segunda-feira, 13 de abril de 2026

Aliados imaginários: a fantasia política em torno da mídia corporativa brasileira

A análise das relações entre mídia, poder econômico e dinâmica política no Brasil exige, antes de tudo, o reconhecimento do caráter estrutural dos grandes conglomerados de comunicação. Assim, a Rede Globo (e as demais empresas hegemônicas de mídia) deve ser vista como uma instituição historicamente vinculada aos interesses da classe dominante. Sua atuação revela alinhamentos com frações da burguesia que influenciam tanto sua linha editorial, como também suas estratégias de cobertura. Exemplo recente foi o powerpoint sobre o escândalo do Banco Master, no qual o envolvimento político foi exposto de forma seletiva, focando exclusivamente em figuras do Partido dos Trabalhadores (PT), sem incluir nomes da direita, reforçando percepções de enquadramento direcionado e evidenciando como escolhas editoriais constroem narrativas assimétricas no debate público.

Se analisamos a questão do ponto de vista teórico, esse fato dialoga com interpretações clássicas da economia política da comunicação, segundo as quais os meios de comunicação de massa atuam como aparelhos privados de hegemonia. Assim, a Globo, enquanto empresa inserida no capitalismo brasileiro, ademais de reproduzir, ajuda a organizar consensos favoráveis à ordem vigente. Porque ela é eminentemente burguesa. E isso não é um atributo moral, mas uma posição estrutural. Significa afirmar que se trata de uma corporação que depende de anunciantes, de mercados financeiros e de relações políticas que, em última instância, convergem para a manutenção de um determinado modelo de sociedade.

Historicamente, esse posicionamento não é circunstancial. A consolidação da Rede Globo esteve profundamente associada ao contexto do Golpe militar de 1964 e ao regime autoritário subsequente. Durante aquele período, o grupo se beneficiou de políticas estatais, de concessões e de incentivos que permitiram sua expansão e hegemonia no campo televisivo. Paralelamente, sua atuação editorial foi frequentemente alinhada à legitimação do regime, contribuindo para a construção de narrativas que minimizavam a repressão e exaltavam a ideia de modernização conservadora.

Esse passado não pode ser tratado como um detalhe irrelevante ou superado. Pelo contrário. Ele constitui um elemento fundamental para a compreensão da racionalidade contemporânea da empresa. Ainda que o contexto político tenha mudado, a lógica de atuação permanece ancorada na defesa de um ambiente institucional favorável aos interesses do capital. Isso implica (inevitavelmente) uma relação ambígua com governos e forças políticas. Ou seja: apoio circunstancial, crítica seletiva e reposicionamento estratégico conforme as conjunturas.

<><> Leitura conjuntural e personalista

É nesse ponto que reside a questão central que quero tratar neste texto. Seria ingenuidade ou cegueira política a interpretação, por parte de setores do PT, de que a Rede Globo teria se tornado uma aliada em função de sua postura crítica ao governo do ex-presidente e agora presidiário Jair Bolsonaro na ocasião em que contribuiu para a derrocada do mesmo? Convenhamos que a hipótese de uma aliança entre um partido de origem popular e um conglomerado historicamente vinculado à burguesia parece, à luz da análise estrutural, pouco sustentável.

A cobertura crítica ao bolsonarismo deve ser mais bem compreendida como expressão de conflitos intraelites do que como adesão a um projeto político dito progressista. Ao tensionar instituições, ameaçar previsibilidade econômica e gerar instabilidade internacional, o governo anterior passou a representar um risco significativo para setores estratégicos do capital, nacionais e internacionais, que dependem de um ambiente relativamente estável para a reprodução de suas atividades. Nesse contexto, a atuação da mídia tradicional, incluindo a Rede Globo, deve ser interpretada como um movimento de contenção de danos, orientado por lógicas de preservação de interesses econômicos e manutenção de posições de influência, e não como um alinhamento ideológico ao campo supostamente de esquerda. Esse movimento estratégico da mídia reflete escolhas calculadas sobre quais temas enfatizar, quais atores destacar e quais narrativas construir, sempre em sintonia com a proteção de redes de poder e capital.

