Marina
Basso Lacerda: O PL está se tornando um partido de massas?
O
Partido dos Trabalhadores, desde os anos 1990, ocupou a liderança isolada na
preferência dos eleitores. É o que mostram os levantamentos sistemáticos feitos
pelo Datafolha desde a redemocratização. O PT não perdeu o posto nem no auge do
Mensalão (2005) ou da Lava Jato (2015/2016). A última pesquisa do instituto,
publicada nos últimos dias de 2025, mantinha-o como favorito por 24%, enquanto
12% apontavam o Partido Liberal (PL), associado ao bolsonarismo. Mas a pesquisa
AtlasIntel/Arko de março/abril de 2026 – divulgada há poucos dias – é o
primeiro registro metodológico de alto alcance que não mostra o PT no posto que
sempre ocupou. O PL agora aparece numericamente à frente: 27% contra 25,4%.
A
imprensa tratou isso como empate técnico – que é. Porém, analiticamente, o fato
de o PT não estar mais sozinho no topo é um acontecimento político que não pode
ser subestimado, ainda mais considerando que sua pontuação, três meses antes,
era o dobro do rival. Enquanto a preferência pelo PT parece ter batido em um
teto histórico (oscilando entre 24% e 26%), o PL apresenta uma curva de
crescimento, sugerindo que a virada de 2026 pode não ser um ponto fora da
curva, mas o início de uma nova era.
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Números superlativos
O PL
fez 516 prefeituras nas eleições de 2024 – atrás do PSD, do MDB, do PP e do
União, mas na frente do Republicanos e de todos os partidos de centro-esquerda.
Elegeu quase 5 mil vereadores, atrás apenas de MDB, PP, PSD e União. As
eleições de 2022 deram ao PL o maior número de assentos na Câmara dos Deputados
e no Senado Federal. Com a janela que se fechou há poucos dias, cresceu ainda
mais, sendo o que mais ganhou deputados.
Em
pesquisa que estou desenvolvendo, o PL demostra ter disciplina interna
consistente – embora não tão consistente quando a do PT. O MDB é o partido com
mais filiados no Brasil – mais de 2 milhões, seguido pelo PT, com 1,6 milhão. O
PL, depois da janela, passou a ter 930 mil filiados. Esses números indicam que
o PL não é a maior sigla do país. Mas é um partido sólido e em ascensão, que se
deve à profunda transformação pela qual passa desde a filiação de Jair
Bolsonaro em 2021.
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Filiação de Bolsonaro
Jair
Bolsonaro iniciou seu governo sem utilizar nenhuma das modalidades que um chefe
de governo usa nos sistemas presidencialistas. Ele defendia a “nova política”,
significando não negociação com o parlamento. Em vários domingos ainda em 2020
Bolsonaro passou a participar de manifestações pedindo o fechamento do Supremo
Tribunal Federal e do Congresso Nacional, e até mesmo intervenção militar e a
volta do Ato Institucional nº 5, que cassou mandatos em 1964.
Bolsonaro
procurou manter diálogo direito com seu eleitorado, ou ao menos com a parcela
mais radicalizada e fiel dele. A partir do meio de 2020, porém, houve mudanças
importantes. As negociações com os partidos se tornaram necessárias depois dos
diversos pedidos de impeachment que foram apresentados com fundamentação nas
iniciativas por ruptura constitucional, e no comportamento de Bolsonaro em
relação à pandemia.
Em
junho de 2020, o então presidente, contrariando seu discurso de redução da
máquina pública, recriou o Ministério das Comunicações e o entregou a deputado
do PSD. Outros cargos na administração direta e em estatais foram entregues ao
PP, ao PL e ao Republicanos. Esse processo seguiu até culminar com sua filiação
ao PL no final de 2021, o que foi lido como aliança com a então tão criticada
política tradicional.
