcão: Quando o medo toma conta do mundo
O medo
voltou a governar não apenas a geopolítica, mas também os mercados, os preços e
a vida cotidiana. Mas ele não surgiu do nada. Ele tem origem política, decisão
concreta e autoria.
A
recente escalada no Oriente Médio — impulsionada por decisões unilaterais do
governo de Donald Trump — rompeu equilíbrios já frágeis e lançou o mundo em um
novo patamar de instabilidade. A frase que ecoou nos noticiários internacionais
— “covardes, nós vamos nos lembrar” —, dirigida a aliados da OTAN que se
recusaram a acompanhar a escalada militar no Estreito de Ormuz, é mais do que
um desabafo: revela isolamento crescente e uma liderança que substitui
coordenação por confronto.
Em 28
de fevereiro, o aiatolá Ali Khamenei foi assassinado em um ataque dos Estados
Unidos e Israel ao Irã; nos dias que se seguiram, tudo mudou. O Estreito de
Ormuz, por onde passa cerca de 20% do petróleo consumido no mundo, foi fechado.
Os preços do petróleo dispararam, ultrapassando os US$ 100 por barril de
petróleo Brent. Em uma reviravolta significativa, os Estados Unidos de Trump
recuaram e suspenderam as sanções ao petróleo russo. A demanda por
fertilizantes russos disparou, enquanto o mundo sofria com as interrupções no
abastecimento de alimentos.
Quando
uma guerra atinge o coração da energia mundial, não é apenas o petróleo que
entra em choque. Entram em choque moedas, alimentos, juros, transportes — e até
aquilo que deveria estar protegido da lógica do conflito: a própria ideia de
normalidade global.
As
perguntas que começam a se impor são diretas: o que acontecerá com o dólar? Com
os preços? Até onde essa crise pode ir? E, de forma cada vez menos impensável,
o mundo conseguirá sustentar eventos globais como a Copa do Mundo?
Não há
respostas simples. Mas há tendências claras.
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Entre cenários e riscos crescentes
O
debate internacional já não busca certezas, mas delimita cenários.
No
cenário mais benigno, o conflito é contido e parte da oferta de energia se
recompõe. Ainda assim, os danos permanecem: preços elevados e volatilidade
persistente.
No
cenário intermediário, a guerra se prolonga. A inflação se espalha, bancos
centrais endurecem políticas monetárias, juros sobem e o crescimento
desacelera. O risco de recessão retorna ao radar.
No
cenário mais grave, o mundo enfrenta um choque energético prolongado. Nesse
caso, emerge uma combinação particularmente desafiadora: inflação com baixo
crescimento — a estagflação, fenômeno que marcou as crises do petróleo do
século XX e volta ao centro do debate econômico.
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O capital não foge — ele se reposiciona
O
capital financeiro não entra em pânico no sentido comum. Ele se move — e
rapidamente.
Em
momentos de crise, há uma corrida para ativos seguros e líquidos. O dólar
mantém posição privilegiada, atraindo fluxos para títulos do Tesouro dos
Estados Unidos e fundos monetários. Capitais abandonam ativos de risco, e a
moeda americana se fortalece.
Mas
esse movimento tem limites. Se o choque energético persistir, pressionando
simultaneamente inflação e crescimento, o cenário se torna mais ambíguo: força
no curto prazo, instabilidade no médio prazo.
Ao
mesmo tempo, há um redirecionamento para setores que se beneficiam da crise.
Energia, defesa, segurança, logística e commodities passam a concentrar
investimentos. A guerra reorganiza a rentabilidade.
Enquanto
isso, economias mais frágeis enfrentam saída de capitais, pressão cambial e
aumento do custo de financiamento. A crise não é neutra: ela redistribui riscos
— e oportunidades.
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Do petróleo à mesa
O
petróleo não é apenas uma commodity. Ele estrutura toda a economia.
Está no
transporte, nos fertilizantes, na produção industrial e na logística global. Um
choque em seu preço se infiltra em toda a cadeia produtiva.
O
resultado é direto: inflação mais alta, perda de renda real e maior
instabilidade.
Os
efeitos já são visíveis. Países dependentes de energia enfrentam pressões
cambiais e inflacionárias. Governos intervêm. Bancos centrais operam sob
dilemas difíceis.
O
encarecimento da energia eleva custos de fertilizantes, transporte e
armazenamento. O que começa no barril chega à mesa — e atinge de forma mais
dura os mais vulneráveis.
A
aviação encarece. O turismo recua. A guerra aumenta tarifas aéreas, afetando
viagens. Isso já se torna realidade. Para os feriados da Páscoa, há registros
de cancelamentos em massa e tarifas recordes.
O
impacto deixa de ser setorial — torna-se sistêmico.
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Quando até a Copa entra em risco
A Copa
do Mundo de 2026, prevista para Estados Unidos, Canadá e México, foi concebida
como uma celebração global.
Mas o
mundo que emerge dessa crise é outro.
Custos
de viagem mais altos, incerteza econômica e riscos de segurança começam a
alterar as condições do evento. Relatos de ameaças terroristas e o reforço de
medidas de segurança indicam que a lógica do risco já alcança até os espaços
simbólicos da convivência global.
