A
importância da migração internacional na cidade de São Paulo
As
migrações internas e internacionais são fenômenos que constituíram a história
da cidade de São Paulo e da sociedade brasileira. Se é verdade que migrantes
internos e internacionais tiveram papel crucial na construção da metrópole
paulista desde os seus primórdios, é preciso reconhecer que o fenômeno ganha
importância central na contemporaneidade. O atual contexto das múltiplas crises
engendradas no interior do capitalismo produz diversas formas de expulsão e
migrações forçadas de populações em escalas sem precedentes. Cada vez mais, as
pessoas migram em decorrência de fatores diversos, tais como desemprego, graves
violações de direitos humanos, conflitos geopolíticos, guerras e em razão de
desastres ambientais causados pela destruição humana da natureza. Nesse
contexto, muitas outras categorias relacionadas às mobilidades humanas ganham
relevância, tais como a situação das pessoas refugiadas, apátridas e
solicitantes de refúgio. É preciso frisar, adicionalmente, que a divisão das
pessoas que realizam migração em diferentes categorias de cidadania e status
migratórios tem sido utilizada na governança migratória global para criar
formas de controle, distinções e desigualdades no acesso a direitos humanos que
deveriam ser universais.
Como
reflexo dessas tendências globais e diante da crescente intensificação das
políticas restritivas à migração nos países centrais do capitalismo, a cidade
de São Paulo, uma das mais ricas e populosas da América Latina, tem sido um dos
principais territórios de chegada, trânsito e instalação desses fluxos
migratórios na região. Desde o início do século XXI, no que diz respeito à
migração internacional, esses fluxos são diversos e heterogêneos, compostos
sobretudo por trabalhadores e trabalhadoras e suas famílias vindos de países do
Sul Global – e, portanto, majoritariamente racializados.
Neste
artigo, apresentaremos uma breve história da imigração em São Paulo, além de um
panorama sobre a presença dos diferentes grupos de imigrantes presentes na
cidade hoje. Também abordaremos as lutas migrantes por direitos e as políticas
públicas que ganharam força nas últimas décadas com a chegada de novos fluxos
na cidade. Ao final, traremos uma reflexão sobre o nosso papel diante da
questão migratória no cenário global de emergência de novos fatores de expulsão
de populações de seus territórios, amplificada pelo aumento das desigualdades
sociais, pela ascensão da extrema-direita com a sua agenda anti-imigrante, além
de retrocessos brutais em direitos conquistados e nas políticas de seguridade
social.
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Um pouco da história da imigração em São Paulo
A
cidade de São Paulo foi erguida sobre território indígena Guaianás ou
Guaianases – etnia considerada extinta no século XVI, e que hoje dá nome a um
dos distritos mais negros de São Paulo. O seu desenvolvimento foi marcado pela
chegada em massa de migrantes internos e internacionais ao longo do século XIX
e, de forma mais intensa, a partir do início do século XX. Em um contexto de
rápida industrialização da economia brasileira relacionada à expansão da
indústria cafeeira, a incipiente metrópole paulista passou a atrair
trabalhadores e trabalhadoras de distintas partes do mundo. Migrantes internos
também chegaram em grandes números para a cidade, vindos em especial de Minas
Gerais e de estados do Nordeste – muitos deles, sobreviventes do regime
escravocrata. É preciso lembrar que foram mais de 12 milhões de africanos
sequestrados e trazidos ao Brasil para trabalhar de maneira forçada ao longo
dos trezentos anos de escravidão, um número duas vezes maior que a população
portuguesa que se estabeleceu no país durante o período colonial.
Entre o
final do século XIX e a primeira metade do século XX, tornaram-se majoritárias
as entradas de italianos, espanhóis, portugueses, além de chineses e japoneses,
libaneses e armênios. Nesse período, o Estado brasileiro elaborou e colocou em
prática políticas migratórias racistas para estimular a vinda de imigrantes
brancos e europeus como parte de um projeto econômico e político de
modernização. De forma aparentemente contraditória, essa importação de trabalho
imigrante trouxe consequências inesperadas, já que proporcionou ampla
circulação de ideias, propiciando a formação de diversos espaços coletivos de
socialização, apoio, resistência e de organização da classe trabalhadora em um
período histórico de ebulição de movimentos e ideias revolucionárias. Exemplo
disso foi o significativo protagonismo de trabalhadores imigrantes na
organização de movimentos políticos na cidade de São Paulo, realizando greves
que reivindicavam menores jornadas de trabalho e a proibição do trabalho
infantil, entre outras pautas, como o fim da política de expulsão de imigrantes
envolvidos em atividades partidárias de esquerda, sindicatos e manifestações.
