segunda-feira, 13 de abril de 2026

O culto ao apocalipse por trás da guerra de Trump contra o Irã

Nas últimas semanas, Trump e seu círculo engrossaram um coro de encorajamentos – às vezes soando como se provenientes do próprio Todo-Poderoso – de parlamentares da base, defendendo a aprovação de uma lei “por Jesus” para promover o 250º aniversário da criação dos Estados Unidos para renovar a ideia de um país sob um único Deus.

Trump se cercou de uma constelação de assessores evangélicos, que não só apoiam suas políticas, mas também defendem que elas têm aprovação divina. Sua vertente específica da teologia evangélica interpreta o conflito mundial, especialmente no Oriente Médio, como precursor do fim dos tempos. Para Trump, esse alinhamento pode ser de conveniência, outra forma de animar e consolidar um bloco fundamental do eleitorado. Mas para muitas das figuras religiosas que agora estão em sua órbita, o que está em jogo é muito mais cósmico: a guerra não é simplesmente geopolítica, ela é apocalíptica.

Esse pensamento já está infiltrando sua influência na máquina de guerra dos EUA. O secretário de Defesa, Pete Hegseth, vem coordenando uma infusão constante de simbolismo e práticas cristãs na vida militar – realizando rodas de oração, promovendo figuras da linha dura evangélica, e pressionando por um tom mais abertamente religioso em toda a tropa.

Reportagens mostram que sua atuação inclui iniciativas para remodelar o corpo de capelães das forças armadas, e integrar sua cosmovisão cristã mais diretamente na cultura militar. A estética não é sutil: Hegseth abraçou a iconografia das Cruzadas – tem tatuagens da cruz de Jerusalém e da frase “Deus vult”, que significa “Deus quer”, em latim – e vem descrevendo os conflitos dos Estados Unidos em termos civilizatórios e religiosos. Durante uma oração que conduziu no Pentágono semana passada, Hegseth pediu a Deus para ajudar a derramar “violência avassaladora de ação contra todos aqueles que não merecem misericórdia”.

Até mesmo algumas pessoas de direita começaram a manifestar incômodo. Um comentarista conservador, preocupado com a influência cada vez maior, descreveu sem meias palavras a principal consultora religiosa de Trump, Paula White-Cain, como uma “psicopata líder de seita apocalíptica“, alertando sobre as correntes teológicas que estão moldando o governo.

Na qualidade de pessoa fluente em crentês – fui criado nas profundezas evangélicas do Cinturão da Bíblia, no Texas, e inclusive conheci Paula White quando jovem – esse dialeto sinaliza uma verdadeira mudança.

‘O sofrimento, nessa visão de mundo, não é simplesmente trágico; ele é necessário para acionar o retorno de Cristo.’

Nos ecossistemas evangélicos de mídia, o Irã não é apenas um adversário estratégico, mas faz parte de uma história profética, ligada a interpretações do Livro do Apocalipse e da batalha do Armagedom. O sofrimento, nessa visão de mundo, não é simplesmente trágico; ele é necessário para acionar o retorno de Cristo.

E como descreveu White-Cain, agora chefe do Gabinete da Fé da Casa Branca: “dizer não ao presidente Trump seria dizer não a Deus”.

Essa tensão entre a conveniência política e a crença apocalíptica já não é mais apenas teórica. Ela está sendo operacionalizada.

<><> Evangelhos Proféticos

Dias depois de lançar ataques unilaterais contra o Irã, Trump convocou cerca de vinte lideranças evangélicas para uma reunião particular. Os pastores se reuniram em torno do presidente, impondo as mãos sobre ele para orar pedindo força e proteção para sua mais recente campanha militar. No centro desse círculo estava White-Cain, aliada de longa data de Trump, que atua como sua “assessora espiritual” desde a primeira corrida presidencial.

A ascensão de White-Cain é emblemática da fusão que está em curso. Ela era uma televangelista que tinha vínculos fortes com o cristianismo carismático, e construiu seu rebanho pregando o evangelho da prosperidade – uma corrente teológica que associa a fé com o sucesso material – até se tornar uma pessoa de confiança de Trump.

