Os
EUA atingiram seus objetivos na guerra com o Irã?
Nas
semanas que se seguiram desde que os Estados Unidos e Israel lançaram
ataques contra o Irã, a batalha pela narrativa sobre o
andamento da guerra tem se desenrolado no centro do poder militar americano.
Desde a
primeira semana (a guerra começou em 28/2), acompanho as
coletivas de imprensa no Pentágono conduzidas pelo secretário de Defesa dos
EUA, Pete Hegseth, ex-oficial da Guarda Nacional do Exército americano e
ex-comentarista da emissora americana Fox News.
Da
primeira atualização aos jornalistas, quando apresentou os objetivos de guerra
dos EUA, até a mais recente, que se seguiu ao anúncio de uma trégua de duas
semanas, o responsável pelas Forças Armadas mais poderosas do mundo tem levado
ao púlpito do Pentágono um estilo de monólogo típico da televisão.
As
coletivas de imprensa têm sido marcadas por um tom de exaltação, com ênfase em
representações da supremacia militar americana. Hegseth afirmou na quarta-feira
(8/4) que os EUA haviam alcançado "uma vitória militar com V
maiúsculo". Em outra ocasião, disse que o país semeou "morte e
destruição vindas do céu durante o dia todo".
Chegar
à verdade sobre o andamento da guerra e seu impacto para os EUA, no entanto,
tem exigido uma investigação mais aprofundada. Assim, com um cessar-fogo frágil
em vigor, já colocado à prova, o que é possível afirmar que os EUA alcançaram?
E a que custo isso ocorreu?
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Pouco progresso na questão nuclear
O
principal objetivo de guerra do presidente americano, segundo declarações dele
próprio, era impedir que o Irã desenvolvesse uma arma nuclear, algo que o Irã
afirma nunca ter pretendido fazer.
Mas
isso também vinha sendo, havia anos, um objetivo da diplomacia liderada pelos
EUA.
Em
última análise, Trump considerava que o acordo nuclear global firmado com o Irã
em 2015, negociado durante o governo de Barack Obama (2009-2017), o Plano de
Ação Conjunto Global (JCPOA, na sigla em inglês), era fraco demais.
Em seu
primeiro mandato, Trump violou o acordo, retirando na prática os EUA dele ao
restabelecer sanções contra o Irã, que então cumpria seus termos do acordo. No
fim, era uma opção pela força em detrimento da diplomacia (depois, Trump
ordenou o assassinato do general Qasem Soleimani, da Guarda Revolucionária
Islâmica), estabelecendo um padrão na relação com o Irã marcado por oscilações
entre iniciativas diplomáticas e ações militares. Foi esse padrão que culminou
na guerra atual.
Mas,
enquanto o frágil cessar-fogo permanece em vigor, há poucos indícios de
qualquer resultado significativo para Trump na questão nuclear.
O
presidente americano disse, em junho de 2025, que as capacidades nucleares do
Irã já haviam sido "obliteradas" por seus bombardeios contra
instalações nucleares em Isfahan, Fordow e Natanz.
No
entanto, após mais de cinco semanas de guerra, o Irã ainda mantém seu estoque
de urânio enriquecido próximo ao grau necessário para armas nucleares.
Acredita-se que esse estoque esteja armazenado em cilindros de gás sob os
escombros das instalações atacadas pelos EUA em 2025.
Na
terceira semana de guerra, Rafael Grossi, diretor da Agência Internacional de
Energia Atômica (AIEA), órgão de vigilância nuclear global, me afirmou que, em
última análise, não haveria solução militar para as ambições nucleares do Irã.
Trump
afirmou que os EUA agora trabalharão "com o Irã" para
"desenterrar e remover toda a profundamente enterrada... poeira
nuclear". Mas o Irã segue desafiador nessa questão, que será decisiva nas
negociações iminentes entre EUA e Irã, em Islamabad, capital do Paquistão.
Pode-se
argumentar que o Irã agora, com uma liderança mais desconfiada, pode se tornar
mais, e não menos, determinado a buscar uma capacidade nuclear como forma de
dissuadir um novo ataque dos EUA.