Já na
segunda metade do século XX, sobretudo no período de globalização neoliberal
que aprofundou os ataques aos direitos da classe trabalhadora e a expulsão de
populações de seus territórios, nota-se a crescente entrada de bolivianos,
peruanos e sul-coreanos relacionada ao trabalho no comércio e na indústria da
costura. Ao longo desse período, a imigração na metrópole paulista contribuiu
diretamente para a constituição social e territorial da vida na cidade,
construindo e (re)configurando bairros como a Liberdade, o Brás, o Bom Retiro e
o Pari, nos quais a presença migrante continua sendo marcante nas lojas,
restaurantes, mercados populares, oficinas de costura, centros culturais e
outros espaços comunitários.
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Imigrantes em São Paulo hoje
São
Paulo é a cidade brasileira com o maior número de registros de imigrantes,
reunindo a maior diversidade de nacionalidades e de pessoas em situação de
refúgio do país. Segundo o Observatório das Migrações Internacionais em São
Paulo, há 489.219 imigrantes registrados no município. Desses, os cinco maiores
grupos são bolivianos (135.273), chineses (33.237), haitianos (26.198),
peruanos (21.600) e estadunidenses (21.156). Esses dados, entretanto, são
sub-representados, já que a cidade também abriga uma quantidade expressiva e
não quantificada de imigrantes indocumentados, invisibilizados para as
políticas públicas. Vale pontuar a existência de uma presença histórica de
imigrantes indígenas na cidade, constituída majoritariamente por grupos aimarás
e quéchuas vindos do Peru e da Bolívia.
A
partir de 2010, no contexto de fronteiras mais fechadas nos países que eram
destino preferencial de migrantes e com o reposicionamento do Brasil no regime
global das migrações por meio da celebração de acordos internacionais de
mobilidade, é possível observar o crescimento na chegada dos chamados “novos
fluxos” na cidade. Esses fluxos migratórios são compostos principalmente de
haitianos, que migraram em massa após o terremoto que atingiu o Haiti em 2010,
além de imigrantes do continente africano – em especial angolanos, senegaleses,
democrático-congoleses, nigerianos –, e da região do Oriente Médio, como os
sírios. Também nota-se o aumento da entrada de imigrantes asiáticos no período,
em especial sul-coreanos e chineses, cujas populações mais do que dobraram nas
últimas décadas. Esses novos fluxos somam-se a outros historicamente
estabelecidos, e ainda relevantes, como é o caso de imigrantes sul-americanos
de países fronteiriços. Mais recentemente, a partir de 2017, destaca-se o
aumento sensível na entrada de venezuelanos após o recrudescimento da crise na
Venezuela impulsionada por agressões e sanções imperialistas que produziram um
êxodo sem precedentes em toda a região da América Latina.
No que
diz respeito ao acesso à moradia e à distribuição territorial na metrópole de
São Paulo, os grupos de recém chegados frequentemente residem inicialmente em
bairros da região central da cidade, como Brás, Pari, Liberdade, Bela Vista e
Sé. Nesses distritos, há uma concentração de ocupações urbanas de movimentos
por moradias, além de centros de acolhida específicos para pessoas imigrantes e
refugiadas que integram a rede de serviços de proteção social oferecida pelo
município – algo previsto na Política Municipal para as Populações Imigrantes
(PMPI), sobre a qual falaremos mais no próximo tópico. É comum, no entanto, que
imigrantes recém-chegados tenham que se mudar para bairros mais afastados da
região central após alguns meses. Muitos acabam residindo em bairros da Zona
Leste da cidade, como Itaquera, Penha, Guaianases e São Mateus, com uma recente
distribuição por bairros das zonas Sul e Norte. Entre as razões para sua alta
mobilidade no território urbano estão a dificuldade para cumprir os requisitos formais
para a locação de imóveis, como a apresentação de fiadores, os altos valores
dos aluguéis praticados por imobiliárias nas regiões centrais, além do curto
prazo que possuem para sair dos centros de acolhida – algumas vezes, o período
máximo de permanência é de três meses.
