O
culto ao apocalipse por trás da guerra de Trump contra o Irã
Nas
últimas semanas, Trump e seu círculo engrossaram um coro de encorajamentos – às
vezes soando como se provenientes do próprio Todo-Poderoso – de parlamentares
da base, defendendo a aprovação de uma lei “por Jesus” para promover o 250º
aniversário da criação dos Estados Unidos para renovar a ideia de um país sob
um único Deus.
Trump
se cercou de uma constelação de assessores evangélicos, que não só apoiam suas
políticas, mas também defendem que elas têm aprovação divina. Sua vertente
específica da teologia evangélica interpreta o conflito mundial, especialmente
no Oriente Médio, como precursor do fim dos tempos. Para Trump, esse
alinhamento pode ser de conveniência, outra forma de animar e consolidar um
bloco fundamental do eleitorado. Mas para muitas das figuras religiosas que
agora estão em sua órbita, o que está em jogo é muito mais cósmico: a guerra
não é simplesmente geopolítica, ela é apocalíptica.
Esse
pensamento já está infiltrando sua influência na máquina de guerra dos EUA. O
secretário de Defesa, Pete Hegseth, vem coordenando uma infusão constante de
simbolismo e práticas cristãs na vida militar – realizando rodas de oração,
promovendo figuras da linha dura evangélica, e pressionando por um tom mais
abertamente religioso em toda a tropa.
Reportagens
mostram que sua atuação inclui iniciativas para remodelar o corpo de capelães
das forças armadas, e integrar sua cosmovisão cristã mais diretamente na
cultura militar. A estética não é sutil: Hegseth abraçou a iconografia das
Cruzadas – tem tatuagens da cruz de Jerusalém e da frase “Deus vult”, que
significa “Deus quer”, em latim – e vem descrevendo os conflitos dos Estados
Unidos em termos civilizatórios e religiosos. Durante uma oração que conduziu
no Pentágono semana passada, Hegseth pediu a Deus para ajudar a derramar
“violência avassaladora de ação contra todos aqueles que não merecem
misericórdia”.
Até
mesmo algumas pessoas de direita começaram a manifestar incômodo. Um
comentarista conservador, preocupado com a influência cada vez maior, descreveu
sem meias palavras a principal consultora religiosa de Trump, Paula White-Cain,
como uma “psicopata líder de seita apocalíptica“, alertando sobre as correntes
teológicas que estão moldando o governo.
Na
qualidade de pessoa fluente em crentês – fui criado nas profundezas evangélicas
do Cinturão da Bíblia, no Texas, e inclusive conheci Paula White quando jovem –
esse dialeto sinaliza uma verdadeira mudança.
‘O
sofrimento, nessa visão de mundo, não é simplesmente trágico; ele é necessário
para acionar o retorno de Cristo.’
Nos
ecossistemas evangélicos de mídia, o Irã não é apenas um adversário
estratégico, mas faz parte de uma história profética, ligada a interpretações
do Livro do Apocalipse e da batalha do Armagedom. O sofrimento, nessa visão de
mundo, não é simplesmente trágico; ele é necessário para acionar o retorno de
Cristo.
E como
descreveu White-Cain, agora chefe do Gabinete da Fé da Casa Branca: “dizer não
ao presidente Trump seria dizer não a Deus”.
Essa
tensão entre a conveniência política e a crença apocalíptica já não é mais
apenas teórica. Ela está sendo operacionalizada.
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Evangelhos Proféticos
Dias
depois de lançar ataques unilaterais contra o Irã, Trump convocou cerca de
vinte lideranças evangélicas para uma reunião particular. Os pastores se
reuniram em torno do presidente, impondo as mãos sobre ele para orar pedindo
força e proteção para sua mais recente campanha militar. No centro desse
círculo estava White-Cain, aliada de longa data de Trump, que atua como sua
“assessora espiritual” desde a primeira corrida presidencial.
A
ascensão de White-Cain é emblemática da fusão que está em curso. Ela era uma
televangelista que tinha vínculos fortes com o cristianismo carismático, e
construiu seu rebanho pregando o evangelho da prosperidade – uma corrente
teológica que associa a fé com o sucesso material – até se tornar uma pessoa de
confiança de Trump.
