Quando
a falta de energia é projeto de poder
A
guerra promovida pelos Estados Unidos e Israel contra o Irã tem reverberado ao
redor do mundo. Os choques em preços e abastecimento de mercadorias geram
outros choques e consequências, como parte do mecanismo de uma situação de
crise generalizada que outros pesquisadores e eu chamamos de policrise
planetária.
Ataques
a refinarias de petróleo e usinas de dessalinização, antes raros e considerados
escaladas perigosas, permeiam as notícias de jornais, sinalizando que o mundo
em desordem tem aversão a regras e limites.
Por
mais que estejamos minimamente informadas sobre os eventos, mesmo diante de
narrativas falsas e manipuladoras, preocupa bastante que o debate sobre as
crises se concentre principalmente na análise das lideranças envolvidas e em
como suas decisões impactam fatores econômicos e de mercado, como se o cenário
de morte generalizada, com custo humano e ecológico, fosse apenas um pano de
fundo.
Portanto,
se consideramos que guerras e disputas por hegemonia num sistema geopolítico
tão desigual são, no fundo, sobre o controle de pessoas e da vida, entendemos
que conflitos que envolvem energia, água e outros recursos nunca são apenas
sobre acumulação. Se de um lado capturam poços de petróleo, há sempre outro
lado sem eletricidade, sem combustível ou sem acesso ao básico para o
funcionamento social. Em tempos de crise energética generalizada, vale a pena
entender como se trata de uma crise orquestrada e como, mais uma vez, a pobreza
energética existe como ferramenta de dominação da periferia.
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O que entendemos por pobreza energética
O
governo federal define a pobreza energética como “a ausência de acesso aos
serviços energéticos modernos por pessoas ou grupos”. Essa definição formal é
aplicada de modo a orientar políticas públicas e se assemelha à visão de outros
países. Porém, na prática de um mundo em conflito social intenso, a pobreza
energética é muito mais que um problema de acesso à infraestrutura, seja por
sua ausência ou por seu custo.
No
campo da justiça e democracia energética, entendemos que a pobreza energética é
um estado de exclusão sistêmica de pessoas e grupos aos recursos necessários
para operar suas necessidades de vida plena. Isso ocorre por meio da
transformação da energia em mercadoria e da captura de recursos, infraestrutura
e conhecimento estratégico por setores dominantes. Por conta disso, a pobreza
energética reflete as desigualdades de classe em uma sociedade e a desordem
internacional, de modo que povos têm seu direito de autodeterminação e de
autonomia negados também no contexto energético.
A
partir disso, percebemos que a pobreza energética tem várias facetas. Quanto ao
acesso econômico, sabemos que quase meio milhão de pessoas no Brasil ainda
vivem sem energia elétrica. Não se trata de pessoas que optam por viver sem
eletricidade, mas de grupos e regiões que precisam improvisar acesso elétrico
e, por isso, também têm seu direito a outros serviços públicos negados,
inclusive de saúde e educação. É onde a pobreza energética faz sua morada
cotidiana. Num mundo onde há expansão energética intensa, seja em consumo
agregado, seja na implementação de projetos de infraestrutura voltada à
eletricidade, ao aquecimento e a combustíveis, a Agência Internacional de
Energia alerta: mais de 700 milhões de pessoas seguiam sem acesso à
eletricidade em 2024, prejudicando também seu acesso estável e seguro a outros
direitos básicos.
Essa
disparidade tem origem histórica no capitalismo, colonialismo e sistema
imperialista de dominação. É o que explica a pobreza energética de ucranianos,
sudaneses, palestinos, libaneses e iemenitas em situação de guerra, ocupação e
calamidade humanitária. A tecnologia existe, a capacidade global de garantir a
infraestrutura necessária como direito humano também. Mas como a energia é
mercadoria e é recurso para a acumulação de poder, povos inteiros são excluídos
como meio e fim para alcançar metas de dominação.
Em
2024, os data centers consumiram cerca de 415 terawatts-hora de energia, e
empresas como a Microsoft estão promovendo a reativação de usinas nucleares
simplesmente para garantir o abastecimento de sua demanda. Enquanto isso, o
mundo acelera a corrida por minerais críticos para garantir a eletrificação do
modo de vida capitalista. Logo, permitir que centenas de milhões de humanos
sigam no escuro é uma escolha.