Quando
chegam à cidade, os primeiros serviços públicos a serem acessados são
frequentemente as unidades de saúde, as escolas e os serviços de assistência
social. Apesar de imigrantes terem os mesmos direitos em pé de igualdade com os
nacionais, independente do status migratório, no que diz respeito ao acesso aos
serviços públicos (como prevê a Lei de Migração, Lei nº 13.445/2017), são
frequentes as denúncias de práticas discriminatórias. Em relação ao acesso à
educação, ainda é comum negativas de matrícula nas escolas por não aceitarem as
documentações apresentadas por famílias imigrantes e/ou por exigirem de forma
ilegal documentos traduzidos. Nesses casos, a atuação de organizações de defesa
de direitos e movimentos sociais tem sido decisiva para a efetivação do direito
dessas populações ao provocar intervenções das Diretorias Regionais de
Educação. Também como parte das conquistas da Política Municipal para as
Populações Imigrantes, consolidou-se o Projeto Portas Abertas que oferece aulas
de português gratuitas em algumas unidades educacionais distribuídas pela
cidade. Ainda assim, imigrantes têm dificuldade de acessá-lo pelos horários de
oferta das aulas – muitas vezes, em horário comercial –, e pela distância das
escolas dos locais onde vivem, obrigando-os a onerosos deslocamentos pela
cidade.
Ao
mesmo tempo, as condições de vida na cidade estão diretamente relacionadas com
as condições de acesso ao mercado de trabalho. Trabalhadores imigrantes – em
especial negros/as e indígenas – acabam tendo dificuldades frequentes para
trabalhar de maneira formal por muitos motivos. Para além do racismo estrutural
e a desigualdade de gênero que afeta o mercado de trabalho brasileiro como um
todo, as barreiras para o acesso ao trabalho formal são permeadas pela falta de
informação sobre os seus direitos no país, dificuldades na revalidação de
diplomas e indocumentação. Na metrópole paulista, muitos terminam trabalhando
informalmente no comércio ambulante, na produção têxtil, na construção civil e
outras ocupações precárias no setor de serviços, com renda oscilante e sem
quaisquer direitos. Assim, esses trabalhadores e trabalhadoras na informalidade
estão vulneráveis à violência policial, a golpes e abusos de agiotas e
consignadores de produtos para o comércio, além de muito frequentemente
tornarem-se vítimas de condições de trabalho análogo à escravidão. Mesmo
aqueles em vagas de trabalho formal têm, por vezes, seus direitos violados, com
retenção de documentos após a demissão, como a Carteira de Trabalho, ou com
descontos salariais abusivos.
Podemos
compreender até aqui que a cidade continua carregando as marcas da presença
imigrante, sejam elas históricas, sejam as do cotidiano da metrópole. Essas
pessoas são uma força viva que molda ativamente a cidade, seu presente, passado
e futuro. Isso é ainda mais visível quando pensamos nas lutas dessas populações
pela garantia de direitos, como veremos a seguir.
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Lutas por direitos e protagonismos de pessoas imigrantes e refugiadas
Se é
importante ressaltar as dificuldades enfrentadas pelas populações imigrantes na
cidade de São Paulo, é preciso também apontar para sua capacidade de
organização e mobilização como forma de conquistar e efetivar direitos. A
cidade, que possui longo histórico de imigrantes engajando-se em lutas
políticas, contabiliza cerca de 73 coletivos de imigrantes e organizações que
atuam na pauta migratória, sejam eles movimentos liderados por migrantes ou por
brasileiros. Essas organizações e coletivos atuam no campo cultural, político,
social e religioso, e são constituídas formal ou informalmente em diferentes
territórios da cidade.
