'Irmão'
de Bolsonaro e inspiração para a direita radical, Orbán perde eleição após 16
anos na Hungria
Após 16
anos seguidos no poder, o primeiro-ministro da Hungria, Viktor Orbán,
reconheceu a derrota para Peter Magyar nas
eleições neste domingo (12/4).
Em um
discurso aos apoiadores, Orbán disse: "O resultado da eleição é claro e
doloroso".
Já
Magyar disse que recebeu uma ligação de Orbán, na qual ele concedeu a derrota:
"Viktor Orbán acabou de me ligar e nos parabenizou pela nossa
vitória".
Em seu
discurso de vitória em Budapeste, Magyar disse: "Juntos, libertamos a
Hungria e nos livramos do regime de Orbán".
Ele
acrescentou que "o amor venceu hoje, porque o amor sempre vence", e
agradece aos húngaros por "não terem tido medo".
Com
96,37% dos votos apurados, projeta-se que o Tisza, partido de Magyar, tenha 138
cadeiras e o Fidesz, de Orbán, 55. Se o resultado se confirmar, isso quer dizer
que o Tisza conseguiu mais de dois terços das cadeiras do parlamento húngaro,
número necessário para mudanças constitucionais. Ou seja, uma vitória
esmagadora.
Orbán
disse em discurso aos apoiadores que a tarefa deles é clara: "Não temos o
peso de governar o país, então temos de reconstruir nossas comunidades".
E
prosseguiu: "Nós nunca desistimos — isso é algo que as pessoas sabem sobre
nós: nunca desistimos. Os dias que virão serão para curar nossas feridas".
No
poder desde 2010, Órban contou com o apoio tanto do presidente dos Estados
Unidos, Donald Trump,
quanto do líder da Rússia, Vladimir
Putin.
Em meio
à possibilidade de derrota de Orbán, Trump enviou, nesta semana, o
vice-presidente dos EUA, J.D. Vance, à capital húngara, Budapeste, para
participar de um comício em uma clara demonstração de apoio à candidatura do
aliado.
"Eu
amo a Hungria e amo Viktor. Eu digo a vocês que ele é um homem
fantástico", disse Trump por telefone durante um comício da campanha.
"Sou um grande fã de Viktor e estou com ele até o fim", completou
Trump.
No
Brasil, o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) é um admirador declarado do modelo
de Orbán de governar. Durante uma visita a Budapeste em 2022, Bolsonaro o
chamou de "irmão"
"Prezado
Orbán, trato como irmão, dada a afinidade que temos na defesa dos nossos
povos", disse Bolsonaro à época.
Há
muito tempo, Orbán era considerado uma pedra no sapato da União
Europeia e um dos poucos líderes do bloco que não apoia a Ucrânia.
Para o
crescente grupo de partidos nacionalistas da Europa,
no poder ou prestes a chegar ao poder, Orbán é um modelo.
Logo
após o reconhecimento da derrota, líderes europeus correram para parabenizar
Magyar .
"O
coração da Europa está batendo mais forte na Hungria esta noite", escreveu
a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, nas redes sociais.
"A Hungria escolheu a Europa. A Europa sempre escolheu a Hungria".
"A
Hungria falou", disse o chanceler da Alemanha, Friedrich Merz, que afirmou
esperar trabalhar com Péter Magyar "em direção a uma Europa forte, segura
e, acima de tudo, unida".
Pedro
Sánchez, premiê da Espanha, disse que "hoje a Europa vence e os valores
europeus vencem", enquanto o presidente francês, Emmanuel Macron, saudou o
que chamou de "vitória da participação democrática de Magyar, o
compromisso do povo húngaro com os valores da União Europeia e o compromisso da
Hungria com a Europa".
Keir
Starmer, primeiro-ministo do Reino Unido, classificando a vitória eleitoral de
Magyar como um "momento histórico, não apenas para a Hungria, mas para a
democracia europeia".
Em
Budapeste, Magyar disse aos apoiadores no discurso de vitória que a Hungria
quer voltar a ser um país europeu, enquanto a multidão irrompe em gritos de
"russos, vão para casa".
<><>
Proximidade com Bolsonaro
No
Brasil, a derrota de
Orbán é interpretada pelo governo Lula como a derrota de um
antigo aliado de Jair Bolsonaro, que cumpre pena de 27 anos de prisão por
crimes como tentativa de golpe de Estado e tentativa de abolição violenta do
Estado democrático de direito.
