O
bem e o mal como gramática moral: serve para quem ou para que?
A OMS
reforça que a saúde mental é parte inseparável do bem-estar humano, vivida de
forma singular e que sustenta a capacidade de aprender, trabalhar,
desenvolver-se, comunicar e lidar com stress. Mais de 1 bilhão de pessoas no
mundo vivem hoje com algum transtorno mental, que se agrava em cenários de
conflito e emergência.
Vivemos
sob guerra, fome, doença, desinformação e exaustão coletiva. No plano
internacional, os conflitos recolocam o medo no centro do mundo. No plano
nacional, a polarização corrói vínculos, intoxica o debate público e invade
famílias, escolas, consultórios e instituições.
Em
contextos de sofrimento, para economizar energia, a mente humana simplifica
situações e busca por atalhos, como polarizar a realidade entre bem e mal,
mocinhos e bandidos, puros e perversos, entre tantos. Por isso, seguimos nos
comunicando assim o tempo todo em nossa vida.
Dizemos
que alguém nos fez mal, reduzimos pessoas a “tóxicas”, venenosas, destrutivas e
até diabólicas. No extremo oposto, endeusamos líderes e idealizamos gurus e
causas como se encarnassem o bem puro. Há violência, abuso, negligência e
injustiça reais gerando escuta de menos, simplificação por toda parte e mais
sofrimento. Em muitos casos, o que existe é algo mais difícil de sustentar:
ambivalência, frustração, desencontro, limite, projeção, analfabetismo cultural
e disputa. Mudam-se nomes, a estrutura dualista permanece, mas nem todo
sofrimento cabe numa moldura moral binária.
Por
isso, retomar a pergunta é necessário: o que estamos chamando de bem e mal? Por
que, após milênios de civilização, ainda falamos dessas categorias como se
fossem óbvias e naturais? E, apesar de todo o avanço técnico e científico, por
que seguimos tão vulneráveis à necessidade de demonizar ou endeusar pessoas e
narrativas?
A
história das religiões abraâmicas pode oferecer algumas pistas. Antes do
judaísmo rabínico, do cristianismo e do islã, o zoroastrismo já existia na
antiga Pérsia – atual Irã. Era um tempo em que a experiência religiosa se
organizava por rituais, sacrifícios e pela tentativa de apaziguar forças que
ameaçavam a vida, como secas, doenças e guerras. Quanto maior o medo, maior o
rito; quanto maior a ameaça, maior o sacrifício. Lembra alguma coisa?
É nesse
contexto que, entre 1500 – 700 AEC, emerge Zoroastro, ou Zaratustra: não
inventou o bem e o mal, mas ajudou a transformá-los numa poderosa gramática
dual da ordem do mundo. Em sua tradição, Ahura Mazda se liga à luz, à verdade,
à ordem e à criação; Arimã ou Angra Mainyu, às trevas, à mentira, ao caos, à
corrupção e à destruição. A tradição também cercou sua figura de narrativas
simbólicas, mas o ponto decisivo ocorre por volta dos trinta anos, quando,
durante um ritual de purificação junto a um rio, Zoroastro é conduzido por Vohu
Manah, o Bom Pensamento, à presença de Ahura Mazda.
Com
Zoroastro, a religião desloca-se dos rituais externos para a responsabilidade
interior; a ética centraliza-se e pensamentos, palavras e ações adquirem peso
moral no comportamento humano. Inicialmente, suas ideias circularam entre
poucos seguidores, com a proteção do rei Vishtaspa, se espalharam pela antiga
Pérsia. Essa forma de pensar legou ideias que ainda hoje soam familiares a
bilhões de pessoas, como anjos, espíritos malignos, julgamento pós morte,
recompensa do justo, punição do mentiroso, renovação final do mundo e a
expectativa do salvador. Muito disso foi preservado no Avesta, livro sagrado do
zoroastrismo, especialmente nos hinos do Gathas. O que hoje parece eterno já
foi novidade e o que tomamos como natural já foi formulação cultural, espiritual
e política.