Logo no
início, ela ganhou destaque por suas conexões com figuras como o conhecido
bispo T.D. Jakes e participações em emissoras de TV como a BET, voltada para o
público negro nos EUA, o que deu a ela espaço tanto nas igrejas negras (onde a
conheci), quanto nos espaços de comunicação evangélicos. Durante seu primeiro
mandato, Trump criou a Iniciativa de Fé e Oportunidade da Casa Branca, e nomeou
White para liderar a pasta recém-criada.
Mas
White-Cain não é apenas uma aliada política. Ela faz parte de uma rede mais
ampla de lideranças evangélicas que há muito tempo vêm descrevendo os conflitos
internacionais em termos explicitamente proféticos. Figuras nessa esfera já se
referiram publicamente às guerras no Oriente Médio como sinais dos “últimos
dias“, defenderam que a convulsão geopolítica cumpre a profecia bíblica, e
enfatizaram que a guerra espiritual é inseparável do confronto físico.
Os
próprios textos e aparições públicas de White-Cain embalam a política
contemporânea em um verniz sombrio de dispensacionalismo espiritual.
Dispensacionalismo, para os não iniciados, é uma linha de teologia protestante
evangélica que faz uma leitura literal da Bíblia, divide a história em eras
distintas do plano de Deus, separa Israel da Igreja e prevê um arrebatamento
futuro e um reino milenar sobre a Terra.
Em uma
entrevista em abril de 2025 com o primeiro-ministro israelense, Benjamin
Netanyahu, White-Cain começou perguntando se o mundo estava pronto para dar
início ao próprio Armagedom.
“A
visão cristã dos últimos dias prevê transformação e redenção profundas”, disse
ela na entrevista, como noticiada pelo veículo Times of Israel. “Com base nos
eventos que estão se desenrolando atualmente, você considera que estamos vendo
a concretização dos sinais dessa visão?”
O que
está em jogo, segundo ela, é nada menos que a aniquilação. Isso é importante,
quando são essas vozes que sussurram orações nas decisões de um presidente que
comanda a força militar.
Ela não
está sozinha. White-Cain trouxe outros para a rede de poder religioso de Trump
– como o pastor Travis Johnson, do estado do Alabama, que tem sido visto nos
eventos religiosos de Trump, e frequenta os mesmos círculos.
Ele se
apresenta como um viajante global espalhando o “amor” e a “paz” dos cristãos.
No X, ele também já disse a seus seguidores que “o Islã não é apenas uma
religião, é um sistema de conquista militar” – apresentando o cristianismo
estadunidense como uma resistência contra ele.
Após os
ataques israelenses com mísseis, que coincidiram com o começo do período do
Ramadã e dizimaram a liderança iraniana, Johnson postou, com uma alfinetada
ácida: “Tchau, Felícia. Khamenei deixou
o prédio.”
Robert
Jeffress, pastor da megaigreja Primeira Igreja Batista de Dallas, e um dos mais
proeminentes defensores religiosos de Trump, também faz parte da equipe que dá
apoio sobrenatural ao presidente. Há anos Jeffress promove uma visão de mundo
que impõe ao nacionalismo cristão a exclusão cultural e religiosa. Ele descreve
o islamismo como “uma falsa religião” que é “inspirada por Satã”, e, uma vez
declarado, “o colapso da América é inevitável, e não há nada que possamos fazer
para detê-lo”.
Outros
do séquito espiritual de Trump defendem linhas semelhantes com bravatas
proféticas e apocalípticas. O pastor californiano Greg Laurie, também
frequentador da roda de oração de Trump, vinculou o assassinato do aiatolá do
Irã com o evangelho do juízo final em um vídeo publicado no X.
“Até
onde consigo enxergar, o próximo evento do calendário profético seria o
arrebatamento”, disse ele à sua plateia. “Depois, é claro, o período da grande
tribulação (…) que culmina na batalha do Armagedom.”
Laurie,
como muitos evangélicos, enxerga o Irã como a Pérsia bíblica, que é mencionada
no livro de Ezequiel como aliada de Magog, uma máquina de guerra que, segundo a
profecia, um dia se reunirá em Israel para o capítulo final da história humana.