Logo no início, ela ganhou destaque por suas conexões com figuras como o conhecido bispo T.D. Jakes e participações em emissoras de TV como a BET, voltada para o público negro nos EUA, o que deu a ela espaço tanto nas igrejas negras (onde a conheci), quanto nos espaços de comunicação evangélicos. Durante seu primeiro mandato, Trump criou a Iniciativa de Fé e Oportunidade da Casa Branca, e nomeou White para liderar a pasta recém-criada.

Mas White-Cain não é apenas uma aliada política. Ela faz parte de uma rede mais ampla de lideranças evangélicas que há muito tempo vêm descrevendo os conflitos internacionais em termos explicitamente proféticos. Figuras nessa esfera já se referiram publicamente às guerras no Oriente Médio como sinais dos “últimos dias“, defenderam que a convulsão geopolítica cumpre a profecia bíblica, e enfatizaram que a guerra espiritual é inseparável do confronto físico.

Os próprios textos e aparições públicas de White-Cain embalam a política contemporânea em um verniz sombrio de dispensacionalismo espiritual. Dispensacionalismo, para os não iniciados, é uma linha de teologia protestante evangélica que faz uma leitura literal da Bíblia, divide a história em eras distintas do plano de Deus, separa Israel da Igreja e prevê um arrebatamento futuro e um reino milenar sobre a Terra.

Em uma entrevista em abril de 2025 com o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, White-Cain começou perguntando se o mundo estava pronto para dar início ao próprio Armagedom.

“A visão cristã dos últimos dias prevê transformação e redenção profundas”, disse ela na entrevista, como noticiada pelo veículo Times of Israel. “Com base nos eventos que estão se desenrolando atualmente, você considera que estamos vendo a concretização dos sinais dessa visão?”

O que está em jogo, segundo ela, é nada menos que a aniquilação. Isso é importante, quando são essas vozes que sussurram orações nas decisões de um presidente que comanda a força militar.

Ela não está sozinha. White-Cain trouxe outros para a rede de poder religioso de Trump – como o pastor Travis Johnson, do estado do Alabama, que tem sido visto nos eventos religiosos de Trump, e frequenta os mesmos círculos.

Ele se apresenta como um viajante global espalhando o “amor” e a “paz” dos cristãos. No X, ele também já disse a seus seguidores que “o Islã não é apenas uma religião, é um sistema de conquista militar” – apresentando o cristianismo estadunidense como uma resistência contra ele.

Após os ataques israelenses com mísseis, que coincidiram com o começo do período do Ramadã e dizimaram a liderança iraniana, Johnson postou, com uma alfinetada ácida: “Tchau, Felícia.  Khamenei deixou o prédio.”

Robert Jeffress, pastor da megaigreja Primeira Igreja Batista de Dallas, e um dos mais proeminentes defensores religiosos de Trump, também faz parte da equipe que dá apoio sobrenatural ao presidente. Há anos Jeffress promove uma visão de mundo que impõe ao nacionalismo cristão a exclusão cultural e religiosa. Ele descreve o islamismo como “uma falsa religião” que é “inspirada por Satã”, e, uma vez declarado, “o colapso da América é inevitável, e não há nada que possamos fazer para detê-lo”.

Outros do séquito espiritual de Trump defendem linhas semelhantes com bravatas proféticas e apocalípticas. O pastor californiano Greg Laurie, também frequentador da roda de oração de Trump, vinculou o assassinato do aiatolá do Irã com o evangelho do juízo final em um vídeo publicado no X.

“Até onde consigo enxergar, o próximo evento do calendário profético seria o arrebatamento”, disse ele à sua plateia. “Depois, é claro, o período da grande tribulação (…) que culmina na batalha do Armagedom.”

Laurie, como muitos evangélicos, enxerga o Irã como a Pérsia bíblica, que é mencionada no livro de Ezequiel como aliada de Magog, uma máquina de guerra que, segundo a profecia, um dia se reunirá em Israel para o capítulo final da história humana.