Bolsonaro
segue sendo a principal liderança da direita no Brasil, mesmo enquanto cumpre
sua pena - em regime de prisão domiciliar temporária em razão de problemas de
saúde.
A
proximidade política entre Bolsonaro e Orbán ficou evidente em 2022, quando o
brasileiro foi à Hungria fazer uma visita de Estado ao primeiro-ministro.
Durante
o encontro, os dois trocaram elogios e Bolsonaro chegou a chamá-lo de
"irmão".
"Prezado
Orbán, trato como irmão, dada a afinidade que temos na defesa dos nossos
povos", disse Bolsonaro à época.
Em
março de 2024, em meio às investigações da Polícia Federal contra Bolsonaro, o
ex-presidente dormiu durante duas noites na Embaixada da Hungria, em Brasília.
O
episódio foi revelado pelo jornal The New York Times. Mais tarde, em 2025, o
caso foi citado pelo ministro do STF, Alexandre de Moraes, como uma das
justificativas para negar um pedido de prisão domiciliar feito pela defesa de
Bolsonaro.
O caso
foi apontado como um indício de que Bolsonaro poderia tentar pedir asilo em uma
embaixada estrangeira para fugir de um eventual pedido de prisão das
autoridades brasileiras.
Os
advogados de Bolsonaro, no entanto, rebateram as suposições de que a passagem
do ex-presidente pela embaixada tivesse o intuito de obter uma fuga.
"Não
há, portanto, razões mínimas e nem mesmo cenário jurídico a justificar que se
suponha algum tipo de movimento voltado a obter asilo em uma embaixada
estrangeira ou que indiquem uma intenção de evadir-se das autoridades legais ou
obstruir, de qualquer forma, a aplicação da lei penal", disse a defesa em
documento enviado ao STF naquela ocasião.
A
proximidade entre os dois continuou ao longo dos anos.
Em
julho de 2025, antes do julgamento de Bolsonaro pelo Supremo Tribunal Federal
(STF), Orbán saiu em defesa do ex-presidente.
"Continue
lutando, @jairbolsonaro! Ordens de mordaça, proibições em redes sociais e
julgamentos motivados politicamente são ferramentas do medo, não da justiça.
Você pode colocar uma tornozeleira eletrônica em um homem, mas não na vontade
de uma nação!", disse Orbán em uma publicação no X (antigo Twitter).
¨
Quem é Péter Magyar, ex-aliado de Orbán que derrotou
premiê da Hungria após 16 anos
"Agora
ou nunca", vinha dizendo Péter Magyar aos húngaros durante sua incansável
campanha pelo país rumo às eleições deste domingo (12/4).
E ele
conseguiu. Era noite em Budapeste quando o primeiro-ministro
da Hungria, Viktor Orbán, reconheceu a derrota para Magyar, a
primeira desde sua primeira vitória em quatro eleições consecutivas, em 2010.
Com
isso, Magyar se tornará o novo premiê do país.
O
slogan de Magyar vem da convocação feita por um poeta revolucionário húngaro do
século 19, para que as pessoas se mobilizassem em defesa da pátria.
E,
depois de mais de 100 eventos de campanha, sua mensagem foi abreviada para
"Agora". A premência levou à supressão da expressão "ou
nunca".
Magyar
se programou para visitar todos os 106 distritos eleitorais da Hungria, com
quatro, cinco e até seis comícios por dia.
Ele
formou uma poderosa base
de apoio em mais de dois anos percorrendo o país, incluindo até
mesmo as pequenas vilas e aldeias tradicionalmente dominadas pelo Fidesz.
No ano
passado, ele andou 300 km da capital húngara, Budapeste, até a fronteira com a
Romênia, em uma campanha para "reunir" a nação, tentando trazer
eleitores do Fidesz para o seu lado.
Magyar
promete combater a corrupção, melhorar a economia e buscou atrair a
desfavorecida comunidade
roma da Hungria. Ele também prometeu destravar bilhões de euros
em fundos da União Europeia, que foram congelados devido a receios em relação
ao Estado de direito no país.
Mas
Orbán o descreve como "marionete" da União Europeia e da Ucrânia. Por
isso, Magyar teve o cuidado de não se aproximar demais de Bruxelas. "Somos
o verdadeiro partido da paz", prometeu ele aos eleitores.