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Enfraquecendo o arsenal do Irã
Quando
Trump anunciou a guerra em um vídeo nas redes sociais, em sua propriedade de
Mar-a-Lago, afirmou que seus objetivos incluíam uma mudança de regime,
conclamando os iranianos a assumir o controle de seu governo quando cessassem
os bombardeios dos EUA e de Israel.
Em
poucos dias, ele exigiu ao regime iraniano uma "rendição
incondicional", algo que não ocorreu. Ainda que Israel tenha assassinado
figuras importantes do governo do Irã, incluindo o líder supremo, o aiatolá Ali
Khamenei, o filho de Khamenei, Mojtaba, foi nomeado seu sucessor como líder do
país.
Trump
já afirmou que a nova liderança é menos "radicalizada e muito mais
inteligente" que os antecessores. O presidente esperava repetir o
resultado do ataque à Venezuela, onde militares americanos capturaram o
presidente Nicolás Maduro e o levaram para uma cela em Nova York, deixando a
liderança restante sob forte influência dos EUA.
Mas até
agora não há qualquer evidência de que algo parecido ocorreu no Irã.
Sobre o
arsenal iraniano, autoridades do alto escalão do governo Trump disseram que os
EUA destruíram as capacidades militares convencionais ("destruindo"
mísseis, lançadores, drones, fábricas de armamento e embarcações). No caso da
alegada destruição dos estoques de drones e mísseis, isso tem sido questionado
por documentos de inteligência vazados que apontam que o Irã mantém cerca de
metade do arsenal que tinha antes da guerra. A BBC não conseguiu verificar as
informações de forma independente.
De
qualquer maneira, os objetivos declarados pelo governo Trump têm mudado desde o
início da guerra. O objetivo americano e israelense de mudança de regime no
Irã, por exemplo, falhou em se concretizar.
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O custo da guerra
Treze
integrantes das forças militares americanas foram mortos e centenas foram
feridos durante a guerra no Irã. Estima-se que o estoque de munição tenha caído
rapidamente, incluindo um alto número de mísseis Tomahawk. Estima-se que o
custo da guerra chegue a mais de US$ 1 bilhão (cerca de R$ 5,1 bilhões) por
dia.
Autoridades
americanas, no entanto, afirmam que as incomparáveis habilidades e tecnologias
militares levaram à conclusão antecipada da campanha aérea, forçando a
capitulação do Irã.
Dentro
dos EUA, no entanto, o custo político tem sido alto para Trump. Pesquisas têm
mostrado consistentemente que apenas uma minoria dos americanos apoiam a
guerra.
No
Congresso, Trump continua tendo apoio praticamente apenas dos membros de seu
Partido Republicano. Mas, no início desta semana, alguns apoiadores e aliados
reagiram publicamente a suas ameaças de destruir uma civilização inteira.
Ao
longo da guerra, figuras influentes do movimento Maga (sigla em inglês para
"Faça a América Grande Novamente") como o jornalista e apresentador
de podcast Tucker Carlson romperam com Trump. O Maga é parte fundamental da
base de apoio ao presidente americano.
No
domingo (5/4), enquanto Trump escalava suas ameaças de destruir a
infraestrutura iraniana, Marjorie Taylor Greene, uma ex-aliada que já foi uma
das principais apoiadoras trumpistas, afirmou que "isso não está tornando
a América grande novamente, isso é maldade".
Essas
rupturas mostram poucos sinais de recuperação no movimento de apoio a Trump.
Por
outro lado, membros do Partido Democrata, de oposição ao Partido Republicano
(ao qual Trump pertence), também demonstraram indignação com as crescentes
ameaças e os insultos aos aliados dos EUA. Os democratas têm exigido que o
governo Trump dê explicações sobre as suspeitas de que um míssil dos EUA
atingiu uma escola em Minab no primeiro dia de guerra no Irã, matando ao menos
168 pessoas, incluindo 110 crianças.
Se o
caso for confirmado, será um dos piores casos de vítimas civis decorrentes de
ataques dos EUA no Oriente Médio em muito tempo. Eu pressionei Hegseth e Marco
Rubio (secretário de Estado) sobre o tema. O Pentágono disse estar investigando
o caso, mas não divulgou nenhuma conclusão após mais de seis semanas.