Existem aqueles na esfera religiosa de Trump que não perderam a esperança – mas apenas porque se veem presos em uma guerra santa pela alma de um país. Josh McPherson, uma voz em ascensão nos círculos nacionalistas cristãos, é contundente em sua pregação por uma força militar teocrática, e costuma ministrar vestindo roupas camufladas e botas de combate. Ele defende que “homens e mulheres justos e piedosos, submissos ao Pai Celestial” deveriam estar no comando das forças armadas mais poderosas do mundo.

Em uma recente entrevista a um podcast, McPherson descreve os cristãos estadunidenses como uma linha de defesa fundamental contra a expansão do islamismo, que ele considera “demoníaco” e um “flagelo”, enquanto defende as deportações em massa. Se não forem tomadas medidas agora, ele prevê uma visão apocalíptica em que futuras gerações de cristãos precisarão responder a uma “invasão jihadista islâmica, em que a única maneira de resistir é com armas e balas”.

Olhando para o conjunto, não se trata de um amontoado aleatório de pastores marginais. É um ecossistema teológico consistente, que considera a guerra como profecia, os oponentes como demônios, e o colapso mundial como necessário para desencadear o retorno de Cristo.

Essa convergência de teologia, discurso e poder militar agora está atraindo atenção no centro do poder em Washington, onde parlamentares encaminharam formalmente um pedido de investigação contra Hegseth e o Departamento de Defesa, alertado que o “discurso religioso extremista” pode estar se infiltrando na cadeia de comando e moldando a forma como a guerra no Irã está sendo processada.

O perigo não é apenas metafísico. Há um longo histórico de pesquisa mostrando que, quando o poder político se funde com a certeza religiosa, a guerra se intensifica. O discurso religioso torna as guerras muito mais difíceis de encerrar, não o contrário. Os conflitos se tornam existenciais, deixam de ser negociáveis. A identidade substitui a estratégia. O destino substitui a diplomacia.

Para um soldado, marinheiro ou fuzileiro naval que puxa o gatilho ou lança o míssil, fica confusa a distinção entre a defesa nacional e a participação em algo que pode se transformar em limpeza étnica religiosa.

Em que as decisões estratégicas não são guiadas pensado em encerrar guerras, mas em gerar novas guerras proféticas.

Em que o resultado final pode significar morrer, não a serviço do seu país, mas como um mártir preordenado.

Não se deve pedir a um soldado que morra por uma religião que não pratica, para desencadear um fim dos tempos que ele não deseja, ou para lutar por uma visão de mundo enraizada em profecia, não em política. Isso não é defesa nacional, é alistamento ideológico. E quando um estado começa a fazer guerra nesses termos, não está mais se defendendo – está entregando seu poder a algo muito mais perigoso do que qualquer inimigo estrangeiro.

¨      Guerra afasta Irã de vizinhos do Golfo e aproxima Paquistão e China, avalia especialista

Após 40 dias de guerra dos Estados Unidos e Israel contra o Irã, o cenário geopolítico tem apresentado alguns indícios de que mudanças importantes podem ser produzidas em função desse conflito. Na avaliação do professor Reginaldo Nasser, professor de Relações Internacionais da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), o status dos países no tabuleiro geopolítico pode passar por transformações, embora essa dinâmica esteja em pleno desenvolvimento, já que o conflito continua vigente.

Para Nasser, o recuo do mandatário estadunidense sobre o ataque ao Irã se deve a diferentes fatores, incluindo a pressão de países aliados do Golfo Pérsico (Arábia Saudita, Bahrein, Catar, Emirados Árabes e Kwait), com medo de que um ataque mais forte dos Estados Unidos pudesse levar a uma retaliação ainda maior de Teerã, especialmente através do bloqueio de petroleiros no Estreito de Ormuz.

“As monarquias do Golfo têm muita influência na elite norte-americana, e seus países têm sido duramente atingidas pelo Irã”, analisou.