A
pergunta se impõe: é possível celebrar em um mundo organizado pelo medo?
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Um sistema mais instável — e mais político
O que
está em curso não é apenas mais uma crise internacional. É uma mudança na forma
como o mundo opera.
A
escalada atual expõe a erosão dos mecanismos de coordenação global. Alianças se
tensionam, decisões se tornam mais unilaterais e a previsibilidade se reduz. O
sistema internacional passa a funcionar sob maior incerteza — e maior conflito.
Nesse
ambiente, a economia deixa de ser apenas um campo técnico e se transforma em
terreno de disputa política permanente. Preços, moeda, energia e segurança
tornam-se instrumentos de poder.
É isso
que conecta o petróleo ao preço dos alimentos, o dólar às decisões de
investimento e a crise global às disputas internas dos países.
O mundo
não está apenas mais instável. Está mais difícil de interpretar.
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Brasil: economia pressionada, política em disputa
O
Brasil não está fora desse processo.
Sob a
presidência de Luiz Inácio Lula da Silva, o país enfrenta o desafio de
administrar um choque externo cujos efeitos recaem diretamente sobre o
cotidiano da população. A dependência de diesel importado, os custos logísticos
e o impacto dos fertilizantes tornam a economia vulnerável a um aumento
prolongado da energia.
Em um
país estruturado sobre o transporte rodoviário, o encarecimento do diesel se
espalha rapidamente — do frete aos alimentos —, pressionando a inflação e
corroendo o poder de compra.
Mas o
impacto vai além da economia. Ele entra no centro da disputa política.
À
medida que se aproximam as eleições de outubro de 2026, o governo enfrenta um
cenário delicado: administrar uma crise global sem que seus efeitos sejam
percebidos como falha doméstica. Historicamente, choques de preços têm alto
custo político, independentemente de sua origem.
Esse é
o terreno onde a disputa se intensifica.
A
extrema direita tende a explorar esse contexto com uma narrativa conhecida:
transformar instabilidade global em crítica interna, simplificando causas
complexas e mobilizando o medo econômico.
Nesse
cenário, a economia deixa de ser apenas um tema técnico e se torna instrumento
central da disputa eleitoral.
O que
está em jogo não é apenas a gestão da crise, mas a capacidade de interpretá-la
— e de disputar seu significado perante a sociedade.
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No radar geopolítico – EUA x Irã. Por Ruben Bauer Naveira
As
negociações fracassaram. As delegações dos Estados Unidos e do Irã já se
retiraram de Islamabad, capital do Paquistão. Como esperado, a divergência
entre os interesses dos norte-americanos e os dos iranianos era profunda demais
para poder ser superada.
O que
também se esperava – e que não se verificou – era que os americanos estivessem
mais propensos a ceder, porque são, no momento, o lado que teria mais a perder
com a continuidade da guerra (mais especificamente, com o prolongamento do
fechamento do estreito de Hormuz).
Os EUA
são também quem insistentemente pedia por um cessar-fogo para negociações; o
Irã não queria, somente aceitou porque foi pressionado pela China nesse sentido
(e pela mesma razão, o prolongamento do fechamento de Hormuz prejudicará
bastante a economia chinesa).
As
negociações se estenderam por 21 horas, por insistência dos norte-americanos
(após 14 horas os iranianos chegaram a divulgar um anúncio de que as
negociações parariam para prosseguir no dia de hoje). Não faz sentido tentar
arrematar um processo de negociações tão complexo como esse em um único dia.
Ficou
parecendo que os americanos “jogaram no impasse”, e já chegaram com o projeto
de ir embora logo, após terem conseguido “denunciar” a “intransigência” dos
iranianos, os quais “não estariam dispostos a negociar” nada de fato. Como os
iranianos não morderam a isca e se mantiveram negociando por todo o tempo, os
americanos acabaram sendo eles a desistir primeiro.
Os
iranianos divulgaram um comunicado final muito interessante no qual afirmaram
que o impasse se deu somente em “dois ou três” (de um total de dez) pontos
(dentre eles, Hormuz), e que em todos os demais pontos foi possível chegar-se a
um denominador comum.
A
delegação americana foi chefiada pelo vice-presidente J. D. Vance, juntamente
com Steve Witkoff e Jared Kushner (este, genro de Donald Trump), os quais foram
os mesmos negociadores das conversações em Genebra, usadas como biombo para
distrair os iranianos em meio aos preparativos finais para a guerra (lembrando
que logo no primeiro ataque foi assassinado o líder supremo do Irã, o ayatollah
Ali Khamenei).
Steve
Witkoff e Jared Kushner têm notórias ligações com o governo israelense, e Larry
Johnson diz hoje que seu papel em Islamabad era impedir que J. D. Vance
chegasse a um acordo com os iranianos (ele os chama de “agentes sionistas”).
As
negociações acabaram, mas o cessar-fogo (cuja razão de ser eram as negociações)
continua. Por que? Pelo lado do Irã, existe uma postura de não romper acordos,
e o cessar-fogo foi acordado para durar duas semanas – não serão os iranianos a
rompê-lo antes disso. Além do mais, com Hormuz fechado, o tempo joga a favor
dos iranianos.