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História
O
Partido Liberal, em sua história, caracteriza-se como uma agremiação
fisiológica tradicional. Trata-se do antigo PR, resultado da fusão entre PL e
Prona – duas legendas surgidas na redemocratização, cujos quadros eram em boa
parte oriundos do PFL e do PDS, herdeiros da Arena. Herdou o enraizamento
regional da direita da redemocratização, consolidando presença no interior
conservador do país. Tinha, na origem, um entrosamento natural com a família de
“partidos do interior” (atuais MDB, PSD, União), na expressão de André Singer.
O partido do interior representa o interior rural e cidades de pequeno porte,
onde o voto é frequentemente mediado por relações de clientelismo e dependência
de verbas federais. São formações com nítido viés governista, funcionando como
o “fiel da balança” no Congresso. O PL, para o autor, é “tradicional componente
do Centrão” – e, de fato, esteve na base de todos os governos, exceto do atual.
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O pós-Bolsonaro
A
filiação de Bolsonaro não significou, entretanto, apenas o bolsonarismo se
enquadrando na política tradicional. Significou também a moldagem da política
tradicional ao campo emergente de extrema-direita. Desde então, o PL
transformou sua natureza e tornou-se a maior força de direita do país.
O PL
não só foi o partido que mais cresceu como foi o partido com maior renovação na
Câmara nas últimas eleições – ou seja, o maior número de deputados de primeiro
mandato. Essa nova safra de parlamentares de direita, segundo os cientistas
políticos César Zucco e Thimoty Power – que entrevistaram os deputados –, atua
de forma deliberadamente provocativa e antissistema, diferindo da direita
anterior, que operava sob a sombra do regime militar. É uma direita desinibida
e orgulhosa de si, ao contrário daquela “direita envergonhada” que se escondia
sob o regime militar, e que esteve nas origens do Prona e do antigo PL. O PL
atual, que incorpora novíssimos quadros, não busca a sombra. Ele busca o
palanque e a mobilização digital. O PL foi também o partido que mais elegeu
deputados ligados ao policialismo/militarismo e pastores, pertencentes a campos
políticos também emergentes e muito marcados no Brasil de hoje. Não é surpresa
que tenha sido o partido que mais conferiu votos contrários ao governo Lula 3
nessa legislatura.
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Partidos de massa
Com as
características atuais – 900 mil filiados, popularidade em ascensão, quebrando
o domínio histórico do PT no quesito –, o PL caminha para tornar-se um partido
de massas. Historicamente, partidos de massa estiveram ligados à esquerda,
surgindo no final do século XIX como forma de organização do movimento operário
e da social-democracia. Diferentemente dos partidos de quadros, baseados em
notáveis e influência estatal, esses partidos estruturam-se “de baixo para
cima”, apoiando-se na militância ativa e em contribuições disseminadas. Na
formulação clássica de Maurice Duverger, não se tratam apenas de máquinas
eleitorais, mas de organizações com forte enraizamento social, capazes de
mobilizar, formar e sustentar seus membros para além dos períodos eleitorais.
Também
no Brasil, a tradição dos partidos de massa foi historicamente consolidada pela
esquerda. O PTB de Getúlio Vargas e Jango mobilizou as massas urbanas através
da estrutura oficial dos sindicatos, enquanto o PCB introduziu a tecnologia das
células e da disciplina ideológica rígida. O PT é o exemplo mais resiliente e
estruturado, surgindo na redemocratização com uma base de militância ativa,
núcleos de bairro e forte ligação com movimentos sindicais e sociais,
mimetizando a função de “instituição total” que acompanha o militante para além
do período eleitoral, estrutura que lhe permitiu cinco mandatos presidenciais.
Na
Europa, os primeiros partidos de massa de direita surgiram como uma reação
defensiva à expansão do sufrágio e ao avanço socialista no final do século XIX,
destacando-se as agremiações confessionais, como o Zentrum alemão, e o
conservadorismo reformista britânico, que organizaram bases populares em torno
da fé e da identidade nacional. Foi após a Primeira Guerra Mundial que essa
“tecnologia de massas” atingiu sua face mais agressiva com os movimentos
radicais, como o fascismo e o nazismo; estas legendas subverteram a vocação
originalmente esquerdista do modelo ao mimetizar sua estética e capilaridade
organizacional para promover um nacionalismo totalitário. Assim, a direita
migrou do modelo de elites para o de massas em duas etapas: primeiro para
preservar as instituições tradicionais (Igreja e Coroa) e, posteriormente, para
mobilizar multidões em uma ofensiva radical contra o próprio sistema liberal.
