Minerais
críticos têm boom em cinco anos e cercam 278 terras indígenas
AO
MENOS 278 terras indígenas estão cercadas por requerimentos de exploração dos
chamados “minerais críticos” — elementos essenciais para tecnologias avançadas,
energia renovável e indústria bélica. Esse total representa 44% das áreas
indígenas do país.
Os
achados integram o Observatório da Transição Energética, projeto de jornalismo
de dados da Repórter Brasil, do Inesc (Instituto de Estudos Socioeconômicos) e
do PoEMAS (Grupo de Pesquisa e Extensão Política, Economia, Mineração, Ambiente
e Sociedade), que monitora os impactos socioambientais de empreendimentos
ligados à transição energética.
O
avanço da exploração desses minerais pode converter terras indígenas em “zonas
de sacrifício” em nome da transição energética e da redução da dependência de
combustíveis fósseis, avalia a Apib (Articulação dos Povos Indígenas do
Brasil).
Segundo
a organização, esse movimento se insere num contexto de pressão de empresas e
políticos para regulamentar a mineração em áreas indígenas, atualmente em
discussão no Congresso Nacional e no STF (Supremo Tribunal Federal).
“Terra
nenhuma pode ser destruída para avançar em uma transição por energias,
teoricamente limpas, mas que na prática deixam rastros de destruição”, alerta a
organização no relatório ‘Desmascarando o lobby mineral em terras indígenas no
Brasil’, lançado na quarta-feira (8) durante a 22ª edição do ATL (Acampamento
Terra Livre), a maior mobilização indígena do país.
“Expandir
a mineração em TIs com essa justificativa é uma contradição moral, política e
social”, continua o documento.
Segundo
dados da ANM (Agência Nacional de Mineração), o Brasil tem 29.213 requerimentos
de uma lista de 27 minerais essenciais para eletrificação, incluindo lítio,
cobre, estanho e terras raras. Metade dos pedidos foi protocolada entre 2021 e
2025. Foram considerados tanto os requerimentos em fases iniciais (91% do
total), quanto os já em operação (9%).
Ao
cruzar os dados minerários com as bases de territórios da Funai (Fundação
Nacional dos Povos Indígenas), o Observatório identificou 2.055 requerimentos
sobrepostos ou a menos de 10 km de distância de 278 terras indígenas. Levando
em conta apenas os processos minerários em operação, a plataforma identificou
38 territórios já afetados pelos minerais críticos.
O
levantamento mostra ainda que a Terra Indígena Kiriri de Caldas, no sul de
Minas Gerais, é a mais afetada por processos de minerais críticos já em
operação.
O
território, ainda em regularização, está sobreposto ou cercado por 55 áreas
minerárias. Na sequência aparecem as terras Kayapó (PA), com 19 requerimentos
em operação, Apyterewa (PA), com 16, e Uru-Eu-Wau-Wau (RO), com 11.
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Lobby mineral avança no Congresso, segundo Apib
A
mineração é um dos temas centrais do ATL 2026, que reúne cerca de 7 mil
indígenas de 200 povos em Brasília. Embora a transição para fontes renováveis
seja vista como essencial para reduzir a dependência de combustíveis fósseis, a
Apib alerta que esse discurso tem sido usado para legitimar a exploração de
terras indígenas e “consolidar zonas de sacrifício” nesses territórios.
O
relatório da Apib destaca que, no ano passado, o presidente do Senado, Davi
Alcolumbre (União Brasil-AP), criou um grupo de trabalho para discutir a
regulamentação da mineração em terras indígenas. O grupo é coordenado pela
senadora Tereza Cristina (PP-MS), vice-presidente da Frente Parlamentar da
Agropecuária. Para a Apib, o grupo atuaria como um espaço do “lobby
agromineral” no Legislativo.
“A
cobiça mineral sobre as Terras Indígenas não é um fenômeno recente, mas sua
intensidade flutua a depender dos sinais políticos emitidos em Brasília”, diz o
relatório da Apib.
A
organização também critica uma decisão liminar (provisória) de fevereiro do
ministro do STF Flávio Dino. A medida deu prazo de 24 meses para o Congresso
aprovar lei regulamentando a exploração mineral em terras indígenas. Na mesma
decisão, Dino autorizou o povo Cinta-Larga, de Rondônia, a minerar diamantes em
suas terras. O assunto ainda será debatido no plenário do Supremo.
A APIB
criticou a decisão de Dino, alegando que o Supremo não consultou os povos
indígenas a respeito do assunto. Para a organização, uma “atividade de
comprovada destruição de terras indígenas e do meio ambiente” pode ser aprovada
no país a partir do pedido de apenas uma única associação indígena, “sem
consulta adequada aos 391 povos indígenas do país para entender se, de fato,
essa é uma vontade unificada dos nossos povos”.