A
própria concepção moral e simbólica do mundo já foi muito diferente. E hoje
historiadores das religiões enxergam no pensamento de Zoroastro um ponto
importante na formação do pensamento religioso do mundo antigo. Séculos depois,
judaísmo, cristianismo e islamismo desenvolveriam temas que muitos estudiosos
aproximam do antigo horizonte religioso iraniano, ainda que o grau e as vias
dessa influência permaneçam debatidos. Mais do que provar dependências
lineares, importa lembrar: ideias circulam, se transformam e atravessam
fronteiras.
Acrescento
que o foco aqui é um recorte histórico mais ocidental, centrado no horizonte
iraniano antigo e nas religiões abraâmicas, sem desconsiderar que outras
tradições do Oriente, da África e de diferentes matrizes culturais também
participam da construção do sentido da vida, da organização simbólica da
experiência, da saúde mental e da cultura de paz.
Verdade
e mentira, ordem e caos, construção e destruição, fecundidade e devastação não
pertencem apenas ao passado religioso.
Em sentido mais amplo, porém, essas categorias normativas são fruto da
própria evolução social, cultural e cognitiva humana e seguem ativas na
política, nas guerras, nas famílias, nos vínculos afetivos, nas instituições e
também na saúde mental. Essa lógica não desapareceu. Mudaram os deuses, os
nomes e os instrumentos, e a mente humana insiste em negociar com o que não
controla: clima, guerra, doença, economia, destino e o outro! Em plena crise
climática e planetária, ainda lidamos com forças que nos ultrapassam, muitas
vezes sem reconhecer que parte do caos também nasce de nossas escolhas,
omissões e formas como habitamos a Terra.
Ainda
buscamos culpados absolutos, transformamos adversários em demônios e líderes em
salvadores. A pergunta já não é só como aplacar as forças que nos ameaçam, mas
como participamos da ordem ou da desordem do mundo.
É nesse
ponto que a tríade fundamental do zoroastrismo permanece atual: bons
pensamentos, boas palavras, boas ações. E que ganhou destaque na cultura
popular moderna na figura de Freddie Mercury, vocalista da banda Queen, de
família que seguia o zoroastrismo e que citava esses princípios como regra de
sua vida, algo retratado no filme Bohemian Rhapsody. Poucas fórmulas éticas
antigas permanecem tão atuais. Simples na forma e exigente no conteúdo, ela
toca o núcleo do autogoverno humano. As incertezas daquela época, em sua
estrutura, não diferem tanto das que ainda nos atravessam hoje. A polarização
contemporânea também se alimenta de narrativas de pureza e corrupção, bem e
mal, civilização e barbárie, direita e esquerda, puros e impuros, justos e
perversos. Em todos esses planos, reaparece a tentação de reduzir o outro a um
campo moral absoluto.
E este
é um fato: evoluímos muito em ciência, tecnologia e instituições, mas talvez
menos do que imaginamos em maturidade psicológica. Continuamos transformando
sofrimento, frustração e conflito em narrativas morais simplificadas. Quando
amadurece, esse dualismo pode se converter em discernimento, responsabilidade e
autogoverno; quando regride, degenera em maniqueísmo, intolerância e
incapacidade de reconhecer a complexidade do outro. É essa regressão que hoje
reaparece na geopolítica, nas redes sociais e nas interrelações humanas.
Demonizar o adversário pode oferecer identidade e alívio psíquico imediatos,
mas cobra um preço alto: corrói a convivência democrática, enfraquece a
construção de pontes de soluções, responsabilidade compartilhada, desgasta a comunicação,
endurece identidades, empobrece o pensamento e agrava a saúde mental.
Em
tempos de fake news, impulsividade digital, polarização e degradação do espaço
público, a questão permanece: o que penso me inspira ordem ou desordem? O que
falo alimenta verdade ou mentira? O que faço gera evolução ou restrição?
