Elisabeth
Lopes: A ruptura necessária do círculo vicioso que sustenta a extrema direita e
o centrão
O
Partido Liberal (PL), legenda do ex-presidente Jair Bolsonaro e de seu filho
Flávio Bolsonaro, pré-candidato à Presidência da República, figura entre os
partidos que concentram o maior montante de recursos do Fundo Eleitoral,
alcançando a cifra de R$ 887 milhões. Trata-se de um fundo integralmente
público, oriundo do Orçamento da União e financiado por impostos pagos pela
população, como o Imposto de Renda (IR) e o ICMS. Para viabilizar esse volume
de recursos, que em 2026 atingiu o total de R$ 4,9 bilhões, o Poder Legislativo
frequentemente promove ajustes orçamentários que acabam por reduzir
investimentos em áreas essenciais, como obras e serviços básicos nos estados.
Esse
poder financeiro se desdobra também no campo da comunicação eleitoral. Ao
concentrar uma das maiores fatias do fundo, o PL assegura igualmente maior
tempo de propaganda em rádio e televisão, beneficiando-se de minutos diários de
exposição, enquanto partidos menores ficam restritos a poucos segundos. Essa
assimetria reforça desigualdades significativas na disputa eleitoral, ampliando
o alcance de quem já detém maior poder político.
Ao
mesmo tempo, o PL também lidera o valor oriundo do Fundo Partidário. Após o
encerramento da janela partidária, a legenda passou a contar com 97 deputados,
o que amplia ainda mais sua participação na divisão desse recurso. Assim como
ocorre com o Fundo Eleitoral, a distribuição não é equitativa: apenas uma
parcela é dividida igualmente, enquanto a maior parte depende do desempenho
eleitoral prévio. Com esse volume de recursos públicos, o partido mantém, com
ampla folga, suas estruturas administrativas, financia campanhas, custeia
programas de formação política e assegura sua presença institucional em todo o
país.
Nesse
cenário, chama atenção o uso desses recursos em despesas que extrapolam o
interesse público direto. Entre elas, está o pagamento da mansão de alto padrão
localizada no Condomínio Solar de Brasília, residência atual de Michelle
Bolsonaro, do ex-presidente em prisão domiciliar, de sua enteada e da filha do
casal. Trata-se de um exemplo gritante de como recursos públicos podem
sustentar estruturas privadas de alto custo, aprofundando o distanciamento
entre a política institucional e a realidade da maioria da população.
Diante
desse arranjo, configura-se um verdadeiro círculo vicioso no sistema
político-eleitoral brasileiro. Além dos fundos partidário e eleitoral, partidos
com maior representação no Congresso Nacional também controlam uma maior
distribuição de emendas parlamentares. Esses recursos, destinados a municípios
para obras, serviços e investimentos, acabam se tornando instrumentos de
barganha política.
Quando
tais verbas chegam às cidades, o parlamentar passa a ser identificado como o
responsável direto pelo benefício, consolidando sua visibilidade local. Em uma
lógica de “toma lá, dá cá”, prefeitos, vereadores e lideranças regionais tendem
a retribuir com apoio político, estabelecendo uma relação de dependência que se
intensifica no período eleitoral.
À
medida que as eleições se aproximam, essa dinâmica se fortalece. Lideranças
locais mobilizam eleitores, organizam campanhas e reforçam a imagem do
parlamentar, ampliando suas chances de reeleição. Uma vez reeleito, o círculo
vicioso se reinicia, e mais emendas serão destinadas aos mesmos redutos,
consolidando currais eleitorais e perpetuando relações de dependência política.
Esse
movimento cria um ambiente em que a distribuição de recursos passa a obedecer
mais a critérios eleitorais do que às reais necessidades da população. O
resultado é uma distorção da lógica democrática. Candidatos com mandato partem
em vantagem significativa, enquanto novos nomes enfrentam barreiras estruturais
quase intransponíveis.
Nesse
processo, o voto deixa de ser orientado por propostas e projetos de país,
passando a se basear na lógica imediatista de “quem trouxe recursos”.
Adiciona-se a isso a recorrência de denúncias de desvios e práticas ilícitas
envolvendo emendas parlamentares. Nesse sentido, destacam-se as investigações
conduzidas pelo ministro do STF Flávio Dino, que tem atuado de forma rigorosa
na apuração de irregularidades e na busca por maior transparência.
Um caso
recente ilustra essa problemática com a condenação unânime, pelo STF, de três
deputados do PL: Josimar Maranhãozinho, Pastor Gil e Bosco Costa, acusados de
cobrar propina para o desvio de recursos destinados à saúde no município de São
José de Ribamar, no Maranhão. Episódios como esse evidenciam como o mecanismo
pode ser capturado por práticas ilícitas, agravando ainda mais suas distorções.