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Combater as mudanças climáticas ou fazer negócios?
Os
chamados minerais críticos — ou minerais para eletrificação — são considerados
estratégicos para a transição energética por seus usos em produtos de alta
tecnologia, como chips, torres eólicas, painéis solares e baterias de veículos
elétricos. Sua demanda é puxada também pela indústria bélica, pois eles são
aplicados em equipamentos militares, em um contexto de gastos globais recordes
com defesa.
Entre
os minerais, destacam-se o lítio e as terras raras. Estados Unidos e China
disputam a exploração desses metais. Na semana passada, o pré-candidato à
Presidência da República Flávio Bolsonaro (PL) disse que o Brasil é “a solução
para os Estados Unidos quebrar a dependência da China por minerais críticos,
especialmente terras raras”.
A
Agência Internacional de Energia projeta alta da demanda até 2040: a procura
por terras raras deve crescer entre 50% e 60%, enquanto a do lítio pode
quintuplicar.
A
corrida já se reflete no Brasil, que abriga a segunda maior reserva de terras
raras e a sexta maior de lítio do mundo, segundo o Ministério de Minas e
Energia.
Dos
2.259 pedidos para explorar terras raras, 89% foram protocolados nos últimos
cinco anos, segundo dados da ANM analisados pela Repórter Brasil. No caso do
lítio, 94% dos cerca de 4 mil pedidos minerários foram solicitados no mesmo
período.
Para a
Apib, esse avanço reforça a necessidade de proteger as terras indígenas já
regularizadas e acelerar a demarcação de novos territórios. “Demarcação é
mitigação”, afirma o relatório da organização.
O
documento sustenta que parte das elites econômicas tem tratado a crise
climática menos como um problema planetário e mais como uma “oportunidade de
negócios”. “Esses atores estão readaptando os interesses capitalistas pela
exploração extrativista agora em nome da descarbonização”, diz.
• Itália é cobrada por indícios de
importação de ouro ilegal do Brasil
DEPUTADOS
ITALIANOS pediram explicações ao governo da primeira-ministra da Itália,
Giorgia Meloni, sobre as ações adotadas pelo país para combater a importação de
ouro do Brasil com indícios de ilegalidade. O pedido cita reportagens
publicadas pela Repórter Brasil sobre como refinarias do país adquiriram ouro
de empresas investigadas por envolvimento com garimpos ilegais na Amazônia.
A
interrogação parlamentar – nome técnico do pedido – foi apresentada em 31 de
março pelo deputado Angelo Bonelli, da coalizão Alleanza Verdi e Sinistra
(Aliança Verdes e Esquerda). O texto é assinado por outros sete parlamentares
da coalizão e endereçado aos ministros do Interior, da Economia e Finanças, do
Meio Ambiente e Segurança Energética e dos Negócios Estrangeiros.
Os
parlamentares querem saber se os atuais instrumentos de rastreabilidade e
verificação italianos são adequados para enfrentar o risco de importação de
ouro ligado a crimes ambientais, falsificação de documentos e violações dos
direitos dos povos indígenas. A interrogação também questiona quais iniciativas
o governo pretende assumir, inclusive no âmbito diplomático, para evitar que a
Itália seja um destino do ouro extraído ilegalmente da Amazônia.
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Fornecedores investigados
Em
junho de 2025, uma reportagem mostrou que a refinaria italiana Italpreziosi
adquiriu o minério de uma importadora investigada em um esquema de extração
ilegal de ouro em Itaituba, no Sudoeste do Pará. De acordo com as investigações
policiais, o esquema criminoso era formado por empresas brasileiras que criavam
notas fiscais falsas, inclusive em nome de pessoas já falecidas, para mascarar
a real origem do minério. A investigação aponta que parte do produto foi
extraída de garimpos ilegais na Terra Indígena Munduruku.
Já em
maio de 2024, a Repórter Brasil mostrou que uma carga de 5kg de ouro em pó
misturada a 15 toneladas de carvão havia sido comprada por outra refinaria
italiana, a Safimet, especializada no refino de metais preciosos. Após
identificarem o ouro não declarado na carga, a Receita Federal no Porto de
Santos barrou a exportação para a Itália. Apesar de responder por apenas 0,03%
do volume total da carga, a quantidade de ouro poderia render R$ 1,9 milhão,
quase três vezes mais que o valor do carvão declarado na nota fiscal do
produto.
Três
anos antes, a refinaria Chimet, gigante italiana de metais preciosos sediada em
Arezzo, na Toscana, foi apontada em investigações policiais como compradora de
ouro extraído ilegalmente da Terra Indígena Kayapó, no Sul do Pará. O esquema
foi desnudado na Operação Terra Desolata, conduzida pela Polícia Federal. A
Repórter Brasil mostrou que a Chimet figurava na rede de fornecedores de
empresas como Apple, Google e Microsoft.