Existem
aqueles na esfera religiosa de Trump que não perderam a esperança – mas apenas
porque se veem presos em uma guerra santa pela alma de um país. Josh McPherson,
uma voz em ascensão nos círculos nacionalistas cristãos, é contundente em sua
pregação por uma força militar teocrática, e costuma ministrar vestindo roupas
camufladas e botas de combate. Ele defende que “homens e mulheres justos e
piedosos, submissos ao Pai Celestial” deveriam estar no comando das forças
armadas mais poderosas do mundo.
Em uma
recente entrevista a um podcast, McPherson descreve os cristãos estadunidenses
como uma linha de defesa fundamental contra a expansão do islamismo, que ele
considera “demoníaco” e um “flagelo”, enquanto defende as deportações em massa.
Se não forem tomadas medidas agora, ele prevê uma visão apocalíptica em que
futuras gerações de cristãos precisarão responder a uma “invasão jihadista
islâmica, em que a única maneira de resistir é com armas e balas”.
Olhando
para o conjunto, não se trata de um amontoado aleatório de pastores marginais.
É um ecossistema teológico consistente, que considera a guerra como profecia,
os oponentes como demônios, e o colapso mundial como necessário para
desencadear o retorno de Cristo.
Essa
convergência de teologia, discurso e poder militar agora está atraindo atenção
no centro do poder em Washington, onde parlamentares encaminharam formalmente
um pedido de investigação contra Hegseth e o Departamento de Defesa, alertado
que o “discurso religioso extremista” pode estar se infiltrando na cadeia de
comando e moldando a forma como a guerra no Irã está sendo processada.
O
perigo não é apenas metafísico. Há um longo histórico de pesquisa mostrando
que, quando o poder político se funde com a certeza religiosa, a guerra se
intensifica. O discurso religioso torna as guerras muito mais difíceis de
encerrar, não o contrário. Os conflitos se tornam existenciais, deixam de ser
negociáveis. A identidade substitui a estratégia. O destino substitui a
diplomacia.
Para um
soldado, marinheiro ou fuzileiro naval que puxa o gatilho ou lança o míssil,
fica confusa a distinção entre a defesa nacional e a participação em algo que
pode se transformar em limpeza étnica religiosa.
Em que
as decisões estratégicas não são guiadas pensado em encerrar guerras, mas em
gerar novas guerras proféticas.
Em que
o resultado final pode significar morrer, não a serviço do seu país, mas como
um mártir preordenado.
Não se
deve pedir a um soldado que morra por uma religião que não pratica, para
desencadear um fim dos tempos que ele não deseja, ou para lutar por uma visão
de mundo enraizada em profecia, não em política. Isso não é defesa nacional, é
alistamento ideológico. E quando um estado começa a fazer guerra nesses termos,
não está mais se defendendo – está entregando seu poder a algo muito mais
perigoso do que qualquer inimigo estrangeiro.
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Guerra afasta Irã de vizinhos do Golfo e aproxima
Paquistão e China, avalia especialista
Após 40
dias de guerra dos Estados
Unidos e Israel contra o Irã, o cenário geopolítico tem apresentado
alguns indícios de que mudanças importantes podem ser produzidas em função
desse conflito. Na avaliação do professor Reginaldo Nasser, professor de
Relações Internacionais da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo
(PUC-SP), o status dos países no tabuleiro geopolítico pode passar por
transformações, embora essa dinâmica esteja em pleno desenvolvimento, já que
o conflito continua
vigente.
Para
Nasser, o recuo do mandatário
estadunidense sobre
o ataque ao Irã se deve a diferentes fatores, incluindo a pressão de países
aliados do Golfo Pérsico (Arábia Saudita, Bahrein, Catar, Emirados Árabes e
Kwait), com medo de que um ataque mais forte dos Estados Unidos pudesse levar a
uma retaliação ainda maior de Teerã, especialmente através do bloqueio de
petroleiros no Estreito de Ormuz.
“As
monarquias do Golfo têm muita influência na elite norte-americana, e seus
países têm sido duramente atingidas pelo Irã”, analisou.
