segunda-feira, 13 de abril de 2026

Por que ortodoxos comemoram a Páscoa em uma data diferente?

Neste fim de semana, foi Páscoa novamente. Ou melhor, foi Páscoa para uma outra vertente do cristianismo: a Igreja Ortodoxa. Enquanto católicos romanos e protestantes celebraram o Domingo de Páscoa no último 5 de abril, ortodoxos de várias denominações, celebraram a data em 12 de abril.

As datas diferentes resultam de tradições de calendário distintas e de regras específicas para o cálculo da celebração.

<><> Cálculo

A questão sobre o momento correto da celebração da Páscoa é tema de debate entre cristãos há quase 2 mil anos, relata o arcipreste greco-ortodoxo Radu Constantin Miron, de Bonn, na Alemanha.

"No século 4, foi realizado um grande concílio ecumênico em Niceia [então uma cidade romana, hoje na Turquia], cujo 1.700º aniversário celebramos no ano passado. Esse concílio, realizado no ano 325 depois de Cristo, definiu quando a Páscoa deve ser celebrada: no primeiro domingo após o equinócio da Primavera, com a condição adicional de que a festa judaica da Pessach tenha ocorrido antes", explica ele.

Na época do concílio de Niceia, a Igreja se orientava pelo calendário juliano, introduzido pelo imperador romano Júlio César em 46 a.C.

<><> Separação

Mas então no século 11 ocorreu o Grande Cisma, que causou uma ruptura da Igreja Católica, separando-a em duas: Igreja Católica Apostólica Romana e Igreja Católica Apostólica Ortodoxa, a partir do ano 1054.

Em 1582, o então líder da Igreja Católica, o papa Gregório 13, introduziu um novo calendário, para corrigir distorções matemáticas, mudando a contagem de dias.

Naquele ano, o dia seguinte ao 4 de outubro, uma quinta-feira, não seria a sexta-feira 5 de outubro, mas, sim, sexta-feira 15 de outubro - um salto de 13 dias. Nos séculos seguintes, o calendário gregoriano foi sendo gradualmente adotado na Europa.

Isso teve um impacto direto na forma de cálculo da data da Páscoa tanto para os católicos quanto para confissões protestantes.

No entanto, as igrejas ortodoxas continuaram a seguir o antigo calendário juliano, pelo em datas religiosas, já que países de maioria ortodoxa adotam o gregoriano para o dia a dia.

É essa defasagem de 13 dias somada a fórmula de cálculo do equinócio que faz com que a Páscoa ortodoxa seja celebrada entre uma ou até cinco semanas após a Páscoa em denominações ocidentais.

Mas, algumas vezes as datas coincidem. Em 2025, num alinhamento de calendários, a Páscoa foi celebrada em uma data comum para todas as grandes igrejas cristãs, católicas, protestantes e ortodoxas. Já em 2026, o feriado ocorre em semanas distintas. O próximo alinhamento vai ocorrer em 2028.

<><> Esforços para um calendário em comum

O 1.700º aniversário do Concílio de Niceia, celebrado em 2025, reacendeu o debate sobre uma data comum para a Páscoa no Oriente e no Ocidente. Em novembro passado, o papa Leão 14 visitou o local histórico na atual Turquia, apelou à unidade das igrejas cristãs e participou, junto com o Patriarca Bartolomeu 1° de Constantinopla, de uma oração ecumênica.

Ambos os líderes eclesiásticos apoiam, em princípio, uma data comum para a Páscoa e ressaltam que um calendário unificado seria um sinal visível da unidade cristã. Embora até agora não tenha havido um avanço decisivo, a disposição para uma aproximação foi expressa de forma mais clara do que antes.

De acordo com Radu Constantin Miron, o aniversário do Concílio de Niceia lembrou muitos de como a data da Páscoa foi originalmente estabelecida e de que católicos e ortodoxos deveriam retornar à celebração conjunta.

"Nós, ortodoxos, às vezes somos um pouco lentos – e, admito, também um pouco formalistas", diz ele, sem se furtar de uma autocrítica. "É claro que o momento da Páscoa não é o mais importante. O essencial é que celebremos a ressurreição de Cristo. E, se fizermos isso juntos, é obviamente melhor. É assim que deveria ser."

Unidade em tempos de afastamento

Mesmo que o caminho até um acordo ainda pareça distante, o jubileu de Niceia mostrou que decisões históricas podem ser repensadas em conjunto. Hoje, ortodoxos e católicos compartilham claramente mais pontos em comum do que aquilo que, há poucos anos, parecia separá-los.

Cada vez mais clérigos parecem compartilhar a visão de que uma Páscoa celebrada em comum não representaria uma perda de prestígio para nenhuma das igrejas, mas sim um ganho em prática de fé compartilhada. E também um sinal visível de unidade em um período em que cada vez mais pessoas na Europa e em outras regiões do mundo se afastam das igrejas.

•        "Deus não ouve a oração de quem faz guerra", diz papa Leão

O papa Leão 14 afirmou que Deus "não ouve a oração de quem faz guerra", em meio à continuidade dos conflitos no Oriente Médio em múltiplas frentes.

"Este é o nosso Deus. Um Deus que rejeita a guerra, que não ouve a oração de quem faz guerra", disse ele em sua homilia do Domingo de Ramos.

Após a oração do Angelus, o pontífice prestou homenagem "aos cristãos do Oriente Médio, que sofrem as consequências de um conflito terrível e, em muitos casos, não conseguem viver plenamente os ritos destes dias santos".

No início da semana, o papa pediu um cessar-fogo na guerra no Oriente Médio, afirmando que mais de um milhão de pessoas foram forçadas a deixar suas casas e apelando para que as partes envolvidas retomem o diálogo.

Leão 14, o primeiro papa americano, condenou repetidamente a guerra e tem insistido na necessidade de negociações.

Mas o pontífice de tem sido cauteloso em suas declarações sobre os ataques americanos e israelenses, evitando citar diretamente qualquer parte em suas condenações e apelos pela paz.

Líderes de todos os lados do conflito com o Irã têm usado a religião para justificar suas ações. Autoridades dos EUA – especialmente o secretário de Defesa, Pete Hegseth – invocaram sua fé cristã para em discursos sobre o uso da força militar contra inimigos.

A Igreja Ortodoxa Russa também justificou a invasão da Ucrânia como uma "guerra santa" contra um Ocidente que considera moralmente corrompido.

<><> Polícia israelense proíbe cardeal de acessar igreja

Também neste domingo, a polícia israelense impediu o Patriarca Latino de Jerusalém, o cardeal Pierbattista Pizzaballa, de entrar na Igreja do Santo Sepulcro para celebrar a missa de Domingo de Ramos, uma das datas mais importantes do cristianismo.

"Pela primeira vez em séculos, os chefes da Igreja foram impedidos de celebrar a missa de Domingo de Ramos na Igreja do Santo Sepulcro", afirma um texto assinado pelo Patriarcado Latino de Jerusalém, circunscrição da Igreja Católica Apostólica Romana que atende fiéis em Israel, Palestina, Jordânia e Chipre.

Aglomerações com mais de 50 pessoas foram proibidas pelas autoridades israelenses desde o início da guerra no Oriente Médio. Isso inclui sinagogas, igrejas e mesquitas.

No entanto, Pierbattista Pizzaballa, e Francesco Ielpo, guardião oficial da Igreja do Santo Sepulcro, teriam sido parados "enquanto caminhavam em caráter privado, sem qualquer característica de procissão ou ato cerimonial, e foram forçados a retornar", diz a nota.

 

Fonte: DW Brasil

 

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