As três
empresas foram ouvidas pela Repórter Brasil à época da publicação das
reportagens. A Italpreziosi afirmou que não identificou nenhuma suspeita de
ilegalidade no ouro adquirido da empresa importadora investigada pelas
autoridades. A Safimet, por sua vez, disse que fez uma única compra junto à
empresa brasileira alvo da fiscalização no Porto de Santos e que desfez o
negócio após a apreensão do material pela Receita Federal. Já a Chimet
sustentou que suas compras de ouro são acompanhadas de documentação que atesta
a procedência lícita do metal, mas reconheceu “o risco de que efeitos negativos
possam ser associados ao comércio e exportação de minerais de áreas de alto
risco”.
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MPF abriu investigação
Em
dezembro de 2025, o MPF (Ministério Público Federal) no Amazonas abriu um
inquérito para investigar as ações do Estado brasileiro, da ANM (Agência
Nacional de Mineração) e de outras entidades e órgãos públicos para o combate à
exportação irregular de ouro.
As
refinarias italianas não são alvo da investigação, mas o acúmulo de denúncias
levou o órgão a incluir um pedido de explicações para entender o que países
como a Itália e a Suíça estão fazendo para impedir a entrada de ouro extraído
ilegalmente da Amazônia em seus territórios.
Em
março deste ano, o MPF enviou um pedido de esclarecimentos à embaixada italiana
em Brasília. O mesmo pedido foi enviado às embaixadas de Suíça, Bélgica e Reino
Unido. Na interrogação parlamentar, os deputados questionam se governo italiano
está ciente desse pedido.
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Resposta pode demorar – ou nunca ser respondida
Os
ministros têm 20 dias para responder a uma interrogação parlamentar. Mas nem
sempre isso acontece. Algumas vezes, as interrogações ficam anos esperando uma
resposta. Foi o que ocorreu quando o mesmo tema chegou ao parlamento italiano
pela primeira vez, em 2022.
Em
setembro de 2021, quando a Operação Terra Desolata veio a público e revelou o
esquema que conectava garimpeiros clandestinos da Amazônia à Chimet, o
escândalo chegou a terras italianas não apenas pela imprensa, mas pelos canais
oficiais.
Em
fevereiro de 2022, o deputado Devis Dori, que também assina a interrogação
deste ano, e outros três parlamentares, todos da coalizão Aliança Verdes e
Esquerda, protocolaram uma interrogação parlamentar endereçada aos mesmos
ministérios. À época, os deputados queriam saber se o governo estava ciente dos
fatos revelados pela operação e quais iniciativas pretendia adotar para
combater o comércio ilegal de metais preciosos.
Quatro
anos depois, a interrogação continua sem resposta. Procurado pela reportagem,
Dori disse nunca ter recebido qualquer resposta do governo àquela interrogação.
Ele lembrou que o primeiro-ministro da época, Mario Draghi, permaneceu apenas
cinco meses no cargo.
O
colega Cristian Romaniello, que assinou a interrogação de 2022, também nunca
recebeu resposta. “Era o governo Draghi, mas não quer dizer que a interrogação
não pudesse ter sido respondida pelos governos sucessivos”, explicou o
deputado.
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Arquivamento de denúncia contra a Chimet
Na
mesma época, o deputado Angelo Bonelli, o mesmo que agora lidera a interrogação
apresentada este ano, formalizou, em fevereiro de 2022, uma denúncia à
Procuradoria da República de Arezzo, cidade onde a Chimet está sediada. A
denúncia pedia a abertura de uma investigação para apurar se as acusações da
Polícia Federal brasileira encontravam respaldo na Itália.
Em
resposta à Repórter Brasil, a procuradoria de Arezzo afirmou que a denúncia foi
registrada como “fatti non costituenti reato” (“fatos que não constituem
crime”, na tradução para o português) e arquivada em maio de 2022.
Nem o
próprio parlamentar Bonelli sabia que a denúncia havia sido arquivada. Ao ser
informado pela reportagem, o deputado disse que o principal entrave para
investigações sobre a aquisição de ouro ilegal na Itália está na
rastreabilidade. Segundo ele, quando o ouro entra com documentação formal
brasileira, contestar a origem se torna difícil.
“Se não
se identificam os responsáveis, o ciclo continua”, afirmou. Na avaliação do
deputado, a Europa ainda falha ao não impor controles mais rígidos sobre
matérias-primas vindas de áreas marcadas por exploração e desmatamento.
Fonte:
Reporter Brasil

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