segunda-feira, 13 de abril de 2026

O bem e o mal como gramática moral: serve para quem ou para que?

A OMS reforça que a saúde mental é parte inseparável do bem-estar humano, vivida de forma singular e que sustenta a capacidade de aprender, trabalhar, desenvolver-se, comunicar e lidar com stress. Mais de 1 bilhão de pessoas no mundo vivem hoje com algum transtorno mental, que se agrava em cenários de conflito e emergência.

Vivemos sob guerra, fome, doença, desinformação e exaustão coletiva. No plano internacional, os conflitos recolocam o medo no centro do mundo. No plano nacional, a polarização corrói vínculos, intoxica o debate público e invade famílias, escolas, consultórios e instituições.

Em contextos de sofrimento, para economizar energia, a mente humana simplifica situações e busca por atalhos, como polarizar a realidade entre bem e mal, mocinhos e bandidos, puros e perversos, entre tantos. Por isso, seguimos nos comunicando assim o tempo todo em nossa vida.

Dizemos que alguém nos fez mal, reduzimos pessoas a “tóxicas”, venenosas, destrutivas e até diabólicas. No extremo oposto, endeusamos líderes e idealizamos gurus e causas como se encarnassem o bem puro. Há violência, abuso, negligência e injustiça reais gerando escuta de menos, simplificação por toda parte e mais sofrimento. Em muitos casos, o que existe é algo mais difícil de sustentar: ambivalência, frustração, desencontro, limite, projeção, analfabetismo cultural e disputa. Mudam-se nomes, a estrutura dualista permanece, mas nem todo sofrimento cabe numa moldura moral binária.

Por isso, retomar a pergunta é necessário: o que estamos chamando de bem e mal? Por que, após milênios de civilização, ainda falamos dessas categorias como se fossem óbvias e naturais? E, apesar de todo o avanço técnico e científico, por que seguimos tão vulneráveis à necessidade de demonizar ou endeusar pessoas e narrativas?

A história das religiões abraâmicas pode oferecer algumas pistas. Antes do judaísmo rabínico, do cristianismo e do islã, o zoroastrismo já existia na antiga Pérsia – atual Irã. Era um tempo em que a experiência religiosa se organizava por rituais, sacrifícios e pela tentativa de apaziguar forças que ameaçavam a vida, como secas, doenças e guerras. Quanto maior o medo, maior o rito; quanto maior a ameaça, maior o sacrifício. Lembra alguma coisa?

É nesse contexto que, entre 1500 – 700 AEC, emerge Zoroastro, ou Zaratustra: não inventou o bem e o mal, mas ajudou a transformá-los numa poderosa gramática dual da ordem do mundo. Em sua tradição, Ahura Mazda se liga à luz, à verdade, à ordem e à criação; Arimã ou Angra Mainyu, às trevas, à mentira, ao caos, à corrupção e à destruição. A tradição também cercou sua figura de narrativas simbólicas, mas o ponto decisivo ocorre por volta dos trinta anos, quando, durante um ritual de purificação junto a um rio, Zoroastro é conduzido por Vohu Manah, o Bom Pensamento, à presença de Ahura Mazda.

Com Zoroastro, a religião desloca-se dos rituais externos para a responsabilidade interior; a ética centraliza-se e pensamentos, palavras e ações adquirem peso moral no comportamento humano. Inicialmente, suas ideias circularam entre poucos seguidores, com a proteção do rei Vishtaspa, se espalharam pela antiga Pérsia. Essa forma de pensar legou ideias que ainda hoje soam familiares a bilhões de pessoas, como anjos, espíritos malignos, julgamento pós morte, recompensa do justo, punição do mentiroso, renovação final do mundo e a expectativa do salvador. Muito disso foi preservado no Avesta, livro sagrado do zoroastrismo, especialmente nos hinos do Gathas. O que hoje parece eterno já foi novidade e o que tomamos como natural já foi formulação cultural, espiritual e política.

A própria concepção moral e simbólica do mundo já foi muito diferente. E hoje historiadores das religiões enxergam no pensamento de Zoroastro um ponto importante na formação do pensamento religioso do mundo antigo. Séculos depois, judaísmo, cristianismo e islamismo desenvolveriam temas que muitos estudiosos aproximam do antigo horizonte religioso iraniano, ainda que o grau e as vias dessa influência permaneçam debatidos. Mais do que provar dependências lineares, importa lembrar: ideias circulam, se transformam e atravessam fronteiras.

Acrescento que o foco aqui é um recorte histórico mais ocidental, centrado no horizonte iraniano antigo e nas religiões abraâmicas, sem desconsiderar que outras tradições do Oriente, da África e de diferentes matrizes culturais também participam da construção do sentido da vida, da organização simbólica da experiência, da saúde mental e da cultura de paz.

Verdade e mentira, ordem e caos, construção e destruição, fecundidade e devastação não pertencem apenas ao passado religioso.  Em sentido mais amplo, porém, essas categorias normativas são fruto da própria evolução social, cultural e cognitiva humana e seguem ativas na política, nas guerras, nas famílias, nos vínculos afetivos, nas instituições e também na saúde mental. Essa lógica não desapareceu. Mudaram os deuses, os nomes e os instrumentos, e a mente humana insiste em negociar com o que não controla: clima, guerra, doença, economia, destino e o outro! Em plena crise climática e planetária, ainda lidamos com forças que nos ultrapassam, muitas vezes sem reconhecer que parte do caos também nasce de nossas escolhas, omissões e formas como habitamos a Terra.

Ainda buscamos culpados absolutos, transformamos adversários em demônios e líderes em salvadores. A pergunta já não é só como aplacar as forças que nos ameaçam, mas como participamos da ordem ou da desordem do mundo.

