segunda-feira, 13 de abril de 2026

Sergio Ferrari: Jornalismo, ética e dignidade, uma luta centenária

Semanas antes do Congresso Mundial da Federação Internacional de Jornalistas (FIJ, IFJ em inglês), em Paris, entre 4 e 7 de maio, esta entrevista com Anthony Bellanger, seu secretário-geral, cobre a história da Federação, apresenta um raio-X da situação atual do jornalismo e avança hipóteses futuras para defender a profissão e sua contribuição para a democracia. Suas reflexões, na véspera da celebração do centenário da organização, também aparecem em "Uma voz para informar o Mundo - Um século de luta e solidariedade". Coordenada pelo próprio Bellanger e por Florence Le Cam, professora da Universidade Livre de Bruxelas (ULB), esta obra retrata um século de lutas pela liberdade de imprensa e pelos direitos dos jornalistas.

LEIA A ENTREVISTA:

•        A Federação Internacional de Jornalistas já passou por uma história centenária...

Anthony Bellanger (AB): De fato. Em 13 de junho de 1926, quando sindicatos de jornalistas de todo o mundo se reuniram em Paris a convite do Sindicato dos Jornalistas Franceses para criar nossa Federação, a ideia pode ter parecido audaciosa: organizar em escala global uma profissão já definida por sua independência. Essa aposta rapidamente se impôs como uma necessidade. Diante dos poderes políticos, militares e econômicos, os jornalistas compreenderam que somente estando juntos podem defender sua profissão. Um século depois, essa visão ainda é válida. A história da FIJ é a de uma luta permanente em defesa de uma profissão essencial para a democracia, mas constantemente exposta a pressões, violências e tentativas de controle.Jornalismo em tempos de guerra

•        A FIJ nasceu no período entre guerras... Hoje estamos vivenciando outra explosão bélica em muitas regiões do mundo. Os desafios ainda são os mesmos para as/os profissionais da mídia?

AB: Sim. Na verdade, a FIJ nasceu numa época em que a Europa estava descobrindo tanto o poder da imprensa quanto a sua fragilidade. Os jornalistas queriam proteger sua autonomia profissional, mas também afirmar que a informação não é apenas uma mercadoria. Isso constitui um bem público. Desde seus primeiros anos, a Federação atuou em várias frentes, apoiando o reconhecimento do status profissional dos jornalistas, defendendo a ideia de uma Carta Internacional da Imprensa e lançando as bases para uma ética comum. O objetivo tem sido claro: distinguir informações profissionais da propaganda e das manipulações políticas. Quando regimes autoritários se estabeleceram na Europa na década de 1930, a FIJ enfrentou seus primeiros grandes testes. Por exemplo, excluiu a organização de imprensa alemã ao adotar regras antissemitas impostas pelo regime nazista. Esse gesto simbólico lembra uma frase que nunca mudará: um sindicato de jornalistas não pode aceitar a discriminação ou a censura como norma.

•        A guerra como um elemento que distorce a prática do jornalismo, como foi recentemente ilustrado, por exemplo, em Gaza e na Palestina. A guerra como o principal fator de "censura" no trabalho diário de uma imprensa equilibrada e objetiva. A guerra que, ao assassinar centenas de colegas, tenta silenciar a voz do jornalismo livre e independente...

AB: A situação na Palestina, e, particularmente em Gaza, desde outubro de 2023, tem sido um dos testes mais sérios/graves para a nossa organização. O número de jornalistas assassinados lá atingiu um nível sem precedentes e as condições de trabalho são extremas. Mas, infelizmente, essa não é a única frente. Jornalistas também são assassinados na Ucrânia, no México, no Sudão, no Iêmen, no Irã ou nas Filipinas. O que Gaza revela, de forma brutal, é uma tendência global: em conflitos modernos, controlar as informações torna-se um objetivo estratégico, e os jornalistas pagam o preço. Por isso, a FIJ defende uma Convenção Internacional vinculativa que garanta a proteção dos homens e mulheres da imprensa.

•        Vamos voltar à história da Federação, naquela época, entre as grandes guerras do século XX.

AB: Após a Segunda Guerra Mundial, o movimento internacional de jornalistas se fragmentou como resultado da Guerra Fria. Duas organizações rivais disputavam a representação global da profissão. Apesar dessas divisões ideológicas, a FIJ continuou seu trabalho substantivo: defender a liberdade de imprensa, melhorar as condições de trabalho e fortalecer a solidariedade entre jornalistas. Com a onda da descolonização, ela se abriu progressivamente para a África, Ásia e América Latina.Esse movimento transformou profundamente a organização, que deixou de ser uma federação majoritariamente europeia para se tornar uma verdadeira rede mundial. Nessas regiões, frequentemente marcadas por ditaduras ou conflitos, a Federação desempenha um papel discreto, porém decisivo: apoia a criação de sindicatos de jornalistas, treina repórteres, defende jornalistas presos e documenta violações à liberdade de imprensa.

•        Organização verdadeiramente mundialEssa transformação da FIJ é uma mudança essencial em sua história institucional.

