segunda-feira, 13 de abril de 2026

Pepe Escobar: A Barbária se rende estrategicamente. A Civilização vence. Por enquanto

Foi sempre uma questão de civilização.

“Toda uma civilização morrerá esta noite, para nunca mais voltar”. A História registrará essa frase com um olhar tão impiedoso quanto o Sol. Um estarrecedor imprimatur bárbaro, cortesia do Presidente dos Estados Unidos, por meio de uma postagem na mídia social.  

Em poucas palavras, a “civilização” mequetrefe que nos deu o  Big Mac ameaçando aniquilar a antiga civilização que nos deu a álgebra; que influenciou a arte, a ciência e a arte de governar de formas inigualáveis; que produziu figuras eminentes, de Ciro, o Grande a Avicena, de Omar Khayyan ao supremo poeta Jalaladdin Rumi; que criou incontáveis jardins e tapetes sublimes, maravilhas arquitetônicas e estruturas filosóficas e éticas.

É de importância crucial que não tenha se ouvido um pio sequer sobre esse ataque de nervos da Barbária por parte das lideranças políticas de todo o Ocidente Coletivo “civilizado”, que nem mesmo fingiu indignação, provando mais uma vez sua absoluta e irreversível falência moral e política.   

Os iranianos responderam na mesma moeda. Mais de quatorze milhões de pessoas se registraram para formar muralhas humanas em torno de suas usinas elétricas por toda a nação, ao mesmo tempo protegendo seu sustento e enfrentando cara a cara o poder de fogo do Sindicato Epstein.   

Quando o momento fatal se aproximava, o Babuíno da Barbária se metamorfoseou – no que mais seria? – em um TACO, imortalizado pelos caras do LEGO.

É absolutamente impossível que o Paquistão tenha oferecido “garantias” ao Irã de que um cessar-fogo era a maneira pôr fim à guerra. Tal como confirmado por fontes diplomáticas, o que realmente aconteceu foi que Pequim, na undécima hora, se colocou como garantidora, assegurando a Teerã que os Estados Unidos aceitariam pelo menos algumas das exigências iranianas colocadas em seu plano de 10 pontos.  

Esse fato foi confirmado pelo embaixador iraniano na China, Abdolreza Rhamani Fazili. As negociações começarão nesta sexta-feira em Islamabad.

O Presidente dos Estados Unidos, o Babuíno Babão da Barbária, confrontado com as terríveis e inevitáveis consequências de seus próprios erros estratégicos, usou o Paquistão como rampa de saída. O que foi confirmado por um outro erro épico do próprio primeiro-ministro paquistanês: ele se esqueceu de remover o cabeçalho da postagem do Twitter/X redigida pela Casa Branca para ser publicada por ele.    

O atual regime paquistanês  – comandado de fato pelo Marechal Asim Munir, que tem Trump na lista de discagem rápida de seu telefone – pode ter se beneficiado, e continuará a se beneficiar geopoliticamente de seu singular status: uma nação muçulmana nuclear com uma significativa minoria xiita, boas relações com o Conselho do Golfo (GCC); vizinho e amigável ao Irã; tendo assinado um pacto de defesa com a Arábia Saudita, parceiro estratégico da China e sem bases militares dos Estados Unidos em seu solo.   

Mas Islamabad foi sempre um mero intermediário, jamais o arquiteto de qualquer tipo de “mediação”. Por mais que a Casa Branca tenha tentado criar um ofuscamento, foi a China que teve que traçar os contornos de uma possível détente.

<><> O Sindicato Epstein pede uma trégua  

Havíamos chegado a um ponto em que o culto à morte do Oeste Asiático vinha sendo esmagado simultaneamente pelo Irã e pelo Hezbolá, no sul do Líbano. Apesar de toda a avalanche de versões fantasiosas, seus gritos de socorro desempenharam um papel significativo na decisão de Trump de pedir um cessar-fogo.   

O Sindicato Epstein como um todo pediu esse cessar-fogo. Nada a ver com geopolítica, mas com um inferno operacional: o Império do Caos havia esgotado seus recursos militares.  

A pista reveladora foi quando o USS Tripoli bateu em retirada – sob fogo – para as profundezas do Oceano Índico, com 2.500 fuzileiros navais a bordo. Isso significava que a Marinha dos Estados Unidos estava de fora do teatro da guerra – exceto pelos submarinos com Tomahawks, dos quais cerca de metade  erram o alvo com surpreendente (im)precisão.  

E os problemas estão longe de terminar. O inferno financeiro assoma no horizonte, o que quer que seja decidido em Islamabad e mais além, com dez trilhões em títulos do Tesouro para serem rolados em 2026. E o petrodólar está rapidamente a caminho do lixo da História.  