O
analista internacional examina o cenário das relações regionais entre os países
da Ásia Ocidental a partir da guerra e considera que ainda há uma incógnita
sobre como será a relação entre o Irã e seus vizinhos do Golfo Pérsico. “É
difícil haver uma aproximação com o Irã depois de tudo isso. A tendência é que
países como Arábia Saudita e Emirados Árabes vão se armar muito mais, por
considerar Teerã como uma ameaça muito maior”.
Nasser
acredita que, ao se distanciar dos países do Golfo, a República Islâmica tende
a “reforçar algo que já vinha fazendo”, que é desenvolver uma estratégia
voltada para a Ásia. “E a presença do Paquistão no conflito é muito relevante
nesse aspecto, assim como a da China”.
Em uma
análise sobre as consequências a longo prazo, Nasser sugere “observar os
próximos passos de países europeus do Ocidente, e também das monarquias do
Golfo, e tentar entender como estão pensando”.
“Certamente,
(os países do Golfo) devem estar avaliando uma alternativa para a questão do
Estreito de Ormuz. Se eles não são capazes de recuperar o controle do Estreito,
o que vão fazer? Há oleodutos e gasodutos que estavam em processo de
elaboração, mas essa construção precisará ser acelerada, para permitir que
esses países possam ter uma saída pelo Mar Vermelho para escoar sua produção
petrolífera”, comentou.
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Trump sem conquistas
Segundo
Nasser, quando a guerra teve início, Trump apresentou diversos objetivos, e
isso foi uma estratégia para, no
momento oportuno, “ele escolher um desses objetivos e dizer que ele foi
alcançado”.
“O
problema é que, na verdade, nenhum dos objetivos foi
alcançado até
agora: não houve mudança de regime no Irã; o programa nuclear não se
interrompeu, o país continua enriquecendo urânio; a infraestrutura balística
pode ter sido afetada, mas não foi destruída; tampouco foi cortada a relação de
Teerã com seus aliados. Enfim, os Estados Unidos não cumpriram nenhum dos
objetivos anunciados naquele início por Trump”.
Sobre a
declaração dada por Trump horas antes de ser anunciado o acordo, quando o
presidente norte-americano disse que “uma civilização inteira morrerá esta
noite, para nunca mais ser trazida de volta”, Nasser acredita que, para além
dos exageros retóricos, um ataque mais duro contra o Irã provavelmente foi
cogitado, até porque, “ao não conquistar nenhum dos objetivos anteriores,
Washington precisava produzir algum resultado substantivo, e possui armas
suficiente para isso”.
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O Irã está vencendo?
O
professor pondera sobre o fato de que a nação persa, diferente do país
norte-americano, sim teria alcançado alguns objetivos, ainda que não de forma
definitiva, ao menos por enquanto. “O Irã conseguiu sobreviver, o sistema de
governo continua vigente, e mais do que isso, conseguiu algo estratégico que
foi aumentar seu controle sobre o Estreito de Ormuz. Foi uma demonstração de
poder”.
Porém,
na questão militar, Nasser considera que a Guarda Revolucionária Islâmica
“provou ter uma alta capacidade de destruição, atingindo Israel e as monarquias
do Golfo de uma forma nunca tinham sentido antes, mas ainda possui um problema
importante em sua defesa”.
“Os
ataques dos Estados Unidos e de Israel afetaram fortemente a infraestrutura
civil, infraestrutura energética, e também houve destruição de bases
militares”, afirmou.
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Perspectiva humanitária
Além do
lado geopolítico, Nasser aponta a importância de avaliar as questões humanas em
uma guerra, lembrando que, “mesmo em façanhas históricas”, como a vitória do
Vietnã sobre os Estados Unidos, morreram dois milhões de vietnamitas nesse
conflito.
“No
caso do Irã agora, há muitas mortes de civis, e também muitas
mortes de lideranças iranianas importantes. Além disso, a infraestrutura civil
destruída afeta a vida das pessoas. O país está muito danificado e o processo
de reconstrução será doloroso”.
Fonte:
Por Alain Stephens, em The Intercept/Opera Mundi

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