A crítica direcionada a figuras ou políticas específicas, assim, não significa automaticamente solidariedade a projetos progressistas, mas, muitas vezes, é resultado de ajustes táticos diante de ameaças percebidas ao equilíbrio institucional e econômico. Dessa forma, interpretar tais coberturas como sinais de apoio à suposta esquerda política equivale a uma leitura simplista e descontextualizada, que ignora a complexidade das relações de poder e a autonomia relativa da mídia corporativa em relação a qualquer projeto político específico. A leitura equivocada desse movimento por parte de militantes e simpatizantes do PT revela uma dificuldade recorrente de distinguir convergências táticas de alianças estratégicas. Ao interpretar críticas ao bolsonarismo como apoio ao petismo, incorre-se em uma simplificação que desconsidera a autonomia relativa dos interesses burgueses. E essa simplificação pode ser descrita tanto como ingenuidade — no sentido de uma expectativa excessivamente otimista — quanto como cegueira — na medida em que ignora evidências históricas e estruturais.

<><> Jornalistas não atuam no vazio

Esse problema se agrava ainda mais quando se observa a personalização dessas expectativas em figuras midiáticas específicas. A quase idolatria dirigida a jornalistas como Andreia Sadi ilustra um fenômeno mais amplo de fetichização da mídia. Ao transformar profissionais inseridos em estruturas corporativas em supostos agentes independentes ou aliados políticos, perde-se de vista o fato de que sua atuação está condicionada por diretrizes editoriais, interesses empresariais e limites institucionais. Dinâmica semelhante pode ser observada na reconfiguração da imagem de Reinaldo Azevedo, que, após ter sido um dos responsáveis por popularizar o termo “petralha” — amplamente mobilizado no processo de desgaste do PT, e na construção do ambiente que favoreceu a ascensão do bolsonarismo —, passou a ser revalorizado por setores petistas quando assumiu posições críticas ao novo arranjo político posto em prática em 2018.

Esse movimento revela uma tendência à leitura conjuntural e personalista, na qual trajetórias marcadas por antagonismo são rapidamente ressignificadas como sinais de alinhamento, como se tais figuras pudessem ser convertidas, sem mediações, em aliadas políticas. Tal dinâmica evidencia uma dificuldade mais profunda de compreender categorias estruturais de análise, substituídas por interpretações imediatistas que privilegiam gestos, declarações pontuais ou mudanças de tom como indícios de transformação substantiva. Nesse processo, desconsidera-se que posicionamentos individuais frequentemente respondem a reacomodações no interior do próprio campo midiático e político, e não a uma adesão orgânica a projetos ideológicos distintos.

Além disso, essa personalização excessiva contribui para a despolitização do debate, porque desloca o foco das estruturas — como os interesses econômicos, os vínculos institucionais e as estratégias de poder — para indivíduos e suas supostas intenções. O resultado é uma leitura fragmentada da realidade, a partir da qual contradições são suavizadas ou ignoradas em nome da construção de referências momentâneas. Esse tipo de operação simbólica produz ciclos recorrentes de expectativa e frustração, nos quais figuras midiáticas são alçadas à condição de aliadas para, posteriormente, serem novamente percebidas como adversárias. Em termos mais amplos, trata-se de um sintoma de instabilidade interpretativa. Não distinguir entre convergências táticas e alinhamentos estratégicos significa abrir espaço para equívocos recorrentes, dificultando a formulação de estratégias mais consistentes e sustentáveis no longo prazo.

Não se trata de negar a competência individual ou a relevância do trabalho jornalístico, mas de situá-lo em seu contexto. Jornalistas não atuam no vazio. Suas análises (ainda que críticas) são mediadas por enquadramentos e prioridades definidos pelas organizações às quais pertencem. Atribuir-lhes um papel de protagonismo político autônomo pode levar a frustrações inevitáveis quando suas posições não correspondem às expectativas projetadas. Em termos mais amplos, o episódio do powerpoint evidencia uma tensão persistente na relação entre a suposta esquerda institucional e a mídia corporativa. De um lado, há a necessidade pragmática de dialogar com os grandes meios; de outro, há o risco de internalizar suas narrativas e legitimar seus enquadramentos. O equilíbrio dessas dimensões exige uma compreensão menos simplista do funcionamento do sistema midiático, algo que nem sempre se verifica no debate público.

