segunda-feira, 13 de abril de 2026

Como guerra no Irã pode levar o mundo a uma nova corrida por armas nucleares

Desde que Estados Unidos Israel iniciaram seus ataques contra o Irã, no fim de fevereiro, uma das justificativas apresentadas tem sido a de impedir que Teerã desenvolva armas nucleares.

No entanto, mais de um mês após o início da guerra, cresce o temor de que uma das consequências do conflito seja exatamente a de desencadear uma corrida nuclear no Oriente Médio e também em outras partes do mundo.

Segundo especialistas em proliferação nuclear ouvidos pela BBC News Brasil, ao observar o cenário atual, não apenas o regime iraniano, mas também outros governos, podem concluir que a melhor garantia contra uma eventual agressão não é a diplomacia ou armas convencionais, mas sim ter uma bomba atômica como salvaguarda contra ataques de adversários poderosos.

Além disso, a guerra vem gerando incertezas sobre a capacidade dos Estados Unidos de garantir a segurança de seus aliados, em um momento em que países no Oriente Médio, dos Emirados Árabes à Arábia Saudita, sofreram ataques de retaliação por parte do Irã.

Nesse cenário, poderia ganhar força a ideia de que é arriscado depender da proteção americana e é preciso ter capacidade nuclear doméstica como fator de dissuasão.

"É tragicamente irônico que uma das justificativas para a guerra tenha sido impedir que o Irã obtivesse a bomba", diz à BBC News Brasil o cientista político Reid Pauly, professor de Segurança e Política Nuclear da Universidade Brown, nos EUA.

"Um governo iraniano que sobreviva a esta guerra certamente fará uma avaliação de como pode se proteger melhor de futuros ataques. E armas nucleares podem ser uma das conclusões a que vão chegar", observa.

"Esta guerra provavelmente deixará no poder um governo iraniano que possui tanto os meios quanto a motivação para adquirir a bomba", continua Pauly, que é autor do livro The Art of Coercion: Credible Threats and the Assurance Dilemma ("A Arte da Coerção: Ameaças Críveis e o Dilema da Garantia", em tradução livre).

O diretor sênior do instituto americano Centro para o Controle de Armas e Não Proliferação, John Erath, vê riscos do que descreve como "a continuação de uma série de decisões equivocadas tomadas por líderes de diversos países".

Erath lembra que negociações sobre o programa nuclear iraniano ainda estavam em curso quando o país foi atacado no ano passado por Israel e Estados Unidos. Neste ano, os ataques novamente começaram em meio a negociações.

"Em vez de esgotarem todas as possibilidades de negociação, Estados Unidos e Israel optaram por atacar o programa nuclear do Irã no ano passado", diz Erath à BBC News Brasil.

"Se essa cadeia de decisões equivocadas persistir, é possível que o Irã conclua que estará mais seguro em posse de armas nucleares e decida fabricá-las", afirma Erath, cuja organização, com sede em Washington, reúne análises e pesquisas sobre controle de armas e não proliferação.

"E a Arábia Saudita já afirmou que, se o Irã possuir armas nucleares, seguirá o mesmo caminho. E alguns outros países da região, talvez, também façam o mesmo."

O príncipe herdeiro Mohammad bin Salman, líder de fato da Arábia Saudita, afirmou mais de uma vez no passado que, caso o Irã desenvolva uma bomba atômica, seu país seguirá o mesmo caminho.

<><> Instalações nucleares e conhecimento científico

O programa nuclear iraniano é uma preocupação antiga de Estados Unidos, Israel e outros aliados.

O Irã é signatário do Tratado de Não Proliferação de Armas Nucleares (TNP), acordo internacional em vigor desde 1970, com adesão de 190 países, que se comprometem em prevenir a proliferação dessas armas e promover o uso de energia nuclear para fins pacíficos.

Teerã sempre negou que estivesse buscando desenvolver armas nucleares e afirmou que seu programa de enriquecimento de urânio tinha fins pacíficos, como o uso em energia, medicina ou agricultura.

Mas as negociações sobre seu programa foram marcadas por desconfiança e divergências sobre fatores como níveis de enriquecimento e mecanismos de monitoramento, entre outros.

Em 2018, no primeiro mandato de Trump, os Estados Unidos se retiraram de um acordo nuclear com o Irã negociado por seu antecessor, Barack Obama.

Acredita-se que, sob o comando do aiatolá Ali Khamenei, líder supremo do Irã morto nos ataques recentes, o país tinha as ferramentas para produzir uma bomba, mas não havia ultrapassado esse limiar.