Sua
autoconfiança decorre de um profundo conhecimento do seu adversário.
Até
fevereiro de 2024, Magyar fazia parte da família do Fidesz. Ele entrou para o
partido na universidade e se casou com uma das suas estrelas em ascensão —
Judit Varga, com quem teve três filhos.
Até que
Magyar surpreendeu os húngaros com uma aparição ao vivo em um canal do YouTube
pró-oposição chamado Partizán.
Em um
país de 9,6 milhões de habitantes, um milhão de pessoas assistiram ao solene
Péter Magyar explicando por que desistiu do seu partido.
"Todos
me aconselharam contra isso, amigos, familiares, conhecidos", contou ele
ao apresentador Márton Gulyás. "Obviamente, estive no sistema, neste
círculo, por muito tempo."
A
Hungria estava em meio a um escândalo. A presidente Katalin Novák concedeu
perdão a um homem que havia ajudado a encobrir abusos sexuais em uma casa de
acolhimento infantil administrada pelo Estado húngaro.
Ela
renunciou e também a, agora, ex-esposa de Magyar. Varga havia sido ministra da
Justiça e foi uma das signatárias do perdão.
Com
isso, duas mulheres importantes do Fidesz levaram a culpa pelo episódio.
Varga
tinha como destino ocupar grandes cargos no partido e havia deixado seu posto
de ministra para chefiar a campanha do Fidesz para as eleições europeias. Mas
aquele foi o fim da sua carreira.
Agora,
ela não fazia mais parte da máquina do Fidesz e Magyar percebeu que aquele era
o seu momento.
"Não
quero fazer parte de um sistema em que as pessoas que realmente detêm o poder
se escondem atrás das saias das mulheres", escreveu ele no Facebook.
Mais
para o fim da sua entrevista ao Partizán, Magyar expressou sua esperança em
mudanças políticas, percebendo que isso seria muito difícil enquanto Orbán
ainda estivesse no poder.
Ele se
queixou de que a oposição daquele momento era totalmente inepta e, por isso, a
mudança teria que vir de dentro. Mas ele previu que, um dia, haveria mudanças e
que, quando elas viessem, poderiam ser rápidas.
Sua
entrevista no YouTube viralizou.
"Não
foi uma jogada planejada", contou ele posteriormente à BBC.
"Minha
mãe me ligou para que eu não fosse, mas fiz o contrário. Todos conheciam a
situação na Hungria. Não é muito seguro ir contra o governo."
O
casamento de Péter Magyar se desfez em 2023, mas ele continuou sendo uma figura
importante no Fidesz, mesmo sendo pouco conhecido pelo público em geral.
Magyar
se encaixava naturalmente entre os conservadores sociais de Orbán.
Filho
de dois advogados (sua mãe era juíza de alto escalão), Péter Magyar também tem
um ex-presidente da Hungria como padrinho e se interessa muito pela política
desde jovem.
Ele
cursou o ensino médio em uma escola católica de elite para meninos, perto do
centro de Budapeste. Depois, ele estudou Direito em uma universidade católica,
também na capital, durante o primeiro mandato de Orbán como primeiro-ministro
(1998-2002).
Magyar
entrou no partido após a derrota eleitoral de Orbán. Já a mulher com quem ele
se casou, Judit Varga, era destinada ao sucesso no Fidesz e se tornou ministra
da Justiça em 2019, nove anos depois do retorno de Orbán ao cargo.
Magyar
se tornou diplomata na missão permanente da Hungria em Bruxelas.
Posteriormente, ele dirigiu a equipe de Orbán junto ao Parlamento Europeu e
também foi diretor de empresas estatais.
Seu
descontentamento com o partido cresceu gradualmente.
"Depois
de um certo tempo, fiquei cada vez mais crítico, abertamente e entre meus
amigos. Posso dizer a você que o Fidesz que vemos hoje é muito, muito diferente
daquele no qual entrei em 2002."
"Os
políticos sempre me disseram que isso é necessário para manter o poder e eu
aceitei por algum tempo. Mas é claro que a reviravolta se deu em 2024",
contou ele ao correspondente da BBC em Budapeste, Nick Thorpe.
Por um
certo tempo, Magyar receava ter cometido um erro. "Tenho três filhos, eu
os amo muito e também fiquei muito preocupado com o futuro deles", ele
conta.