É nesse ponto que a tríade fundamental do zoroastrismo permanece atual: bons pensamentos, boas palavras, boas ações. E que ganhou destaque na cultura popular moderna na figura de Freddie Mercury, vocalista da banda Queen, de família que seguia o zoroastrismo e que citava esses princípios como regra de sua vida, algo retratado no filme Bohemian Rhapsody. Poucas fórmulas éticas antigas permanecem tão atuais. Simples na forma e exigente no conteúdo, ela toca o núcleo do autogoverno humano. As incertezas daquela época, em sua estrutura, não diferem tanto das que ainda nos atravessam hoje. A polarização contemporânea também se alimenta de narrativas de pureza e corrupção, bem e mal, civilização e barbárie, direita e esquerda, puros e impuros, justos e perversos. Em todos esses planos, reaparece a tentação de reduzir o outro a um campo moral absoluto.

E este é um fato: evoluímos muito em ciência, tecnologia e instituições, mas talvez menos do que imaginamos em maturidade psicológica. Continuamos transformando sofrimento, frustração e conflito em narrativas morais simplificadas. Quando amadurece, esse dualismo pode se converter em discernimento, responsabilidade e autogoverno; quando regride, degenera em maniqueísmo, intolerância e incapacidade de reconhecer a complexidade do outro. É essa regressão que hoje reaparece na geopolítica, nas redes sociais e nas interrelações humanas. Demonizar o adversário pode oferecer identidade e alívio psíquico imediatos, mas cobra um preço alto: corrói a convivência democrática, enfraquece a construção de pontes de soluções, responsabilidade compartilhada, desgasta a comunicação, endurece identidades, empobrece o pensamento e agrava a saúde mental.

Em tempos de fake news, impulsividade digital, polarização e degradação do espaço público, a questão permanece: o que penso me inspira ordem ou desordem? O que falo alimenta verdade ou mentira? O que faço gera evolução ou restrição?

Se o mundo antigo viu o declínio dos velhos deuses da mitologia, milênios depois o filósofo alemão Friedrich Nietzsche reconduz Zaratustra como figura da crítica, da criação e da transvaloração em Assim falou Zaratustra. Com isso, reabre também perguntas decisivas da autoconsciência: quem cria valores? Quem os herda? Quem apenas os repete? Quem ousa examiná-los? A questão continua atual: estamos governando a própria mente ou apenas reproduzindo dualismos recebidos?

Nesta biografia do bem e do mal, revela-se algo fascinante sobre a própria humanidade: ideias que hoje parecem eternas nasceram em contextos históricos muito concretos. A história das religiões interessa aqui não para converter nem desacreditar ninguém, mas para compreender como certas imagens morais moldaram nossa forma de pensar.

Conhecer essas origens não muda a fé de ninguém, mas amplia a consciência sobre como o pensamento humano se constrói e pode regredir. Nesse sentido, a história das religiões pode ser lida mais como espelho da evolução e também das recaídas da consciência humana e menos como disputa de verdades.

Na civilização humana, paralelamente à biografia das religiões, existe também uma biografia do conhecimento. Certos temas entram primeiro como encanto, depois se tornam estudo, crítica e, por fim, como chave de leitura do presente. O que antes parecia divino pode tornar-se autoral, reinterpretado à luz da experiência, da cultura, da ciência, da clínica e da consciência.

Talvez tenhamos trocado os antigos sacrifícios visíveis por novos sacrifícios invisíveis: a verdade pela propaganda, a escuta pela pressa, a nuance pelo algoritmo, a convivência pela identidade de grupo, o ritual da Terra pelo consumo da Terra e a saúde mental pela excitação permanente e pela insônia e, consequentemente, ausência de sonhos. A pergunta antiga continua atual: o que estamos alimentando dentro de nós e entre nós quando chamamos algo de bem ou de mal?

O mais inquietante é perceber que, passados tantos séculos, ainda nos conservamos presos a versões empobrecidas dessa dualidade. Em plena era da inteligência artificial, da medicina de precisão e das democracias constitucionais, seguimos psicologicamente vulneráveis a narrativas atávicas sobre o que nos ilumina e o que nos obscurece. A gramática mental da polarização permanece resiliente e primitiva, o que ajuda a compreender também a solidão, a depressão e o sofrimento psíquico — componentes da saúde mental — do nosso tempo.

No fundo, a provocação de Zoroastro permanece viva. Bem e mal não são apenas categorias naturais: são também construções históricas e culturais de organização psíquica e social do mundo. A paz não depende apenas da ausência de guerra externa, mas da capacidade de cada pessoa e de cada coletividade de não se deixar governar inteiramente pela mentira, pelo impulso destrutivo e pela intoxicação moral do próprio tempo.

Por isso, voltar a Zoroastro hoje não é exercício arqueológico. É perguntar quanto uma mente incapaz de sustentar ambiguidade, limite, complexidade e responsabilidade, produz de dano e polarização no nosso tempo.

Resta, então, a pergunta decisiva: como tradições que falam em bem e mal podem voltar a servir ao bem comum, em vez de fabricar inimigos absolutos? Em um mundo saturado de guerra, medo e propaganda, talvez a tarefa civilizatória mais urgente continue sendo esta: recuperar a capacidade de pensar, nomear e agir sem transformar o outro em demônio e a nós mesmos em redentores.

Porque há uma regra simples, antiga e talvez mais atual do que nunca: quem não governa a própria mente acaba sendo governado por ideias que nem percebe.

 

Fonte: Por Rubens Harb Bollos, em The Guardian

 

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