Por
que ortodoxos comemoram a Páscoa em uma data diferente?
Neste
fim de semana, foi Páscoa novamente. Ou melhor, foi Páscoa para uma outra
vertente do cristianismo: a Igreja Ortodoxa. Enquanto católicos romanos e
protestantes celebraram o Domingo de Páscoa no último 5 de abril, ortodoxos de
várias denominações, celebraram a data em 12 de abril.
As
datas diferentes resultam de tradições de calendário distintas e de regras
específicas para o cálculo da celebração.
<><>
Cálculo
A
questão sobre o momento correto da celebração da Páscoa é tema de debate entre
cristãos há quase 2 mil anos, relata o arcipreste greco-ortodoxo Radu
Constantin Miron, de Bonn, na Alemanha.
"No
século 4, foi realizado um grande concílio ecumênico em Niceia [então uma
cidade romana, hoje na Turquia], cujo 1.700º aniversário celebramos no ano
passado. Esse concílio, realizado no ano 325 depois de Cristo, definiu quando a
Páscoa deve ser celebrada: no primeiro domingo após o equinócio da Primavera,
com a condição adicional de que a festa judaica da Pessach tenha ocorrido
antes", explica ele.
Na
época do concílio de Niceia, a Igreja se orientava pelo calendário juliano,
introduzido pelo imperador romano Júlio César em 46 a.C.
<><>
Separação
Mas
então no século 11 ocorreu o Grande Cisma, que causou uma ruptura da Igreja
Católica, separando-a em duas: Igreja Católica Apostólica Romana e Igreja
Católica Apostólica Ortodoxa, a partir do ano 1054.
Em
1582, o então líder da Igreja Católica, o papa Gregório 13, introduziu um novo
calendário, para corrigir distorções matemáticas, mudando a contagem de dias.
Naquele
ano, o dia seguinte ao 4 de outubro, uma quinta-feira, não seria a sexta-feira
5 de outubro, mas, sim, sexta-feira 15 de outubro - um salto de 13 dias. Nos
séculos seguintes, o calendário gregoriano foi sendo gradualmente adotado na
Europa.
Isso
teve um impacto direto na forma de cálculo da data da Páscoa tanto para os
católicos quanto para confissões protestantes.
No
entanto, as igrejas ortodoxas continuaram a seguir o antigo calendário juliano,
pelo em datas religiosas, já que países de maioria ortodoxa adotam o gregoriano
para o dia a dia.
É essa
defasagem de 13 dias somada a fórmula de cálculo do equinócio que faz com que a
Páscoa ortodoxa seja celebrada entre uma ou até cinco semanas após a Páscoa em
denominações ocidentais.
Mas,
algumas vezes as datas coincidem. Em 2025, num alinhamento de calendários, a
Páscoa foi celebrada em uma data comum para todas as grandes igrejas cristãs,
católicas, protestantes e ortodoxas. Já em 2026, o feriado ocorre em semanas
distintas. O próximo alinhamento vai ocorrer em 2028.
<><>
Esforços para um calendário em comum
O
1.700º aniversário do Concílio de Niceia, celebrado em 2025, reacendeu o debate
sobre uma data comum para a Páscoa no Oriente e no Ocidente. Em novembro
passado, o papa Leão 14 visitou o local histórico na atual Turquia, apelou à
unidade das igrejas cristãs e participou, junto com o Patriarca Bartolomeu 1°
de Constantinopla, de uma oração ecumênica.
Ambos
os líderes eclesiásticos apoiam, em princípio, uma data comum para a Páscoa e
ressaltam que um calendário unificado seria um sinal visível da unidade cristã.
Embora até agora não tenha havido um avanço decisivo, a disposição para uma
aproximação foi expressa de forma mais clara do que antes.
De
acordo com Radu Constantin Miron, o aniversário do Concílio de Niceia lembrou
muitos de como a data da Páscoa foi originalmente estabelecida e de que
católicos e ortodoxos deveriam retornar à celebração conjunta.