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Dependência e apagão elétrico como punição aos cubanos
Recentemente,
o historiador brasileiro Rafael Domingos Oliveira relatou um pouco do que é
estar em Cuba durante o período mais drástico de sua crise energética. Quando
falta combustível, os resíduos sólidos se acumulam nas ruas e a falta de coleta
oferece um ambiente propício para a proliferação de doenças. O racionamento e a
priorização de geradores para serviços essenciais como hospitais não dão conta
do aumento da demanda, já que a crise energética é catalisadora de outras
crises, acentuando problemas e dificultando soluções estruturais. O bloqueio,
que há décadas estrangula a economia cubana, também vulnerabilizou sua
infraestrutura energética, praticamente desconectando os cubanos de caminhos
soberanos e livres para adquirir insumos, promover manutenção e melhorias
técnicas e investir em capacidade autônoma, como seria o caso se Cuba pudesse
se inserir em modelos de cooperação para a ampliação de energias renováveis
como solar e eólica.
Não é
como se Cuba estivesse alheia aos benefícios de fazer uma transição energética.
Países que sofrem de alta dependência comercial ou política de parceiros que
lhes fornecem combustíveis fósseis, como é o caso cubano, encontram na
ampliação da oferta renovável um caminho também de autonomia e proteção contra
choques e ataques externos. Embora historicamente Cuba tenha dependido da
Venezuela, Rússia e outros aliados para abastecer suas termelétricas, também
houve um esforço recente de diversificar essa matriz, ao ponto de a energia
solar fotovoltaica ter chegado a 9% da matriz energética total em 2025,
principalmente através do comércio com a China e a Espanha.
As
sanções dos Estados Unidos dificultam o estabelecimento de relações comerciais
frutíferas e estáveis, além de prejudicar a economia nacional que tem cada vez
menos renda e mais dívidas que dificultam o investimento estatal e de
empresários que atuam localmente. O setor de turismo, tão central para a
economia cubana, quase colapsou durante a pandemia e hoje revela um setor
hoteleiro – com presença de muitas redes espanholas como a Iberostar e a Meliá
– com níveis críticos de ocupação baixa e dificuldade para acessar insumos que
atraiam os turistas que ainda visitam a ilha. Como uma ilha afundada em pobreza
energética não consegue nem manter um fluxo de voos ideal, a crise no turismo
significa mais crise econômica.
E é
assim que Cuba, que poderia escapar do apagão sistêmico através de uma
estratégia sólida de transição energética, não consegue segurar as ferramentas
mais básicas para a sua independência. Se os países europeus reconhecem como
crise energética o choque atual no preço do petróleo e barreiras para
importação, o que acontece em Cuba há seis décadas é muito mais profundo. A
escuridão não é um sintoma da crise, é o bloqueio de capacidades de enfrentar
uma crise colonial e imperialista permanente.
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O roubo da energia em um mundo cada vez mais eletrificado
Diante
dos casos extremos de pobreza energética, precisamos também falar do
empobrecimento energético. Aqui, encontramos situações diferentes de
racionamento e apagões generalizados, pois o processo de empobrecimento
energético se dá ao garantir que países e setores já ricos em energia continuem
com seu acesso privilegiado, dificultando a distribuição mais justa e
democrática da expansão energética, e em certos casos capturando a geração de
energia para fins exclusivos de bilionários e grandes corporações.
O
exemplo já mencionado dos data centers chama a atenção, especialmente porque
são muitos os projetos de assentamento de megacentros das big techs em regiões
de estresse hídrico ou de provisão fragmentada e escassa de serviços
essenciais. Já sabemos que a quantidade de data centers cresceu 628% no Brasil
em apenas dez anos, entre 2013 e 2023, e que alguns deles chegam a consumir em
eletricidade o mesmo que um município.
O
Brasil e outros países na região, como o Chile, são atrativos para essas
empresas, especialmente no que tange a seus planos de expansão de renováveis,
pois garantem acesso a fontes de energia descarbonizadas, auxiliando as metas
de emissões de gases efeito estufa que facilitam outros investimentos
corporativos. Em alguns casos, alega-se que há sobreoferta local de energia
renovável e que os data centers podem tirar melhor proveito disso,
especialmente se contarem com benefícios fiscais e outras vantagens.