Nesta
semana, diversos congressistas americanos conclamaram o gabinete do governo dos
EUA (equivalente aos ministérios brasileiros) a invocar a 25ª Emenda à
Constituição para retirar Trump da Presidência.
O
governo, por outro lado, argumenta que as ameaças feitas por Trump forçaram o
Irã a recuar. "Nunca subestime a habilidade do presidente Trump de
promover com sucesso os interesses americanos e obter a paz", afirmou
Karoline Leavitt, secretária de imprensa da Casa Branca.
Um
veredicto claro sobre as ações do governo Trump deve vir da população americana
em novembro, quando ocorrem eleições para o Congresso que podem resultar no
Partido Democrata assumindo o controle da Câmara e/ou do Senado.
O
impacto econômico global do fechamento do Estreito de Ormuz já levou a um
combustível mais caro para os americanos. Isso deve levar a um "choque de
preços" nos mercados, gerando uma indignação em eleitores que pode ser
desconfortável para o partido de Trump nas urnas.
A
eventual perda do controle da Câmara e do Senado pode ser um preço alto a ser
pago pelos republicanos.
Enquanto
enfrentava a potencial crise econômica e as táticas de guerrilha do Irã, Trump
passou a ter como objetivo principal da guerra reabrir o estreito que já estava
aberto antes da guerra.
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Testando os aliados dos EUA
Quando
o Irã tomou o controle do Estreito de Ormuz, Trump deu início a uma série de
idas e vindas sobre como responder à ação iraniana. Trump, por exemplo, fez o
seguinte:
- Exigiu que
aliados ajudassem a reabrir o Estreito de Ormuz;
- Disse que os EUA
não precisavam de ajuda;
- Disse que os EUA
precisavam de ajuda;
- Chamou os
aliados de longa data de "covardes" porque eles não ajudaram os
EUA.
A já
frágil união dentro da Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte), que se
deteriorou desde que Trump decidiu que os EUA tomariam a Groenlândia (parte da
aliada Dinamarca), piorou ainda mais durante a guerra no Irã.
Trump
fez novos ataques à Otan por evitar se envolver no conflito no Irã. O
secretário-geral da Otan, Mark Rutte, precisou ter uma conversa "bastante
franca" com Trump na Casa Branca.
O
presidente americano parece acreditar que a ampla superioridade militar dos EUA
vai garantir o papel do país como superpotência no longo prazo. Mas nações
europeias já começaram a traçar alternativas para se afastar do risco do que
agora veem como um protetor imprevisível com o qual não podem contar.
Esse
movimento europeu é um ganho estratégico e econômico em potencial para a China,
e por isso é uma das principais críticas feitas a Trump em Washington D.C.,
centro do poder político americano.
O
verdadeiro custo dessa guerra ainda precisa ser calculado, e tudo pode se
agravar caso falhem o cessar-fogo e as delicadas negociações com o Irã.
¨ Chefe da agência
nuclear iraniana diz que ‘ninguém’ impedirá país de enriquecer urânio
O
diretor da Organização de Energia Atômica do Irã, Mohammad Eslami, declarou
nesta quinta-feira (09/04) que nenhuma autoridade conseguirá impedir o programa
de enriquecimento de urânio no país. “As alegações dos inimigos [EUA e Israel]
de que podem parar são ilusões que irão para a cova”, afirmou, ressaltando que
“nenhuma lei ou indivíduo pode nos deter”.
A
declaração desafia as exigências do presidente dos Estados Unidos,
Donald Trump,
que afirmou que Teerã não poderia mais enriquecer urânio no pós-guerra. No dia
anterior, o republicano escreveu na plataforma Truth Social que “não haverá
enriquecimento de urânio”.
“Todas
as conspirações e ações dos inimigos, incluindo esta guerra selvagem, não
produziram resultados, e eles tentam obter algo por meio de negociações apenas
para satisfazer a si mesmos e aos sionistas”, destacou Eslami.
O chefe
da organização iraniano já reiterou diversas vezes que o país possui o direito
de desenvolver o programa de enriquecimento de urânio como uma tecnologia
soberana, destacando que o setor nuclear da nação persa segue funcionando,
mesmo diante de sanções e pressões internacionais.