Apesar
de contar com uma das maiores bancadas do Congresso, cerca de 99 deputados e 14
senadores, o PL apresenta uma produção legislativa relativamente baixa no
período de 2023 a 2026. Embora haja apresentação de projetos, poucos se
converteram em leis efetivas. Um dos raros exemplos é o PLP 204/2025, que
resultou na Lei Complementar nº 221, voltada ao financiamento de projetos
estratégicos de defesa. Fora exceções pontuais, a maioria das proposições
permanece em tramitação, revelando um descompasso entre força política e
impacto legislativo concreto.
Ainda
assim, essa baixa efetividade não compromete o desempenho eleitoral do partido.
Isso porque o círculo vicioso se mantém ativo: mais recursos geram mais
visibilidade, que gera mais apoio, que resulta em mais votos e,
consequentemente, em mais recursos. Embora esse mecanismo não seja ilegal em
si, ele distorce a competição democrática ao privilegiar estratégias eleitorais
em detrimento do interesse público.
A esse
quadro interno somam-se preocupações institucionais e geopolíticas. No plano
doméstico, o processo eleitoral de 2026 estará sob a condução de ministros do
Tribunal Superior Eleitoral indicados durante o governo Bolsonaro, como Kassio
Nunes Marques e André Mendonça, que ocuparão posições estratégicas na condução
do pleito.
Essa
conjuntura ganha relevância diante do histórico recente de ataques ao sistema
eleitoral. Em 2022, setores da extrema direita disseminaram, sem provas,
narrativas de fraude nas urnas eletrônicas, buscando desacreditar o processo
democrático. Há indícios de que essa estratégia poderá ser retomada em 2026,
como forma de mobilização política e contestação de resultados.
Externamente,
a preocupação se estende à possível influência dos Estados Unidos, que
historicamente consideram a América Latina sua área de influência estratégica,
desde a Doutrina Monroe até intervenções políticas, econômicas e militares ao
longo dos séculos XX e XXI. Análises indicam que o governo insano e
intempestivo do republicano Donald Trump busca retomar uma postura mais
assertiva na América Latina, combinando pressão política e econômica,
fortalecimento de alianças com governos e lideranças ideologicamente alinhadas
e uso de instrumentos diplomáticos e comerciais para formatar cenários
favoráveis a seus interesses. Embora essa orientação seja mais evidente no
campo republicano, ela não é totalmente ausente entre setores do Partido
Democrata, o que indica certa continuidade histórica na política externa dos
Estados Unidos para a região.
Nesse
ambiente, nomes cotados para futuras disputas presidenciais, como o democrata e
atual governador da Califórnia, Gavin Newsom, embora se posicionem como
críticos de Trump, inclusive classificando algumas de suas ações como
autoritárias, também defendem pautas como a promoção da democracia,
estabilidade política e direitos humanos em países latino-americanos. Essa
convergência parcial evidencia que, apesar das diferenças de discurso e
estratégia, há elementos comuns entre democratas e republicanos na forma de
encarar a América Latina como área de interesse estratégico. Assim, ainda que
variem os métodos, entre abordagens mais diplomáticas ou mais coercitivas, a
possibilidade de influência dos Estados Unidos na região nunca esteve
completamente ausente, mantendo-se como um fator relevante no espectro
geopolítico contemporâneo.
Em
agosto de 2025, Mike Benz, ex-integrante do Departamento de Estado dos Estados
Unidos, levantou a possibilidade de interferência norte-americana nas eleições
recentes do Brasil. Em depoimento à Comissão de Relações Exteriores da Câmara
dos Deputados, afirmou que 11 agências dos EUA atuaram com financiamento nas
eleições brasileiras de 2022, com o objetivo declarado de apoiar aliados no
país (disponível em Brasil de Fato, reportagem publicada em 3 de abril de
2026).
Além
dessas evidências históricas acerca da ingerência dos Estados Unidos nas
eleições brasileiras, especialistas destacam o papel das redes sociais e
plataformas digitais estadunidenses como vetores de influência, capazes de
disseminar informações, campanhas coordenadas e desinformação, moldando
percepções políticas. Embora essas ações não configurem interferência direta no
processo eleitoral, elas podem impactar o contexto em que as eleições ocorrem.
Nesse
horizonte, o processo eleitoral de 2026 enfrenta um duplo desafio:
internamente, a possibilidade de que narrativas de desconfiança sobre o sistema
eleitoral sejam novamente mobilizadas; externamente, a pressão de interesses
geopolíticos que buscam consolidar influência na região. Ainda que o sistema
brasileiro conte com mecanismos de auditoria e uma estrutura institucional
consolidada, o histórico de questionamentos infundados indica que a conjuntura
exige atenção redobrada, tanto para a proteção da integridade eleitoral quanto
para a preservação da soberania política do país.
As
eleições de outubro de 2026 para a Câmara, o Senado e o Executivo são cruciais
para os destinos da soberania e das políticas públicas de melhoria da vida do
povo. Requerem a máxima atenção dos brasileiros.