Entra em cena, mais uma vez, o insano culto à morte.  

Não esquecer jamais. O Sindicato Epstein é incapaz de cumprir acordos. E o culto à morte não pratica cessar-fogo: na melhor das hipóteses, ele encontra brechas que lhe permitam continuar a matar todos os que vê pela frente.  

Os sinais do desastre já são evidentes. Se o culto à morte quebrar o cessar-fogo  – o que já aconteceu – o Iran e o Hezbolá revidarão, de forma massiva, sem atacar ativos dos Estados Unidos.  

Mas ainda é cedo para afirmar que o Babuíno da Barbária tenha perdido a guerra com base em todas as métricas possíveis: morais; legais, políticas, econômicas e estratégicas.   

Afinal, o Império do Caos sempre será, intrinsecamente, incapaz de respeitar acordos firmados, em especial quando a ficha corrida fala de dois ataques consecutivos no decorrer das negociações diplomáticas, matando a todos, desde o Aiatolá  Khamenei a dezenas de possíveis negociadores.  

O Grande Quadro permanece o mesmo (cantando!): esta é uma guerra de morte contra os três principais proponentes do mundo multipolar: Irã, China e Rússia.  

<><> O jogo de poder da China, mais alguns fatos estabelecidos  

Antes do cessar-fogo, a China vinha recebendo 1,2 milhões de barris de petróleo iraniano por dia, trazidos, principalmente por 26 navios-tanque fantasmas, com seus  transponders no escuro, com pagamentos feitos em yuan no pedágio do Estreito de Hormuz, usando o CIPS.  Tudo isso deixando de lado o SWIFT, as sanções, o petrodólar e os seguros ocidentais.  

É isso que se chama de um sistema de pagamentos novo e alternativo implementado de fato,  no gargalo mais crucial de todo o planeta.  

Essa complexa arquitetura de energia-sombra permanece inalterada durante o cessar-fogo – supondo-se que ele se sustente. Mas o ponto principal é que a  China consegue mais uma pausa para tomar fôlego: a sombria ameaça de pôr fim a toda a exportação de petróleo iraniano criada pelo suspense do Dia da Usina de Energia declarado pela Barbária parece ter desaparecido. Isso explica a base lógica por trás da garantia de último minuto oferecida pela China ao Irã.   

Compare-se isso aos “objetivos” declarados do Império do Caos: provocar mudança de regime, se apoderar do urânio enriquecido, destruir o programa de mísseis e a capacidade do Irã de projetar poder. Tudo isso se transformou em um épico erro estratégico, culminando com o novo status do Estreito de Ormuz.   

Irã e Oman irão coordenar a cabine de pedágio para cada navio que cruzar o Estreito durante o cessar-fogo – e certamente depois que ele terminar, com base em uma minuciosa estrutura jurídica. Navios estadunidenses cruzando o Estreito de Ormuz após pagar sua taxa em yuan  – é difícil pensar em algo mais poeticamente intoxicante, no sentido da Ironia da História.  

Mesmo assim, está claro que o Império do Caos está tentando ganhar tempo – mesmo que o Irã mantenha a iniciativa. Aqui segue o principal  ponto colocado pelo Supremo Conselho de Segurança Nacional iraniano:  

“Ficou decidido no mais alto escalão que o Irã irá conduzir duas semanas de negociações em Islamabad com base unicamente nos seguintes princípios [os dez pontos iranianos]. Isso não significa que a guerra tenha terminado. O Irã só aceitará o fim da guerra quando esses princípios tiverem sido confirmados em detalhe”.  

Recapitulemos brevemente os 10 pontos que, em tese, foram aceitos por Trump:

  1.  Compromisso de não-agressão;
  2.  Manutenção do controle iraniano sobre o Estreito de Ormuz;  
  3.  Acordo sobre enriquecimento de urânio;  
  4.  Cancelamento de todas as sanções primárias;  
  5.  Cancelamento de todas as sanções secundárias;  
  6.  Revogação das resoluções do Conselho de Segurança da ONU;   
  7.  Revogação das resoluções do Conselho de Dirigentes da Agência Internacional de Energia Atômica (IAEA);
  8.  Pagamento de indenização ao Irã;
  9.  Retirada das forças militares dos Estados Unidos da região;
  10.  Cessação da guerra em todas as frentes, incluindo a guerra contra o Hezbolá no Líbano.   