AB: É verdade que a Federação foi profundamente transformada. Originalmente muito europeia, hoje é uma organização verdadeiramente mundial, com uma presença particularmente forte na América Latina, na África e na Ásia, onde os sindicatos de jornalistas frequentemente desempenham um papel essencial na defesa da profissão e da liberdade de imprensa. E, portanto, da própria democracia.

•        A força da FIJ hoje vem de sua universalidade?

AB: De fato. E gostaria de ressaltar isso: o futuro da nossa Federação não admite tensões entre membros de uma região contra outra. Atualmente, os desafios enfrentados pelos jornalistas –precariedade, concentração de mídias, violência, pressões políticas ou até mesmo o impacto da inteligência artificial– são globais. Nossa força está justamente em conectar essas realidades, criar solidariedade entre os continentes e defender padrões comuns para a profissão.

•        Outro momento essencial na história da profissão ocorre no final do século passado...

AB: Sim. A partir dos anos 90, uma realidade brutal foi imposta: o jornalismo tornou-se uma das profissões mais perigosas do mundo. A FIJ, então, começou a coletar, sistematicamente, os nomes dos jornalistas assassinados no exercício de sua profissão em sua "Lista de Mortos". O número recopilado é vertiginoso: mais de três mil jornalistas e profissionais da mídia foram assassinados em trinta e cinco anos. Contrariando uma crença difundida, a maioria deles não morreu nos campos de batalha. Foram assassinados por investigarem a corrupção, o crime organizado ou abusos de poder. Diante dessa violência, a Federação desenvolve ferramentas concretas. Criou um Fundo Internacional de Segurança para apoiar jornalistas ameaçados e suas famílias. Organiza formações/treinamentos sobre segurança e proteção em zonas de conflito e, constantemente, faz lobby junto a instituições internacionais para acabar com a impunidade. Além disso, em 2006, e depois, em 2015, sua ação contribuiu para a adoção, pelo Conselho de Segurança das Nações Unidas, de duas Resoluções (1738 e 2222). Ambas condenam os ataques contra jornalistas em conflitos armado.

>>> Presente complexo, desafios futuros

•        Uma questão essencial para o jornalismo continua sendo a ética profissional. Como podemos exercer a profissão em circunstâncias difíceis, às vezes extremas, mantendo os princípios éticos do jornalismo?

AB: Nossa Federação não se limita a defender jornalistas, mas também defende o próprio jornalismo. Em 1954, adotou a Declaração de Bordeaux, o primeiro código internacional de ética para o jornalismo. Esse texto afirma princípios simples, porém essenciais: busca da verdade, respeito aos fatos, proteção das fontes, rejeição da manipulação. Esses princípios foram atualizados ao longo do tempo, até a adoção da Carta Mundial de Ética para Jornalistas, em Túnis, em 2019, que leva em conta os novos desafios do ambiente digital, das redes sociais e das pressões econômicas. Em um mundo saturado de informações e desinformação, essa questão da ética tornou-se central. Sem credibilidade, o jornalismo perde sua função social.

•        Como você definiria a situação do jornalismo hoje?

AB: Atualmente, o jornalismo está passando por uma crise profunda. Os modelos econômicos da mídia estão desmoronando, as redações estão se tornando precárias e as grandes plataformas digitais, assim como os gigantes da tecnologia, capturam a maior parte da receita publicitária. Ao mesmo tempo, regimes autoritários não hesitam mais em atacar jornalistas abertamente. Processos abusivos, campanhas de assédio online e vigilância digital tornaram-se ferramentas comuns para intimidar jornalistas. Revelações sobre programas de espionagem utilizados contra jornalistas, ou processos contra os denunciantes, mostram que a batalha pela liberdade de imprensa não é mais travada apenas nas redações. Também acontece nos tribunais, nos parlamentos e no espaço digital.

•        Nos últimos meses, houve uma ruptura profunda na ordem mundial —baseada nas instituições da ONU— e no multilateralismo. Isso exige repensar o papel do jornalismo sob novas perspectivas?

AB: Sim, muito claramente. O questionamento do multilateralismo e o enfraquecimento das instituições internacionais mudam profundamente o ambiente em que os jornalistas atuam. Por várias décadas, houve pelo menos um quadro de referência –as Nações Unidas, o direito internacional, certas normas compartilhadas– que servia como um ponto de apoio para defender a liberdade de imprensa e a proteção dos jornalistas. Atualmente, esse arcabouço é cada vez mais questionado ou ignorado por alguns Estados. Nesse contexto, o papel do jornalismo torna-se ainda mais central: documentar os fatos, verificar os discursos de poder e recordar as normas internacionais que alguns buscam enfraquecer. Isso também força a profissão a repensar certas práticas: fortalecer as colaborações transnacionais, proteger melhor os jornalistas contra ameaças digitais e físicas, e defender de forma mais ativa a independência econômica e editorial da mídia. Em um mundo onde as relações de poder voltam a estar em primeiro plano, o jornalismo continua sendo um dos poucos contrapesos capazes de tornar as ações dos Estados visíveis e, portanto, questionáveis.