Se o
mundo antigo viu o declínio dos velhos deuses da mitologia, milênios depois o
filósofo alemão Friedrich Nietzsche reconduz Zaratustra como figura da crítica,
da criação e da transvaloração em Assim falou Zaratustra. Com isso, reabre
também perguntas decisivas da autoconsciência: quem cria valores? Quem os
herda? Quem apenas os repete? Quem ousa examiná-los? A questão continua atual:
estamos governando a própria mente ou apenas reproduzindo dualismos recebidos?
Nesta
biografia do bem e do mal, revela-se algo fascinante sobre a própria
humanidade: ideias que hoje parecem eternas nasceram em contextos históricos
muito concretos. A história das religiões interessa aqui não para converter nem
desacreditar ninguém, mas para compreender como certas imagens morais moldaram
nossa forma de pensar.
Conhecer
essas origens não muda a fé de ninguém, mas amplia a consciência sobre como o
pensamento humano se constrói e pode regredir. Nesse sentido, a história das
religiões pode ser lida mais como espelho da evolução e também das recaídas da
consciência humana e menos como disputa de verdades.
Na
civilização humana, paralelamente à biografia das religiões, existe também uma
biografia do conhecimento. Certos temas entram primeiro como encanto, depois se
tornam estudo, crítica e, por fim, como chave de leitura do presente. O que
antes parecia divino pode tornar-se autoral, reinterpretado à luz da
experiência, da cultura, da ciência, da clínica e da consciência.
Talvez
tenhamos trocado os antigos sacrifícios visíveis por novos sacrifícios
invisíveis: a verdade pela propaganda, a escuta pela pressa, a nuance pelo
algoritmo, a convivência pela identidade de grupo, o ritual da Terra pelo
consumo da Terra e a saúde mental pela excitação permanente e pela insônia e,
consequentemente, ausência de sonhos. A pergunta antiga continua atual: o que
estamos alimentando dentro de nós e entre nós quando chamamos algo de bem ou de
mal?
O mais
inquietante é perceber que, passados tantos séculos, ainda nos conservamos
presos a versões empobrecidas dessa dualidade. Em plena era da inteligência
artificial, da medicina de precisão e das democracias constitucionais, seguimos
psicologicamente vulneráveis a narrativas atávicas sobre o que nos ilumina e o
que nos obscurece. A gramática mental da polarização permanece resiliente e
primitiva, o que ajuda a compreender também a solidão, a depressão e o
sofrimento psíquico — componentes da saúde mental — do nosso tempo.
No
fundo, a provocação de Zoroastro permanece viva. Bem e mal não são apenas
categorias naturais: são também construções históricas e culturais de
organização psíquica e social do mundo. A paz não depende apenas da ausência de
guerra externa, mas da capacidade de cada pessoa e de cada coletividade de não
se deixar governar inteiramente pela mentira, pelo impulso destrutivo e pela
intoxicação moral do próprio tempo.
Por
isso, voltar a Zoroastro hoje não é exercício arqueológico. É perguntar quanto
uma mente incapaz de sustentar ambiguidade, limite, complexidade e
responsabilidade, produz de dano e polarização no nosso tempo.
Resta,
então, a pergunta decisiva: como tradições que falam em bem e mal podem voltar
a servir ao bem comum, em vez de fabricar inimigos absolutos? Em um mundo
saturado de guerra, medo e propaganda, talvez a tarefa civilizatória mais
urgente continue sendo esta: recuperar a capacidade de pensar, nomear e agir
sem transformar o outro em demônio e a nós mesmos em redentores.
Porque
há uma regra simples, antiga e talvez mais atual do que nunca: quem não governa
a própria mente acaba sendo governado por ideias que nem percebe.
Fonte:
Por Rubens Harb Bollos, em The Guardian

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