Não há hipótese de o Irã vir a aceitar uma solução de compromisso com relação à maioria desses pontos. O pagamento de indenização pode ser transformado em renda proveniente do pedágio do Estreito de Ormuz. Mas o alívio das sanções não irá acontecer, o Congresso dos Estados Unidos jamais o permitiria. A garantia de que os Estados Unidos não atacarão o Irã novamente não se qualifica  nem como piada. Além do mais, o Império do Caos, simplesmente, não conseguiria garantir coisa alguma com relação a Gaza ou ao Líbano.  

Esse, contudo, é um plano extremamente arriscado para o Irã e um enorme teste para a China, na qualidade de maior garantidora. O Irã sofreu danos horrendos – principalmente na indústria petroquímica. Mesmo com muito investimento chinês, levará anos para o Irã se recuperar.  

Os Três Patetas podem ir a Islamabad nesta sexta-feira. Curly é Vance, Shifty é  Witkoff e Mo é Kushner. Mas o Irã – representado por seu chanceler Araghchi – só falará a sério com um deles: Curly.  

Assim, a Civilização sobrevive – por enquanto. Acrescentando alguns fatos. Fato 1: os Estados Unidos não são mais uma superpotência, Fato 2: o Irã volta como uma das grandes potências mundiais. Fato 3: a maioria das covardes petromonarquias do Golfo acabará por expulsar definitivamente as bases militares estadunidenses. Fato 4: Qatar e Omã montarão um acerto de segurança com o Irã.   

O principal imperativo continua o mesmo – e interessa a todo o planeta: como encontrar uma cura para aquele câncer do Oeste Asiático.   

¨      Acabar com a guerra de Israel contra a paz. Por Jeffrey Sachs e Sybil Fares

Um cessar-fogo de duas semanas interrompeu parcialmente a guerra de Israel e dos Estados Unidos contra o Irã. O conflito não alcançou nada que um diplomata competente não pudesse ter resolvido em uma tarde. O Estreito de Ormuz estava aberto antes da guerra e permanece aberto agora, porém com maior controle iraniano.

Enquanto isso, o caos persiste. Israel demonstra intenção de romper o cessar-fogo, já que este foi, desde o início, um conflito impulsionado por seus próprios interesses. O país apresentou a Donald Trump a ideia de um ataque decisivo em um único dia que colocaria os Estados Unidos no controle do petróleo iraniano. Ao mesmo tempo, Israel buscava um objetivo mais amplo: derrubar o regime iraniano e se consolidar como potência hegemônica na Ásia Ocidental.

A base do cessar-fogo é o plano de dez pontos do Irã, que Trump chegou a classificar como uma “base viável para negociação”. A proposta é considerada coerente, mas representa uma significativa mudança de posição dos Estados Unidos e possivelmente ultrapassa limites considerados inaceitáveis por Israel. Entre outros pontos, o plano propõe o fim das guerras no Oriente Médio, muitas das quais têm Israel como fator central. Também sugere uma solução para a questão nuclear, essencialmente retomando o acordo JCPOA abandonado por Trump em 2018.

A guerra contra o Irã e outros conflitos na região estão ligados a uma diretriz central de Israel: a rejeição permanente à criação de um Estado palestino soberano e a disposição de derrubar governos que apoiem a luta armada por autodeterminação nacional. A Assembleia Geral da ONU aprovou diversas resoluções, como a 37/43 de 1982, reconhecendo a legitimidade da luta armada em busca de autodeterminação. A própria criação da ONU está associada ao esforço de superar o domínio imperial europeu sobre África e Ásia. Ainda assim, não haveria justificativa para conflitos armados se Israel aceitasse uma solução política, como a proposta de dois Estados, amplamente apoiada internacionalmente.

A paz, nesse contexto, depende de uma mudança de postura dos Estados Unidos.

O objetivo central de Benjamin Netanyahu pode ser resumido na ideia de “Grande Israel”, que implica a ausência de soberania palestina e a indefinição de fronteiras claras para o país, inclusive além dos limites históricos da Palestina sob mandato britânico após a Primeira Guerra Mundial. Aliados políticos como Ben-Gvir e Smotrich defendem o controle de áreas do Líbano e da Síria, além da manutenção permanente de todo o território palestino histórico. Entre setores do eleitorado de Trump, especialmente os sionistas cristãos, há a crença religiosa de que Israel teria direito às terras entre o Nilo e o Eufrates — uma visão que também circula em círculos políticos nos Estados Unidos.

Diante disso, a estratégia israelense envolve promover mudanças de regime em países que resistam a essa expansão. Essa abordagem foi delineada no documento “A Clean Break: A New Strategy for Securing the Realm”, elaborado em 1996 por neoconservadores norte-americanos como base para o governo Netanyahu. Desde então, a região tem sido marcada por conflitos contínuos, incluindo intervenções na Líbia, no Líbano, na Síria, no Iraque e, mais recentemente, no Irã.