Diferentes avaliações, entre elas por parte de representantes da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), indicam que não havia evidências de que o Irã estava próximo de fabricar uma bomba.

No entanto, desde os ataques do ano passado, e com mais força após o conflito deste ano, alguns nomes do regime iraniano vêm defendendo que o país se retire do TNP.

"As instalações envolvidas no programa nuclear foram certamente danificadas", observa Erath. "Mas o conhecimento científico para produzir uma arma nuclear ainda existe. Com o tempo, o Irã poderia reconstruir suas instalações e colocar esse conhecimento em prática."

Acredita-se que o Irã ainda tenha urânio altamente enriquecido soterrado sob escombros dos bombardeios. Há preocupação com o que pode acontecer com esse material nuclear em caso de instabilidade interna.

"É preocupante ter presenciado esses ataques militares dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã, pois isso vai claramente contra qualquer objetivo de não proliferação", diz à BBC News Brasil a diretora de políticas da Campanha Internacional para a Abolição de Armas Nucleares (ICAN, na sigla em inglês), Alicia Sanders-Zakre.

"Como resultado dos ataques, inspetores internacionais não conseguem mais acessar o material ou as instalações nucleares do Irã. Isso certamente representa um risco", salienta a diretora da ICAN, coalizão global que foi agraciada com o Prêmio Nobel da Paz em 2017.

"Outra preocupação é que, como resultado dos ataques em meio a negociações em andamento, há um risco real de que o Irã não queira retornar à mesa de negociações e não consiga mais confiar nos parceiros internacionais para negociar de boa fé", observa Sanders-Zakre.

<><> 'Cascata de proliferação'

Pauly, da Universidade Brown, diz que, se o Irã algum dia adquirir uma arma nuclear, há o risco de desencadear "uma cascata de proliferação na região".

Atualmente, é amplamente aceito que nove países têm armas nucleares: Estados Unidos, Rússia, China, França, Reino Unido, Paquistão, Índia, Israel e Coreia do Norte — o governo israelense, no entanto, nunca confirmou oficialmente possuir os armamentos.

Mas pesquisas de opinião em países de diferentes regiões, desde a Coreia do Sul até a Turquia ou Polônia, mostram crescente apoio ao desenvolvimento de capacidade nuclear doméstica.

Muitos consideram este um momento de fragilidade no regime de não proliferação, e citam, entre outros pontos, os esforços da China para expandir e modernizar seu arsenal nuclear e o anúncio recente da França sobre a intenção de ampliar sua capacidade.

"As ações dos nove Estados detentores de armas nucleares, que têm se empenhado em modernizar, aumentar o tamanho de seus arsenais ou desenvolver novos tipos de armas nucleares, enfraqueceram profundamente o regime de não proliferação", salienta Sanders-Zakre.

No início de fevereiro, o chamado Novo START (New Strategic Arms Reduction Treaty, ou Novo Tratado de Redução de Armas Estratégicas), tratado de controle de armas nucleares entre Estados Unidos e Rússia, expirou sem ser substituído, depois de mais de cinco décadas de controle bilateral.

"As vozes que defendem a proliferação nuclear estão ganhando força", observa Erath, do Centro para o Controle de Armas e Não Proliferação, ao destacar três fatores que, segundo ele, estão impelindo o mundo nessa direção.

O primeiro são os esforços da China. "Eles aproximadamente dobraram o tamanho de seu arsenal nuclear na última década e não dão sinais de que vão parar", observa.

O segundo é a guerra da Rússia contra a Ucrânia. "Se a Rússia for capaz de alegar sucesso em sua guerra de agressão, esse triunfo terá sido viabilizado por ameaças nucleares. Isso introduz um novo instrumento de estratégia política que outros países vão desejar."

O terceiro ponto, segundo Erath, é a "percepção de imprevisibilidade dos Estados Unidos", que gera incertezas tanto para adversários quanto para aliados.

"Com incerteza e insegurança presentes, sempre haverá quem considere as armas nucleares como uma possível fonte de segurança adicional", afirma.

<><> Ucrânia, Líbia, Coreia do Norte

Um dos argumentos usados em defesa de desenvolver armas nucleares é o de que, se o Irã já tivesse uma bomba como fator de dissuasão, talvez não tivesse sido atacado.

Antes do conflito no Irã, muitos já citavam o exemplo da Ucrânia, que na década de 1990 abriu mão do terceiro maior arsenal nuclear do mundo, herança da era soviética, em troca de garantias de segurança em um compromisso firmado com Rússia, Estados Unidos e Reino Unido.