Cabe
destacar que, apesar de o Partido Liberal bolsonarista deter uma das maiores
bancadas do Congresso, sua produção legislativa tem sido baixa. Embora seus
parlamentares apresentem proposições, poucas se converteram em leis efetivas,
revelando um descompasso entre força numérica e impacto concreto na vida da
população. Esse dado se torna ainda mais significativo quando contrastado com
os avanços recentes no campo das políticas públicas, implementadas pelo governo
Lula, que evidenciam a importância de capacidade técnica, articulação política
e compromisso com os interesses da população.
A
adoção de medidas como a ampliação de isenções fiscais voltadas às camadas de
menor renda tem contribuído para aliviar o peso tributário nessa faixa, ao
mesmo tempo em que se observa um cenário de maior dinamismo no mercado de
trabalho, com recuperação dos níveis de empregabilidade. Acrescenta-se a esses
avanços a manutenção dos índices de inflação dentro do teto da meta pelas
urgentes medidas do governo, tendo em vista a grave crise econômica
impulsionada pela forte alta nos preços do petróleo e do gás natural,
decorrente do conflito entre EUA, Israel e Irã, elemento central para a
preservação do poder de compra da população, além do processo de reestruturação
de políticas públicas estratégicas, como a atual medida para diminuir o
endividamento da população, preparada para 2026, com foco na renegociação de
dívidas bancárias e não bancárias (varejo, conta de luz, água). Esse conjunto
de resultados evidencia não apenas a capacidade do governo, mas também
coordenação política e compromisso com a estabilidade econômica e social.
Em
contraste, a fragilidade do campo político da extrema direita e do centrão não
se limita à baixa efetividade legislativa; ela se expressa, sobretudo, em um
padrão de atuação orientado por interesses pontuais e corporativos das bancadas
que representam. Nessa realidade, o presidente do Congresso, Davi Alcolumbre,
vinculado a esse espectro político, agendou para 30 de abril de 2026 uma sessão
conjunta do Congresso Nacional destinada a apreciar o veto integral do
presidente Lula ao Projeto de Lei da Dosimetria (PL 2162/2023), mesmo diante de
um conteúdo flagrantemente inconstitucional. Soma-se a isso outra marca
recorrente dessa improdutividade: a substituição da formulação de políticas
públicas concretas por uma intensa mobilização digital. Parlamentares como
Nikolas Ferreira exemplificam esse fenômeno ao elegerem as redes sociais como
principal área de atuação política, frequentemente recorrendo à disseminação de
desinformação. Trata-se de uma estratégia que, embora eficaz em termos de
engajamento, revela-se inócua do ponto de vista institucional, por não
contribuir para a construção de soluções estruturais capazes de enfrentar os
desafios do país.
Essa
fragilidade se estende à própria liderança desse campo político. A declaração
de Flávio Bolsonaro, ao afirmar que preferiria votar em Tarcísio de Freitas por
reconhecê-lo como mais experiente, não apenas evidencia sua limitação política
e falta de preparo para a condução de um projeto nacional, como também revela
contradições internas profundas. Tal posicionamento expõe dependência de
lideranças mais estruturadas e incapacidade de afirmar protagonismo próprio,
reforçando a percepção de um grupo político que, embora competitivo no campo
eleitoral e comunicacional, demonstra fragilidade na formulação, execução e
sustentação de políticas públicas de alcance nacional.
Ou o
país rompe com esse círculo vicioso de atraso, marcado pela baixa efetividade
legislativa e pela captura da política por interesses fisiológicos e por uma
extrema direita mais dedicada à disputa de poder do que à construção de
soluções reais, ou assumirá o risco concreto de aprofundar desigualdades,
fragilizar suas instituições e comprometer o futuro das próximas gerações.
Trata-se de uma escolha histórica entre a continuidade de um processo de
reconstrução social, econômica e institucional ou o retorno a um modelo que já
demonstrou sua absoluta incapacidade de responder às necessidades do povo
brasileiro, como as ações promovidas pelo trágico desastre do governo
bolsonarista.
Portanto,
o que será decidido em outubro é a escolha de um projeto de país capaz de
responder, de forma consistente e duradoura, às aspirações da maioria da
população. Trata-se de dar continuidade e densidade a avanços já perceptíveis
no cotidiano social sob o atual governo, projetando-os por meio de um horizonte
estratégico de longo prazo. Isso implica não apenas preservar conquistas, mas
ampliá-las e estruturá-las em bases sustentáveis, capazes de consolidar um
ciclo de desenvolvimento com inclusão, distribuição de renda e melhoria
contínua da qualidade de vida. Nesse sentido, a distância entre esse projeto e
as intenções da direita e do centrão é abissal. Enquanto estes se orientam por
uma perspectiva neoliberal e excludente, marcada por agendas fragmentadas, de
curto alcance e frequentemente subordinadas a interesses do capital e, não
raro, a benesses particulares, um governo popular e progressista já demonstrou,
na prática, sua capacidade de articular crescimento econômico, responsabilidade
social e fortalecimento institucional em benefício da maioria da sociedade.
Fonte:
Brasil 247

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