"Nós,
ortodoxos, às vezes somos um pouco lentos – e, admito, também um pouco
formalistas", diz ele, sem se furtar de uma autocrítica. "É claro que
o momento da Páscoa não é o mais importante. O essencial é que celebremos a
ressurreição de Cristo. E, se fizermos isso juntos, é obviamente melhor. É
assim que deveria ser."
Unidade
em tempos de afastamento
Mesmo
que o caminho até um acordo ainda pareça distante, o jubileu de Niceia mostrou
que decisões históricas podem ser repensadas em conjunto. Hoje, ortodoxos e
católicos compartilham claramente mais pontos em comum do que aquilo que, há
poucos anos, parecia separá-los.
Cada
vez mais clérigos parecem compartilhar a visão de que uma Páscoa celebrada em
comum não representaria uma perda de prestígio para nenhuma das igrejas, mas
sim um ganho em prática de fé compartilhada. E também um sinal visível de
unidade em um período em que cada vez mais pessoas na Europa e em outras
regiões do mundo se afastam das igrejas.
• "Deus não ouve a oração de quem faz
guerra", diz papa Leão
O papa
Leão 14 afirmou que Deus "não ouve a oração de quem faz guerra", em
meio à continuidade dos conflitos no Oriente Médio em múltiplas frentes.
"Este
é o nosso Deus. Um Deus que rejeita a guerra, que não ouve a oração de quem faz
guerra", disse ele em sua homilia do Domingo de Ramos.
Após a
oração do Angelus, o pontífice prestou homenagem "aos cristãos do Oriente
Médio, que sofrem as consequências de um conflito terrível e, em muitos casos,
não conseguem viver plenamente os ritos destes dias santos".
No
início da semana, o papa pediu um cessar-fogo na guerra no Oriente Médio,
afirmando que mais de um milhão de pessoas foram forçadas a deixar suas casas e
apelando para que as partes envolvidas retomem o diálogo.
Leão
14, o primeiro papa americano, condenou repetidamente a guerra e tem insistido
na necessidade de negociações.
Mas o
pontífice de tem sido cauteloso em suas declarações sobre os ataques americanos
e israelenses, evitando citar diretamente qualquer parte em suas condenações e
apelos pela paz.
Líderes
de todos os lados do conflito com o Irã têm usado a religião para justificar
suas ações. Autoridades dos EUA – especialmente o secretário de Defesa, Pete
Hegseth – invocaram sua fé cristã para em discursos sobre o uso da força
militar contra inimigos.
A
Igreja Ortodoxa Russa também justificou a invasão da Ucrânia como uma
"guerra santa" contra um Ocidente que considera moralmente
corrompido.
<><>
Polícia israelense proíbe cardeal de acessar igreja
Também
neste domingo, a polícia israelense impediu o Patriarca Latino de Jerusalém, o
cardeal Pierbattista Pizzaballa, de entrar na Igreja do Santo Sepulcro para
celebrar a missa de Domingo de Ramos, uma das datas mais importantes do
cristianismo.
"Pela
primeira vez em séculos, os chefes da Igreja foram impedidos de celebrar a
missa de Domingo de Ramos na Igreja do Santo Sepulcro", afirma um texto
assinado pelo Patriarcado Latino de Jerusalém, circunscrição da Igreja Católica
Apostólica Romana que atende fiéis em Israel, Palestina, Jordânia e Chipre.
Aglomerações
com mais de 50 pessoas foram proibidas pelas autoridades israelenses desde o
início da guerra no Oriente Médio. Isso inclui sinagogas, igrejas e mesquitas.
No
entanto, Pierbattista Pizzaballa, e Francesco Ielpo, guardião oficial da Igreja
do Santo Sepulcro, teriam sido parados "enquanto caminhavam em caráter
privado, sem qualquer característica de procissão ou ato cerimonial, e foram
forçados a retornar", diz a nota.
Fonte:
DW Brasil

Nenhum comentário:
Postar um comentário