Portanto, o que está em jogo é a capacidade de análise crítica diante de um campo marcado por assimetrias de poder, por interesses conflitantes e por movimentos táticos. Sem essa capacidade, há o risco de repetir ciclos de expectativa e de desilusão, comprometendo a construção de estratégias políticas mais consistentes. Trata-se, em última instância, da habilidade de distinguir entre aparência e estrutura, entre movimentos conjunturais e orientações de longo prazo — algo fundamental em um ambiente no qual atores como a Rede Globo funcionam segundo racionalidades que não se confundem com projetos políticos específicos, mas com a preservação de determinadas condições de poder.

<><> Preservação de interesses

A ausência dessa leitura mais sofisticada tende a produzir reações oscilantes, nas quais o mesmo agente é, em momentos distintos, percebido como aliado ou adversário, conforme variações pontuais de posicionamento. Esse tipo de instabilidade interpretativa enfraquece a coerência do discurso político e, sobretudo, a capacidade de articulação estratégica, pois decisões passam a ser orientadas por percepções imediatas e não por diagnósticos estruturais. Em contextos assim, a política corre o risco de se tornar reativa, sempre respondendo aos movimentos de outros atores — especialmente aqueles que detêm maior poder simbólico e material — em vez de formular agendas próprias. Essa postura aumenta a vulnerabilidade a manipulações e enquadramentos externos, reduz a autonomia na definição de prioridades e cria um ciclo de expectativa e frustração constante. Além disso, corre-se o risco de naturalizar narrativas produzidas por interesses alheios e, consequentemente, reforçar hegemonias já estabelecidas, limitando a capacidade de produzir transformações sociais e políticas significativas.

Ademais, a dificuldade de reconhecer a natureza desses jogos de poder contribui para a reprodução de uma dependência em relação aos grandes meios de comunicação, mesmo quando estes são objeto de crítica. Em vez de desenvolver canais alternativos de produção de sentido (e de disputa de narrativa), recorre-se continuamente aos mesmos espaços e atores, reforçando sua centralidade. Esse paradoxo evidencia como a crítica não acompanhada de uma compreensão estrutural e de práticas consequentes pode acabar sendo absorvida pelo próprio sistema que pretende contestar.

A ideia de “aliados imaginários” revela uma dinâmica recorrente no campo político, qual seja, a projeção de expectativas sobre atores que, estruturalmente, não compartilham dos mesmos interesses. No caso da Rede Globo, essa fantasia se sustenta na leitura equivocada de movimentos conjunturais como sinais de alinhamento ideológico. Ao interpretar críticas pontuais a determinados governos ou figuras políticas como indício de convergência com pautas progressistas, ignora-se que tais posicionamentos frequentemente respondem a disputas internas entre frações da elite, e não a uma adesão substantiva a projetos transformadores. Assim, a mídia corporativa é momentaneamente ressignificada como parceira, quando, na realidade, continua atuando segundo a lógica de preservação de interesses econômicos e de estabilidade sistêmica. Essa construção simbólica de alianças ilusórias tem efeitos concretos sobre a prática política, pois, ao investir confiança em atores que não ultrapassam os limites impostos por suas próprias estruturas, setores progressistas (ou menos conservadores) tendem a negligenciar a construção de meios autônomos de comunicação e interpretação da realidade.

Por isso, compreender a Rede Globo como uma empresa burguesa, reconhecer seu papel histórico desde o Golpe militar de 1964 e evitar projeções indevidas sobre sua atuação presente são passos fundamentais para uma análise mais rigorosa. Do mesmo modo, abandonar a personalização excessiva e situar jornalistas dentro de estruturas mais amplas contribui para reduzir ilusões e fortalecer uma leitura mais realista do cenário político-midiático brasileiro.

>>>> Deixo aqui dicas de leituras (coletâneas) para compreender melhor esse tema:

1) Eula Dantas T. Cabral – Economia política da comunicação, da cultura e da informação (2025);

2) Jacqueline Lima Dourado – Economia Política do Jornalismo: campo, objeto, convergências e regionalismo (2013);

3) Othon Jambeiro, César Bolaño e Valério Brittos (Organizadores) – Comunicação, informação e cultura: dinâmicas globais e estruturas de poder.

 

Fonte: Por Verbena Córdula, em Diálogos do Sul Global

 

 

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