No
Brasil, os partidos de direita, como a UDN e a Arena, foram historicamente
partidos de quadros, operando como agremiações de elite que dependiam de
lideranças influentes e do controle do aparato estatal, em vez de uma base
militante orgânica. A UDN, embora mobilizasse setores da classe média urbana
com um discurso moralista e antissistema, nunca estruturou uma organização de
amplas bases capilarizadas. Já a Arena, como braço civil da ditadura militar,
era o exemplo máximo do “partido de notáveis” regionalizados, cuja força
residia no acesso ao orçamento e na manutenção de oligarquias locais – o
embrião do “partido do interior”. PL seria o primeiro partido de massas de
direita da história do Brasil – tendo como principal líder uma figura de
extrema-direita, Jair Bolsonaro. Ao fazê-lo, o partido alinha-se a fenômenos
globais contemporâneos, como o Fidesz (Hungria) e o Rassemblement National
(França), que se consolidaram como verdadeiras máquinas de guerra cultural
dotadas de vasta capilaridade popular; máquinas de mobilização popular
permanente. Não se trata de uma nova UDN, trata-se de uma força maior e mais
enraizada.
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Partido do interior, o PL e a esquerda
O PSD é
maior em prefeituras, o PL é maior em popularidade e em congressistas. Eles
dividem o trabalho. O PL tem o voto de opinião e o eleitor fidelizado, o PSD
tem a máquina, as prefeituras. O PL aposta na sucessão dinástica com a
candidatura de Flávio Bolsonaro para manter acesa a chama do bolsonarismo em
grande escala. O PSD tem tentado vender a ideia de direita de resultados.
Assim, o partido de Kassab oscila: busca autonomia do bolsonarismo, mas lançou
como candidato Ronaldo Caiado que, como primeiro ato, promete anistiar Jair
Bolsonaro, tentando capturar a alma do PL enquanto oferece o corpo da máquina
do PSD.
O
xadrez das estratégias eleitorais, porém, é secundário. O avanço da
extrema-direita e o recuo da esquerda são fenômenos generalizados no mundo
capitalista e o Brasil não escapa. A AtlasIntel/Arko mostra que a vantagem do
PT só é expressiva entre eleitores com mais de 60 anos, enquanto o PL domina as
faixas jovens e economicamente ativas. Quadro semelhante repete-se
sistematicamente nos levantamentos estatísticos com o eleitorado. E o problema
não é de comunicação. Décadas de destruição da classe trabalhadora organizada,
financeirização das políticas públicas e o avassalador imaginário neoliberal
(progressista ou conservador) cobram seu preço.
• Deputado do PL destina R$ 4,3 milhões em
emendas para hospital que homenageia o próprio pai
O
deputado federal Rodrigo Valadares (PL-SE) destinou pouco mais de R$ 4,3
milhões em emendas parlamentares para a construção de uma unidade hospitalar
que levará o nome de seu pai, o ex-deputado Pedrinho Valadares, no município de
Nossa Senhora do Socorro, na região metropolitana de Aracaju, informa Milena
Teixeira, do Metrópoles.
A pedra
fundamental da chamada Unidade Pedrinho Valadares foi lançada em 21 de janeiro
e integrará a estrutura do Hospital Amparo de Maria. A cerimônia contou com a
presença do governador de Sergipe, Fábio Mitidieri (PSD), além de autoridades
locais.