O analista internacional examina o cenário das relações regionais entre os países da Ásia Ocidental a partir da guerra e considera que ainda há uma incógnita sobre como será a relação entre o Irã e seus vizinhos do Golfo Pérsico. “É difícil haver uma aproximação com o Irã depois de tudo isso. A tendência é que países como Arábia Saudita e Emirados Árabes vão se armar muito mais, por considerar Teerã como uma ameaça muito maior”.

Nasser acredita que, ao se distanciar dos países do Golfo, a República Islâmica tende a “reforçar algo que já vinha fazendo”, que é desenvolver uma estratégia voltada para a Ásia. “E a presença do Paquistão no conflito é muito relevante nesse aspecto, assim como a da China”.

Em uma análise sobre as consequências a longo prazo, Nasser sugere “observar os próximos passos de países europeus do Ocidente, e também das monarquias do Golfo, e tentar entender como estão pensando”.

“Certamente, (os países do Golfo) devem estar avaliando uma alternativa para a questão do Estreito de Ormuz. Se eles não são capazes de recuperar o controle do Estreito, o que vão fazer? Há oleodutos e gasodutos que estavam em processo de elaboração, mas essa construção precisará ser acelerada, para permitir que esses países possam ter uma saída pelo Mar Vermelho para escoar sua produção petrolífera”, comentou.

<><> Trump sem conquistas

Segundo Nasser, quando a guerra teve início, Trump apresentou diversos objetivos, e isso foi uma estratégia para, no momento oportuno, “ele escolher um desses objetivos e dizer que ele foi alcançado”.

“O problema é que, na verdade, nenhum dos objetivos foi alcançado até agora: não houve mudança de regime no Irã; o programa nuclear não se interrompeu, o país continua enriquecendo urânio; a infraestrutura balística pode ter sido afetada, mas não foi destruída; tampouco foi cortada a relação de Teerã com seus aliados. Enfim, os Estados Unidos não cumpriram nenhum dos objetivos anunciados naquele início por Trump”.

Sobre a declaração dada por Trump horas antes de ser anunciado o acordo, quando o presidente norte-americano disse que “uma civilização inteira morrerá esta noite, para nunca mais ser trazida de volta”, Nasser acredita que, para além dos exageros retóricos, um ataque mais duro contra o Irã provavelmente foi cogitado, até porque, “ao não conquistar nenhum dos objetivos anteriores, Washington precisava produzir algum resultado substantivo, e possui armas suficiente para isso”.

<><> O Irã está vencendo?

O professor pondera sobre o fato de que a nação persa, diferente do país norte-americano, sim teria alcançado alguns objetivos, ainda que não de forma definitiva, ao menos por enquanto. “O Irã conseguiu sobreviver, o sistema de governo continua vigente, e mais do que isso, conseguiu algo estratégico que foi aumentar seu controle sobre o Estreito de Ormuz. Foi uma demonstração de poder”.

Porém, na questão militar, Nasser considera que a Guarda Revolucionária Islâmica “provou ter uma alta capacidade de destruição, atingindo Israel e as monarquias do Golfo de uma forma nunca tinham sentido antes, mas ainda possui um problema importante em sua defesa”.

“Os ataques dos Estados Unidos e de Israel afetaram fortemente a infraestrutura civil, infraestrutura energética, e também houve destruição de bases militares”, afirmou.

<><> Perspectiva humanitária

Além do lado geopolítico, Nasser aponta a importância de avaliar as questões humanas em uma guerra, lembrando que, “mesmo em façanhas históricas”, como a vitória do Vietnã sobre os Estados Unidos, morreram dois milhões de vietnamitas nesse conflito.

“No caso do Irã agora, há muitas mortes de civis, e também muitas mortes de lideranças iranianas importantes. Além disso, a infraestrutura civil destruída afeta a vida das pessoas. O país está muito danificado e o processo de reconstrução será doloroso”.

 

Fonte: Por Alain Stephens, em The Intercept/Opera Mundi

 

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