Professor
de Harvard revela o que é mais importante na educação de crianças
Relações
humanas e interações simples são o bem mais valioso na primeira infância. É
isso o que defende, após extensas pesquisas, o professor de Harvard Junlei Li,
coordenador do curso de Desenvolvimento Humano e Educação da Harvard Graduate
School of Education. Os estudos do professor se concentraram em experiências na
China e nos Estados Unidos, mas trazem evidências que permitem a aplicação em
qualquer país, inclusive no Brasil. Ele defende que a qualidade não depende
necessariamente de grandes investimentos, mas da forma como adultos e crianças
interagem no cotidiano. No Brasil a convite do Núcleo Ciência pela Infância,
para participar do 11° Simpósio Internacional de Desenvolvimento da Primeira
Infância, em Teresina, Li conversou com exclusividade com o Correio e explicou
que simples ações, como acolher o choro e abraçar podem trazer impactos
duradouros e eficazes no desenvolvimento infantil.
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Confira os principais trechos da entrevista:
• Qual
é o objetivo da sua visita ao Brasil?
O que
me traz aqui é um tema comum entre o trabalho da fundação (Maria Cecília Souto
Vidigal) aqui no Brasil e o meu próprio trabalho nos Estados Unidos e na China,
que tem a ver com duas palavras: uma é qualidade e a outra é equidade na
primeira infância. E eu acho que o propósito da fundação aqui no Brasil, assim
como o do meu trabalho, é tentar unir essas duas coisas. Muitas vezes, esforços
para melhorar a qualidade da primeira infância nem sempre resultam em equidade.
O que acontece frequentemente é que comunidades com muitos recursos acabam
tendo muito acesso a oportunidades de alta qualidade, enquanto locais com menos
recursos têm acesso limitado a essas mesmas oportunidades. Esse é um desafio em
países grandes como os Estados Unidos e a China, e entendo que existam desafios
semelhantes aqui no Brasil.
• E
quais são esses desafios que consegue perceber em suas pesquisas na China e nos
Estados Unidos?
Esta
pode ser uma resposta incomum, mas, quando se trata de primeira infância, acho
que o maior desafio que vi, tanto na China quanto nos EUA, é que não parecemos
dar atenção suficiente às necessidades dos adultos na vida das crianças
pequenas.E com isso quero dizer suas famílias, cuidadores e educadores que as
apoiam quando elas estão longe de suas famílias.
• E
qual é o principal problema que esses adultos enfrentam?
Acho
que o ponto principal é transmitir — talvez tanto na ciência quanto no senso
comum — uma ideia básica. O que sabemos na ciência sobre a primeira infância é
que, além de comida, segurança e abrigo, a coisa mais importante para o
desenvolvimento saudável de qualquer criança é a qualidade das relações humanas
que ela tem com a família, com os professores e com outras crianças. Isso é o
mais importante. Se partirmos dessa ciência, naturalmente chegamos à conclusão:
se você quer que essa relação seja saudável, precisa cuidar da saúde e do
bem-estar de ambos os lados dessa relação. Um lado é a criança e o outro é o
adulto — a família, os pais e assim por diante. Nos Estados Unidos, por
exemplo, descobrimos consistentemente que metade dos educadores infantis lutam
com desafios de saúde física e mental. Às vezes as pessoas perguntam qual
medida indica se estamos indo bem nas políticas de primeira infância. Focamos
muito em medidas de desenvolvimento infantil, como alfabetização. Para mim, a
medida é esta: se eu sei que metade das pessoas que trabalham na área não se
sentem bem física ou mentalmente, o sistema não pode ser bom. É impossível ter
um bom sistema quando a maioria dos adultos que trabalham nele está sofrendo.
"“O
que sabemos na ciência sobre a primeira infância é que, além de comida,
segurança e abrigo, a coisa mais importante para o desenvolvimento saudável de
qualquer criança é a qualidade das relações humanas que ela tem com a família,
com os professores e com outras crianças
• E
por que eles sofrem?