Nesse
cenário urbano, formou-se ao longo de décadas uma rede de organização e
participação política de imigrantes. Cresceram associações e coletivos criados
pelos próprios imigrantes, além de grupos de apoio ligados a igrejas, centros
de saúde e organizações de defesa dos direitos humanos espalhados por
diferentes regiões da cidade, especialmente nas periferias. Na cidade de São
Paulo, muitos desses grupos se articulam por meio de associações fundadas e
dirigidas por imigrantes, como a União Social dos Imigrantes Haitianos (USIH),
a Associação de Mulheres Imigrantes Luz e Vida (AMILV), o coletivo de base
Warmis – convergência das culturas, a Associação dos Congoleses no Brasil, a
Associação da Comunidade da Guiné Bissau e a Comunidade Senegalesa. Também atuam
organizações institucionalizadas, como o Pacto pelo Direito de Migrar – África
do Coração, além de ONGs mais antigas, como a Missão Paz, a Cáritas
Arquidiocesana de São Paulo, o Centro de Apoio e Pastoral do Migrante (CAMI) e
o Centro de Direitos Humanos e Cidadania do Imigrante (CDHIC), que há muitos
anos funcionam como importantes pontos de acolhimento, orientação e defesa de
direitos, especialmente para quem está chegando ao país.
As
lutas articuladas por imigrantes por meio dessas redes procuram reivindicar
direitos e denunciar as inúmeras formas de racismo, discriminação e violências
sofridas. As manifestações contra os assassinatos de imigrantes africanos que
deram origem a campanhas antirracistas por justiça e reparação são exemplos
emblemáticos de lutas articuladas em reação à violência estatal, marcada pelo
racismo estrutural. Entre elas, podemos citar as campanhas “Zulmira Somos Nós”,
“Somos João Manuel”, “Justiça para Talla Mbaye”, “Justiça por Ngagne Mbaye”,
que reivindicam justiça por imigrantes mortos em assassinatos motivados por
racismo na cidade. Também ganham força nos últimos anos as mobilizações contra
a exploração no trabalho e o trabalho escravo, com destaque para os
trabalhadores da indústria têxtil e os trabalhadores ambulantes da cidade.
Outras mobilizações merecem destaque, como a campanha “Regularização Já”, em
defesa da regularização migratória para todos; a campanha “Nacionalidade no
SUS”, por direito à saúde; os protestos e ações contra as políticas de
encarceramento, expulsão e deportação no Aeroporto de Guarulhos.
É
preciso ressaltar ainda que as lutas migrantes em São Paulo tiveram o mérito de
pautar e aprovar a primeira Política Municipal para as Populações Imigrantes
(PMPI) do país, prestes a completar dez anos em 2026, além de um Plano
Municipal de Políticas para Imigrantes, que opera de forma intersecretarial e
estabelece metas e ações para gestores públicos municipais visando sua
efetivação. Essa é uma conquista ainda mais relevante se considerarmos que
apenas 5% das cidades onde residem imigrantes e refugiados possuem políticas
públicas de apoio e atendimento para essas populações.
A
aprovação da Política se deu na esteira da realização da 1ª Conferência
Municipal de Políticas para Imigrantes, em 2013 – também pioneira no país –, e
a aprovação do Plano se deu após a 2ª Conferência Municipal com o mesmo tema,
realizada em 2019, demonstrando a importância das mobilizações e da
participação popular para a elaboração de políticas públicas para imigrantes no
Brasil. Também é preciso mencionar a realização, em 2014, da 1ª Conferência
Nacional sobre Migrações, Refúgio e Apatridia, ocorrida no município. Como
fruto desses esforços, e da aprovação de uma lei municipal de imigrantes em São
Paulo de 2016, foi criado um Conselho Municipal de Imigrantes (CMI), órgão
consultivo ligado à Secretaria Municipal de Direitos Humanos, considerado um
avanço importante na garantia do direito à participação política dessas
comunidades no país.
Ainda
assim, as limitações para a implementação efetiva da Política e do Plano são
muitas. Relatório divulgado pela Coordenadoria de Políticas para Migrantes e
Promoção do Trabalho Decente (CPMIG-TD), responsável pela avaliação da
implementação do Plano, mostra que o município havia cumprido apenas 23,6% das
metas estabelecidas – como, por exemplo, a oferta do Projeto Portas Abertas
para o ensino de português. A maior parte das metas, ou 52%, ainda permanecem
por serem cumpridas, como a garantia de um representante imigrante – ligado ao
CMI – no Conselho Municipal de Saúde. Além disso, não houve verba para o
cumprimento das metas estabelecidas, o que tornou o Plano uma carta de
intenções. Soma-se a isso o fato de que o CMI, como órgão consultivo, atua sem poderes
deliberativos, tornando-o um Conselho inócuo e esvaziando as discussões
realizadas no fórum. Dessa forma, ainda que representem um avanço, tais
iniciativas têm contribuído pouco para a efetivação dos direitos que declaravam
querer efetivar.
