Educação
e violência: da sala de aula à “Hora do Recreio”
É um
tempo desfavorável aos sonhos. Na verdade, tem sido assim há algum tempo.
Talvez isso justifique o discurso feito pelo presidente Luís Inácio Lula da
Silva após sua vitória nas eleições de 2022: o povo brasileiro quer ter de
volta a esperança, dizia o presidente, utilizando de uma estratégia discursiva
semelhante àquela que garantiu sua eleição no início deste século, quando a
esperança teria enfim vencido o medo. A ênfase na esperança denuncia, por
oposição, o real estado das coisas neste tempo de horizontes bloqueados. Se,
nos Estados Unidos, a eleição de Donald Trump, já em 2016, havia demarcado uma
rejeição às formas correntes de um aparente neoliberalismo progressista, o
impeachment de Dilma Rousseff e a eleição de Jair Bolsonaro, cujos efeitos ainda
se fazem sentir no esgoto a céu aberto que a direita encontrou para bramir seus
ideais, forneceram o CPF e a roupagem verde-e-amarela à boa teorização de Nancy
Fraser. Em suas palavras, não estávamos diante de uma nova roupagem da
estrutura neoliberal, apenas presenciávamos o fracasso de sua aparente forma e
versão progressista, até então colorida por ideais de representatividade e por
bandeiras em prol das mulheres, da luta anti-homofobia e antirracista. Os
resultados e efeitos desta empreitada ainda estão sob observação na
contemporaneidade dos nossos dias, em que seguem intactas as estruturas de
poder já estabelecidas, com políticas de exclusão de classe perpetuadas a torto
e a direito. Sem sombra de dúvidas, uma análise possível deste processo se revela
com clareza nos debates em sala de aula, espaço no qual os projetos de nação
desenhados no correr da História se fazem e afirmam.
Fruto
dos processos históricos de seu tempo, roteirizado e encenado a partir de
depoimentos e histórias de vida dos próprios estudantes, Hora do recreio é o
novo documentário de Lucia Murat que estreou em alguns dos cinemas brasileiros
no recente 12 de março. Premiado pelo júri jovem do Festival de Berlim, já em
seu título o trabalho faz menção àquilo que concretiza em sua forma artística:
é mesmo de um intervalo que trata o trabalho, entre o registro e a cena, a
ficção e a realidade. Passando por quatro escolas distintas, ainda que com a
entrada não-liberada nos colégios estaduais, seja por bloqueios burocráticos
colocados pelo próprio Estado, seja pelos bloqueios letais promovidos pela ação
de sua polícia, a diretora Lucia Murat produz um retrato fiel da realidade da
educação pública carioca, que decerto traduz e revela todo o projeto de nação
desenhado às juventudes deste país.
Na
contramão das políticas correntes de negação e esquecimento, não custa mesmo
notar, ainda uma nova e outra vez, aquilo que, em uma entrevista fornecida no
ano de 2019, Roberto Schwarz resgatou da infame memória nacional:
Não
custa notar que nossa liberdade cultural sempre teve um caráter gritante de
prerrogativa de classe. Salvo os grandes momentos de exceção, o seu foco estava
mais na atualização com a moda dos países dominantes que no ajuste de contas
com os abismos de classe em que vivemos.
É algo
desse abismo que aparece no novo trabalho de Lucia, no qual despontam mesmo os
abismos de classe, gênero e raça que marcam a organização desigual da sociedade
brasileira e que encontram régua e compasso na estrutura das salas de aula,
especialmente nas escolas públicas periféricas destinadas à formação dos filhos
da classe trabalhadora. Ali, a escola torna-se espelho e enunciação das
diversas formas de violência que marcam a trajetória daqueles e daquelas que
têm seus direitos parcialmente negados pelo Estado; aqueles e aquelas a quem a
promessa de ascensão social tem se tornado cada vez mais apenas um material
exclusivo de compra e consumo em produtos de autoajuda e consulta a coaches
digitais, sem promessas e garantias reais e concretas de futuro. Nos quadros em
cena, a instituição escolar enfim se mostra como o palco dos conflitos em que a
diferença se revela em seu lugar mais insuportável, que é na pressuposição
impossível de uma convivência entre prerrogativas distintas de classe – até
mesmo no que diz respeito à expectativa daquilo que se ensina e que se aprende.
Para além da convivência em sala de aula, tema de vários dos debates correntes
em escolas e universidades públicas e privadas, a definição dos objetos,
autores e materiais de estudo e trabalho também deixa entrever algumas das
minúcias do projeto de nação em torno do qual se escreve a história de todo um
povo, oficialmente marcado pela exclusão e pelo silenciamento. A escola era
para ser um lugar seguro, lembra uma estudante. Mas seguro para quem? Em cima
de quais fantasias construímos os pressupostos da educação nacional? Quais
pressupostos precisam ser revistos, a fim de que o processo formativo possa
ganhar relevância local? Saber que o Estado não autorizou a filmagem do
documentário nas salas de aula de suas escolas de Ensino Médio talvez já
anuncie um tanto do que se espera e anuncia às gerações em voga.