Três décadas depois, sem bomba atômica como fator de dissuasão, a Ucrânia foi invadida pela Rússia, uma potência nuclear.

A Líbia é outro exemplo ocasionalmente mencionado, já que abdicou de suas armas nucleares e acabou sofrendo uma mudança de regime.

Como contraste, muitos apontam para a Coreia do Norte, que era signatária do TNP, mas se retirou formalmente em 2003. Hoje, é um dos nove países com armas nucleares e permanece livre de agressão militar.

No entanto, apesar dos temores e sinais atuais, analistas ressaltam que uma nova onda de proliferação não é inevitável.

"Arsenais nucleares são eficazes para dissuasão, mas o caminho para adquirir armas nucleares é repleto de perigos", ressalta Pauly.

"Portanto, pode ser racional para um país decidir confiar apenas em armas convencionais para sua segurança. Armas nucleares podem não valer a dor de cabeça."

Além das dificuldades técnicas, há custos altos envolvidos, entre eles sanções e isolamento.

"Armas nucleares são tremendamente caras, muito difíceis de construir e manter, além de serem perigosas", ressalta Erath.

"Ninguém as constrói por capricho, é preciso que haja uma ameaça existencial para que um país sinta que precisa fabricar armas nucleares", afirma. "Uma corrida armamentista nuclear não é do interesse de ninguém."

Sanders-Zakre considera fundamental que a comunidade internacional se mantenha firme contra as armas nucleares.

"Enquanto alguns países tiverem permissão para possuir armas nucleares, outros também vão considerar fazer o mesmo", afirma. "É por isso que precisamos trabalhar pela abolição total."

¨      A próxima guerra norte-americana. Por Antonio Sérgio Neves de Azevedo

Enquanto Washington mobiliza bilhões para conflitos externos, a crise hídrica interna expõe falhas de investimento e os limites de um modelo que insiste em ignorar a água como ativo estratégico. O dilema entre guerra e água revela, em última instância, uma escolha civilizatória.

Em janeiro de 2026, o Instituto de Água, Meio Ambiente e Saúde da Universidade das Nações Unidas (UNU-INWEH) publicou o relatório Global Water Bankruptcy: Living Beyond Our Hydrological Means in the Post-Crisis Era (“Falência Hídrica Global: Vivendo Além dos Limites Hidrológicos na Era Pós-Crise”), no qual reconhece que o mundo já entrou em uma fase estrutural de esgotamento dos sistemas hídricos.

O conceito introduzido pelo documento é decisivo, não se trata mais de uma crise passageira, mas de um estado em que os sistemas de água deixam de retornar às suas linhas de base históricas. Em termos simples, a humanidade deixou de viver dos “juros” do ciclo hidrológico e passou a consumir o “principal”, isto é, os estoques acumulados ao longo de séculos.

No oeste dos Estados Unidos, esse fenômeno é visível. O Rio Colorado, essencial para cerca de 40 milhões de pessoas, opera sob estresse permanente. A redução da cobertura de neve, o aumento da evaporação e a demanda crescente transformaram um sistema historicamente confiável em um recurso cada vez mais incerto. Os fluxos reais permanecem consistentemente abaixo das alocações pactuadas entre os sete estados da bacia, enquanto os reservatórios, como os lagos Mead e Powell, aproximam-se de mínimas históricas.

Em paralelo, a exploração intensiva de águas subterrâneas compromete reservas que não se regeneram em escala humana. A disputa entre Arizona, Nevada, Califórnia e Colorado pelo que resta do rio não é metáfora, é a materialização contemporânea de conflitos por recursos vitais.

Nesse cenário, a água deixou de ser apenas um insumo ambiental para se tornar uma variável crítica na precificação de risco. Sua escassez já influencia custos de capital, decisões de investimento e a estabilidade de cadeias produtivas. A crise hídrica deixou de ocupar a periferia e passou a integrar o núcleo da economia política contemporânea.

A comparação com os gastos militares divulgados pela mídia é reveladora. Os Estados Unidos destinaram cerca de 188 bilhões de dólares ao conflito na Ucrânia, com dezenas de bilhões em assistência militar direta, além de novos aportes no Oriente Médio. Em contraste, os investimentos em infraestrutura hídrica permanecem insuficientes diante da magnitude do problema, estima-se uma defasagem de 309 bilhões de dólares apenas no setor de água potável, com projeção de atingir 620 bilhões até 2043.