Adicionalmente,
a pandemia de Covid-19 catalisou a criação de diversas iniciativas de
mobilização política de imigrantes enfatizando a demanda pela garantia do
direito à saúde e à assistência. Se o SUS é universal, ele frequentemente falha
em ser equitativo. Iniciativas visando a consulta das populações imigrantes
sobre propostas para políticas públicas de saúde, como as Conferências
Nacionais Livres; mutirões de vacinação contra a Covid-19 nas periferias da
cidade, especialmente para imigrantes indocumentados com hesitação vacinal por
medo de serem deportados; e a instituição, por demanda da sociedade civil, de
um Grupo de Trabalho na Secretaria Municipal de Saúde para debater estratégias
para a promoção da saúde das populações imigrantes são exemplos de mobilizações
recentes nesse sentido.
Por
fim, é preciso considerar que vivemos sob constante risco de retrocessos sobre
as políticas sociais e os direitos conquistados. Recentes declarações do
prefeito Ricardo Nunes e do governador do Estado de São Paulo, Tarcísio de
Freitas, em pautas relacionadas aos direitos humanos, evidenciam os desafios
para fazer avançar nessas lutas hoje. “Espero que não venham”, disse Ricardo
Nunes ao ser perguntado sobre o possível aumento do fluxo de imigrantes
venezuelanos para São Paulo, ao mesmo tempo em que anunciou o fechamento de um
abrigo que atende mais de cem pessoas refugiadas na cidade – fechamento
revertido após pressão de movimentos de imigrantes, como de praxe. Já o atual
governador tem investido fortemente na ampliação do poder de polícia nas ações
contra trabalhadores ambulantes no Brás, violando o direito ao trabalho e
vitimando principalmente imigrantes haitianos e africanos por meio da Operação
Delegada – um programa do governo de São Paulo que permite que policiais
militares atuem, em seus dias de folga, em ações de apoio às prefeituras, como
na fiscalização do comércio considerado irregular e sem nenhuma alternativa de
regularização para quem depende desse trabalho para sobreviver.
Garantir
acesso a direitos básicos, como saúde, educação, moradia e trabalho decente é
tornar possível a vida dessas pessoas no país. Do contrário, resta apenas o
discurso institucional e inócuo da metrópole paulista enquanto uma cidade
aberta às pessoas imigrantes e refugiadas, ao mesmo tempo em que as ações, bem
como a negligência, do Poder Público se encarregam de expulsá-las daqui.
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Considerações finais
São
Paulo foi e continua sendo uma metrópole de migrantes, internos e
internacionais. A tendência é que a população constituída por imigrantes e
refugiados na cidade, ao invés de diminuir, se expanda nos próximos anos em
decorrência das múltiplas crises – ambientais, climáticas, sanitárias,
políticas, econômicas etc. – do capitalismo. Apesar do crescente engajamento
das próprias associações e coletivos de migrantes nas lutas sociais, os
desafios colocados para a garantia de direitos e a efetiva inclusão dessas
populações nas políticas sociais são inúmeros e dependem da capacidade de
formação de alianças mais amplas no âmbito local, nacional e transnacional. Não
apenas na cidade de São Paulo, mas em diversas cidades do mundo, temos visto a
multiplicação de regimes de controle migratório e fronteiriço que produzem a
criminalização da migração e diversas outras formas de violência e
discriminação contra pessoas em mobilidade.
É certo
que, para resistir aos retrocessos no horizonte e garantir os avanços para o
futuro, dependemos de organização e de mobilização coletivos. Se todo o
trabalho a fazer está à nossa frente, as lutas migrantes na cidade de São Paulo
– mas não apenas – são um exemplo de como é possível se organizar mesmo em
condições precárias, e sob estatutos frágeis de cidadania. É por meio dessas
coletividades insurgentes que os futuros possíveis são conquistados.
Fonte:
Por Karina Quintanilha e Alexandre Branco-Pereira, no Le Monde

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