E
quanto aos norte-americanos? Essa pode ser uma das chaves do enigma – se os
americanos têm urgência na reabertura de Hormuz, e assim deveriam ter tido
interesse em chegar a um acordo em Islamabad, então por que eles insistiram
tanto em um cessar-fogo, se não tinham nenhum interesse real em negociações?
A
resposta pode ser que o cessar-fogo fogo era, em si, o objetivo último. Os
americanos podem estar acreditando que conseguem reabrir Hormuz por meios
militares, e necessitavam de um cessar-fogo para se preparar para isso, sem que
as suas tropas posicionadas para o ataque fossem alvo dos drones e mísseis
iranianos.
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EUA-Irã: a diplomacia de Trump vacila à medida que o
risco de guerra aumenta
Enquanto
o vice-presidente dos EUA, JD Vance, subia a um pódio no Paquistão após 21
horas de negociações diplomáticas e declarava que nenhum acordo havia sido
alcançado para encerrar a guerra com o Irã, seu chefe, Donald Trump, estava em Miami
assistindo a uma luta de artes marciais mistas. O contraste era gritante.
Justamente quando o desfecho de uma guerra e a estabilidade dos mercados
globais estavam em jogo, o presidente optou pelo espetáculo em vez do
diálogo. Trump pode até ter a intenção de projetar força. Mas a impressão que
ele cria – em Teerã e entre os aliados dos Estados Unidos – é a de um
presidente menos interessado na essência da diplomacia do que na política que a
envolve.
As
negociações em Islamabad não fracassaram por acaso; os EUA e o Irã estavam
falando sem se entender. A posição de Washington é que o Irã deve abandonar sua
capacidade de desenvolver uma arma nuclear , enquanto
Teerã insiste que não busca uma e que tem o direito a um programa nuclear
civil. A “ oferta final e melhor ” do
vice-presidente dos EUA exigiria que o Irã renunciasse completamente a essa
capacidade – termos que pareciam menos a base de uma negociação do que uma
tentativa de impor as condições da vitória.
Washington
também queria livre passagem pelo Estreito de Ormuz, uma artéria vital para o
fornecimento global de energia. Teerã, por sua vez, buscava o controle do
estreito por meio de taxas de trânsito, além do levantamento das sanções, do
desbloqueio de ativos e do pagamento de reparações, juntamente com um
cessar-fogo regional mais amplo. Dada a divergência, era improvável que as
posições fossem conciliadas em uma única rodada de negociações. O resultado
foram negociações sem confiança – e uma guerra
sem solução.
Winston
Churchill argumentou, com razão, que o diálogo é melhor do que a guerra . As
negociações são preferíveis porque a guerra é destrutiva, imprevisível e
custosa. A ironia é que o Sr.
Trump está negociando um programa nuclear que antes era controlado por um
acordo que ele próprio havia rompido, enquanto tenta
reabrir um estreito fechado por uma guerra ilegal que ele mesmo iniciou . Um acordo
entre o Irã e os Estados Unidos – por mais imperfeito que seja – deixaria o
mundo em melhor situação do que a continuidade do conflito. Isso é
especialmente verdadeiro quando os mercados de petróleo, gás e finanças estão
tão intimamente ligados.
O tempo
está se esgotando para retornar à mesa de negociações. O destino do atual
cessar-fogo depende não apenas de Washington e Teerã, mas também de Israel,
cuja campanha ampliada de suas forças no sul do Líbano contra o Hezbollah
– arrasando aldeias para estabelecer
uma zona de segurança –
levou o país a ser acusado de crimes de guerra.
É
improvável que os mercados reajam positivamente aos eventos do fim de semana. A
Casa Branca trata ameaças como diplomacia, esperando, de forma bizarra,
submissão. O Sr. Trump pode querer bancar o durão , mas os
eleitores americanos se deparam com uma realidade diferente a cada vez
que param no posto de gasolina . Com
os preços dos combustíveis já em alta, sua decisão de impor um bloqueio naval ao Irã e ao
Estreito de Ormuz corre o risco de intensificar as próprias pressões que
pretende aliviar. Interromper uma rota que transporta um quinto do petróleo
mundial faria os preços subirem ainda mais , com efeitos
que se propagariam muito além do Golfo. Para Teerã, a sobrevivência em si já é
uma forma de sucesso.
O
cessar-fogo termina em pouco mais de uma semana. As negociações não terminaram,
mas há um impasse. No entanto, a lógica da escalada está se consolidando. É
improvável que o Irã recue, optando, em vez disso, por testar a determinação
dos EUA no mar. Uma ofensiva terrestre em grande escala pode ser limitada, por
ora, pelo calor do verão no Golfo, mas o conflito corre o risco de se
transformar em formas mais perigosas – confronto naval, ataques aéreos e guerra por procuração – sem saída. Não haverá
vencedores em tal cenário, apenas perdedores.
Fonte:
Brasil 247/A Terra é Redonda/The Guardian

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