Se a
entrevista no YouTube foi a reviravolta, o próximo grande momento viria em 15
de março de 2024, um feriado nacional que marca o aniversário da fracassada
revolução húngara de 1848.
Enquanto
Orbán falava na escada do Museu Nacional em Budapeste, condenando a UE e
convocando a "ocupação de Bruxelas", Péter Magyar se dirigia a um
público estimado de 10 mil pessoas, invocando principalmente a corrupção e a má
gestão da economia.
Ele
anunciou que estava formando um novo partido, poucas semanas antes que os
húngaros votassem nas eleições europeias.
Magyar
reforçou suas acusações de corrupção, divulgando uma gravação secreta de uma
conversa com sua ex-esposa em 2023, na qual ela fala sobre um importante
julgamento.
Judit
Varga declarou ter ficado chocada com as ações de Magyar. Ela o acusou de
abuso, o que ele nega.
Magyar
também rompeu com um ex-amigo. Ministro de Orbán, Gergely Gulyás declarou que
Magyar "primeiro, trai sua família e, depois, trai o seu país como agente
de Bruxelas".
Questionado
sobre seu desafiante, Orbán respondeu à BBC: "Ele saiu do Fidesz e isso é
tudo."
O
ex-marido de Varga continuava avançando politicamente e formando novas
amizades, incluindo o popular ator Ervin Nagy.
Magyar
assumiu um partido dormente chamado Tisza e ganhou 29,6% dos votos e sete
cadeiras no Parlamento Europeu. O Tisza ficou bem atrás do partido governista
Fidesz, de Orbán, com 44,8%. Mas Magyar marcou forte presença.
No
outono de 2024, seu novo partido estava à frente do Fidesz nas pesquisas e ele
criticou severamente os estreitos laços de Orbán com a Rússia, quando ambos
lideraram marchas rivais marcando o levante húngaro de 1956 contra a União
Soviética.
Orbán
rotulou o Tisza de "belicista", evocando uma "marcha de guerra a
Bruxelas". E Magyar insultou o primeiro-ministro, ao dizer que, em 1989,
ele convocou as tropas russas a sair da Hungria e, agora, desprezava o legado
de 1956 por ser, segundo ele, "o aliado mais leal do Kremlin".
"Sr.
primeiro-ministro, por que o sr. não diz mais 'russos, vão para casa'?",
perguntou ele.
Magyar
não é liberal. Ele ridicularizou abertamente a oposição liberal que tentou
derrubar Orbán no passado e acabou com o líder do Fidesz conquistando a maioria
de dois terços do parlamento, necessária para moldar a Constituição do país.
Uma das
razões para o seu sucesso é a demolição dos antigos partidos fragmentados de
oposição. Ele considera que o ex-primeiro-ministro socialista Ferenc Gyurcsány
(2004-2009) não é melhor do que Orbán.
Magyar
também não teve medo de enfrentar os novos órgãos de imprensa pró-Orban que
dominam o cenário midiático da Hungria. No início deste ano, ele alegou ter
sido alvo de uma tentativa de campanha de difamação "no estilo
russo", envolvendo uma fita de sexo.
Jornalistas
receberam uma imagem de câmera de segurança em preto e branco, aparentemente
mostrando drogas sobre uma mesa, perto de uma cama. Sob a insinuação de que
outras filmagens estariam por vir, Magyar decidiu se antecipar.
Ele
admitiu ter tido sexo consensual com uma ex-namorada, mas afirmou
categoricamente não ter tocado em nada sobre a mesa. Ele disse ter sido atraído
para uma "armadilha" montada pelos serviços secretos.
"Minha
consciência está limpa", declarou ele.
Posteriormente,
ele destacou que havia feito um teste de drogas em 22 de março para provar que
não havia consumido substâncias nos últimos meses. E indicou ter tido outros
resultados negativos no passado.
Até o
momento, nenhuma das acusações e farpas dirigidas a Péter Magyar permaneceu. E
ele acredita que sua antiga função de consultor do Fidesz oferece a ele uma
vantagem.
"Eu
os conheço, conheço seus truques", afirmou ele. "Sei que eles estão
muito assustados."
"Esta
é uma oportunidade única na vida, não para Péter Magyar, mas para o país",
concluiu o então candidato.
Fonte:
BBC News Budapeste

Nenhum comentário:
Postar um comentário