Essa
lógica é estranha, porém a cara do mercado de energia construído sem democracia
energética em mente. Recentemente, o Brasil renovou as concessões de
termelétricas de carvão até 2040, e um dos argumentos públicos – incluindo o do
ministro de Minas e Energia – foi de que a manutenção de uma fonte tão suja de
energia elétrica é necessária como pilar de segurança energética, já que se
estima que o consumo elétrico brasileiro cresça em média 3,3% ao ano até 2035.
Essa previsão de crescimento já incorpora a demanda prevista para novos setores
ou em expansão, como os data centers. A mensagem, portanto, é simples: já que
não gerimos o setor elétrico para fins de eficiência e democracia, expandiremos
todas as fontes de oferta, incluindo as sujas, para que não falte energia aos
data centers estrangeiros que se instalam no país.
Uma
lógica similar é apresentada nos projetos e memorandos de entendimento a
respeito da produção de hidrogênio verde no Sul Global. São muitos os casos em
regiões como a América Latina e o norte da África em que acordos de
investimento e de cooperação técnica visam o estabelecimento de verdadeiros
latifúndios privados de produção eólica e solar fotovoltaica cujos megawatts
serão destinados a usinas de hidrogênio verde.
Um dos
objetivos centrais é investir no desenvolvimento tecnológico de commodities
energéticas ‘verdes’. Já que não é possível exportar energia eólica e solar
direta a outros continentes distantes, o caminho é usá-las de fonte elétrica
para a produção de hidrogênio verde e até conversão em amônia verde, que por
sua vez podem ser exportados para fins de combustível ou fertilizantes. Ainda
que tais investimentos careçam de maturação tecnológica, especialmente no
quesito de transporte e eficiência, a atuação de países como a Alemanha indicam
o interesse em garantir que a capacidade de geração energética renovável do Sul
possa suprir sua demanda cada vez mais por energia, uma vez que não pretendem
regular seu alto consumo.
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A privatização da energia ameaça a soberania do povo brasileiro
Isso
nos leva a questionar a contradição entre discursos de soberania energética,
reduzidos ao controle e capacidade de exploração de recursos energéticos como o
petróleo, a prioridade dada às exportações e a normalização de um setor privado
que opera o sistema de energia doméstico, tendo o lucro como prioridade.
No
Brasil, enfrentamos batalhas do tipo nos estados e no âmbito federal. A Enel
Distribuição São Paulo, por exemplo, continua a insistir que tem atuado
adequadamente diante dos apagões nas áreas em que atua, especialmente diante de
Nota Técnica nº 36/2026 da Agência Nacional de Energia Elétrica, a Aneel, que
pode enfim aplicar uma pena à altura da negligência e precarização geral
praticada pela empresa. Em 07 de abril, a diretoria da Aneel decidiu
unanimemente recomendar o fim do contrato de concessão da Enel em São Paulo
junto ao Ministério de Minas e Energia.
Até a
prefeitura de São Paulo, definitivamente a favor de aplicar o raio privatizador
por todas as partes, critica a atuação da concessionária ao alegar que a “Enel
é uma empresa que não cumpre seus compromissos com a cidade, prestando um
serviço deplorável à população”. O péssimo serviço resulta de um modelo de
negócios comum às concessões privadas que envolve reduzir o quadro de
funcionários e investir abaixo do necessário na infraestrutura e na manutenção
do sistema, enquanto lucros e dividendos são garantidos.
Apagões
do tipo não afetam todas as pessoas igualmente. A dinâmica elitista e racista
da organização do espaço urbano – e do urbano frente ao rural – organiza a
atenção do atendimento e da infraestrutura privada, isso quando não afeta
também o poder público capitalista, que reproduz desigualdades em sua atuação.
Como argumentado pelo jornalista Ivan Costa, “nas favelas e periferias, onde o
acesso à energia é frequentemente instável e a rede elétrica precária, os
impactos são sentidos de maneira ampliada”.
‘Trata-se
de um contexto em que a oferta nacional de energia elétrica é ampliada, mas
também pagamos mais por ela e não temos nem mesmo a certeza de abastecimento
seguro, contínuo e democrático.’.
