Riscos
e oportunidades da rápida adoção de IA na Justiça
O
Brasil é reconhecido internacionalmente como líder na adoção da inteligência
artificial (IA) no Judiciário. Casos recentes expuseram os riscos deste
movimento e aumentaram o alerta sobre eventuais complicações em razão do uso da
tecnologia. Vazamentos e as chamadas "alucinações" dos modelos de
linguagem são temidos, enquanto a facilidade de abrir novos processos ameaça
sobrecarregar ainda mais o setor. Por outro lado, a tecnologia é vista como uma
chance de ampliar o acesso à Justiça e potencial aliada na resolução mais
rápida de casos.
"O
Brasil é líder global na adoção de IA, com ferramentas que abrangem as forças
policiais, o Ministério Público, os tribunais em matéria penal e cível e a
defesa", avalia o monitor do Instituto Oxford de Tecnologia e Justiça
sobre o tema. Os tribunais brasileiros utilizam mais de 140 ferramentas de IA
para gestão processual, pesquisa e análises, destaca o relatório.
Em
fevereiro, a questão veio à tona depois de uma decisão do Tribunal de Justiça
de Minas Gerais que absolveu um homem de 35 anos acusado de estuprar uma menina
de 12 anos, que continha um comando para uso de IA, o chamado
"prompt".
O
relator do caso, o desembargador Magid Nauef Láuar manteve na versão final do
documento uma frase usada para determinar o que a ferramenta de IA deveria
fazer ao escrever seu voto, o que gerou fortes reações e temor pela forma como
a tecnologia poderia influenciar decisões.
Em
2025, a Corregedoria-Geral da Justiça do Maranhão instaurou uma sindicância
para investigar o juiz Tonny Carvalho Araújo Luz por uso inadequado de
ferramentas de IA. A medida destacou que a produtividade do juiz passou de uma
média mensal de 80 sentenças para 969 apenas no mês de agosto do ano passado.
No final de março de 2026, uma juíza foi designada para seguir com as
investigações.
Um
relatório recente organizado pelo JusBrasil, em parceria com a Ordem dos
Advogados do Brasil (OAB) e o Instituto de Tecnologia e Sociedade (ITS),
apontou que 77% dos profissionais de direito utilizam IA generativa com
frequência ao menos uma vez por semana, na rotina profissional. No ano passado,
essa proporção era de 55%.
Em
razão da rápida adoção, o Conselho Nacional de Justiça (CNJ) adotou ao final de
2025 uma resolução sobre o tema após consulta com diversos setores da
sociedade. Do texto, é destacada a obrigatoriedade de supervisão humana, a
classificação dos sistemas de IA conforme o nível de risco e auditorias
regulares.
Na
visão de Fabro Steibel, diretor executivo do ITS, o CNJ criou obrigações e
restrições para o uso destas tecnologias, enquanto o Judiciário traz muitas
garantias. "É necessário sempre um controle humano, não sendo possível
automatizar tudo", avalia.
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Líder global
No
histórico de adoções de ferramentas, desde 2018, o Supremo Tribunal Federal
(STF) utiliza um sistema chamado Victor visando auxiliar nas decisões. A
iniciativa foi lançada para ajudar na análise mais eficaz de recursos.
Em
2020, o projeto Sinapses reuniu dezenas de iniciativas de IA no âmbito do CNJ e
de tribunais em uma plataforma nacional de armazenamento, treinamento
supervisionado, além de outras funções ligadas à tecnologia. A partir de então,
diversos outros organismos desenvolveram projetos próprios na área.
"O
Brasil é um dos países mais inovadores do mundo na área. Há bastante autonomia
no Judiciário, que conta com orçamento para fazer funcionar. Assim, cada
Tribunal de Justiça é uma espécie de laboratório. E, com as tecnologias
avançando, é necessário menos equipe para desenvolver ferramentas",
descreve Steibel.
"O
Judiciário brasileiro é feito por delegação de tarefas, com servidores que
utilizam ferramentas eletrônicas com supervisão e revisão em diversos níveis
até chegar para a análise dos magistrados. Este tipo de automação já
naturalizada não assusta e não dá notícia. O que assusta é a IA", afirma
Rômulo Valentini, diretor vice-presidente do Direito, Tecnologia e Inovação
(DTIBR).
Ainda
assim, há certa surpresa no exterior pelo fato e o Brasil ter adotado uma
variedade de sistemas de IA para funções diferentes de uma forma ampla para
diversas localidades, conta Giulia Fardim, atualmente pesquisadora visitante no
Washington College of Law da American University.