De
fato, dos depoimentos de cada estudante o que salta aos olhos não é o lamento
pelas condições materiais de vida, mas a transformação da violência em forma
exclusiva de organização da matéria social. A linguagem bélica e o estado
putrefato das relações descritas descrevem o estágio atual de implosão das
formas possíveis de mediação junto a um Estado que, atendendo aos desejos
neoliberais, se quer cada vez menor, restando apenas o risco, a agressão e o
silenciamento como mecanismos de estruturação da ordem nacional. Não à toa, é
da voz dos estudantes que sai o maior dos pedidos: Precisa ter uma pessoa para
zelar por nós. Efetivamente não se trata, contudo, de uma pessoa, um sujeito
singular: o que os estudantes parecem clamar é por algo que beira o cuidado,
aqui um tanto desvencilhado das pautas e políticas de gênero que têm marcado a
absorção do conceito nos últimos anos, ainda que reconhecendo seu alcance e
importância, para abranger a possibilidade de reivindicação de um lugar
político a toda uma classe. Em cena, fica o lembrete de que a luta por direitos
e acessos também deve vir carregada de políticas reais de apoio e auxílio, que
garantam o bem-estar e a própria possibilidade do existir. O que está em jogo
são formas de proteção e segurança da vida, que precisam se concretizar para
que este sujeito possa enfim encontrar alguma forma pública de expressão. Em
suma, respondendo parcialmente àquela conhecida questão de Spivak acerca da
possibilidade da fala dos povos subalternos, os estudantes em cena parecem já
perceber que o discurso emancipatório precisa caminhar com a defesa das
políticas de proteção e segurança à classe desfavorecida – ainda que esta
combinação já aparente não ser um dado de possibilidade nos ditos fins de
modelos neoliberais supostamente progressistas. Fica, portanto, a dúvida: o que
parece, então, restar para a classe trabalhadora, além dos desmanche de seus
direitos e da desordem corriqueira, da violência cotidiana? Há, ainda, alguma
promessa de futuro ou a fatalidade já está em tudo anunciada? Como efetivamente
produzir mundos, sonhos e realidades de vida?
Misturando
realidade e ficção, teatro e literatura, cinema e realidade, o documentário de
Lucia parece desenhar ao espectador a rota das estratégias de sobrevivência
encontradas por toda uma jovem geração em um tempo de degradação das condições
de vida. Sem sombra de dúvidas, imaginar algumas outras alternativas e
possibilidades implica refletir sobre a própria educação, o projeto nacional de
ensino e o percurso formativo de cada sujeito. Neste trajeto, como lembra uma
das estudantes, por vezes todo o caminhar se faz com o apoio de apenas um
professor. De fato, neste império de exaustão e irresponsabilidade conjunta,
pode ser que um único professor seja mesmo capaz de edificar uma escola
inteira. No quadro geral de desvalorização de salários e de demandas de
trabalho exorbitantes, com um apagão futuro já esperado, o trabalho docente
fica mais uma vez colocado em xeque, entre a responsabilização absoluta e a
falta de preparo que caracterizam a precariedade da profissão ao menos desde o
fim do século passado. O problema deste discurso, que é reflexo de um tempo
doente e da implosão de condições mínimas de trabalho, é que educação não se
faz apenas na particularidade dos encontros individuais, nos quais alguma
experiência é mesmo ainda possível: educação sempre foi – e talvez seja esta
uma de suas principais definições – vivência e trabalho coletivo.
Neste
universo condensado de reprodução de discursos de opressão, o trabalho de Lucia
deixa um lembrete ao espectador: ainda há algum horizonte de projeção e
expectativa por meio da arte. É que literatura é vida comprimida no universo
possível de várias páginas. Encontrar a vida que pulsa em cada uma das linhas é
permitir-se viver outras nuances da própria vida. A cena teatral e as máscaras
produzidas pelos próprios estudantes tentam elaborar a experiência de um vivido
que transgride a compreensão e que ainda não se elabora porque é puro resíduo
da história não-contada de todo um país, no qual é mesmo proibido sonhar, como
já anunciava Drummond em seu livro de estreia. Representante deste processo,
Hora do Recreio é documento de época e de vida: é trabalho que acompanha o
espírito de um tempo e marca o instante em que os excluídos e esmagados
socialmente encontram, enfim, a possibilidade de um registro autoral. A
questão, contudo, resta a mesma, já há algum tempo: o que muda com a entrada
desses novos corpos e sujeitos? Na concretude da vida e na materialidade dos
processos, estamos afinal em um momento de abertura ou de fechamento de
espaços? Para quem é o tempo de recreio que se anuncia? Quem pode,
efetivamente, pausar e aproveitar este intervalo?
Hora do
Recreio revela ao espectador que a incorporação discursiva das pautas
progressistas ainda não alterou a materialidade dos processos sociais, que são
mesmo historicamente lentos e demorados. Por ora, conseguimos conviver muito
bem juntando bandeiras de diversidade e acolhimento a práticas de exclusão e
silenciamento. A esperança prometida pelo Partido dos Trabalhadores também se
permitiu ser vendida nas prateleiras da democracia de consumo operada neste
país ao longo dos últimos anos. Na contramão deste discurso esperançoso, o
documentário termina com a última fala de Clara dos Anjos, em um romance
homônimo de Lima Barreto, finalizado entre dezembro de 1921 e janeiro de 1922:
Nós não somos nada nesta vida! A esta fala, talvez os estudantes de Hora do
Recreio acrescentem uma nova oração: MAS QUEREMOS SER! E, como se sabe, nas
sociedades ocidentais, talvez a única das maneiras de redigir uma nova história
e futuro seja mesmo por meio da educação. Ainda que estejamos em tempos muito
desfavoráveis, é nosso dever ensinar as novas gerações a sonhar, lembrando-nos
de que sonho é, antes de tudo, memória – e a memória é o que permanece vivo nas
ruas e encruzilhadas. Talvez seja esta ainda – e sempre – a maior das funções e
promessas da escola. azem acreditar.
Fonte:
Por Matheus Cosmo, no Blog da Boitempo

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