•        A solidariedade internacional sempre foi uma das principais preocupações e atividades da FIJ. Atualmente, ainda é assim?

AB: Nossa missão é mais relevante do que nunca. Não apenas para defender uma profissão, mas para lembrar a todos que a liberdade de imprensa é inseparável das condições de trabalho dos jornalistas.Um jornalista precário, ameaçado ou isolado não pode cumprir adequadamente sua tarefa. Portanto, a qualidade da informação também depende da proteção social, da independência profissional e da solidariedade entre jornalistas. É, sem dúvida, a principal lição deste século de história: a prática do jornalismo nunca está totalmente garantida. Deve ser defendida, organizada e protegida. Em um momento em que a desinformação está se espalhando e jornalistas estão sendo alvo de ataques em muitos países, essa luta continua sendo mais necessária do que nunca. Porque reportar não é apenas um trabalho; é, também, uma condição da democracia.

•        Na complexa situação mundial de hoje, qual é a importância do evento da FIJ em Paris, em maio? Existem decisões estratégicas a serem tomadas?

AB: O congresso será realizado em um momento particularmente crítico para a profissão. Os jornalistas enfrentam uma acumulação de crises: guerras, desvios autoritários, pressões econômicas sobre a mídia e rápidas transformações tecnológicas. Nesse contexto, o congresso será, antes de tudo, um momento essencial para reunir sindicatos de jornalistas de todo o mundo e reafirmar uma visão comum sobre o papel da nossa profissão. Também terá uma dimensão estratégica. As/os delegadas/os terão que definir as prioridades da Federação para os próximos anos: fortalecer a proteção dos jornalistas em zonas de conflito, continuar a fazer lobby por uma convenção internacional vinculativa nas Nações Unidas, defender os direitos sociais diante da precariedade da profissão e responder aos desafios impostos pela inteligência artificial. No seu cerne, o desafio do congresso é simples: adaptar a ação coletiva dos jornalistas a um mundo que se torna mais instável, mantendo os princípios fundamentais da profissão, quais sejam, independência, solidariedade internacional e o direito do público à informação confiável.

•        Campanha de mentiras. Por Emir Sader

Lula passou a vida toda lutando pela melhoria das condições da massa da população, especialmente dos mais pobres. Agora, qualquer medida que ele tome, qualquer afirmação que ele faça nessa direção, é qualificada pela grande mídia como medida eleitoreira, como objetivo de Lula de ganhar votos.

Fica claro já que o tema tributário será um dos temas centrais de debate na campanha eleitoral. Uma das mais importantes iniciativas do terceiro governo Lula, pelas mãos do seu então ministro da Fazenda, Fernando Haddad, foi exatamente a reforma tributária.

Como medida fundamental, quem ganha até R$ 5 mil por mês deixa de pagar imposto de renda, beneficiando cerca de 16 milhões de pessoas. Para rendas entre R$ 5 mil e R$ 7.350, haverá uma redução gradual de impostos.

Em suma, uma reforma tributária que favorece a grande massa da população, que deixa de pagar imposto de renda ou passa a pagar menos.

De repente, uma matéria da TV Globo fala o contrário, destacando que a massa de impostos teria aumentado, sem especificar quem está pagando mais impostos. Além disso, de forma igualmente deformada, afirma que a economia está deixando de crescer. São os de maior renda os que pagavam pouco e passarão a pagar mais.

Mas a matéria, com a má-fé típica, tenta passar a ideia de que o governo aumenta cada vez mais os impostos, enquanto a massa da população deixa de pagar imposto de renda ou passa a pagar menos.

Com as políticas econômicas e sociais do governo Lula, houve, inquestionavelmente, uma grande distribuição de renda. Qualquer um que circula pelos comércios, pelos restaurantes, pelos shopping centers se dá conta de como a capacidade de consumo da grande maioria da população melhorou significativamente. Isso é o que conta no fundamental.

A grande mídia destaca o endividamento, como se ele refletisse a incapacidade de consumo da massa da população, quando reflete as facilidades de consumo concedidas pelo comércio. O próprio governo já tomou medidas para atender a esses setores, especialmente os de menor renda.

Em suma, a campanha eleitoral deforma ainda mais as informações que a grande mídia fornece. A disputa eleitoral, com a tendência da grande mídia, cada vez mais forte, de tentar desgastar a imagem de Lula e do seu governo, se acentua cada vez mais.

É preciso tomar cuidado, então, sempre, com essas informações, da mesma forma que com as pesquisas, que já são parte da campanha eleitoral. A grande mídia confirma, de forma cada vez mais clara, a preferência pelo filho de Bolsonaro. Isto é, prefere quem coloca em risco a democracia no Brasil — lembrar sempre que seu pai está preso pela tentativa de golpe e de reinstaurar uma ditadura no país — e se opõe, entre outras medidas progressistas tomadas pelo governo, à reforma tributária que favorece a grande maioria da população, que deixará de pagar imposto de renda ou passará a pagar menos.

 

Fonte: Tradução: Rose Lima, para Brasil 247

 

Nenhum comentário: