Aliados
imaginários: a fantasia política em torno da mídia corporativa brasileira
A
análise das relações entre mídia, poder econômico e dinâmica política no Brasil
exige, antes de tudo, o reconhecimento do caráter estrutural dos grandes
conglomerados de comunicação. Assim, a Rede Globo (e as demais empresas
hegemônicas de mídia) deve ser vista como uma instituição historicamente
vinculada aos interesses da classe dominante. Sua atuação revela alinhamentos
com frações da burguesia que influenciam tanto sua linha editorial, como também
suas estratégias de cobertura. Exemplo recente foi o powerpoint sobre o
escândalo do Banco Master, no qual o envolvimento político foi exposto de forma
seletiva, focando exclusivamente em figuras do Partido dos Trabalhadores (PT),
sem incluir nomes da direita, reforçando percepções de enquadramento direcionado
e evidenciando como escolhas editoriais constroem narrativas assimétricas no
debate público.
Se
analisamos a questão do ponto de vista teórico, esse fato dialoga com
interpretações clássicas da economia política da comunicação, segundo as quais
os meios de comunicação de massa atuam como aparelhos privados de hegemonia.
Assim, a Globo, enquanto empresa inserida no capitalismo brasileiro, ademais de
reproduzir, ajuda a organizar consensos favoráveis à ordem vigente. Porque ela
é eminentemente burguesa. E isso não é um atributo moral, mas uma posição
estrutural. Significa afirmar que se trata de uma corporação que depende de
anunciantes, de mercados financeiros e de relações políticas que, em última
instância, convergem para a manutenção de um determinado modelo de sociedade.
Historicamente,
esse posicionamento não é circunstancial. A consolidação da Rede Globo esteve
profundamente associada ao contexto do Golpe militar de 1964 e ao regime
autoritário subsequente. Durante aquele período, o grupo se beneficiou de
políticas estatais, de concessões e de incentivos que permitiram sua expansão e
hegemonia no campo televisivo. Paralelamente, sua atuação editorial foi
frequentemente alinhada à legitimação do regime, contribuindo para a construção
de narrativas que minimizavam a repressão e exaltavam a ideia de modernização
conservadora.
Esse
passado não pode ser tratado como um detalhe irrelevante ou superado. Pelo
contrário. Ele constitui um elemento fundamental para a compreensão da
racionalidade contemporânea da empresa. Ainda que o contexto político tenha
mudado, a lógica de atuação permanece ancorada na defesa de um ambiente
institucional favorável aos interesses do capital. Isso implica
(inevitavelmente) uma relação ambígua com governos e forças políticas. Ou seja:
apoio circunstancial, crítica seletiva e reposicionamento estratégico conforme
as conjunturas.
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Leitura conjuntural e personalista
É nesse
ponto que reside a questão central que quero tratar neste texto. Seria
ingenuidade ou cegueira política a interpretação, por parte de setores do PT,
de que a Rede Globo teria se tornado uma aliada em função de sua postura
crítica ao governo do ex-presidente e agora presidiário Jair Bolsonaro na
ocasião em que contribuiu para a derrocada do mesmo? Convenhamos que a hipótese
de uma aliança entre um partido de origem popular e um conglomerado
historicamente vinculado à burguesia parece, à luz da análise estrutural, pouco
sustentável.
A
cobertura crítica ao bolsonarismo deve ser mais bem compreendida como expressão
de conflitos intraelites do que como adesão a um projeto político dito
progressista. Ao tensionar instituições, ameaçar previsibilidade econômica e
gerar instabilidade internacional, o governo anterior passou a representar um
risco significativo para setores estratégicos do capital, nacionais e
internacionais, que dependem de um ambiente relativamente estável para a
reprodução de suas atividades. Nesse contexto, a atuação da mídia tradicional,
incluindo a Rede Globo, deve ser interpretada como um movimento de contenção de
danos, orientado por lógicas de preservação de interesses econômicos e
manutenção de posições de influência, e não como um alinhamento ideológico ao
campo supostamente de esquerda. Esse movimento estratégico da mídia reflete
escolhas calculadas sobre quais temas enfatizar, quais atores destacar e quais
narrativas construir, sempre em sintonia com a proteção de redes de poder e
capital.
A
crítica direcionada a figuras ou políticas específicas, assim, não significa
automaticamente solidariedade a projetos progressistas, mas, muitas vezes, é
resultado de ajustes táticos diante de ameaças percebidas ao equilíbrio
institucional e econômico. Dessa forma, interpretar tais coberturas como sinais
de apoio à suposta esquerda política equivale a uma leitura simplista e
descontextualizada, que ignora a complexidade das relações de poder e a
autonomia relativa da mídia corporativa em relação a qualquer projeto político
específico. A leitura equivocada desse movimento por parte de militantes e
simpatizantes do PT revela uma dificuldade recorrente de distinguir
convergências táticas de alianças estratégicas. Ao interpretar críticas ao
bolsonarismo como apoio ao petismo, incorre-se em uma simplificação que
desconsidera a autonomia relativa dos interesses burgueses. E essa
simplificação pode ser descrita tanto como ingenuidade — no sentido de uma
expectativa excessivamente otimista — quanto como cegueira — na medida em que
ignora evidências históricas e estruturais.
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Jornalistas não atuam no vazio
Esse
problema se agrava ainda mais quando se observa a personalização dessas
expectativas em figuras midiáticas específicas. A quase idolatria dirigida a
jornalistas como Andreia Sadi ilustra um fenômeno mais amplo de fetichização da
mídia. Ao transformar profissionais inseridos em estruturas corporativas em
supostos agentes independentes ou aliados políticos, perde-se de vista o fato
de que sua atuação está condicionada por diretrizes editoriais, interesses
empresariais e limites institucionais. Dinâmica semelhante pode ser observada
na reconfiguração da imagem de Reinaldo Azevedo, que, após ter sido um dos
responsáveis por popularizar o termo “petralha” — amplamente mobilizado no
processo de desgaste do PT, e na construção do ambiente que favoreceu a ascensão
do bolsonarismo —, passou a ser revalorizado por setores petistas quando
assumiu posições críticas ao novo arranjo político posto em prática em 2018.
Esse
movimento revela uma tendência à leitura conjuntural e personalista, na qual
trajetórias marcadas por antagonismo são rapidamente ressignificadas como
sinais de alinhamento, como se tais figuras pudessem ser convertidas, sem
mediações, em aliadas políticas. Tal dinâmica evidencia uma dificuldade mais
profunda de compreender categorias estruturais de análise, substituídas por
interpretações imediatistas que privilegiam gestos, declarações pontuais ou
mudanças de tom como indícios de transformação substantiva. Nesse processo,
desconsidera-se que posicionamentos individuais frequentemente respondem a
reacomodações no interior do próprio campo midiático e político, e não a uma
adesão orgânica a projetos ideológicos distintos.
Além
disso, essa personalização excessiva contribui para a despolitização do debate,
porque desloca o foco das estruturas — como os interesses econômicos, os
vínculos institucionais e as estratégias de poder — para indivíduos e suas
supostas intenções. O resultado é uma leitura fragmentada da realidade, a
partir da qual contradições são suavizadas ou ignoradas em nome da construção
de referências momentâneas. Esse tipo de operação simbólica produz ciclos
recorrentes de expectativa e frustração, nos quais figuras midiáticas são
alçadas à condição de aliadas para, posteriormente, serem novamente percebidas
como adversárias. Em termos mais amplos, trata-se de um sintoma de
instabilidade interpretativa. Não distinguir entre convergências táticas e
alinhamentos estratégicos significa abrir espaço para equívocos recorrentes,
dificultando a formulação de estratégias mais consistentes e sustentáveis no
longo prazo.
Não se
trata de negar a competência individual ou a relevância do trabalho
jornalístico, mas de situá-lo em seu contexto. Jornalistas não atuam no vazio.
Suas análises (ainda que críticas) são mediadas por enquadramentos e
prioridades definidos pelas organizações às quais pertencem. Atribuir-lhes um
papel de protagonismo político autônomo pode levar a frustrações inevitáveis
quando suas posições não correspondem às expectativas projetadas. Em termos
mais amplos, o episódio do powerpoint evidencia uma tensão persistente na
relação entre a suposta esquerda institucional e a mídia corporativa. De um
lado, há a necessidade pragmática de dialogar com os grandes meios; de outro,
há o risco de internalizar suas narrativas e legitimar seus enquadramentos. O
equilíbrio dessas dimensões exige uma compreensão menos simplista do
funcionamento do sistema midiático, algo que nem sempre se verifica no debate
público.
Portanto,
o que está em jogo é a capacidade de análise crítica diante de um campo marcado
por assimetrias de poder, por interesses conflitantes e por movimentos táticos.
Sem essa capacidade, há o risco de repetir ciclos de expectativa e de
desilusão, comprometendo a construção de estratégias políticas mais
consistentes. Trata-se, em última instância, da habilidade de distinguir entre
aparência e estrutura, entre movimentos conjunturais e orientações de longo
prazo — algo fundamental em um ambiente no qual atores como a Rede Globo
funcionam segundo racionalidades que não se confundem com projetos políticos
específicos, mas com a preservação de determinadas condições de poder.
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Preservação de interesses
A
ausência dessa leitura mais sofisticada tende a produzir reações oscilantes,
nas quais o mesmo agente é, em momentos distintos, percebido como aliado ou
adversário, conforme variações pontuais de posicionamento. Esse tipo de
instabilidade interpretativa enfraquece a coerência do discurso político e,
sobretudo, a capacidade de articulação estratégica, pois decisões passam a ser
orientadas por percepções imediatas e não por diagnósticos estruturais. Em
contextos assim, a política corre o risco de se tornar reativa, sempre
respondendo aos movimentos de outros atores — especialmente aqueles que detêm
maior poder simbólico e material — em vez de formular agendas próprias. Essa
postura aumenta a vulnerabilidade a manipulações e enquadramentos externos,
reduz a autonomia na definição de prioridades e cria um ciclo de expectativa e
frustração constante. Além disso, corre-se o risco de naturalizar narrativas
produzidas por interesses alheios e, consequentemente, reforçar hegemonias já
estabelecidas, limitando a capacidade de produzir transformações sociais e
políticas significativas.
Ademais,
a dificuldade de reconhecer a natureza desses jogos de poder contribui para a
reprodução de uma dependência em relação aos grandes meios de comunicação,
mesmo quando estes são objeto de crítica. Em vez de desenvolver canais
alternativos de produção de sentido (e de disputa de narrativa), recorre-se
continuamente aos mesmos espaços e atores, reforçando sua centralidade. Esse
paradoxo evidencia como a crítica não acompanhada de uma compreensão estrutural
e de práticas consequentes pode acabar sendo absorvida pelo próprio sistema que
pretende contestar.
A ideia
de “aliados imaginários” revela uma dinâmica recorrente no campo político, qual
seja, a projeção de expectativas sobre atores que, estruturalmente, não
compartilham dos mesmos interesses. No caso da Rede Globo, essa fantasia se
sustenta na leitura equivocada de movimentos conjunturais como sinais de
alinhamento ideológico. Ao interpretar críticas pontuais a determinados
governos ou figuras políticas como indício de convergência com pautas
progressistas, ignora-se que tais posicionamentos frequentemente respondem a
disputas internas entre frações da elite, e não a uma adesão substantiva a
projetos transformadores. Assim, a mídia corporativa é momentaneamente
ressignificada como parceira, quando, na realidade, continua atuando segundo a
lógica de preservação de interesses econômicos e de estabilidade sistêmica.
Essa construção simbólica de alianças ilusórias tem efeitos concretos sobre a
prática política, pois, ao investir confiança em atores que não ultrapassam os
limites impostos por suas próprias estruturas, setores progressistas (ou menos
conservadores) tendem a negligenciar a construção de meios autônomos de
comunicação e interpretação da realidade.
Por
isso, compreender a Rede Globo como uma empresa burguesa, reconhecer seu papel
histórico desde o Golpe militar de 1964 e evitar projeções indevidas sobre sua
atuação presente são passos fundamentais para uma análise mais rigorosa. Do
mesmo modo, abandonar a personalização excessiva e situar jornalistas dentro de
estruturas mais amplas contribui para reduzir ilusões e fortalecer uma leitura
mais realista do cenário político-midiático brasileiro.
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Deixo aqui dicas de leituras (coletâneas) para compreender melhor esse tema:
1) Eula
Dantas T. Cabral – Economia política da comunicação, da cultura e da informação
(2025);
2)
Jacqueline Lima Dourado – Economia Política do Jornalismo: campo, objeto,
convergências e regionalismo (2013);
3)
Othon Jambeiro, César Bolaño e Valério Brittos (Organizadores) – Comunicação,
informação e cultura: dinâmicas globais e estruturas de poder.
Fonte:
Por Verbena Córdula, em Diálogos do Sul Global

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