"Os
pesquisadores de outros países tem grande preocupação com a proteção de dados,
incluindo aqueles utilizados para treinar as máquinas", aponta. Ela lembra
que, no caso brasileiro, é mais fácil o acesso ao teor de processos,
principalmente na comparação com a Europa, o que facilita a adoção local das
ferramentas.
"O
sistema Judiciário brasileiro é muito digitalizado, o que também acaba
facilitando a adoção, enquanto em outros países ainda há, por exemplo, muito
uso de papel nos processos", compara.
Valentini
reforça essa visão, lembrando que há grande digitalização no setor do país
desde os anos 90, o que leva a atualmente haver milhões de processos
disponíveis de forma virtual.
"A
mudança recente que despertou novamente o interesse sobre o tema foi o salto
tecnológico alcançado no final da década passada, com maior desenvolvimento na
tecnologia e os produtos comerciais, como ChatGPT e outros", aponta.
Segundo ele, isso tornou fácil e acessível a usuários não versados em
programação uma ferramenta de IA poderosa e de baixo custo.
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Petições a R$ 20 e riscos
O baixo
custo é marcado nas ofertas online. Em certos sites, é possível encontrar
petições iniciais para a abertura de processos a partir de R$ 20. A
possibilidade levanta o temor de que o cenário de uma explosão de ações
judiciais abertas no país seja agravado. Em 2025, o Judiciário brasileiro
recebeu quase 40 milhões de novos processos, número recorde.
"A
oferta de petições prontas e baratas pode até facilitar o acesso no início, mas
levanta dúvidas sobre a qualidade e a responsabilidade desses conteúdos. O
Direito não funciona como um modelo padrão", afirma Leonardo Sica,
presidente da OAB-SP. "Tenho alertado que a comercialização de petições
automatizadas a baixo custo pode desvalorizar a advocacia e comprometer a
segurança jurídica", pontua.
Além
disso, há os casos nos quais a IA "alucina" e cria jurisprudência
fictícia. Nestas situações, há potencial para aplicação de multas, situação
muitas vezes causada e potencializada pela falta de "letramento
digital" e formação teórica e prática específica para o uso de tais
ferramentas, destaca Valentini.
A
plataforma de monitoramento internacional do tema "AI Hallucination
Cases" conta atualmente com dez situações do gênero no Brasil, todas pela
parte dos advogados. Em três destas situações, a ferramenta usada foi o
ChatGPT, envolvendo inclusive "múltiplas citações de casos e referências
doutrinárias fabricadas".
Valentini
cita ainda outros riscos, como usuários que utilizam sistemas não homologados
pelos tribunais sem que isso seja identificado, gerando riscos de segurança e
proteção de dados. Há ainda o chamado uso de "prompt injections”, quando,
ao saberem que o Judiciário está utilizando ferramentas de IA para julgamento,
pessoas podem tentar inserir comandos nas peças processuais para burlar esses
sistemas.
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Justiça mais próxima
Ao
mesmo tempo em que cresce o número da abertura de novos processos,
especialistas veem com bons olhos a possibilidade de a tecnologia ser usada
para acelerar a tomada de decisões, além de poder facilitar a identificação de
ações iniciadas de forma predatória. "Existe uma preocupação com o aumento
da litigiosidade, mas a solução não pode ser restringir acesso à Justiça”,
aponta Sica.
Neste
sentido, o Jus.com.br conta com a plataforma JusticIA, que usa a tecnologia
para responder dúvidas comuns sobre processos no país, como direitos
trabalhistas e herança, usando de sua ampla base de dados. O assistente
jurídico é capaz de interpretar e simplificar termos jurídicos, tirar dúvidas e
auxiliar na elaboração de documentos.
Outra
vantagem que Valentini explica é no "cálculo sobre a validade de uma
causa”, que pode ficar mais simples. Ele lembra que, anteriormente, grandes
litigantes como bancos e operadoras de telefonia usavam bases de dados para
definir suas atuações em processos, como o histórico pago por acordos em
determinadas região. Com a IA, isso fica mais acessível e até personalizado
para a população, pontua.
"Muitas
pessoas pedem ao ChatGPT para explicar decisões. Até então, não havia incentivo
para haver uma linguagem simples no Direito, mas a Justiça não foi feita para o
Estado, e sim para o cidadão”, conclui Steibel.
Fonte:
DW Brasil

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