Se nas
grandes metrópoles, condomínios de classe média e de luxo já passaram a
investir em geradores para o abastecimento emergencial em caso de apagão
prolongado, tal investimento não pode ser esperado nos bairros e regiões mais
marcados pela grande desigualdade socioeconômica. Isso também é sintoma de
pobreza energética. E quando uma família trabalhadora perde todos os alimentos
guardados na geladeira porque ficou 48 horas sem fornecimento elétrico, isso
também contribui para um cenário de insegurança alimentar. As crises estão
conectadas e são profundamente marcadas pelas estruturas de poder, ao ponto de
a suposta busca por soberania energética brasileira dever considerar os
estragos do modelo de concessão privada da distribuição elétrica no país.
Nossa
Eletrobras foi privatizada por meros R$ 33,7 bilhões em 2022 – quantia muito
abaixo do valor aproximado da empresa – e passou a se chamar Axia Energia em
2025. Ela é responsável por 81 usinas (47 hidrelétricas, 33 eólicas e uma
solar) e cerca de 74 mil quilômetros de linhas de transmissão. Ano passado,
também vendeu suas ações na Eletronuclear e efetivamente entregou a maioria do
capital referente à produção de energia nuclear do Brasil à Âmbar Energia,
empresa do Grupo J&F, dos irmãos Joesley e Wesley Batista. A Âmbar também
está à frente da usina de carvão de Candiota, no Rio Grande do Sul, e foi
beneficiada pela lei que renovou os contratos com as termelétricas. O mesmo
Ministério de Minas e Energia que encorajou a manutenção do carvão na matriz elétrica
brasileira propôs pagar o preço de R$ 540,27 por MWh de Candiota, quando, de
acordo com reportagem da Folha de S.Paulo, o valor médio dos concorrentes que
usam carvão importado é de R$ 359,50.
Trata-se
de um contexto em que a oferta nacional de energia elétrica é ampliada, mas
também pagamos mais por ela e não temos nem mesmo a certeza de abastecimento
seguro, contínuo e democrático. Foi sabendo dos prejuízos sociais e econômicos
da privatização no setor elétrico que os eletricitários brasileiros lançaram já
em 2022 uma campanha pela reestatização da Eletrobras. Na época, Luiz Inácio
Lula da Silva ainda era candidato à presidência e, segundo o Coletivo Nacional
de Eletricitários, havia sinalizado seu apoio à reestatização. Em 2023, a
Advocacia-Geral da União, a AGU, peticionou uma Ação Direta de
Inconstitucionalidade, assinada também por Lula, no Supremo Tribunal Federal, o
STF, para questionar elementos da privatização, principalmente a redução
drástica do poder de voto da União na empresa. Todavia, em 2025, o próprio
governo abriu mão dessa luta, encaminhando um acordo que validou a venda, a
despeito do interesse popular.
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Pensar caminhos de democracia energética
Embora
o caminho que transforma a energia em mercadoria demonstre vez após vez as suas
falhas e injustiças, ele foi bastante normalizado em meio às crises. Isso faz
com que as crises pareçam acidentes ou momentos excepcionais causados por
fatores externos, como decisões autoritárias de regimes fascistas ou acidentes
no percurso. Uma visão mais holística e periférica da policrise sugere que não
é bem assim. Se as crises não são sentidas de maneira uniforme em todos os
lugares, a forma de enfrentá-las também não será a mesma.
Por
isso, pautas de reestatização são muito importantes, desde o campo de produção
e distribuição de energia, a setores como o de mineração. Se casos como o de
Cuba demandam ações práticas de solidariedade, como o envio de recursos e de
painéis fotovoltaicos pelo governo da China, além de grupos da sociedade civil
brasileira, eles também nos ensinam o valor de nutrir nossa autonomia. Para nós
que estamos no Sul Global, sujeitos a esses caminhos de dependência e
vulnerabilização, cabe recusar entregar o controle de nossa infraestrutura para
os grupos privados, colocando a democracia energética no centro do nosso
planejamento de oferta e distribuição. Apenas assim teremos fundamento
suficiente para construir soberania energética real.
Fonte:
Por Sabrina Fernandes, em The Intercept

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