O próprio relatório da ONU-INWEH indica que os danos globais causados por secas já alcançam cerca de 307 bilhões de dólares anuais, valor que rivaliza, por si só, com o esforço de guerra na Ucrânia. A assimetria expõe a diferença entre a velocidade de resposta a ameaças externas e a lentidão diante de riscos internos estruturais.

Os desafios do século XXI, escassez de água, eventos climáticos extremos e degradação ambiental, não apenas coexistem com riscos geopolíticos tradicionais, como tendem a amplificá-los. Ignorar esse vetor é subestimar uma ameaça silenciosa, porém sistêmica.

Além disso, a falência hídrica não se distribui de forma homogênea, seus custos recaem desproporcionalmente sobre populações vulneráveis, enquanto os benefícios do uso intensivo concentram-se em setores específicos. Nos Estados Unidos, isso se traduz em disparidades regionais, aumento de tarifas e maior exposição de comunidades periféricas a riscos sanitários e ambientais.

O custo de oportunidade dessa escolha é elevado. Investimentos em modernização de redes, redução de perdas, reuso, proteção de mananciais e adaptação climática exigem planejamento de longo prazo, exatamente o tipo de agenda que tende a ser postergado.

Nesse contexto, é fundamental avançar no diagnóstico, a privatização da água não se apresenta como solução e pode, ao contrário, agravar o problema estrutural. Isso ocorre por três razões centrais. Primeiro, há uma incompatibilidade entre a lógica de mercado e a natureza da água como bem essencial, insubstituível e de demanda inelástica. Submetida à maximização de lucro, a tendência é a elevação tarifária e a priorização de áreas mais rentáveis, em detrimento da universalização do acesso.

Segundo, a privatização não resolve o principal gargalo do setor, o investimento de longo prazo em infraestrutura resiliente. Operadores privados frequentemente dependem de garantias públicas, subsídios indiretos ou marcos regulatórios protetivos, socializando riscos e privatizando ganhos. Terceiro, a financeirização da água introduz um vetor adicional de instabilidade, ao dissociar valor de uso e valor de troca, incentivando práticas especulativas e ampliando a volatilidade de preços, o que, em contextos de escassez, pode significar exclusão social e insegurança econômica.

Isso não implica negar a importância de ganhos de eficiência, inovação tecnológica ou modelos de gestão mais sofisticados. Implica reconhecer que tais avanços dependem de governança pública presente, regulação eficaz e coordenação de longo prazo, elementos que não podem ser substituídos pela lógica de mercado.

A crise hídrica americana não é isolada. Ela expressa a tensão entre dois modelos de ação estatal, a resposta imediata a conflitos e a antecipação de riscos estruturais. Persistir em uma concepção restrita de segurança, centrada no poder militar, pode significar negligenciar a base material do desenvolvimento.

O Brasil oferece um contraponto relevante. Detentor do Aquífero Guarani e da maior bacia hidrográfica do mundo, o país não está imune a essa lógica. A pressão sobre o Cerrado, o desmatamento na Amazônia e o avanço do agronegócio sobre áreas de recarga hídrica demonstram que a abundância relativa não garante gestão responsável. O que acontece no Colorado é um espelho possível, não uma realidade distante.

Dito isso, a água deixa de ser apenas um insumo ambiental e passa a ser reconhecida como um bem jurídico fundamental, diretamente vinculado ao direito à vida, à saúde e à dignidade humana. Sua escassez impacta não apenas a economia, mas a própria legitimidade das estruturas estatais, ao comprometer a prestação de serviços essenciais.

Recolocar a água no centro da agenda estratégica não é apenas uma inflexão ambiental, é uma exigência imposta pela realidade material. Ao declarar a entrada na era da “falência hídrica global”, o relatório da ONU-INWEH não apresenta um alerta hipotético, mas reconhece uma ruptura concreta, os sistemas hídricos já não conseguem se recompor dentro dos ciclos naturais que sustentaram o desenvolvimento econômico até aqui. A segurança hídrica deixa de ser tema setorial e passa a constituir o núcleo da estabilidade estatal.

Postergar investimentos estruturais em água enquanto se multiplicam despesas militares não é apenas uma assimetria orçamentária, é uma desconexão com o principal vetor de risco do nosso tempo.

O século XXI não será definido apenas por disputas geopolíticas tradicionais, mas pela capacidade dos Estados de administrar seus limites ecológicos. Nesse novo cenário, a água deixa de ser pano de fundo e assume o papel de variável estruturante do poder.

Ignorar esse diagnóstico não é apenas um erro de política pública. É recusar evidências. E, como toda recusa à realidade, cobra um preço.

 

Fonte: BBC News Persa/A Terra é Redonda

 

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