Durante
o evento, o parlamentar relatou como surgiu a ideia da construção. “Andávamos
por Nossa Senhora do Socorro e víamos as realizações que Pedrinho tinha feito
nessa terra. Foi então que tive a ideia: ‘Vou construir um hospital. E todos
diziam que eu estava maluco, Rodrigo, não tem como, como você vai fazer
isso?’”, afirmou.
Os
valores destinados somam R$ 4.347.500, sendo R$ 1.347.500 por meio de emenda
extra, R$ 2 milhões oriundos do Orçamento Geral da União (OGU) de 2024 e R$ 1
milhão previsto no OGU de 2025. Os recursos já foram pagos pela União,
transferidos ao Fundo Estadual de Saúde e posteriormente repassados à
Associação Beneficente Amparo de Maria, responsável pela construção e futura
gestão da unidade.
De
acordo com a assessoria do deputado, a área da saúde é uma das prioridades do
mandato, com envio recorrente de recursos para hospitais e municípios
sergipanos. Em nota, a equipe informou que os repasses contemplam diferentes
instituições, especialmente aquelas que atuam no Sistema Único de Saúde (SUS).
Sobre a
escolha do nome da unidade, a assessoria destacou que a decisão partiu da
própria administração hospitalar. Ainda segundo a nota, o deputado recebeu a
homenagem “com gratidão”, em referência à trajetória do pai, descrito como um
político com atuação voltada à saúde pública e ao atendimento da população mais
vulnerável.
Pedrinho
Valadares foi deputado federal por Sergipe em quatro mandatos e morreu em
agosto de 2014, aos 48 anos, no acidente aéreo que também vitimou o então
candidato à Presidência da República, Eduardo Campos.
O
projeto do hospital prevê mais de 60 leitos de enfermaria e outros dez de UTI
adulto, além de um bloco cirúrgico com quatro salas e áreas destinadas à
recuperação pós-anestésica. A unidade deverá operar pelo SUS, ampliando a
capacidade de atendimento na região.
• TCU apura emendas de R$ 6 milhões
ligadas a relator da CPMI do INSS
O
Tribunal de Contas da União (TCU) abriu uma auditoria para apurar o envio de R$
6 milhões em emendas parlamentares destinadas pelo deputado Alfredo Gaspar (PL)
ao município de São José da Laje, em Alagoas. A investigação busca esclarecer
possíveis irregularidades na aplicação dos recursos, com prazo estabelecido
para apresentação de comprovações, informa Paulo Cappelli, do Metrópoles.
A
análise técnica do TCU identificou indícios que motivaram a abertura da
auditoria. A Corte determinou um prazo de 12 dias para que a prefeitura
comprove a correta utilização dos valores. A investigação tem como relator o
ministro Walton Alencar.
Segundo
a Controladoria-Geral da União (CGU), Alfredo Gaspar destinou três emendas ao
município entre julho e dezembro de 2024. Os repasses foram realizados por meio
da modalidade conhecida como “transferência especial”, popularmente chamada de
“emenda Pix”, que permite o envio direto de recursos da União para estados e
municípios, com menor exigência de convênios formais.
Como
parte da auditoria, o TCU solicitou uma série de documentos à administração
municipal. Entre os itens exigidos estão cópias completas de processos
licitatórios ou contratações diretas, contratos firmados, notas fiscais, ordens
de pagamento e extratos bancários relacionados à movimentação dos recursos.
O órgão
também requisitou relatórios de fiscalização, além de informações detalhadas
sobre as empresas envolvidas, os valores contratados e pagos e a identificação
dos gestores responsáveis pela execução das emendas.
“Para
subsidiar o desenvolvimento dos trabalhos, solicito (…) o envio, para o e-mail
da equipe de auditoria abaixo informado dos seguintes documentos e informações
relacionados à Emenda Parlamentar 202442960005 – Alfredo Gaspar”, registra
trecho do processo.
Alfredo
Gaspar ganhou visibilidade nacional nos últimos meses por atuar como relator da
Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) do INSS, criada para investigar
suspeitas de fraudes e prejuízos bilionários envolvendo o instituto.
Fonte:
Le Monde/Brasil 247

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