O
tópico continua sendo o principal ponto de conflito entre Washington e Teerã,
que retomarão negociações diretas nesta sexta-feira (10/04), após terem
concordado em um acordo de cessar-fogo de duas semanas. Nesse período,
haverão esforços diplomáticos para o fim definitivo da guerra – segundo Teerã,
“com garantias sólidas de não repetição dos ataques” ao seu território.
¨
Irã pede indenização aos EUA por ataques e
descongelamento de ativ
A
delegação iraniana apresentou termos para negociar a paz na guerra travada
pelos Estados Unidos contra o Irã. Dentre eles, solicitaram ao
primeiro-ministro paquistanês, Shehbaz Sharif, uma indenização pelos ataques conjuntos de
Washington e Israel em
fevereiro e o descongelamento dos ativos iranianos no exterior. As informações
foram confirmadas pela televisão estatal iraniana.
Acompanhado
do emissário especial dos Estados Unidos, Steve Witkoff, e do genro de Donald
Trump, Jared Kushner, o vice-presidente norte-americano foi recebido ao
desembarcar nesta manhã (11/04) em Islamabad, no
Paquistão, pelo chefe das Forças Armadas paquistanesas, Asim Munir.
Já o
presidente do Parlamento iraniano, Mohammad Bagher Ghalibaf, e seu ministro das
Relações Exteriores, Abbas Araqchi, chegaram na noite de sexta-feira (10/04) a
Islamabad, à frente de uma delegação de mais de 70 pessoas.
Segundo
a agência iraniana de notícias Mehrs, o ministro do Irã afirmou que
estava em “completa desconfiança” sobre um acordo. “Lutaremos com todas as
nossas forças para garantir os interesses e direitos do povo iraniano”, disse
Araghchi.
JD
Vance, por sua vez, alertou que o Irã “não deveria
brincar” quando
embarcou ao Paquistão. “Se eles tentarem nos enganar, descobrirão que a equipe
de negociação não é tão receptiva”, afirmou.
Sharif,
que atua como mediador nas negociações de paz, conversou primeiramente com os
representantes do Irã e depois com a delegação estadunidense. A conversa foi
confirmada pela Casa Branca, que não deu detalhes sobre o que foi tratado.
As
negociações entre delegações de alto nível do Irã e dos EUA começaram
oficialmente na capital paquistanesa na tarde deste sábado, após os EUA concordarem
parcialmente com as pré-condições do Irã para as conversas, afirma a IRNA.
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Negociações pela paz no Líbano
Enquanto
as negociações entre Irã e EUA avançam em Islamabad, desde o anúncio da trégua
entre os dois países na última semana, Israel se recusou a
pausar sua expansão genocida contra o território libanês. Na quarta-feira
(08/04), as forças israelenses mataram cerca de 357 pessoas e feriram mais de
1.200 em ataques no território libanês.
A
presidência libanesa anunciou na noite de sexta-feira (10/04) um encontro com
autoridades israelenses na próxima terça-feira (14/04) em Washington para
negociar um cessar-fogo, embora Israel se recuse a dialogar com membros do
grupo Hezbollah.
Por sua
vez, o Irã está pressionando os EUA a cumprirem suas obrigações no âmbito do
acordo de cessar-fogo. O presidente do Parlamento iraniano, Mohammad Bagher
Ghalibaf, revelou quais medidas da trégua acordada com os EUA ainda não foram
implementadas.
“Duas
das medidas mutuamente acordadas entre as partes ainda não foram implementadas:
um cessar-fogo no Líbano e a liberação de ativos
iranianos congelados antes
do início das negociações”, escreveu o alto funcionário iraniano em sua conta
no Twitter, indicando que essas duas questões devem ser resolvidas antes do
início das negociações.
Teerã
insiste que a cessação dos ataques em todas as frentes, inclusive no Líbano, faz parte do
cessar-fogo entre o Irã e os EUA. O Paquistão também confirmou isso, mas
Washington e o regime israelense afirmam que a frente libanesa não está
incluída no acordo.
Antes
das negociações, o Irã apresentou suas exigências e condições aos mediadores
paquistaneses com base em sua proposta de 10 pontos, que havia sido enviada a
Washington por meio de intermediários antes do cessar-fogo.
Fonte:
BBC News/Opera Mundi/Opera Mundi

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