Embora Israel busque hegemonia regional, autoridades norte-americanas também têm ambições globais. Netanyahu afirmou recentemente que Israel pode se tornar “uma potência regional e, em alguns campos, uma potência global”. Já Donald Trump demonstrou interesse explícito nos recursos energéticos iranianos.

Em todo caso, é evidente que esta guerra foi uma criação de Netanyahu. Ele e o chefe do Mossad vieram a Washington para vender uma ilusão a Trump. Não é difícil de perceber. Trump caiu na conversa, enquanto todos os outros tinham suas dúvidas sobre as alegações de Netanyahu de um ataque de decapitação fácil em um dia — essencialmente uma repetição da operação americana na Venezuela .

É patético "ouvir" as conversas na Casa Branca, como revelado pelo New York Times . Netanyahu, um vigarista, apresentou cenários otimistas de mudança de regime que a inteligência americana contradisse, mas que Trump, tolamente, aceitou. Trump e Netanyahu foram aplaudidos por sionistas cristãos (Hegseth), sionistas judeus e incorporadores imobiliários (Kushner e Witkoff), um curandeiro (Franklin Graham) e bajuladores de alto escalão (Rubio e Ratcliffe).

Enquanto Trump dizia ao mundo que o Irã implorava por um cessar-fogo, era o próprio Trump quem implorava por um cessar-fogo.

Até a noite de terça-feira, parecia que Trump poderia levar o mundo às cegas para a Terceira Guerra Mundial. A vulgaridade e a brutalidade de sua retórica pública não tinham paralelo na história presidencial dos EUA. Agora sabemos que ele estava desesperadamente buscando uma saída e usando o Paquistão para esse fim. Enquanto Trump dizia ao mundo que o Irã implorava por um cessar-fogo, era o próprio Trump quem implorava por um cessar-fogo. O líder paquistanês o concedeu.

O cessar-fogo é bom, e o plano de 10 pontos também é bom, mesmo que talvez Trump não soubesse o que continha quando disse que era uma boa base para negociação. Israel, de qualquer forma, fará o possível para quebrá-lo, e já começou a fazê-lo, com o bombardeio indiscriminado de Beirute , que está matando centenas de civis, e com outros ataques. Um acordo permanente entre EUA e Irã é a última coisa que Netanyahu deseja. Isso acabaria com seu sonho de um Grande Israel.

No entanto, existe um caminho para a paz, e esse caminho é os EUA encararem a realidade. Israel é o verdadeiro "estado terrorista", travando uma guerra perpétua por todo o Oriente Médio por uma razão totalmente indefensável: ter liberdade irrestrita para aterrorizar e governar o povo palestino e expandir suas fronteiras conforme seus fanáticos acharem conveniente. Para alcançar uma paz duradoura no Oriente Médio, os EUA devem pôr fim ao seu apoio incondicional às guerras perpétuas de Israel e unir-se ao resto do mundo para forçar Israel a viver dentro de suas fronteiras internacionalmente reconhecidas, estabelecidas em 4 de junho de 1967. O plano de 10 pontos do Irã pode ser a base para uma paz regional abrangente — se os EUA aceitarem a realidade de um Estado palestino. Nesse caso, o Irã provavelmente concordaria em parar de financiar grupos beligerantes não estatais, e Israel, Palestina, Líbano e toda a região poderiam viver em segurança e paz mútuas. Esse resultado deveria ser a base de um acordo negociado entre os EUA e o Irã nas próximas duas semanas.

Israel é o verdadeiro “estado terrorista”, travando uma guerra perpétua em todo o Oriente Médio por uma razão totalmente indefensável...

O povo americano deixou suas opiniões claras. Uma pesquisa do Pew Research Center de 2025 constatou que a maioria dos judeus americanos não confia em Netanyahu e apoia a solução de dois Estados. A maioria dos americanos agora tem uma visão desfavorável de Israel , o maior índice de desfavorabilidade da história. A simpatia por Israel atingiu o nível mais baixo em 25 anos. Agora, a classe política precisa acompanhar a opinião pública.

A paz está ao alcance, se os EUA a aproveitarem. A proposta do Irã é séria e o cessar-fogo é uma abertura frágil para um acordo abrangente. A questão é se os EUA permitirão, mais uma vez, que Israel destrua a paz, ou se, desta vez, defenderão os interesses americanos e mundiais em uma paz duradoura.

 

Fonte: Brasil 247

 

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