Acho
que por três motivos. O primeiro é remuneração. Em todo o mundo, profissionais
da primeira infância são alguns dos mais mal pagos, mesmo dentro do mundo da
educação. Eles sofrem o estresse que a baixa renda traz. Em segundo lugar,
falta de reconhecimento. É um trabalho difícil, exige muita energia física e
emocional, mas eles não se sentem valorizados ou respeitados como profissionais
com expertise. E, por último, invisibilidade. Muitas vezes descrevemos
políticas e investimentos na primeira infância como se os educadores nem
existissem. Falamos sobre o cérebro da criança ou o futuro econômico do país,
mas esquecemos dos seres humanos que doam seus corpos e corações diariamente
nesse trabalho exaustivo.
• Quando
o senhor fala em interações simples e humanas, o que quer dizer com isso? Por
que elas são tão importantes?
A
palavra importante é simples: são interações comuns e cotidianas. Além de
segurança e comida, o ambiente de desenvolvimento de uma criança é feito de
relacionamentos. E relacionamentos de alta qualidade são construídos com
pequenas interações diárias. Não estou falando de festas de aniversário caras
ou férias espetaculares. Estou falando de alimentar o bebê, trocar a fralda,
dar banho, ajudar a abotoar o casaco, consolar quando choram à noite. Coisas
comuns. A ideia das interações simples é oferecer reconhecimento aos pais e
educadores pelo que eles já fazem todos os dias. Se eu disser a um pai que não
sabe ler que "ler é o mais importante", ele talvez se sentirá
incapaz. Mas se eu disser: "A forma como você troca a fralda do seu filho
constrói o vínculo entre vocês", isso muda tudo. Sempre que falo com
governantes começo mostrando vídeos dessas interações simples. Se o formulador
de políticas puder ver a interação, ele poderá valorizá-la. E se ele valorizar
a interação, poderá considerar as necessidades do adulto envolvido, tornando-o
visível no sistema.
• O
investimento financeiro é crucial, mas essa mudança cultural entre os
formuladores de políticas também é, especialmente para comunidades vulneráveis,
certo?
Com
certeza. Para crianças em vulnerabilidade, esses relacionamentos são ainda mais
vitais. Eles criam uma "camada protetora". Existe o termo
resiliência. Antigamente, pensava-se que resiliência era um traço de
personalidade: ou você tem ou não tem. Mas a ciência mostra que o que ajuda uma
criança a ser resiliente não é apenas sua personalidade, mas, sim, ter
relacionamentos humanos saudáveis — ao menos um ou dois — que a apoiem durante
as dificuldades.
"“Antigamente,
pensava-se que resiliência era um traço de personalidade: ou você tem ou não
tem. Mas a ciência mostra que o que ajuda uma criança a ser resiliente não é
apenas sua personalidade, mas, sim, ter relacionamentos humanos saudáveis”
• Pais
e escolas sentem muita pressão para incluir a tecnologia no cotidiano das
crianças cada vez mais cedo. Qual é a sua dica?
A
pergunta típica que se faz é: "O que a tecnologia pode fazer?". Mas
essa deve ser a pergunta secundária. A primeira pergunta deve ser: "O que
os seres humanos podem fazer?". O que um pai ou professor faz que é único?
Só depois disso perguntamos: "Essa tecnologia está ajudando o humano a ser
mais humano ou está substituindo/distraindo o humano?". Com a IA, o foco
está todo no que a máquina faz. Perdemos o foco no que nos torna humanos. O
cuidado real, de pessoa para pessoa, é a coisa mais difícil de a tecnologia
imitar, e eu não acho que ela jamais substituirá isso.
• Baseado
na sua pesquisa nos EUA e na China, que exemplos essas nações poderiam trazer
para nos inspirar aqui no Brasil?
Vou
contar uma história sobre o termo retorno sobre o investimento (ROI, na sigla
em inglês). Os estudos originais sobre isso começaram nos anos 1960, em uma
escola pública nos Estados Unidos em uma comunidade muito pobre. O que os
professores faziam lá? Três coisas: eles não tinham currículo pronto, eles
inventavam atividades interessantes para as crianças, agindo como profissionais
autônomos; eles faziam visitas domiciliares quase toda semana, construindo
confiança com as famílias; e toda sexta-feira à tarde não havia aula: era o
tempo reservado para os professores aprenderem e planejarem juntos. Além disso,
aqueles professores de educação infantil ganhavam o mesmo que os professores do
ensino fundamental. O sucesso do "investimento" veio de três
relações: professor-criança, professor-família e professor-professor. Hoje
falamos de ROI, mas esquecemos de investir nas relações que fazem esse retorno
acontecer.
Fonte:
Correio Braziliense

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